{"id":5267,"date":"2006-04-06T21:22:00","date_gmt":"2006-04-06T21:22:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/a-virtualidade-do-amor-e-a-solidao\/"},"modified":"2006-04-06T21:22:00","modified_gmt":"2006-04-06T21:22:00","slug":"a-virtualidade-do-amor-e-a-solidao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/a-virtualidade-do-amor-e-a-solidao\/","title":{"rendered":"A virtualidade do amor e a solid\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Uma vez eu disse a algu\u00e9m que \u201cvirtual\u201d n\u00e3o se op\u00f5e a \u201creal\u201d, e sim a \u201cpresencial\u201d. Talvez porque eu tenha sido professora e autora de uma disciplina virtual, ou melhor, de uma vers\u00e3o virtual de uma disciplina regular de uma universidade muito real \u2013 a UnB \u2013 com estudantes muito reais e essa experi\u00eancia tenha me marcado. Talvez porque eu tenha feito parte de grandes comunidades muito, muito reais, baseadas em condi\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas (fiz parte de uma comunidade de sobreviventes de c\u00e2ncer, porque era esposa de um, e de uma comunidade de portadores de desordem bipolar, porque sou portadora), mais concretas e reais imposs\u00edvel. De modo que para mim, as rela\u00e7\u00f5es baseadas na comunica\u00e7\u00e3o digital s\u00e3o t\u00e3o ou mais reais do que a comunica\u00e7\u00e3o que se d\u00e1 na \u201ccontiguidade dos corpos\u201d.<br \/>\nOutra vez eu disse que as dimens\u00f5es \u201cvirtual\u201d e \u201cpresencial\u201d davam ao \u201ccomunicador\u201d a oportunidade de explorar diferentes aspectos de sua exist\u00eancia, talvez de um jeito que seria imposs\u00edvel quando t\u00ednhamos apenas o contato presencial. Como eu viv\u00ed essa transi\u00e7\u00e3o entre um mundo onde esfor\u00e7os sobre-humanos eram dispendidos para proporcionar contato presencial entre, digamos, cientistas (que era o que eu era) \u2013 j\u00e1 que o contato virtual ainda era prec\u00e1rio \u2013 e um mundo onde isso \u00e9 apenas o complemento de uma intera\u00e7\u00e3o quase que suficiente para tudo que diz respeito a coopera\u00e7\u00e3o intelectual, acho que consigo avaliar as diferen\u00e7as.<br \/>\nA exist\u00eancia virtual permite que fa\u00e7amos recurso a in\u00fameras m\u00eddias que separam as v\u00e1rias camadas da percep\u00e7\u00e3o que os outros t\u00eam de n\u00f3s. Podemos exibir fotografias em que alguns aspectos nossos sejam super-enfatizados e outros ocultados. Mesmo acreditando que sempre construimos \u2013 consciente ou inconscientemente \u2013 nossas imagens, a constru\u00e7\u00e3o virtual \u00e9 mais vers\u00e1til.<br \/>\nE os afetos? Faz diferen\u00e7a que a intera\u00e7\u00e3o predominante ou at\u00e9 exclusiva com os outros que amamos seja virtual?<br \/>\nHoje eu tenho certeza que n\u00e3o.<br \/>\nOk, t\u00e1 bom: talvez existam varia\u00e7\u00f5es individuais muito grandes. Talvez a minha excessiva familiaridade e dextreza relativa com a palavra escrita, e enorme dificuldade com o contato pessoal influa na minha percep\u00e7\u00e3o e viv\u00eancia disso. Mas a superficialidade das rela\u00e7\u00f5es presenciais \u00e9 t\u00e3o grande quanto das virtuais e a profundidade das virtuais t\u00e3o grande ou maior que as presenciais.<br \/>\nSim, muitas vezes maior. Protegida do contato olho a olho e da minha hesita\u00e7\u00e3o verbal, tenho certeza de que me expus muito mais e talvez tenha me entregue muito mais em intera\u00e7\u00f5es virtuais. Talvez tenha sido muito mais eu mesma. Talvez exista uma vers\u00e3o mais real de mim mesma, embora menos corp\u00f3rea (por ir\u00f4nico que seja escrever isso num blog\/site de t\u00edtulo BODYSTUFF) aqui, onde declaro minhas id\u00e9ias e experi\u00eancias, e nos espa\u00e7os que eu deliberadamente abro para poucos. Muito poucos.<br \/>\nUm destes muito poucos, a quem conheci, aprendi a respeitar e depois a amar nestes espa\u00e7os, vive em Bras\u00edlia. Talvez por eu ter vivido naquela cidade, talvez por ele ocupar um lugar l\u00e1, talvez porque tudo que eu viv\u00ed l\u00e1 tenha ficado inacabado, para mim era como se ele estivesse \u201clogo al\u00ed\u201d. Era um logo al\u00ed mais chato, meio caro. Mas sempre havia essa perspectiva de que \u201co m\u00eas que vem\u201d estarei l\u00e1.<br \/>\nEu era consultora de um \u00f3rg\u00e3o inter-governamental, a Bireme, e havia a perspectiva desse \u201co m\u00eas que vem\u201d. Uma vez aconteceu e nos vimos por meros 40 minutos. Mas foi como se nos conhec\u00eassemos desde sempre.<br \/>\nVoltei para S\u00e3o Paulo e Bras\u00edlia continuou \u201clogo al\u00ed\u201d, ao alcance da m\u00e3o, como ele estava ao alcance dos meus bra\u00e7os.<br \/>\nMinha consultoria com a Bireme foi interrompida, mas quase que na mesma \u00e9poca fiquei sabendo sobre uma promo\u00e7\u00e3o da Gol que reduzia o custo do v\u00f4o para Bras\u00edlia quase que a uma viagem de \u00f4nibus para o interior. Merreca.<br \/>\nE assim, Bras\u00edlia continuou \u201clogo al\u00ed\u201d.<br \/>\nFizemos planos, junto com outros habitantes igualmente virtuais, igualmente reais, de Brasilia, para realizar encontros, workshops, festas, rod\u00edzios de carne e pizza.<br \/>\nN\u00e3o havia tanta pressa, pois Bas\u00edlia era \u201clogo al\u00ed\u201d.<br \/>\nHoje esta criatura real, a quem eu chamo de BGM e que me chama de LRW, iniciais cujo significado jamais revelarei, me disse que possivelmente deixaria Bras\u00edlia.<br \/>\nTive um primeiro choque \u2013 afinal, e todos os nossos planos, nossas pizzas, nossos estudos, nossos&#8230; Mas logo veio um segundo, muito pior: talvez seu destino fosse uma cidade do Nordeste.<br \/>\nBem&#8230; Essa cidade N\u00c3O fica \u201clogo al\u00ed\u201d. Acabou o \u201clogo ali\u201d.<br \/>\nFoi como se meus bra\u00e7os, provisoriamente ociosos, ficassem permanentemente vazios. Algo foi arrancado.<br \/>\nN\u00e3o soube dar nome ao que senti, mas foi ruim e me deu muita vontade de chorar. No entanto, o problema que ele vivia era muito mais s\u00e9rio e senti vergonha da minha tristeza ego\u00edsta. Botei a culpa na TPM, o que \u00e9 mentira, j\u00e1 que ela terminou ontem. Me parecia sacanagem sofrer pela minha estranha e irracional perda quando ele enfrentava um terremoto muito mais objetivo em sua pr\u00f3pria vida.<br \/>\nAgora, sozinha, sei o que senti. Senti mais uma vez a dor da solid\u00e3o. Uma solid\u00e3o abissal, com a qual acabei me habituando com os anos, mas que a certeza de que ele estava \u201clogo ali\u201d atenuou.<br \/>\nPassei a tarde com um amigo, num dos espa\u00e7os mais agrad\u00e1veis que conhe\u00e7o: sua academia, onde mora o Seth. J\u00e1 falei do Seth \u2013 o filhot\u00e3o de boxer. A presen\u00e7a do Seth anestesia dores. E a conversa com meu amigo me deu sentido. Mas, pensando bem, em um certo momento confessei a ele minha condi\u00e7\u00e3o de ser anf\u00edbio, de algu\u00e9m que circula por mundos incomunic\u00e1veis e que n\u00e3o vive inteiramente em nenhum deles.<br \/>\nN\u00e3o existem outros anf\u00edbios fazendo esses tr\u00e1ficos de id\u00e9ias e experi\u00eancias que se tornaram minha vida. S\u00f3 que foi f\u00e1cil assumir esse lugar na taxonomia social: eu j\u00e1 tinha sido ap\u00e1trida antes. H\u00e1 muitos anos eu n\u00e3o pertencia muito a nada. A lugar nenhum. A pa\u00eds nenhum. A l\u00edngua nenhuma. A cultura nenhuma. A cren\u00e7a nenhuma.<br \/>\nMas BGM foi generoso ao me oferecer seu mundo, onde eu rapidamente me aninhei e onde me sinto confort\u00e1vel.<br \/>\nSei que se ele for para o Alaska, para Amsterd\u00e3, ou para a Lua n\u00e3o vai fazer diferen\u00e7a quanto a isso ou quanto ao amor que tenho por ele. A condi\u00e7\u00e3o que ele me deu, me deu para sempre, me deu de presente.<br \/>\nMas a Lua n\u00e3o fica \u201clogo ali\u201d e eu vou ficar olhando para ela, redonda, linda, brilhante e misteriosa, me iluminando e eternamente inalcans\u00e1vel. Como se consagrasse, com sua perfei\u00e7\u00e3o, minha t\u00e3o profunda solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Marilia <\/p>\n<p style=\"margin-top: 0; margin-bottom: 0\"><b><font face=\"Georgia\" size=\"1\"><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.bodystuff.org\/\">BodyStuff<\/a><\/font><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma vez eu disse a algu\u00e9m que \u201cvirtual\u201d n\u00e3o se op\u00f5e a \u201creal\u201d, e sim a \u201cpresencial\u201d. 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