{"id":5281,"date":"2006-05-21T12:51:00","date_gmt":"2006-05-21T12:51:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/grups-sobre-ter-40-anos-hoje-parte-1\/"},"modified":"2006-05-21T12:51:00","modified_gmt":"2006-05-21T12:51:00","slug":"grups-sobre-ter-40-anos-hoje-parte-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/grups-sobre-ter-40-anos-hoje-parte-1\/","title":{"rendered":"Grups: sobre ter 40 anos hoje \u2013 parte 1"},"content":{"rendered":"<p>Hoje peguei a Folha no quintal e achei essa mat\u00e9ria sobre Grups, por Helo\u00edsa Helv\u00e9cia. Na capa, o produtor Marco Rocha, de 38 anos. Nas folhas, uma por\u00e7\u00e3o de homens e mulheres mais ou menos da minha idade, caracterizados pela reportagem como GRUPS. O termo veio de um epis\u00f3dio de StarTrek onde a Enterprise interage com um planeta onde s\u00f3 existem crian\u00e7as. Elas se referem \u00e0 equipe do Capit\u00e3o Kirk como \u201cgrups\u201d, que \u00e9 uma corruptela da express\u00e3o inglesa \u201cgrown-ups\u201d (adultos).<br \/>\nOs grups foram descritos na reportagem como quarent\u00f5es que mant\u00e9m h\u00e1bitos considerados pr\u00f3prios da juventude, especialmente no que se refere \u00e0 apar\u00eancia (vestimenta, corte de cabelos, etc.) e gosto musical.<br \/>\nQuest\u00f5es como a coincid\u00eancia de h\u00e1bitos com os pr\u00f3prios filhos e o estranhamento que eles causam na \u201csociedade de modo geral\u201d (society at large) apareceram nos depoimentos dos entrevistados.<br \/>\nAssim como a excelente reportagem de Adam Sternberg, do New York Times \u201cUp with the Grups\u201d (3 de Abril, http:\/\/newyorkmetro.com\/news\/features\/16529\/index.html ), a reportagem da Folha insiste que esse segmento n\u00e3o busca se apegar a uma suposta juventude que lhe escapa, e sim re-definir o que \u00e9 ser adulto em nossa sociedade.<br \/>\nSegundo Sternberg, \u201cBeing a Grup isn\u2019t, as it turns out, all about holding on to some misguided, well-marketed idea of youth\u2014or, at least, isn\u2019t just about that. It\u2019s also about rejecting a hand-me-down model of adulthood that asks, or even necessitates, that you let go of everything you ever felt passionate about. It\u2019s about reimagining adulthood as a period defined by promise, rather than compromise. And who can\u2019t relate to that?\u201d.<br \/>\nGrups representariam, segundo o autor, a primeira chance na hist\u00f3ria de se eliminar o famoso \u201cgeneration gap\u201d \u2013 abismo generacional.<\/p>\n<p>Quem me conhece pode imaginar o quanto me identifiquei com esse conte\u00fado. Coincidentemente, andei discutindo estas quest\u00f5es com minha filha de 16 anos esses dias. Ela queria entender minha rejei\u00e7\u00e3o ao discurso pasteurizado das pessoas da minha gera\u00e7\u00e3o e ligeiramente mais velhos, onde o mundo \u00e9 uma merda, a vida \u00e9 uma merda e tudo, desde a dor de barriga at\u00e9 a pulga dos cachorros \u00e9 culpa da administra\u00e7\u00e3o do PSDB. Tudo de bom, tudo que vale a pena \u00e9 empurrado ou para aquele passado quando fum\u00e1vamos maconha no CRUSP e sonh\u00e1vamos com utopias, ou para um futuro do pret\u00e9rito em que haveria uma sociedade mais justa. Todos reclamam de suas frustra\u00e7\u00f5es profissionais (mas no fundo defendem as hipocrisias institucionais politicamente corretas, como as governamentais); as mulheres amargamente reprovam a \u201cest\u00e9tica dominante\u201d enquanto silenciosamente abominam sua flacidez e bunda ca\u00edda; os homens buscam desesperadamente re-afirmar sua suposta genialidade niilista, \u00faltimo resqu\u00edcio de uma superioridade de g\u00eanero que eles perdem a cada dia e todos fazem coro contra a m\u00eddia, o governo e tudo mais.<br \/>\n\u00c9 uma gera\u00e7\u00e3o amarga. Uma gera\u00e7\u00e3o que est\u00e1 detestando amadurecer, mas que n\u00e3o tem coragem o suficiente para re-inventar a maturidade.<br \/>\nOlho esses meus amigos e fico pensando como foi com as gera\u00e7\u00f5es anteriores. Sempre me parece que era mais tranquilo para eles. Iam passando de fase em fase, assumindo os novos pap\u00e9is de maneira d\u00f3cil e sem espernear, at\u00e9 a velhice e morte em vida. As mulheres se casavam aos vinte e poucos e muito rapidamente j\u00e1 n\u00e3o tinham mais nenhum tra\u00e7o de erotismo em sua apar\u00eancia ou gestual. As perdas sexuais que obviamente deviam acompanhar essa transi\u00e7\u00e3o talvez fossem at\u00e9 bem-vindas. Mas esse horror pessoal fazia parte de um contexto muito hegem\u00f4nico e, portanto, muito f\u00e1cil de aceitar.<\/p>\n<p>Quando Sternberg afirma que somos o primeiro segmento que prop\u00f5e a sociedade um novo modelo para o amadurecimento, talvez esteja identificando, sem saber, um momento hist\u00f3rico em que o desconforto com essa aniquila\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos que as \u201cpassagens\u201d da maturidade provocam pode ser assumido. E que alguns de n\u00f3s \u2013 s\u00f3 alguns \u2013 por motivos variados, puderam transformar em a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fiquei pensando em que momento eu perdi o bonde do amadurecimento padr\u00e3o. E dos v\u00e1rios modelos alternativos, que cada vez mais me parecem tristemente vers\u00f5es duras e perversas deste padr\u00e3o. Sei l\u00e1&#8230; Talvez aos poucos, ao longo dos per\u00edodos de isolamento que minha desordem mental provocava. Talvez um pouco pelos meus homens, dos quais tive desde os 30 anos mais velhos at\u00e9 os 15 anos mais jovens. Talvez pela minha filha, que \u00e9 a criatura mais pr\u00f3xima que tenho. Finalmente, talvez por eu ter mais ou menos morrido e, na sobre-vida que conquistei, as coisas antigas n\u00e3o serviram mais t\u00e3o bem.<\/p>\n<p>No entanto, parece que essa condi\u00e7\u00e3o toda s\u00f3 fica dram\u00e1tica na simb\u00f3lica passagem dos 40. Uma das entrevistadas da Folha, Cl\u00e1udia Briza, expressa essa percep\u00e7\u00e3o dizendo que achava engra\u00e7ado ver que ela mesma n\u00e3o se percebia muito mudada e que de repente, aquilo que era aceito aos 20 ou 30 anos, vira \u201cmoderno\u201d e estranho aos 40. Para mim, essa mudan\u00e7a na percep\u00e7\u00e3o externa foi t\u00e3o gigantesca que me empurrou para longe dos meus pares. <\/p>\n<p>Eu tenho 43 anos. Como sou atleta, meu corpo n\u00e3o parece com nada de cronol\u00f3gico, \u00e9 apenas um corpo de atleta. Pelo menos \u00e9 o que eu acho. N\u00e3o tenho muita gordura corporal, tenho bundona e m\u00fasculos vis\u00edveis. Por algum motivo que n\u00e3o sei qual \u00e9, tamb\u00e9m n\u00e3o tenho muita flacidez na pele. Assim, sem adere\u00e7os, as pessoas n\u00e3o conseguem me situar muito acima dos 30 anos. Com adere\u00e7os, a coisa piora: tenho 12 piercings nas orelhas, piercing no nariz, na boca e no umbigo; uso jeans, botas e regatas o tempo todo; n\u00e3o uso maquiagem. Quando eu revelo minha idade, tenho sempre uma rea\u00e7\u00e3o de surpresa seguida de duas respostas distintas: uma benigna, em que o interlocutor identifica algo que eu achei que ele tamb\u00e9m gostaria de ter e pede dicas. Algo como \u201cputz, gostei da sua blusa, onde voc\u00ea comprou?\u201d. A outra \u00e9 a mais comum entre mulheres acima dos 30 e \u00e9 t\u00e3o t\u00f3xica que aprendi a fugir dela: \u00f3dio. A express\u00e3o do interlocutor muda, as palavras se tornam agressivas e ele busca freneticamente encontrar algum ponto de superioridade em rela\u00e7\u00e3o a mim. Uma situa\u00e7\u00e3o t\u00edpica aconteceu h\u00e1 umas semanas num sal\u00e3o, enquanto eu fazia as unhas. Sentou-se uma mulher um pouco mais nova que eu e visual s\u00f3brio, conservador. Assumidamente \u201cmadura\u201d. Era dentista. Me olhou com superioridade e ficou na dela. Em algum ponto da conversa, a manicure perguntou minha idade e eu revelei. A express\u00e3o da mulher mudou, me olhou com reprova\u00e7\u00e3o e passou a falar com autoridade sobre o assunto comum, que dizia respeito a escolhas de carreira. Deixou bem claro que era uma profissional prestigiada e bem-sucedida, com boa forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica. Al\u00ed estava: perdia em beleza e vitalidade para mim, mas era profissional e intelectualmente superior, esse era o pr\u00eamio pelo sacrif\u00edcio feito no altar da maturidade. Abriu m\u00e3o da beleza, do sexo, do corpo, da vitalidade, da divers\u00e3o, do prazer da rela\u00e7\u00e3o com pessoas de todas as idades, mas ganhou em prest\u00edgio. L\u00e1 pelas tantas, me enchi e fiz algo muito cruel: revelei meu curr\u00edculo. O que presenciei n\u00e3o foi nada bonito. Ela parou de falar e come\u00e7ou a tremer. Tremia de \u00f3dio, de revolta ou sei l\u00e1 de que. Eu materializava algo terr\u00edvel: afinal, ela abriu m\u00e3o de tanta coisa por&#8230; nada??<\/p>\n<p>Aprendi a ficar quieta, a n\u00e3o revelar minha idade a estranhos. N\u00e3o gosto dessa hostilidade e prefiro que me classifiquem da maneira que for mais confort\u00e1vel. <\/p>\n<p>Esse \u00e9 o aspecto da apar\u00eancia, explorado nas duas reportagens. Existem outros, que nenhuma das duas explorou, mas que s\u00e3o igualmente reprovados pela \u201csociety at large\u201d. Um deles \u00e9 o profissional.<br \/>\nFiz uma carreira acad\u00eamica de 20 anos, razoavelmente bem-sucedida. Para minha gera\u00e7\u00e3o de cientistas sociais, estou entre as que mais publicaram no exterior, mais apresentaram trabalhos em confer\u00eancias internacionais e mais impacto tiveram. No entanto, por diversos motivos, me enchi desse caminho. Acho que j\u00e1 deu, passei meu recado. Falei o que queria falar sobre o papel da ci\u00eancia em sociedades em desenvolvimento, sobre a identidade Latino-americana e sobre a natureza do conhecimento cient\u00edfico. O que eu tinha de novo para dizer, coisas que ningu\u00e9m disse antes, j\u00e1 publiquei. Quem quiser ler, est\u00e1 no mundo.<br \/>\nNada me atrai nos aspectos institucionais da carreira acad\u00eamica. \u00c9 nojenta, hip\u00f3crita, violenta e endurecida.<br \/>\nOu seja: considerei esse caminho percorrido. Fiz \u2013 fiz mais do que a maioria faz em uma vida inteira de carreira, at\u00e9 a aposentadoria \u2013, curti o que tinha que curtir e agora chega.<br \/>\nCriei esse blog e passei a expressar minhas id\u00e9ias sem as restri\u00e7\u00f5es impostas por pareceristas ou editores. Foi a coisa mais libertadora em toda a minha trajet\u00f3ria intelectual.<br \/>\nPassei a me dedicar a outros interesses, fundamentalmente aqueles ligados ao treinamento de for\u00e7a. Uma hora isso virou op\u00e7\u00e3o profissional, comecei a dar consultorias e, h\u00e1 menos de um m\u00eas, recebi e aceitei o convite do Mauro para ser s\u00f3cia da academia X-Force. Nunca me senti t\u00e3o realizada profissionalmente e poucas vezes fui t\u00e3o feliz na vida. Talvez nunca.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 legal?<br \/>\nBem, n\u00e3o \u00e9 o que acham v\u00e1rios dos meus pares. Fui bastante reprovada pelos caminhos que adotei. Porra-louquice \u00e9 o m\u00ednimo de que fui acusada. Alguns me tratam como traidora. Outros tentaram, por um tempo, insistir na vers\u00e3o \u201cfracassada\u201d para minha rela\u00e7\u00e3o com o mundo acad\u00eamico e a universidade. Ao n\u00e3o conseguir sustentar mais essa representa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que a minha vida est\u00e1 muito mais em ordem do que antes, resolveram me ignorar.<\/p>\n<p>Acho que s\u00f3 quem me entende, entre meus pares, \u00e9 minha amiga Tet\u00e9, outra mulher de 40 e poucos anos tranquila com sua condi\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9 uma profissional muito bem sucedida que tamb\u00e9m, por in\u00fameros motivos, resolveu inovar \u2013 e inovar pra valer. Ela pode fazer isso: os 20 anos de experi\u00eancia que ela acumulou construindo ferramentas t\u00e9cnicas d\u00e3o a ela essa possibilidade \u00fanica, que ningu\u00e9m das gera\u00e7\u00f5es anteriores ou que nos seguem ainda t\u00eam. S\u00f3 posso adiantar que \u00e9 em comunica\u00e7\u00e3o \u2013 o resto \u00e9 segredo. Ela \u00e9 a \u00fanica de n\u00f3s com um relacionamento est\u00e1vel e bom. Ela tem um filho ador\u00e1vel, sensacional. Ele a chama de \u201cTet\u00e9\u201d \u2013 n\u00e3o h\u00e1 dist\u00e2ncia entre eles. Tet\u00e9 mora numa casa que expressa as no\u00e7\u00f5es de conforto, est\u00e9tica e acolhimento dela (tamb\u00e9m sensacional). Usa jeans, poncho e cabel\u00e3o solto e cacheado. \u00c9 bonita, se fotografa, se deixa fotografar. N\u00e3o se entope de comida, nem de \u00e1lcool, nem de droga, como a maioria dos nossos pares. N\u00e3o acha a vida uma merda. Chora quando lhe estouram o saco, ri quando lhe contam piadas. O que h\u00e1 de errado nisso?<\/p>\n<p>N\u00e3o sei, mas nos sentimos todos transgressores. No come\u00e7o, sentia como se tivesse que pedir desculpas. Depois, como se tivesse que escancarar para o mundo minhas op\u00e7\u00f5es. Agora acho que nem um, nem o outro. Acho que \u00e9 natural sermos a princ\u00edpio estranhados e rejeitados, mas tenho a impress\u00e3o de que estamos construindo algo bom. Se der certo, uma heran\u00e7a e tanto para nossos filhos e nossos amigos mais jovens. Uma op\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tivemos, e tivemos que inventar&#8230;<\/p>\n<p>Marilia <\/p>\n<p style=\"margin-top: 0; margin-bottom: 0\"><b><font face=\"Georgia\" size=\"1\"><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.bodystuff.org\/\">BodyStuff<\/a><\/font><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje peguei a Folha no quintal e achei essa mat\u00e9ria sobre Grups, por Helo\u00edsa Helv\u00e9cia. Na capa, o produtor Marco Rocha, de 38 anos. Nas folhas, uma por\u00e7\u00e3o de homens e mulheres mais ou menos da minha idade, caracterizados pela reportagem como GRUPS. 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