{"id":5286,"date":"2006-06-01T20:17:00","date_gmt":"2006-06-01T20:17:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/jamais-vu\/"},"modified":"2006-06-01T20:17:00","modified_gmt":"2006-06-01T20:17:00","slug":"jamais-vu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/jamais-vu\/","title":{"rendered":"Jamais vu"},"content":{"rendered":"<p>Acordei hoje sem saber muito em que cama estava. Por alguns minutos, fiquei, no escuro, testando a familiaridade dos objetos. Haveria uma estante atr\u00e1s da cama? Livros do lado esquerdo? Algu\u00e9m do lado direito?<br \/>\nEssas coisas sempre me acontecem nas mudan\u00e7as. Em novembro de 1996, embarquei para os Estados Unidos para meu p\u00f3s-doc. Durante duas semanas, fiquei na casa da minha irm\u00e3, que ent\u00e3o vivia em Alexandria, perto de Washington, DC. A cama ficava encostada numa parede. Depois fui para Blacksburg, onde ficava a Virginia Tech. Aluguei um apartamento muito legal perto do campus \u2013 grande, com dois quartos e perto da escola da Mel. Coloquei um colchonete no ch\u00e3o, perto da janela.<br \/>\nSa\u00ed do Brasil no calor, quase ver\u00e3o. Cheguei nos Estados Unidos no inverno. No caminho de DC para Blacksburg, a neve foi aparecendo. A cidade fica numa regi\u00e3o sub-\u00e1rtica, nos Apalaches. De manh\u00e3, quando eu acordava, ainda estava escuro. Por muito tempo, ficava v\u00e1rios segundos testando a localiza\u00e7\u00e3o de objetos e me situando no tempo e no espa\u00e7o. Demora um pouco para adquirirmos a resposta autom\u00e1tica numa nova situa\u00e7\u00e3o. Em que pa\u00eds estaria? Que cama seria aquela?<br \/>\nAl\u00e9m disso, acabava de me separar do pai da Mel. Estava profundamente apaixonada por outro homem. O meu cen\u00e1rio interno tamb\u00e9m havia mudado. Tudo havia mudado \u2013 era outra vida, outro pa\u00eds, outra Marilia.<br \/>\nAt\u00e9 esse momento, em geral, as mudan\u00e7as de vida vinham acompanhadas de mudan\u00e7as de espa\u00e7o. N\u00e3o conseguia distinguir uma da outra. Achei que fosse sempre espacial a coisa.<br \/>\nAndar nas ruas meio vazias de Blacksburg, correr entre os pastos cheios de vacas experimentais, flocos de neve caindo no rosto, o cheiro de novidade, tudo para mim era um pacote \u00fanico com nova cidade, novo pa\u00eds, novo amor, novos amigos.<br \/>\nDepois disso veio Bras\u00edlia, nova universidade, novos colegas, novo marido \u2013 n\u00e3o o novo amor, que ficou para tr\u00e1s, em camas com o copo do lado esquerdo, e n\u00e3o direito&#8230; Cidade quente, seca, bela, muito bela. Minha cama era muito alta, pois o marceneiro n\u00e3o leu direito minhas medidas. Talvez por isso ou pela dificuldade que tive naquele novo contexto familiar, muitas vezes, ao acordar, confusa, ainda estendia os bra\u00e7os para fora da cama, com a esperan\u00e7a de acariciar o carpete fofo do apartamento de Blacksburg.<br \/>\nPassei por v\u00e1rias outras mudan\u00e7as de vida que inclu\u00edram espa\u00e7os, amores, camas e cidades.<br \/>\nAt\u00e9 que aconteceu uma grande mudan\u00e7a sem nenhum acompanhamento espacial. Foi quando quase morri, mas me salvei, em julho do ano passado. No dia seguinte, acordei sem saber onde estava. Todas as camas da minha vida se confundiram. Camas, amantes, copos e garrafas de \u00e1gua. N\u00e3o, n\u00e3o era outra cama \u2013 era apenas outra vida. Uma vida novinha em folha, que me foi concedida por puro acidente. Acordei, apalpei em volta e aos poucos reconheci o ambiente. Mesmo assim, algo era absurdamente diferente. Me movi e entendi: a dor. Coloquei a m\u00e3o no pesco\u00e7o e senti os pontos, a regi\u00e3o insens\u00edvel da pele, a dificuldade em me virar. Morri? De uma certa forma, sim.<br \/>\nAbri a janela e o mundo me pareceu diferente. Essa sensa\u00e7\u00e3o se chama \u201cjamais vu\u201d e \u00e9 o oposto do \u201cdej\u00e0 vu\u201d. Todos j\u00e1 tivemos \u201cdej\u00e1 vu\u201d alguma vez: acontece sob stress ou mesmo sem raz\u00e3o. \u00c9 quando nos deparamos com uma cena ou situa\u00e7\u00e3o nova, mas que \u201creconhecemos\u201d como lembran\u00e7a. \u201cJamais vu\u201d \u00e9 o oposto: \u00e9 uma cena que racionalmente sabemos que \u00e9 familiar, mas a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de novidade. Vi isso acontecer com meu amigo F\u00e1bio, que sofreu um grave acidente de moto e ficou v\u00e1rios dias em coma. O acidente causou um grande hematoma no c\u00e9rebro. Passeando pela Higien\u00f3polis, onde ele viveu a vida toda, me contou que tudo parecia desconhecido para ele, embora ele soubesse que n\u00e3o era.<br \/>\nBem, sobrevivi \u00e0 noite de sonhos incertos de ontem. No entanto, o mundo \u00e9 uma grande novidade hoje. Essa outra Marilia que acordou sem um peda\u00e7o vive um intermin\u00e1vel \u201cjamais vu\u201d. Como para meu amigo acidentando, n\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel. Na verdade \u00e9 muito desconfort\u00e1vel. Sinto uma falta quase insuport\u00e1vel do que perdi.<br \/>\nMas perdi, est\u00e1 perdido. Como h\u00e1 um ano perdi a sensibilidade no lado esquerdo da face, que nunca recuperei. \u00c9 ruim, incomoda at\u00e9 hoje e acho que vai incomodar para sempre. Talvez essa falta que sinto hoje tamb\u00e9m incomode para sempre. Mas talvez, como a outra, seja um pre\u00e7o para um novo crescimento e esse mundo \u201cjamais visto\u201d seja, afinal, um mundo melhor&#8230;<\/p>\n<p>Marilia <\/p>\n<p style=\"margin-top: 0; margin-bottom: 0\"><b><font face=\"Georgia\" size=\"1\"><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.bodystuff.org\/\">BodyStuff<\/a><\/font><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acordei hoje sem saber muito em que cama estava. Por alguns minutos, fiquei, no escuro, testando a familiaridade dos objetos. Haveria uma estante atr\u00e1s da cama? Livros do lado esquerdo? Algu\u00e9m do lado direito? Essas coisas sempre me acontecem nas mudan\u00e7as. Em novembro de 1996, embarquei para os Estados Unidos para meu p\u00f3s-doc. 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