{"id":5292,"date":"2006-06-04T21:48:00","date_gmt":"2006-06-04T21:48:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/outsiders-nao-formam-pares\/"},"modified":"2006-06-04T21:48:00","modified_gmt":"2006-06-04T21:48:00","slug":"outsiders-nao-formam-pares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/outsiders-nao-formam-pares\/","title":{"rendered":"Outsiders n\u00e3o formam pares"},"content":{"rendered":"<p>Quando eu tinha meus vinte anos, tentei me camuflar como \u201cinsider\u201d. Arrumei um namorado convencional, de fam\u00edlia convencional, estudante de engenharia, pai juiz, classe m\u00e9dia da periferia. Por quase dois anos tentei. Durante esse tempo, tamb\u00e9m, expulsa de um laborat\u00f3rio na USP onde havia topado com algo muito quente, apontada como pessoa impr\u00f3pria \u00e0s regras acad\u00eamicas de vassalagem (e sei l\u00e1 quantas outras normas), tentava empurrar com farinha um mestrado num assunto que n\u00e3o me atraia.<br \/>\nNenhum tes\u00e3o na pesquisa, nenhum tes\u00e3o no sexo, nenhum tes\u00e3o no amor. Com uma quantidade animal de psicotr\u00f3picos \u2013 benzodiazep\u00ednicos de todos os tipos, anti-depressivos de todas as gera\u00e7\u00f5es, neurol\u00e9pticos e, no fim, muita novalgina para aguentar a dor de cabe\u00e7a permanente \u2013 insisti, anestesiada, heroicamente. At\u00e9 que uma hora n\u00e3o deu mais e parei de tomar as drogas. Passei duas semanas alucinando, olhando para o teto do meu apartamento. Ao sair do pesadelo, o experimento em normalidade foi finalizado: nem sequer o cheiro do namorado eu tolerava, pois havia recuperado meu olfato.<br \/>\nNunca mais fiz uma tentativa t\u00e3o bem planejada em \u201cpertencer\u201d, em promover algum tipo de auto-lavagem-cerebral e fazer parte do mundo das pessoas comuns. Fiz, sim, alguns outros experimentos em relacionamentos, todos desastres horrorosos, alguns longos, outros mais longos ainda. Tentei pateticamente me encaixar em alguma coisa, coisa que sempre me escapou ou simplesmente foi imposs\u00edvel espremer minha personalidade esquisita nos tais buraquinhos.<br \/>\nN\u00e3o deu certo. Acho que fica para outra vida.<br \/>\nMas tenho que admitir que, frequentemente, olho casais convencionais e tenho inveja. Por mais horror que eu tenha das depend\u00eancias e obsess\u00f5es, dos gritos e apert\u00f5es, da opress\u00e3o e da sabotagem aberta ou velada, sei que sempre falta algo aqui em mim.<br \/>\nDos meus antigos pares, intelectuais, quero apenas dist\u00e2ncia. S\u00e3o homens pequenos, que afirmam sua masculinidade na viol\u00eancia verbal e jogo competitivo, coisas que hoje me broxam completamente. Claro que se candidatam: n\u00e3o entrei na decad\u00eancia f\u00edsica obrigat\u00f3ria que o mundo politicamente correto deles imp\u00f4s \u00e0s minhas infelizes contempor\u00e2neas. Mas me querem para um jogo que para mim n\u00e3o tem vez, acabou, nunca mais ser\u00e1 jogado.<br \/>\nO mundo que me interessa, onde vejo humanidade e capacidade de amar, infelizmente \u00e9 distante demais para mim. Tenho dele a hospitalidade, a generosa aceita\u00e7\u00e3o que algu\u00e9m de outro universo merece. Admira\u00e7\u00e3o, um tanto de fasc\u00ednio, tes\u00e3o&#8230; sou uma curiosidade, \u00e0s vezes uma amiga (o que tamb\u00e9m \u00e9 in\u00e9dito, j\u00e1 que neste mundo as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero n\u00e3o incluem amizade), uma boa foda e fica por a\u00ed. \u00c9 um mundo belo, simples, humano e&#8230; fr\u00e1gil. Vulner\u00e1vel a outsiders. Quando tentei toc\u00e1-lo, estraguei, machuquei, causei estrago.<br \/>\nDesisti. N\u00e3o tento mais me camuflar de nada \u2013 nem por dentro, nem por fora. Do que adiantaria uma loirisse comportada, escova e cabelo liso, maquiagem e esmaltes clarinhos, sapatinhos de bico fino, a feminilidade convencional, se quando abro a boca \u201cme entrego\u201d? Quantos homens j\u00e1 vi me pegarem de pau duro e broxarem, com olhar de medo e intimida\u00e7\u00e3o, com uma ou duas frases minhas? Em encontros an\u00f4nimos, sem que o parceiro tivesse acesso \u00e0 minha identidade, tentei controlar esse efeito. Descobri que nem sei como falam essas mulheres \u201cde verdade\u201d, que pronomes empregam, como \u00e9 seu vocabul\u00e1rio e coes\u00e3o verbal.<br \/>\nMas confesso que houve uma ou outra exce\u00e7\u00e3o. Ah, houve. J\u00e1 me viram de outra forma, de uma forma perigosamente real. E a\u00ed, sei l\u00e1 por que, entrei em p\u00e2nico.<br \/>\nOutsiders s\u00e3o solit\u00e1rios.<br \/>\nOutsiders profissionais se acomodam em sua solid\u00e3o dolorida.<br \/>\nDe dentro de seus mundos solit\u00e1rios, outsiders sabem amar, mas n\u00e3o ser amados.<br \/>\nOutsiders n\u00e3o formam pares, talvez tamb\u00e9m por conta deles. <\/p>\n<p>Marilia <\/p>\n<p style=\"margin-top: 0; margin-bottom: 0\"><b><font face=\"Georgia\" size=\"1\"><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.bodystuff.org\/\">BodyStuff<\/a><\/font><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando eu tinha meus vinte anos, tentei me camuflar como \u201cinsider\u201d. 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