{"id":5298,"date":"2006-06-18T14:23:00","date_gmt":"2006-06-18T14:23:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/no-pain-no-gain-e-as-lesoes\/"},"modified":"2006-06-18T14:23:00","modified_gmt":"2006-06-18T14:23:00","slug":"no-pain-no-gain-e-as-lesoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/no-pain-no-gain-e-as-lesoes\/","title":{"rendered":"No pain, no gain e as les\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>Estou de molho h\u00e1 dois dias, tomando anti-inflamat\u00f3rio, relaxante muscular e analg\u00e9sico, com uma contratura na lombar. A hist\u00f3ria dessa contratura n\u00e3o representa exatamente uma novidade para mim: quarta-feira, fiz um treino bastante pesado de levantamento Terra e exerc\u00edcios auxiliares para costas. A dor tardia estava no auge na sexta-feira, quando resolvi fazer meu treino de corrida \u00e0 tarde. Senti a dor na lombar logo nos primeiros minutos de corrida e tive a seguinte decis\u00e3o pela frente: aceitar a dor e parar ou ignorar a dor e correr como planejado. Muitas vezes, quando come\u00e7o a correr, existe alguma dorzinha de menor import\u00e2ncia que se manifesta. Eu a ignoro, continuo a correr, a dor desaparece e fica tudo bem. A maior parte das dores se comporta assim \u2013 s\u00e3o as chamadas \u201cdores bem comportadas\u201d. Esta \u00faltima pertence \u00e0 categoria das \u201cdores rebeldes\u201d: n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o sumiu, como piorou. N\u00e3o s\u00f3 piorou como se tornou insuport\u00e1vel.<br \/>\nH\u00e1 tr\u00eas meses, tive uma dessas, bem menos insuport\u00e1vel, na regi\u00e3o abdominal. Mesma hist\u00f3ria: ap\u00f3s um treino muito forte de agachamento, pequeno desconforto de dor tardia, corrida, op\u00e7\u00e3o por ignorar a dor crescente e a\u00ed&#8230; Ela se instala. Pela regi\u00e3o em que estava, fui parar no Pronto-socorro de um bom hospital de S\u00e3o Paulo, onde, ap\u00f3s muita palpa\u00e7\u00e3o e ultra-som, foi verificado que se tratava de uma contratura.<br \/>\nEssas coisas s\u00e3o muito individuais, assim como quase tudo nas respostas das pessoas aos est\u00edmulos, stress, etc. Existe claramente um padr\u00e3o em mim, que \u00e9 fazer essas contraturas na musculatura estabilizadora em corrida.<br \/>\nMas essa situa\u00e7\u00e3o alimenta pelo menos duas quest\u00f5es centrais do \u201cethos esportivo\u201d e da psicologia do esporte. A primeira diz respeito ao maior de todos os princ\u00edpios normativos que rege a vida dos atletas: NO PAIN, NO GAIN. A segunda \u00e9 a resposta do atleta diante de uma les\u00e3o instalada que se torna realmente desabilitante, interrompendo programas de treinamento ou at\u00e9 pior: ocasionando o fim das chances de vit\u00f3ria em campeonatos.<br \/>\nAs duas quest\u00f5es est\u00e3o relacionadas.<br \/>\nComo atletas, aprendemos a ter resist\u00eancia \u00e0 dor. Muita coisa machuca em qualquer esporte. Bolhas se formam, objetos causam pequenas contus\u00f5es e tudo isso precisa ser olimpicamente ignorado. Nenhum atleta que se preze deixa de treinar porque suas bolhas est\u00e3o incomodando; porque sua unha caiu; porque est\u00e1 com hematomas pelo corpo. Os esportes de for\u00e7a e o fisiculturismo fazem com que o atleta n\u00e3o apenas se habitue com a dor, mas utilize-a como crit\u00e9rio de avalia\u00e7\u00e3o para a intensidade do est\u00edmulo: trata-se da dor tardia. A dor tardia (\u201cdelayed onset muscle soreness\u201d) est\u00e1 relacionada \u00e0 extens\u00e3o do dano \u00e0s fibras musculares como conseq\u00fc\u00eancia do est\u00edmulo do treino. \u00c9 o dano \u201cdo bem\u201d, pequenas rupturas que levam a adapta\u00e7\u00f5es subseq\u00fcentes sob a forma de aumento da for\u00e7a e tamanho do m\u00fasculo.  \u00c9 diferente da dor aguda causada por les\u00e3o e acredita-se que \u00e9 mais intensamente provocada pelos movimentos exc\u00eantricos do que conc\u00eantricos. Quanto mais corretamente se executa o exerc\u00edcio de for\u00e7a quanto \u00e0 forma (t\u00e9cnica), quando mais aten\u00e7\u00e3o se d\u00e1 \u00e0 fase \u201cnegativa\u201d (a\u00e7\u00e3o exc\u00eantrica), maior ser\u00e1 a dor tardia.<br \/>\nAos poucos, vamos aprendendo a diferenciar os tipos de dor e quanta aten\u00e7\u00e3o elas merecem. Certas diferen\u00e7as s\u00e3o muito \u00f3bvias: uma distens\u00e3o, por exemplo, causa uma dor bem forte e aguda, como resultado instant\u00e2neo do est\u00edmulo. Ela \u00e9 resultado de rupturas extensas nas fibras, que n\u00e3o levam a nenhuma adapta\u00e7\u00e3o e sim requerem uma cicatriza\u00e7\u00e3o que deixa o m\u00fasculo permanentemente alterado.<br \/>\nContraturas s\u00e3o um terceiro tipo de les\u00e3o, que tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 do bem, e \u00e9 uma resposta a um stress excessivo sobre a fibra. Trata-se de um espasmo muscular, uma contra\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria que pode ocorrer como resposta a um stress repetitivo. N\u00e3o est\u00e3o relacionadas a uma ruptura de grande extens\u00e3o, como a distens\u00e3o.<br \/>\nJ\u00e1 tive de todos os tipos e todos os tamanhos. Mas at\u00e9 hoje, com d\u00e9cadas de atividade esportiva nas costas, ainda sou v\u00edtima de mal julgamento, como no caso da atual contratura.<br \/>\nPor que?<br \/>\nNo pain, no gain! O princ\u00edpio \u00e9 suportar a dor e a sabedoria, ou saca\u00e7\u00e3o, ou intui\u00e7\u00e3o \u00e9 saber quando uma dor precisa ser respeitada e considerada um limitante ao treinamento para que n\u00e3o se instale uma les\u00e3o pior.<br \/>\nQuando a les\u00e3o pior acontece, n\u00e3o h\u00e1 muito mais o que fazer exceto dedicar-se o melhor poss\u00edvel ao tratamento para recupera\u00e7\u00e3o. As respostas emocionais dos atletas \u00e0s les\u00f5es s\u00e3o dram\u00e1ticas e, por experi\u00eancia, observa\u00e7\u00e3o e algumas indica\u00e7\u00f5es da literatura internacional, parecem estar relacionadas com maturidade (idade e tempo de experi\u00eancia com o esporte).<br \/>\nA les\u00e3o \u00e9 um inimigo maior, \u00e9 algo que tira do atleta aquilo que ele mais se dedica a conquistar: controle e dom\u00ednio sobre seu corpo. De repente, algo mais forte se instala na vida dele e o submete a limites que ele havia superado. Restri\u00e7\u00e3o a movimentos, velocidades, amplitudes&#8230; Restri\u00e7\u00e3o ao treino e, em casos mais azarados, perda da chance de vit\u00f3ria em competi\u00e7\u00f5es.<br \/>\nRespostas comuns s\u00e3o a nega\u00e7\u00e3o (\u201cdenial\u201d), o que em geral faz com que o quadro se agrave. \u00c9 t\u00e3o insuport\u00e1vel ao atleta enfrentar a  realidade de que ele est\u00e1 lesionado, n\u00e3o vai competir ou n\u00e3o pode treinar que ele ignora a les\u00e3o. Outras respostas comuns s\u00e3o a raiva, a ansiedade e, finalmente, a depress\u00e3o.<br \/>\nLembro-me da minha primeira les\u00e3o grave. Foi uma estranha les\u00e3o no m\u00fasculo da m\u00e3o direita, quando eu me preparava para o campeonato brasileiro de esgrima. J\u00e1 contei essa hist\u00f3ria em v\u00e1rios lugares, mas n\u00e3o como me senti. Eu era a favorita para ganhar o t\u00edtulo e estava num ritmo muito intenso de treinamento. Meu treinador, Mestre \u00c2ngelo Pio Buonafina, se dedicava muito \u00e0 minha prepara\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existiam finais de semana nem feriados \u2013 treinava todos os dias, muitas horas. Quando o primeiro ortopedista examinou minha m\u00e3o, disse que poderia se tratar de um tumor e que eu deveria parar de treinar. O campeonato estava perdido. Chorei desesperadamente. Aquele diagn\u00f3stico mudou meu mundo e minha identidade. Quem era eu, afinal? O ch\u00e3o sumiu debaixo dos meus p\u00e9s. Meu treinador passou a me treinar como canhota, para me confortar, no m\u00ednimo para restaurar em mim a identidade de atleta. Mas todos n\u00f3s sab\u00edamos que n\u00e3o se transforma uma atleta dextra numa campe\u00e3 canhota.<br \/>\nEventualmente, achamos uma solu\u00e7\u00e3o que me possibilitou retomar o treinamento, ganhar o campeonato, e continuar sendo quem eu achava que era: uma infiltra\u00e7\u00e3o de cortisona no m\u00fasculo, que suprimiu os espasmos mas depois da qual nunca mais pude lutar sem o auxilio de uma correia que prendesse o punho da arma ao meu bra\u00e7o.<br \/>\nDepois disso, tive muitas outras les\u00f5es, distens\u00f5es, contraturas, cirurgias nos joelhos e hoje mais ou menos lido bem com elas todas. Nunca, em hip\u00f3tese alguma, respeitei os prazos de repouso prescritos por m\u00e9dicos. Atualmente, j\u00e1 abro o jogo e digo que repouso de uma semana \u00e9 inaceit\u00e1vel e mostro como \u00e9 a minha realidade. Boa parte dos m\u00e9dicos \u00e9 simp\u00e1tica a atletas como eu e acaba muito honestamente apontando os limites reais e procurando alternativas para contornar os limites impostos pela les\u00e3o.<br \/>\nNo fundo, as dores e les\u00f5es s\u00e3o os momentos de enfrentamento do atleta com seus limites, aqueles que sua identidade faz com que encare como desafios a superar, sempre.<br \/>\nNo pain, no gain&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estou de molho h\u00e1 dois dias, tomando anti-inflamat\u00f3rio, relaxante muscular e analg\u00e9sico, com uma contratura na lombar. A hist\u00f3ria dessa contratura n\u00e3o representa exatamente uma novidade para mim: quarta-feira, fiz um treino bastante pesado de levantamento Terra e exerc\u00edcios auxiliares para costas. 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