{"id":5303,"date":"2006-07-02T18:32:00","date_gmt":"2006-07-02T18:32:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/do-corpo-a-paisagem\/"},"modified":"2006-07-02T18:32:00","modified_gmt":"2006-07-02T18:32:00","slug":"do-corpo-a-paisagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/do-corpo-a-paisagem\/","title":{"rendered":"Do Corpo \u00e0 Paisagem"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">Cheguei agora a pouco da exposi\u00e7\u00e3o \u201cDo Corpo \u00e0 Paisagem\u201d, em exibi\u00e7\u00e3o no Instituto Tomie Ohtake (<a href=\"http:\/\/www.institutotomieohtake.org.br\/programacao\/exposicoes\/corpo_paisagem\/corpo_paisagem.htm\">http:\/\/www.institutotomieohtake.org.br\/programacao\/exposicoes\/corpo_paisagem\/corpo_paisagem.htm<\/a> ). Entrei primeiro na sala de Marco Paulo Rolla. Cheguei perto de uma instala\u00e7\u00e3o onde uma escultura de porcelana quebrada expunha ossos e outros conte\u00fados. A escultura lembrava a figura de Napole\u00e3o Bonaparte, o que imediatamente me remeteu \u00e0 imagem do louco dissociado. Este, quebrado, expunha entranhas moles e desorganizadas, ca\u00f3ticas. Eu tinha acabado de almo\u00e7ar e me senti instantaneamente nauseada. Olhei o fundo da sala e vi esculturas de peda\u00e7os de corpos n\u00fas, desmembrados. Outras porcelanas quebradas. N\u00e3o consegui entrar na sala. Esperei a Mel do lado de fora e seguimos para a exposi\u00e7\u00e3o de Rafael Assef. Observei as fotografias de peles tatuadas e fui me aproximando de um mapa cartesiano. No espa\u00e7o quadriculado, riscos vermelhos. Precisei de alguns minutos para me dar conta de que se tratava de riscos desenhados por cortes na pele, vermelhos ainda. Ent\u00e3o n\u00e3o consegui mais ficar por ali e desci as escadas. Fui at\u00e9 o caf\u00e9 esperar pela Mel e, com uma dor de cabe\u00e7a insistente, fiquei pensando nas imagens que me perturbaram. Fiquei pensando no dia, no tempo. <\/div>\n<div align=\"justify\">Hoje de manh\u00e3 acordei ao lado de algu\u00e9m que tocou a \u00e1rea meio insens\u00edvel do lado esquerdo da minha face. Foi a primeira vez que algu\u00e9m fez isso nesse longo ano que decorreu desde que, em julho de 2005 abri com uma l\u00e2mina minha jugular. N\u00e3o era t\u00e3o cedo, chovia aqui em S\u00e3o Paulo e uma luz indireta entrava pela janela do meu quarto. Galahad se mexeu, virou e me abra\u00e7ou por tr\u00e1s. Como fez ontem, me beijou o rosto e passou os dedos bem de leve pelo meu pesco\u00e7o. Im\u00f3vel, deixei que ele continuasse. Fechei os olhos. A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 estranha, como se eu sa\u00edsse de uma anestesia. Uma anestesia infind\u00e1vel, eterna, como aquela que eu achava que tinha imobilizado minhas emo\u00e7\u00f5es. <\/div>\n<div align=\"justify\">Esse foi o \u00faltimo de uma s\u00e9rie de muitas dezenas de cortes que eu mesma fiz no meu corpo, ao longo de anos de conviv\u00eancia com minha desordem mental. H\u00e1 um ano atr\u00e1s, quando isso aconteceu, fui pega de surpresa. Achava que estava curada \u2013 fazia mais de um ano que eu n\u00e3o tinha sintoma nenhum e considerava que havia vencido a guerra contra a desordem bipolar somente atrav\u00e9s de treino. Me dei ao luxo de relaxar com o pr\u00f3prio treino, com a dieta e, finalmente, me permiti me envolver numa rela\u00e7\u00e3o t\u00f3xica e parasit\u00e1ria. Os sintomas voltaram com uma for\u00e7a absurda e aconteceu o que aconteceu: fiz um profundo corte no pesco\u00e7o que abriu a jugular, cortou nervos faciais e me mostrou o qu\u00e3o incrivelmente mais poderosa do que eu imaginava \u00e9 essa doen\u00e7a. Viv\u00ed momentos de grande perplexidade e sensa\u00e7\u00e3o de derrota. <\/div>\n<div align=\"justify\">Aos pouquinhos, fui me dando conta de que tudo era muito mais complicado do que eu supunha e que eu fui v\u00edtima da minha pr\u00f3pria prepot\u00eancia. Simplifiquei tudo e declarei a guerra vencida. N\u00e3o estava.<\/div>\n<div align=\"justify\">Eu tinha duas op\u00e7\u00f5es: recuar, capitular \u00e0 ind\u00fastria farmac\u00eautica ou voltar \u00e0 estaca zero do projeto de construir meu pr\u00f3prio corpo do meu jeito. Escolhi a segunda, dessa vez com muito mais cautela e respeito. Dessa vez com muito medo das pessoas. Dessa vez, completamente sozinha. <\/div>\n<div align=\"justify\">Essas cicatrizes espalhadas pelo meu corpo, bem como as que vejo em outras pessoas, me causam confus\u00e3o. Me sinto muito ambivalente em rela\u00e7\u00e3o a elas. Por um lado s\u00e3o os trof\u00e9us de batalhas vencidas, pois em cada uma delas sobrevivi \u00e0 les\u00e3o. Por outro, s\u00e3o sinistros sinais de que o monstro \u00e9 muito poderoso e me espreita a cada esquina. Que os riscos que assumi ao tentar viver em liberdade farmacol\u00f3gica s\u00e3o imensos. \u00c9 a vida, literalmente, no fio da navalha.<\/div>\n<div align=\"justify\">Os cortes fotografados acordaram uma por\u00e7\u00e3o de pesadelos e o louco de porcelana desintegrado, expondo entranhas moles e desordenadas, deram vida a todos eles. Tive \u00e2nsia de v\u00f4mito diante desses horrores. Minha cabe\u00e7a doeu.<\/div>\n<div align=\"justify\">Mas tamb\u00e9m lembrei dos dedos de Galahad sem medo percorrendo a irregularidade da pele na cicatriz do meu pesco\u00e7o e de seus l\u00e1bios na minha pele.<\/div>\n<div align=\"justify\">For\u00e7as t\u00e3o antag\u00f4nicas&#8230; For\u00e7as que quebram, rasgam, desintegram, destroem. E outras que tocam, integram, fecham. Para que coisas novas surjam, as velhas s\u00e3o sempre destruidas. Mas para que se desenvolvam, \u00e9 preciso que a destrui\u00e7\u00e3o seja contida.<\/div>\n<div align=\"justify\">O destino parece ter me oferecido as duas, com neutralidade. E a mim cabe administr\u00e1-las.<\/p>\n<p>Marilia<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.bodystuff.org\">BodyStuff<\/a><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cheguei agora a pouco da exposi\u00e7\u00e3o \u201cDo Corpo \u00e0 Paisagem\u201d, em exibi\u00e7\u00e3o no Instituto Tomie Ohtake (http:\/\/www.institutotomieohtake.org.br\/programacao\/exposicoes\/corpo_paisagem\/corpo_paisagem.htm ). Entrei primeiro na sala de Marco Paulo Rolla. Cheguei perto de uma instala\u00e7\u00e3o onde uma escultura de porcelana quebrada expunha ossos e outros conte\u00fados. 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