{"id":5323,"date":"2006-10-10T23:21:00","date_gmt":"2006-10-10T23:21:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/nao-existem-herois\/"},"modified":"2006-10-10T23:21:00","modified_gmt":"2006-10-10T23:21:00","slug":"nao-existem-herois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/nao-existem-herois\/","title":{"rendered":"N\u00e3o existem her\u00f3is"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">H\u00e1 alguns dias, um colega me pediu que desse os URLs de meus blogs ou permitisse que ele contasse minha hist\u00f3ria de ter conseguido, \u201cA DESPEITO\u201d (com mai\u00fasculas no texto dele) da minha desordem, ser \u201catleta premiada, boa m\u00e3e, cientista com publica\u00e7\u00f5es internacionais\u201d e n\u00e3o me lembro mais o que. N\u00e3o importa: um caso exemplar de sucesso. Me senti instantaneamente desconfort\u00e1vel. Primeiro porque n\u00e3o \u00e9 verdade. Seria pin\u00e7ar, numa hist\u00f3ria de vida complexa, meia-d\u00fazia de itens constru\u00eddos, na cabe\u00e7a dele, como sucessos. Ainda assim, pin\u00e7ados, seriam question\u00e1veis. N\u00e3o sou uma \u201catleta premiada\u201d hoje. Depois de s\u00ea-lo, sim, aos 14 anos (e portanto fora do contexto da presente \u201cluta\u201d contra a desordem mental), participei de corridas de rua, obtendo coloca\u00e7\u00f5es razo\u00e1veis, mas nunca de elite; e, agora, participei de um \u00fanico campeonato brasileiro de supino, no qual de fato me sa\u00ed bem. Isso n\u00e3o faz de mim uma atleta premiada \u2013 uma mulher forte, uma boa gen\u00e9tica&#8230;. v\u00e1 l\u00e1. Boa m\u00e3e? Ser\u00e1 mesmo? Algu\u00e9m sabe o que a Mel passou por conta dos meus altos e baixos? A \u00fanica pessoa que tem alguma autoridade para dizer se sou ou n\u00e3o boa m\u00e3e \u00e9 a Mel e sei que ela \u00e9 suficientemente profunda e cr\u00edtica para n\u00e3o dizer uma besteira dessas. Eu ia dizer que sou a melhor m\u00e3e que esta Marilia poderia ser, mas nem sei: muitas vezes acho que pisei na bola podendo n\u00e3o ter pisado. Fazer o que?<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Publica\u00e7\u00f5es internacionais? Apenas cumpri rituais acad\u00eamicos. Honestamente, acho 99% das \u201cpublica\u00e7\u00f5es internacionais\u201d um porre para ler por conta dos formalismos e picuinhas editoriais que marcam este estilo de escrita. Poucos autores t\u00eam o talento e criatividade necess\u00e1rios para produzir textos interessantes, instigantes e ao mesmo tempo bons de ler. Eu tentei e acho que v\u00e1rias vezes tornei meu texto mais chato, \u00f3bvio e desarticulado para satisfazer pareceristas e suas vaidades.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Tenho muito mais orgulho dos leitores dos meus blogs, muit\u00edssimo mais numerosos do que a meia d\u00fazia que obrigatoriamente leu minhas publica\u00e7\u00f5es internacionais para poder citar.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Isso \u00e9 s\u00f3 para dizer que o conte\u00fado, em si, deste caso exemplar em particular \u00e9 falso e que poderia ter sido constru\u00eddo de forma oposta: um grande fracasso. Uma mulher que, aos 43 anos, acumula desastres amorosos, sozinha e avessa a envolvimentos, financeiramente um caos, sem emprego est\u00e1vel (inegavelmente um valor para muita gente), empres\u00e1ria incompetente.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Afinal: caso de sucesso ou de fracasso? Nenhum dos dois, obvio. Porque a vida n\u00e3o \u00e9 em preto e branco. Sucessos e fracassos s\u00e3o apenas julgamentos de elementos fora de contexto. O meu \u00fanico sucesso que importa para qualquer outro ser humano interessado em administrar sua desordem mental \u00e9 o de ter permanecido viva e de, recentemente, depois de libertada da psiquiatria farmacologicamente mono-man\u00edaca, feliz tamb\u00e9m.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Mas meu desconforto com o pedido do colega ia mais longe. Ainda que eu tivesse publicado 200 interessant\u00edssimos trabalhos internacionais, 20 livros best-sellers, criado meia-d\u00fazia de filhos perfeitos e enchido o cu de grana, diz\u00ea-lo desta forma n\u00e3o ajuda ningu\u00e9m. Pelo contr\u00e1rio, atrapalha.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Quem sofre de desordem mental pra valer raramente vai muito longe nestes caminhos da educa\u00e7\u00e3o formal ou das realiza\u00e7\u00f5es profissionais. Muitas vezes n\u00e3o t\u00eam filhos e, quando os tem, nunca estiveram bem o suficiente para lhes dar a devida aten\u00e7\u00e3o ou curti-los. Culpa se empilha sobre dor. Por conta do inevit\u00e1vel tratamento medicamentoso, perdem a vida sexual, o vigor, a forma f\u00edsica e a beleza. Freq\u00fcentemente chegam aos 40 ou 50 como verdadeiros farrapos humanos. Que bem vai lhes fazer ser confrontados com um (falso) her\u00f3i que s\u00f3 tem a exibir conquistas e sucessos? Conquistas atr\u00e1s das quais n\u00e3o podem mais ir? <\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Her\u00f3is desse tipo s\u00f3 fazem mal \u2013 muito mal. E eu n\u00e3o quis me prestar a esse papel.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Finalmente, tem um \u00faltimo elemento dessa solicita\u00e7\u00e3o de hero\u00edsmo que me incomodou. Foi a de apontar, atrav\u00e9s do caso exemplar, um caminho para o sucesso na guerra contra a desordem mental. Muita, mas muita gente mesmo, me procura para montar programas de atividade f\u00edsica nessa expectativa de que seria \u201ca sa\u00edda\u201d. E se espantam quando eu digo que n\u00e3o \u00e9. \u00c9 uma das sa\u00eddas. Foi a minha sa\u00edda. Hoje acumulei evid\u00eancias de que outras pessoas usam inconsciente ou instintivamente estrat\u00e9gias semelhantes para se integrar. Mas a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a atividade f\u00edsica em si, e sim a integra\u00e7\u00e3o. Como cada um conquista isso, \u00e9 imprevis\u00edvel. N\u00e3o tenho d\u00favidas de que por baixo de monges sensacionais existem loucos como eu, que acharam este caminho. Acho que a \u00fanica \u201cmoral da hist\u00f3ria\u201d da minha hist\u00f3ria \u00e9 a da esperan\u00e7a de que exista um caminho qualquer, ainda que misterioso, para al\u00e9m das fronteiras da necromancia farmacol\u00f3gica e do desespero silencioso da loucura socialmente aceita. N\u00e3o existem her\u00f3is. Existem pessoas e suas hist\u00f3rias.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><o_p><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">&nbsp;<\/font><\/o_p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Marilia<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><o_p><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">&nbsp;<\/font><\/o_p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><a href=\"http:\/\/www.bodystuff.org\/\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">BodyStuff<\/font><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 alguns dias, um colega me pediu que desse os URLs de meus blogs ou permitisse que ele contasse minha hist\u00f3ria de ter conseguido, \u201cA DESPEITO\u201d (com mai\u00fasculas no texto dele) da minha desordem, ser \u201catleta premiada, boa m\u00e3e, cientista com publica\u00e7\u00f5es internacionais\u201d e n\u00e3o me lembro mais o que. N\u00e3o importa: um caso exemplar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_seopress_robots_primary_cat":"","_seopress_titles_title":"","_seopress_titles_desc":"","_seopress_robots_index":"","site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[19],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5323"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5323"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5323\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5323"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5323"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5323"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}