{"id":5338,"date":"2006-12-28T12:46:00","date_gmt":"2006-12-28T12:46:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/cronicas-do-mar-juquehy\/"},"modified":"2006-12-28T12:46:00","modified_gmt":"2006-12-28T12:46:00","slug":"cronicas-do-mar-juquehy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/cronicas-do-mar-juquehy\/","title":{"rendered":"(cr\u00f4nicas do mar) Juquehy"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Juquehy \u00e9 uma praia do litoral norte do Estado de S\u00e3o Paulo, que fica na regi\u00e3o administrativa de S\u00e3o Sebasti\u00e3o. Fica entre Barra do Una e Boi\u00e7ucanga. H\u00e1 cerca de 45 anos, um grupo de m\u00e9dicos da Escola Paulista de Medicina comprou e loteou uma \u00e1rea, antes ocupada apenas por cai\u00e7aras e \u00edndios. Um destes m\u00e9dicos era meu tio, que vendeu o lote para meu pai, um ge\u00f3logo. Meu pai logo construiu uma casa pr\u00e9-fabricada de madeira no lote e, ao longo dos anos, comprou mais lotes para garantir uma \u00e1rea de mata intacta. Naquele tempo, existiam t\u00e3o poucas casas constru\u00eddas que era uma praia praticamente deserta. No in\u00edcio dos anos 70, contei 13 casas de \u201cestrangeiros\u201d. Havia uma vila de cai\u00e7aras, que, at\u00e9 nossa chegada, eram totalmente isolados da civiliza\u00e7\u00e3o. Aos poucos, foram \u201cconvertidos\u201d em caseiros, bandidos (inclusive assassinos e estupradores, o que naturalmente os levou ao exterm\u00ednio), prostitutas&#8230; e no fim sumiram.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Logo depois que meu pai construiu a primeira casa eu nasci e foi l\u00e1, h\u00e1 cerca de 42 anos, que eu andei sozinha, desassistida por adultos, pela primeira vez, aos 10 meses. Foi l\u00e1 que peguei na m\u00e3o pela primeira vez uma cobra, oferecida por meu pai. Foi l\u00e1 que aprendi a nadar com meu irm\u00e3o Mauro e minha m\u00e3e. Foi l\u00e1 que aprendi a mergulhar e identificar animais marinhos. Foi l\u00e1 que vi girinos pela primeira vez, e tamb\u00e9m um bicho-pregui\u00e7a. Muita coisa aconteceu \u201cpela primeira vez\u201d l\u00e1.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Hoje s\u00f3 vou para o Juquehy em momentos de \u201cbaixa temporada\u201d, quando suponho que tenha menos gente. Jamais no Reveillon, jamais no Carnaval, jamais em feriados. N\u00e3o \u00e9 por causa da estrada: \u00e9 por causa da profunda tristeza que a presen\u00e7a e comportamento daquela classe m\u00e9dia alta que colonizou minha praia deserta me causa. Ostenta\u00e7\u00e3o e desrespeito, essa \u00e9 a norma. H\u00e1 uns 20 anos, uma fam\u00edlia dessas tipicamente muito rica e de baixo n\u00edvel educacional (como eu sei: eles n\u00e3o falavam, gritavam, e os gritos continham terr\u00edveis erros de portugu\u00eas) construiu uma verdadeira fortaleza em frente \u00e0 nossa casa. Era uma fam\u00edlia numerosa, de descendentes de \u00e1rabes. Raramente iam \u00e0 praia, pois preferiam a piscina de casa. Foi a primeira vez que fui confrontada com esse espanto que se tornou regra: sim, muitas pessoas, diante daquela sagrada vastid\u00e3o de \u00e1gua salgada perfeita a alguns metros, prefere se banhar num cub\u00edculo de \u00e1gua clorada. <\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Eles fumam e largam bitucas n\u00e3o bio-degrad\u00e1veis na areia, tomam bebidas em lata e poluem a praia com seus lixos e passam a tarde sentados em cadeiras reclin\u00e1veis tomando cerveja e fumando, passando protetor solar, sem entrar no mar. <\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Anteontem, minha filha ligou. Disse que ela e as amigas foram tomar banho de mar \u00e0 noite. Fiz esse ritual tantas vezes que se tornou trivial para mim. Saindo do mar, viram um homem se masturbando perto de suas roupas. Sa\u00edram gritando, o homem fugiu, mas logo \u00e0 frente, voltando para casa (num caminho que n\u00e3o tem mais que 250 metros), passaram por um grupo de homens que agressivamente amea\u00e7aram estupr\u00e1-las \u2013 se de brincadeira ou a s\u00e9rio, nunca saberemos: elas fugiram. Gritavam: \u201cpega elas, pega!\u201d.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">O que fizeram com meu Juquehy&#8230;<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><o_p><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">&nbsp;<\/font><\/o_p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Marilia<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><o_p><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">&nbsp;<\/font><\/o_p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><a href=\"http:\/\/www.bodystuff.org\/\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">BodyStuff<\/font><\/a><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><o_p><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">&nbsp;<\/font><\/o_p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Juquehy \u00e9 uma praia do litoral norte do Estado de S\u00e3o Paulo, que fica na regi\u00e3o administrativa de S\u00e3o Sebasti\u00e3o. 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