{"id":5339,"date":"2006-12-29T21:45:00","date_gmt":"2006-12-29T21:45:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/agressoes-gratuitas-na-rua\/"},"modified":"2006-12-29T21:45:00","modified_gmt":"2006-12-29T21:45:00","slug":"agressoes-gratuitas-na-rua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/agressoes-gratuitas-na-rua\/","title":{"rendered":"Agress\u00f5es gratuitas na rua"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">H\u00e1 cerca de um m\u00eas, eu corria nas ruas do meu bairro, um condom\u00ednio de classe m\u00e9dia entre S\u00e3o Paulo e Osasco, quando algo perturbador aconteceu. Ainda era dia, pois lembro que estava tudo claro. Meu percurso \u00e9 bem padronizado \u2013 desenvolvi esse trajeto ao longo de anos em fun\u00e7\u00e3o da inclina\u00e7\u00e3o das cal\u00e7adas e suavidade das subidas. Deve ter cerca de tr\u00eas quil\u00f4metros. Num certo ponto, havia uma aglomera\u00e7\u00e3o na frente de uma das casas, claramente uma festa. V\u00e1rios jovens, cuja idade devia ir de uns 17 a uns 20 anos, bebiam ou apenas conversavam na rua. Quando eu passei pela primeira vez, alguns gritaram provoca\u00e7\u00f5es que achei inocentes. Tr\u00eas ou quatro deles correram ao meu lado por uns 40 metros, pediram o fone do meu ipod para saber o que eu escutava. Achei inofensivo. Quando eu passei pela segunda vez, fizeram o mesmo e alguns perguntaram o que eu fazia, num tom jocoso, insinuaram que eu era bolada, algo a respeito de homens, e eu respondi no mesmo tom. Disse que era atleta, que tinha namorado e meu namorado era grande &#8211; que mulher gosta \u00e9 de homem grande. Na terceira vez em que passei por ali, um deles, o menorzinho e mais magrinho, com uma express\u00e3o que indicava chapa\u00e7\u00e3o total (se s\u00f3 de \u00e1lcool, n\u00e3o sei), me interceptou, quebrou uma garrafa de cerveja no ch\u00e3o e me desafiou a pisar no vidro: \u201cvoc\u00ea n\u00e3o \u00e9 bolada? Ent\u00e3o pisa no vidro!\u201d. Aquele sozinho, seria moleza para mim. Dois tapas e j\u00e1 era. Mas em segundos me vi cercada de uma dezena de meninos, sorrindo com ar excitado, esperando o desenrolar daquela provoca\u00e7\u00e3o. Me dei conta imediatamente do perigo da situa\u00e7\u00e3o: um ou dois eu pegava, mas em dez, fariam um belo estrago em mim. Como estavam todos drogados e portanto n\u00e3o teriam como me perseguir, desviei, continuei correndo e n\u00e3o passei mais por ali. <\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Teria sido a agress\u00e3o uma resposta ao que eu disse sobre mulheres preferirem homens grandes? Porque claro que n\u00e3o \u00e9 verdade, foi apenas uma resposta ir\u00f4nica t\u00e3o agressiva quanto \u00e0s brincadeiras que eles faziam comigo, que, apesar de aparentemente inofensivas, eram agress\u00f5es. O que eu n\u00e3o esperava \u00e9 que aquele confronto evolu\u00edsse para algo mais f\u00edsico.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Uns quatro meses antes disso, no mesmo bairro, tamb\u00e9m passei pela frente de uma casa onde se iniciava uma festa. Todos da rua, em geral jovens, gritaram coisas agressivas para mim. Evitei a rua.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Mais para tr\u00e1s ainda, h\u00e1 cerca de um ano e meio, quando eu ainda era muito menos musculosa que hoje, um homem velho e bastante acabado ati\u00e7ou o cachorrinho contra mim enquanto eu corria. Me assustei \u2013 a gente sempre se assusta quando est\u00e1 correndo com fone de ouvido, pois n\u00e3o se fica t\u00e3o atenta para o ambiente. Era na avenida principal, o velho caminhava com seu cachorrinho, eram 5:30h ou 6h da manh\u00e3 e o cachorrinho correu para morder minha canela. O velho estimulou: \u201cpega, morde ela!\u201d. Eu respondi que gostava muito de c\u00e3es, mas mataria o cachorro dele se fosse mordida. O velho riu de mim, com uma express\u00e3o de \u00f3dio.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">O que todas essas situa\u00e7\u00f5es t\u00eam em comum \u00e9 a agress\u00e3o gratuita que sofri exatamente no mesmo contexto: correndo sozinha, escutando m\u00fasica, pelas ruas do bairro em que moro. Evito correr em lugares estranhos por medo de agress\u00f5es semelhantes sem que eu tenha uma rota de fuga na cabe\u00e7a. Disso se conclui que o ato de correr na rua com fone de ouvido, em si, deflagra tais comportamentos em certos tipos de pessoa. Que tipo? N\u00e3o sei: entre as tr\u00eas situa\u00e7\u00f5es, houve gente de todas as idades e g\u00eaneros. Homens parecem ser mais vocais nas agress\u00f5es. Num dos casos, os xingamentos das mulheres foram na onda dos homens.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Seria isso uma rea\u00e7\u00e3o a quem corre nas ruas? Como se estiv\u00e9ssemos cometendo algum tipo de ataque ao pudor, expondo uma rela\u00e7\u00e3o transgressora com nossos pr\u00f3prios corpos?<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Mas pensei em outras situa\u00e7\u00f5es. Pensei na estranha hist\u00f3ria do homem fraco e franzino que ficou fascinado por mim numa tarde numa academia de classe m\u00e9dia em que eu treinava e, depois, descobrindo meu site, teve um surto de \u00f3dio e me escreveu v\u00e1rios e-mails ofensivos.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">N\u00e3o quero nem incluir nessa reflex\u00e3o as agress\u00f5es que ocorrem no ambiente virtual, porque essas s\u00e3o estimuladas por fotografias, e n\u00e3o pela minha presen\u00e7a f\u00edsica. Fazem parte de um quadro ainda mais amplo de rea\u00e7\u00e3o \u00e0 imagem. Se feminina ou n\u00e3o, atl\u00e9tica ou n\u00e3o, musculosa ou n\u00e3o, eu me pergunto.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Penso que essas agress\u00f5es s\u00e3o estimuladas por uma mistura de sentimentos ambivalentes, ambival\u00eancia que talvez seja o combust\u00edvel para mais \u00f3dio: a rejei\u00e7\u00e3o a nossos h\u00e1bitos e\/ou est\u00e9tica e a inveja dos mesmos, a exposi\u00e7\u00e3o \u2013 involunt\u00e1ria da nossa parte \u2013 da aliena\u00e7\u00e3o corporal deles, agressores. Talvez um pouco a condi\u00e7\u00e3o s\u00e1dica de intimidar algu\u00e9m que est\u00e1 s\u00f3, quando os agressores est\u00e3o em grupo (ou acompanhados por um cachorro). Talvez o machismo que se ofende diante de mulheres desacompanhadas. <\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">N\u00e3o acho que isso tudo seja t\u00e3o diferente da agress\u00e3o que minha filha e suas amigas sofreram anteontem na praia. Tr\u00eas adolescentes, mulheres, desacompanhadas de homens. Mulheres que jamais aceitariam a aproxima\u00e7\u00e3o sexual dos agressores \u2013 a barreira cultural ali era imensa, elas agem sempre de forma n\u00e3o receptiva (eu as conhe\u00e7o), sempre defensiva (pois s\u00e3o muito jovens e t\u00eam medo). Mulheres que, ainda que em sil\u00eancio e passivamente, os rejeitam.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Ent\u00e3o, na verdade, nenhuma agress\u00e3o \u00e9 realmente gratuita. Numa sociedade t\u00e3o complexa e conflitiva como a nossa, nossa simples presen\u00e7a ou exerc\u00edcio de um h\u00e1bito que nos parece n\u00e3o invasivo (afinal, n\u00e3o fede, n\u00e3o polui, n\u00e3o tem som, n\u00e3o destr\u00f3i nada) \u00e9 uma ofensa. O que existem \u00e9 agress\u00f5es injustas, covardes ou simplesmente incompreens\u00edveis sem um esfor\u00e7o anal\u00edtico. Uma agress\u00e3o machista de forma alguma \u00e9 gratuita, pelo contr\u00e1rio: ela \u00e9 motivada por um desejo absolutamente bem articulado de domina\u00e7\u00e3o de um g\u00eanero pelo outro. Pode ser (e \u00e9) covarde. Injusta. Mas gratuita n\u00e3o \u00e9.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Assim, diante de uma agress\u00e3o, acho uma boa id\u00e9ia tentar entender sua estrutura. Deixar barato, s\u00f3 se for a sa\u00edda mais l\u00f3gica. A priori sou a favor de puni\u00e7\u00e3o e retali\u00e7\u00e3o, sempre, contra atos covardes, opressivos e injustos. Mas que vale a pena ficar de olho porque perigo sempre existe, isso vale: agress\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o gratuitas e seus motivos podem ser poderosas alavancas simb\u00f3licas de domina\u00e7\u00e3o e confronto, e guerra n\u00e3o \u00e9 brincadeira.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><o_p><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">&nbsp;<\/font><\/o_p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Marilia<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><o_p><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">&nbsp;<\/font><\/o_p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><a href=\"http:\/\/www.bodystuff.org\/\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">BodyStuff<\/font><\/a><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><o_p><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">&nbsp;<\/font><\/o_p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><o_p><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">&nbsp;<\/font><\/o_p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 cerca de um m\u00eas, eu corria nas ruas do meu bairro, um condom\u00ednio de classe m\u00e9dia entre S\u00e3o Paulo e Osasco, quando algo perturbador aconteceu. 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