{"id":5379,"date":"2007-06-28T23:01:00","date_gmt":"2007-06-28T23:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/mulheres-de-terra-e-de-ferro\/"},"modified":"2007-06-28T23:01:00","modified_gmt":"2007-06-28T23:01:00","slug":"mulheres-de-terra-e-de-ferro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/mulheres-de-terra-e-de-ferro\/","title":{"rendered":"Mulheres de terra e de ferro"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"BACKGROUND: #ffd9b3; MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><span style=\"COLOR: #993366; FONT-FAMILY: &quot;Century Gothic&quot;\"><font size=\"4\">Este texto foi encomendado por uma revista voltada para o p\u00fablico \u201cculto\u201d, inicialmente aprovado e depois n\u00e3o publicado por falta de acordo meu com a editora que exigiu modifica\u00e7\u00f5es de natureza factual (inaceit\u00e1veis para esta autora). Infelizmente, perdeu a atualidade, pois \u00e9 escrito na primeira pessoa numa posi\u00e7\u00e3o na qual j\u00e1 n\u00e3o me encontro mais. Refere-se a uma realidade onde n\u00e3o fui apenas uma observadora, mas uma participante muito envolvida \u2013 uma realidade que jamais esquecerei, pois foi um dos melhores per\u00edodos da minha vida. Essas pessoas todas est\u00e3o dentro de mim, para sempre. Parais\u00f3polis, Paradise City, sempre.<o_p><\/o_p><\/font><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><o_p><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">&nbsp;<\/font><\/o_p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Silmara estava mais branca do que de costume e franzia um pouco a testa. Elis\u00e2ngela, sua prima, olhava preocupada do lado. Sentada no banco de supino, com os bra\u00e7os apoiados na barra, Silmara esperava instru\u00e7\u00f5es. Gilson olhou, olhou, apertou o antebra\u00e7o da menina e concluiu: \u201cmelhor n\u00e3o treinar hoje. V\u00e1 para casa\u201d. Sem dizer muita coisa, Silmara se levantou e caminhou de cabe\u00e7a baixa pela sala cheia de aparelhos, pegou a bolsa e partiu, acompanhada pela prima. Olhei para Gilson, que acompanhou as meninas com o olhar. \u201c\u00c9&#8230; n\u00e3o sei&#8230;. algumas delas n\u00e3o passam bem mesmo\u201d. <\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Silmara, de 17 anos e Elis\u00e2ngela, de 22, s\u00e3o atletas da GCA, uma academia localizada na Favela de Parais\u00f3polis, em S\u00e3o Paulo. Elas s\u00e3o duas das aproximadamente 15 mulheres, em sua maioria jovens, que comp\u00f5e a equipe de powerlifting que Gilson Clemente dirige. S\u00e3o todas moradoras de Paradise City, como eu chamo o lugar para onde vou todos os dias, exceto aos domingos, desde julho do ano passado. Eu sou a \u00fanica mulher \u201cestrangeira\u201d do grupo \u2013 a \u00fanica que n\u00e3o mora l\u00e1, que n\u00e3o \u00e9 migrante nordestina de primeira ou segunda gera\u00e7\u00e3o, a \u00fanica que n\u00e3o administra desde que nasceu as contradi\u00e7\u00f5es de se viver em Paradise. No come\u00e7o elas estranharam mas em pouco tempo esqueceram minha condi\u00e7\u00e3o de estrangeira. Nos vemos todos os dias, treinamos juntas, comemos juntas, viajamos juntas, dormimos juntas e fazemos as coisas comuns que todas as mulheres fazem: usar a roupa uma da outra, falar de homem e encontrar absorvente para uma emerg\u00eancia. <\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">De vez em quando esque\u00e7o de que n\u00e3o sou nativa de Paradise. Esque\u00e7o da combina\u00e7\u00e3o de choque e encantamento das minhas primeiras idas \u00e0 GCA. Esque\u00e7o de como foi fazer aquela curva na Giovanni Gronchi, que corta os bairros de mais alto poder aquisitivo em S\u00e3o Paulo, e em tr\u00eas quarteir\u00f5es desembocar em Paradise, numa esp\u00e9cie de montanha-russa de IDH (\u00cdndice de Desenvolvimento Humano). Os edif\u00edcios de um apartamento por andar e pre\u00e7o exorbitante d\u00e3o lugar a um mundo de tijolos vermelhos e gente furiosamente construindo o tempo todo algo na laje superior. Esque\u00e7o do que foi entrar na sala de treino da GCA e me achar numa exposi\u00e7\u00e3o de arte contempor\u00e2nea, de apreciar as anilhas coloridas, as barras ol\u00edmpicas, a gaiola azul de ferro onde se pendurava uma barra com dois pneus de caminh\u00e3o fixados em cada ponta, como num m\u00f3bile de Calder, e o Ikebana met\u00e1lico de barras menores. <\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Hoje chego, e fa\u00e7o como todo mundo, em gestos autom\u00e1ticos. Com meu parceiro de treino, Renatinho, anunciamos: \u201c95: vermelha, dez e presilha\u201d. \u00c9 como se comp\u00f5e, com as anilhas (discos de metal com pesos definidos e identificados por cor), uma barra carregada com 95kg. <\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Mas um dia foi diferente. Um dia aquilo tudo era novo, como eram novas as hist\u00f3rias que Gilson, que dirige essa equipe de cerca de 30 atletas, me contava sobre a \u201ceconomia informal\u201d do tr\u00e1fico, sobre a mis\u00e9ria, a falta de perspectiva e sobre a guerra entre pernambucanos e baianos que matou dezenas de pessoas durante anos. Esque\u00e7o at\u00e9 que foi da\u00ed que surgiu nossa id\u00e9ia de criar uma ONG que desse maior estrutura ao esfor\u00e7o que ele j\u00e1 vinha fazendo h\u00e1 alguns anos para atrair para esse esporte duro de levantar pesos a molecada de Paradise, dando a elas um espa\u00e7o de socializa\u00e7\u00e3o mais seguro, um pouco de auto-estima e alguma perspectiva de vida.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><o_p><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">&nbsp;<\/font><\/o_p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><span style=\"COLOR: purple\"><font face=\"Times New Roman\"><font size=\"4\">Gilson nasceu em Paradise, em 1970. Filho mais novo de uma fam\u00edlia de migrantes alagoanos, nasceu quando a fam\u00edlia j\u00e1 vivia com mais conforto. Seu Loro, o pai, j\u00e1 havia se estabelecido como pequeno comerciante na regi\u00e3o, onde at\u00e9 hoje \u00e9 propriet\u00e1rio de um mercado. Gilson tinha tudo para seguir o caminho tra\u00e7ado para as fam\u00edlias mais est\u00e1veis de Paradise e ser, como os irm\u00e3os, mais um pequeno empres\u00e1rio.<o_p><\/o_p><\/font><\/font><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><span style=\"COLOR: purple\"><font face=\"Times New Roman\"><font size=\"4\">O pequeno Gilson cresceu em um mundo violento. Acompanhou, desde cedo, a guerra entre pernambucanos e baianos que dividiu a regi\u00e3o e custou in\u00fameras vidas durante d\u00e9cadas. Mas acompanhou numa condi\u00e7\u00e3o de neutralidade: primeiro, era filho do dono do mercado. Mal ou bem, todos precisam se abastecer e o mercado \u00e9 uma esp\u00e9cie de territ\u00f3rio neutro. Segundo, n\u00e3o partilhava a origem com nenhuma das partes em conflito. <o_p><\/o_p><\/font><\/font><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><span style=\"COLOR: purple\"><font face=\"Times New Roman\"><font size=\"4\">O destino de Gilson parecia ser esse olhar afastado, a perspectiva do observador. Seja por seu lugar na fam\u00edlia, pelo contexto de adolescente vivendo um Brasil que se transformava e inventava uma nova democracia, Gilson n\u00e3o fez o que se esperava dele. Decidiu desde cedo que queria fazer Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica, para desgosto dos pais, e entrou aos 17 anos na universidade.<o_p><\/o_p><\/font><\/font><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><span style=\"COLOR: purple\"><font face=\"Times New Roman\"><font size=\"4\">Desde o primeiro ano da faculdade, Gilson deu aula de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica nas Escolas P\u00fablicas de Paradise. Em 1990, pouco antes de se formar, come\u00e7ou a trabalhar na Escola Estadual Professor Homero dos Santos Fortes, onde permaneceu at\u00e9 1998. Durante esta conviv\u00eancia com crian\u00e7as e jovens crescendo nas contradi\u00e7\u00f5es da pobreza e na falta de perspectiva da exclus\u00e3o, t\u00e3o familiares e ao mesmo tempo afastadas de Gilson, ele foi encontrando um espa\u00e7o e caminhos. Se deu conta de que tinha talento para trein\u00e1-los \u2013 para o que quer que fosse. Tinha lideran\u00e7a e seguran\u00e7a, e sob o seu comando, as crian\u00e7as progrediam. Nessa hora, Gilson ainda n\u00e3o havia encontrado um objetivo claro onde investir seu talento. Em 1991, abriu, numa sociedade com um colega de faculdade, que durou um m\u00eas, uma pequena academia em Paradise, que manteve enquanto exercia sua fun\u00e7\u00e3o de professor e treinador no \u201cHomero\u201d. Em algum ponto, entre este momento e o fim de um noivado bem-comportado, aos 23 anos, ele perdeu o p\u00e9 do pertencimento. O mundo tradicional, nordestino, com seus lugares bem definidos para profiss\u00f5es, rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero, pol\u00edtica, justi\u00e7a e religi\u00e3o, ficou pequeno. O mundo dos colegas de classe m\u00e9dia e fei\u00e7\u00f5es europ\u00e9ias, tamb\u00e9m. <o_p><\/o_p><\/font><\/font><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><span style=\"COLOR: purple\"><font face=\"Times New Roman\"><font size=\"4\">Foi um momento de rupturas: com o fim do noivado e uma nova rela\u00e7\u00e3o com uma mulher de fora, Gilson fechou a pequena academia, saiu de Paradise e se mudou para o Brooklin, onde abriu outra academia voltada para uma popula\u00e7\u00e3o inteiramente diferente. Por quase cinco anos, viveu essa vida alternativa que jamais sentiu inteiramente sua. <o_p><\/o_p><\/font><\/font><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><span style=\"COLOR: purple\"><font face=\"Times New Roman\"><font size=\"4\">Durante essa transi\u00e7\u00e3o marcada pelo fim da faculdade, fim do noivado, fim de uma vida de filho ca\u00e7ula, Gilson descobriu o Powerlifting. Powerlifting \u00e9 um dos \u201cesportes de for\u00e7a\u201d, tamb\u00e9m conhecido como \u201cLevantamento B\u00e1sico\u201d. \u00c9 um esporte constitu\u00eddo por tr\u00eas levantamentos: o agachamento (onde o atleta saca, em p\u00e9, uma barra carregada com pesos nas costas, agacha e retorna a barra ao seu suporte), o supino (onde o atleta, deitado num banco, recebe uma barra carregada com pesos, com os bra\u00e7os estendidos, desce com a barra at\u00e9 o peito e a retorna \u00e0 posi\u00e7\u00e3o original) e o levantamento terra (onde o atleta ergue uma barra carregada com pesos do ch\u00e3o at\u00e9 se colocar na posi\u00e7\u00e3o ereta e depois retorna a barra ao ch\u00e3o). \u00c9 organizado por categorias de peso, sexo e idade. Como os demais esportes de for\u00e7a, o Powerlifting tem uma aura \u201chard-core\u201d, de coisa tosca, com equipamentos desconfort\u00e1veis e com muito barulho de ferro batendo, de gente gritando e som alto de rock pesado. \u00c9, tamb\u00e9m, como os demais esportes de for\u00e7a no Brasil e muitos outros pa\u00edses, um esporte praticado por gente pobre, em academias equipadas com material simples, s\u00f3lido, resistente e sem frescura. <o_p><\/o_p><\/font><\/font><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><span style=\"COLOR: purple\"><font face=\"Times New Roman\"><font size=\"4\">Em 1993, num curso da FEPAM (Federa\u00e7\u00e3o Paulista de Muscula\u00e7\u00e3o), foi divulgado um evento apenas de supino \u2013 at\u00e9 hoje a modalidade mais praticada do Powerlifting. Gilson anotou o endere\u00e7o e foi. Foi, foi desclassificado por n\u00e3o entender as regras mas insistiu. Foi em outro evento logo depois e novamente foi desclassificado. Mas quando um esporte est\u00e1 no sangue, est\u00e1 no sangue: Gilson insistiu e em 1994 come\u00e7ou a ter bons resultados: venceu o &#8220;Paulista de estreantes&#8221; em S\u00e3o Caetano do Sul, o &#8220;Paulista de 2\u00aa categoria&#8221; no Guaruj\u00e1, o &#8220;Paulista de 1\u00aa categoria&#8221; no Palmeiras, a &#8220;Copa SP&#8221; em Mogi das Cruzes e foi convocado para o &#8220;Brasilerio de B\u00e1sico&#8221; em setembro, todos de Powerlifting (n\u00e3o mais apenas de supino). Come\u00e7ou a levar seus pr\u00f3prios atletas para campeonatos de supino \u2013 da\u00ed nasceu o nome da nova academia do Brooklin, \u201cSupino 200\u201d. Animado, fez curso de \u00e1rbitro, de treinamento de for\u00e7a e de tudo que aparecesse \u2013 os certificados, hoje meio amarelados, decoram a sala de alongamentos da GCA at\u00e9 hoje.<o_p><\/o_p><\/font><\/font><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><span style=\"COLOR: purple\"><font face=\"Times New Roman\"><font size=\"4\">Em 1995, Gilson mudou de categoria e passou a enfrentar advers\u00e1rios mais fortes. Os bons resultados foram substitu\u00eddos por posi\u00e7\u00f5es mais baixas, segundos e terceiros lugares. Num campeonato paulista, sofreu uma derrota feia para Demerval Smith e acabou se lesionando por uma combina\u00e7\u00e3o de falta de t\u00e9cnica, raiva e um acesso de frustra\u00e7\u00e3o que fez com que ele jogasse a barra no ch\u00e3o. <o_p><\/o_p><\/font><\/font><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><span style=\"COLOR: purple\"><font face=\"Times New Roman\"><font size=\"4\">A falta de preparo \u2013 t\u00e9cnico, psicol\u00f3gico e de planejamento \u2013 como atleta que produziram maus resultados, as dificuldades administrativas e financeiras da nova academia de bairro caro e a desorganiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do esporte na \u00e9poca tiraram o entusiasmo de Gilson para o Powerlifting. Continuou levando alguns atletas para eventos de supino, mas em menor n\u00famero e n\u00e3o mais disputando as competi\u00e7\u00f5es de maior porte.<o_p><\/o_p><\/font><\/font><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><span style=\"COLOR: purple\"><font face=\"Times New Roman\"><font size=\"4\">Chegava ao fim o tempo de amadurecimento de um projeto: Gilson nunca abandonou Paradise, e, na qualidade de professor e treinador de jovens no \u201cHomero\u201d, foi encontrando as respostas. Eram adolescentes que tinham diante de si a bandidagem e drogas, de um lado, a desagrega\u00e7\u00e3o familiar, de outro, o desemprego ou emprego informal explorat\u00f3rio, de outro e uma bola na m\u00e3o. Suas meninas do handbol arremessavam-nas como balas de canh\u00e3o numa guerra e venciam. E como vencedoras sa\u00edam das quadras, ainda que t\u00e9cnico e atletas sofressem os protestos de professores e times advers\u00e1rios. Gilson sabia canalizar essa energia reprimida e devolver algo perdido a esses jovens. Estilo duro, gritos de guerra e autoridade.<o_p><\/o_p><\/font><\/font><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><span style=\"COLOR: purple\"><font face=\"Times New Roman\"><font size=\"4\">E se em vez da bola fosse uma barra carregada? N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ensinar, e muito menos treinar algu\u00e9m para executar o que se chama de um movimento de \u201cesfor\u00e7o m\u00e1ximo\u201d. Nosso sistema nervoso central precisa ser estimulado, ao longo de um programa longo \u2013 meses e anos -, e \u201caprender\u201d a recrutar as fibras musculares para esse esfor\u00e7o. Mais do que outros esportes, requer uma dose alta de concentra\u00e7\u00e3o e uma confian\u00e7a absoluta no t\u00e9cnico, pois \u00e9 atrav\u00e9s dele que o atleta consegue acreditar em algo que n\u00e3o parece verdade: que ele ir\u00e1, sim, agachar com 100 kg, 130 kg, 150 kg e vencer um campeonato internacional com 160 kg. Mas hoje ele s\u00f3 consegue com 80 kg, tem medo da barra carregada e os joelhos doem muito apertados com a faixa de tecido el\u00e1stico forte que comprime as articula\u00e7\u00f5es. <o_p><\/o_p><\/font><\/font><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><span style=\"COLOR: purple\"><font face=\"Times New Roman\"><font size=\"4\">Em 1998, terminou o per\u00edodo sab\u00e1tico de Gilson e ele retornou a Paradise, abriu a atual GCA no espa\u00e7o que fica atr\u00e1s do mercado do Seu Loro e demitiu-se do \u201cHomero\u201d para manter, com a escola, uma parceria e amizade que n\u00e3o tem fim. Pelas ruas de Paradise, Gilson continua sendo o \u201cprofessor\u201d. Mas na GCA, Gilson preparava-se para transformar um esporte desorganizado e cheio de improvisa\u00e7\u00e3o no maior instrumento de constru\u00e7\u00e3o pessoal, recupera\u00e7\u00e3o de auto-estima e integra\u00e7\u00e3o corporal que a popula\u00e7\u00e3o de Paradise conheceu. <o_p><\/o_p><\/font><\/font><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><span style=\"COLOR: purple\"><font face=\"Times New Roman\"><font size=\"4\">O talento para treinar jovens ele agora aplicava para faz\u00ea-los levantar pesos e a presen\u00e7a firme, olhar duro e gritos de guerra nas competi\u00e7\u00f5es fizeram campe\u00f5es atr\u00e1s de campe\u00f5es na nova era do Powerlifting brasileiro que Gilson ajudava a criar: em 1999, Andr\u00e9 D\u00f3ria, antigo dirigente do esporte, chamou-o para uma reuni\u00e3o. O que se desenrolou nestes \u00faltimos oito anos foi uma completa re-estrutura\u00e7\u00e3o do esporte, onde Gilson \u00e9 a figura estrat\u00e9gica na maior federa\u00e7\u00e3o e confedera\u00e7\u00e3o do pa\u00eds (a Federa\u00e7\u00e3o Paulista de Powerlifting e a Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Levantamentos B\u00e1sicos), exercendo o cargo de diretor t\u00e9cnico. A GCA transformou-se na maior e mais premiada equipe do pa\u00eds, apelidada por amigos e admiradores como \u201ca rataiada da GCA\u201d. <o_p><\/o_p><\/font><\/font><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><span style=\"COLOR: purple\"><font face=\"Times New Roman\"><font size=\"4\">\u201cN\u00e3o vale: o Gilson pega os flanelinhas e bota pra agachar, leva tudo!\u201d, diz um atleta. \u201cFlanelinhas\u201d, \u201cratinhos\u201d, assim s\u00e3o os atletas da GCA: ao contr\u00e1rio dos monstros bem alimentados e pesad\u00edssimos das categorias acima de 100 kg masculinas que fizeram a imagem do esporte no mundo, Gilson leva min\u00fasculas meninas de 40 kg ou 50 kg, garotos de menos de 60 kg, capazes de quebrar todos os records nacionais e se equiparar aos mundiais. <o_p><\/o_p><\/font><\/font><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><span style=\"COLOR: purple\"><font face=\"Times New Roman\"><font size=\"4\">Gilson devolveu, atrav\u00e9s da for\u00e7a muscular, um poder subtra\u00eddo a esses jovens antes de nascer; atrav\u00e9s do dom\u00ednio sobre o corpo e um peso externo, um controle que nunca tiveram sobre suas pr\u00f3prias vidas; atrav\u00e9s da vontade de vencer um campeonato, a capacidade nunca adquirida de sonhar e ter determina\u00e7\u00e3o; e atrav\u00e9s de vit\u00f3rias, uma identidade.<o_p><\/o_p><\/font><\/font><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><span style=\"COLOR: purple\"><font face=\"Times New Roman\"><font size=\"4\">Eu conheci Gilson em julho de 2006, quando essa jornada j\u00e1 estava avan\u00e7ada. Minha hist\u00f3ria com os pesos era outra. Sempre fui atleta, mas foi atrav\u00e9s do treinamento de for\u00e7a que me recuperei de uma desordem grave e, talvez por fasc\u00ednio ou gratid\u00e3o, passei a estudar e a me dedicar a divulgar esportes de for\u00e7a. Ao longo de dois anos, fui percebendo um preconceito generalizado contra quase tudo que diz respeito \u00e0 for\u00e7a: primeiro, entre a comunidade cient\u00edfica e m\u00e9dica, que a estuda pouco e sub-valoriza seu papel na doen\u00e7a e na sa\u00fade. Isso custa vidas (vidas de diab\u00e9ticos, de cardiopatas e portadores de desordens mentais, privados do benef\u00edcio \u00fanico que o treinamento de for\u00e7a lhes traria) e dinheiro aos cofres p\u00fablicos gastos em curar doen\u00e7as que poderiam ser prevenidas. Depois, na est\u00e9tica, que associa muscularidade \u00e0 viol\u00eancia e debilidade intelectual. E finalmente nos esportes, que s\u00e3o praticados pela classe trabalhadora. Dia 18 de fevereiro de 2006, passei por uma situa\u00e7\u00e3o bizarra no centro da cidade de S\u00e3o Paulo quando fui fotografar halteres antigos na Academia Roldan, que fica na esquina da Avenida Ipiranga com S\u00e3o Jo\u00e3o: fui assaltada por um grupo de uns 10 ou mais meninos de rua. O assalto n\u00e3o deu em nada: eu estava no carro, com a janela aberta, eles amea\u00e7avam cortar meu pesco\u00e7o mas n\u00e3o achei a carteira. Desistiram do dinheiro e pediram timidamente meu iogurte, para depois me mandarem \u201ccom Deus\u201d para casa. Sa\u00ed dali com essa id\u00e9ia fixa de que de algum jeito t\u00ednhamos que substituir a cola e o crack por halteres, pois o que mais me chamou aten\u00e7\u00e3o foram os bracinhos finos, mais finos que meus punhos, entrando pela janela do carro. Escrevi um artigo, busquei contatos, algumas pessoas se interessaram em desenvolver algum trabalho mas n\u00e3o deu em nada. O que eu tinha na cabe\u00e7a, naquele momento, era s\u00f3 treinamento e, como esporte, fisiculturismo, que eu conhecia bem. At\u00e9 o final de 2005, nem sabia direito o que era Powerlifting. Descobri em f\u00f3runs internacionais, lendo sobre escolas e modelos de treinamento. Interessada, perguntei a um amigo atleta e fisioterapeuta se ele sabia se no Brasil \u201cisso\u201d era praticado. Ele me deu o e-mail do Gilson e em julho de 2006 eu fiz minha primeira visita \u00e0 GCA. Nunca mais sa\u00ed de l\u00e1. Me tornei atleta da equipe, treino l\u00e1 e ganhei alguns t\u00edtulos no esporte. A identifica\u00e7\u00e3o foi imediata: ali, na minha frente, vi meu sonho implementado. E talvez d\u00e9cadas de um desejo frustrado por per\u00edodos de milit\u00e2ncia est\u00e9ril em partidos oportunistas de esquerda, como \u00e9 o \u201cdefault\u201d na minha gera\u00e7\u00e3o e na anterior a ela. Aos poucos, Gilson e eu amadurecemos o que chamamos de \u201cPrograma Parais\u00f3polis Power\u201d, hoje sendo formalizado como ONG. Sonhamos alto, batemos na porta de ind\u00fastrias em busca de patroc\u00ednio, nos frustramos juntos e hoje acho que somos mais realistas. <o_p><\/o_p><\/font><\/font><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><span style=\"COLOR: purple\"><font face=\"Times New Roman\"><font size=\"4\">O que eu via na GCA n\u00e3o eram os meninos de bra\u00e7os fininhos e cabe\u00e7a de cola recuperados: era um passo anterior. Gilson havia oferecido uma alternativa antes que a \u00fanica fosse a delinq\u00fc\u00eancia. A vida dos atletas dele, no entanto, s\u00e3o o retrato da viol\u00eancia e da dificuldade. O geral, a realidade social, aprendi r\u00e1pido: Parais\u00f3polis \u00e9 nicho paradigm\u00e1tico de todas as formas de exclus\u00e3o. Mas cada vida a expressa de uma nova forma: a mis\u00e9ria \u00e9 criativa. Por meses, fui recebendo informa\u00e7\u00f5es de forma homeop\u00e1tica.<o_p><\/o_p><\/font><\/font><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Ningu\u00e9m fala disso todos os dias \u2013 n\u00e3o d\u00e1: fam\u00edlias n\u00e3o re-lembram estupros, acidentes e horrores na mesa do caf\u00e9-da-manh\u00e3. \u00c9 preciso de um m\u00ednimo de senso de normalidade para tocar a vida. E eu fa\u00e7o parte da fam\u00edlia \u2013 n\u00e3o sou a \u201csoci\u00f3loga residente\u201d em permanente fun\u00e7\u00e3o.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">No entanto, quando pedi a Geisia, a Dani e \u00e0 Dona Teresinha depoimentos para a constru\u00e7\u00e3o da minha est\u00f3ria, as comportas do inferno se abriram. H\u00e1 momentos para estas revela\u00e7\u00f5es em fam\u00edlia e elas sempre t\u00eam um ar inici\u00e1tico. Fui sentada ao lado de cada uma delas para escutar, solenemente, uma \u00fanica vez, as coisas que n\u00e3o devem ser repetidas, mas sim lembradas em sil\u00eancio, para sempre.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Come\u00e7o pela Dani, Daniela Gaud\u00eancio, campe\u00e3 paulista, brasileira e sul-americana de powerlifting em 2006, campe\u00e3 e ganhadora do t\u00edtulo de melhor atleta do campeonato brasileiro de Levantamento Terra de 2006, entre muitos outros t\u00edtulos, uma das primeiras pessoas que vi na GCA. \u00c9 uma das mulheres mais fortes que conheci: nunca passando dos 41kg, Dani \u00e9 dona de v\u00e1rios dos records de levantamento da categoria dela. Jamais imaginaria ouvir dessa garota risonha, brincalhona e de voz fininha que a vida, para ela, havia come\u00e7ado em 2005 com sua entrada na GCA. \u201cAmigos? Que amigos, Mar\u00edlia? Meus amigos s\u00e3o voc\u00eas, minha vida \u00e9 o powerlifting\u201d. Dani nasceu em Pernambuco, h\u00e1 21 anos. Veio para S\u00e3o Paulo com um ano. Tem uma irm\u00e3 e tr\u00eas irm\u00e3os de idade pr\u00f3xima. Desde que a fam\u00edlia migrou para S\u00e3o Paulo, moram em Paradise. Dani nunca havia sa\u00eddo da favela at\u00e9 entrar na faculdade, o ano passado. Est\u00e1 no segundo ano de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica no Mackenzie, onde, por conta de sua boa coloca\u00e7\u00e3o no vestibular, tem bolsa integral. <\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Desde que se lembra por gente, a vida foi dif\u00edcil. A fam\u00edlia de cinco filhos nunca teve boas condi\u00e7\u00f5es financeiras e o pai se meteu em encrencas desde sempre. H\u00e1, no entanto, um grande marcador de tempo na vida de Dani: a pris\u00e3o do pai, quando ela tinha 10 anos. Ficou preso por 10 anos e saiu h\u00e1 pouco tempo. <\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">As cinco crian\u00e7as estudaram na escola p\u00fablica de Paradise, onde a promo\u00e7\u00e3o \u00e9 autom\u00e1tica e o est\u00edmulo ao aprendizado \u00e9 raro. Enquanto Dani completou os estudos e foi capaz de ser aprovada em uma universidade de bom n\u00edvel, um dos irm\u00e3os termina o segundo grau sem muito mais do que a capacidade de escrever o pr\u00f3prio nome. Dani descreve sua inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia como uma esp\u00e9cie de corrida de obst\u00e1culos onde no fim, restou s\u00f3 ela. Suas contempor\u00e2neas foram engravidando antes dos 18 e sumindo pelo mundo. Os meninos, boa parte morreu, assassinada em confus\u00f5es da \u201cbandidagem\u201d. Segundo Dani, aos 13 ou 14 anos os jovens desistem de estudar. Por um lado, a indiferen\u00e7a dos professores e a m\u00e1 qualidade do ensino. Por outro, a falta de perspectiva de ascens\u00e3o social atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o. O desemprego e a ocupa\u00e7\u00e3o informal entre pares e familiares s\u00e3o a regra; curr\u00edculos onde conste o endere\u00e7o de Paradise s\u00e3o quase certeza de rejei\u00e7\u00e3o. Assim, sem recompensa pela educa\u00e7\u00e3o ao alcance de suas vistas, sem valor na socializa\u00e7\u00e3o e sem prazer no conte\u00fado curricular, as crian\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o capazes de aderir ao programa de ensino.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Mesmo antes da pris\u00e3o do pai, as condi\u00e7\u00f5es financeiras eram prec\u00e1rias. Depois dela, ficaram catastr\u00f3ficas, condenando a fam\u00edlia por alguns anos a depend\u00eancia de caridade e as crian\u00e7as a buscarem trabalho. No come\u00e7o, as crian\u00e7as sa\u00edam \u00e0s ruas para pedir comida e assim garantir o b\u00e1sico que a fam\u00edlia consumia. Dani trabalhou desde faxina at\u00e9 ser vendedora e entregadora de folhetos nos far\u00f3is.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Alimenta\u00e7\u00e3o, em Paradise, \u00e9 a \u201cpir\u00e2mide alimentar da pobreza\u201d: na base, os b\u00e1sicos arroz e feij\u00e3o; um pouco acima, itens como caf\u00e9, a\u00e7\u00facar e \u00f3leo; mais acima, a \u201cmistura\u201d, que \u00e9 qualquer fonte de prote\u00edna animal que se possa acrescentar ao arroz e ao feij\u00e3o; acima ainda, e portanto mais raros nos pratos, est\u00e3o os legumes, verduras e frutas. Para Dani, durante a maior parte de sua vida, a refei\u00e7\u00e3o consistia apenas de arroz, feij\u00e3o e ovo. Carne foi algo introduzido h\u00e1 pouco tempo.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Existe uma certa perversidade na solidariedade entre vizinhos e familiares de Paradise. Ningu\u00e9m passa fome de fato porque existe uma rede m\u00ednima de suporte. No entanto, os mais vulner\u00e1veis sofrem abuso de quem est\u00e1 em melhores condi\u00e7\u00f5es. Sabendo da situa\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia de Dani, vizinhas ofereciam 5 reais por uma faxina completa na casa. Sem alternativas, a menina aceitava.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">O pai foi e continua sendo uma figura complicada e desagregadora. A linguagem da viol\u00eancia foi sua base de comunica\u00e7\u00e3o. Segundo Dani, todos na fam\u00edlia falam alto demais e precisaram de ajuda para se ajustar aos padr\u00f5es de \u201cdecibelagem\u201d do mundo \u201caqui fora\u201d, porque n\u00e3o sabiam se expressar sem ser aos gritos. A viol\u00eancia f\u00edsica tamb\u00e9m foi corriqueira durante todo o tempo de conviv\u00eancia do pai com os filhos. Uma vez, o pai perdeu o controle diante de algo trivial \u2013 a menina teria deixado de dar a descarga depois de ir ao banheiro. A resposta foi a agress\u00e3o, que provocou uma perda de 90% de vis\u00e3o no olho esquerdo. O pior, para Dani, \u00e9 que nem culpa ela tinha, j\u00e1 que toda a confus\u00e3o foi gerada pelo coco de um gato&#8230;<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Por outro lado, o pai sempre incentivou os filhos ao esporte. Desde pequena, Dani participou de atividades dentro e fora da escola e seu pai chegou a pagar aulas de capoeira para ela. Hoje, sempre premiada, Dani leva os trof\u00e9us para o pai ver depois de cada competi\u00e7\u00e3o de powerlifting. Dos filhos todos, \u00e9 a \u00fanica com alguma proximidade com ele.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Dani tem uma irm\u00e3 que seguiu um caminho semelhante ao dela, estudando e entrando na universidade, onde cursa direito. Os irm\u00e3os, no entanto, seguiram o modelo dominante e deixaram os estudos. Dois j\u00e1 se meteram em encrencas e foram presos. Os dois primeiros namorados da irm\u00e3 foram assassinados na \u201cbandidagem\u201d. Tudo isso fez com que fosse urgente para Dani sair do ambiente dom\u00e9stico. A alternativa para isso foi o casamento, aos 17 anos, com o primeiro namorado. <\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">At\u00e9 ent\u00e3o, Dani cresceu como um menino. Jamais usava roupas femininas ou tinha cuidados est\u00e9ticos com cabelos, unhas e pele. Ricardo, o namorado, foi a primeira pessoa a v\u00ea-la como mulher. Incentivava sua vaidade feminina, dava-lhe roupas e pagava cabeleireiro e manicure. O pedido de casamento foi transmitido ao pai encarcerado e finalmente Dani ganhou a liberdade do ambiente estressante da fam\u00edlia. O casamento terminou o ano passado. Dani pensou um pouco e disse: \u201co motivo da separa\u00e7\u00e3o foi a pobreza&#8230;\u201d. Segundo ela, viver em um \u00fanico c\u00f4modo com algu\u00e9m corr\u00f3i qualquer rela\u00e7\u00e3o. Ela pensa que se vivessem com mais conforto, numa casa maior, n\u00e3o estariam separados. N\u00e3o brigaram \u2013 simplesmente a \u201ctaxa de infelicidade\u201d chegou num limite que Dani considerou excessiva. Para ela, a vida s\u00f3 \u00e9 feliz no powerlifting, por enquanto, mas tem esperan\u00e7as que dele a felicidade se expanda. Ela se v\u00ea, formada, trabalhando em Paradise com atletas como ela mesma, que vivem dificuldades na vida fora do tablado e das barras, ajudando-os a superar obst\u00e1culos atrav\u00e9s da psicologia esportiva. <\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Hoje, Dani consegue se ver como vencedora. Mas o caminho para esta imagem positiva passou e passa o tempo todo pelo powerlifting: foram as vit\u00f3rias no esporte que constru\u00edram essa Dani-2007, que sabe que \u00e9 forte por dentro e por fora e que tem orgulho \u2013 e n\u00e3o vergonha, como antes \u2013 de ser moradora de Paradise.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Seis anos mais jovem que Dani, Geisia dos Santos, campe\u00e3 paulista, brasileira e vice-sul-americana da categoria pr\u00e9-juvenil, tem uma percep\u00e7\u00e3o mais difusa dos perigos, armadilhas e alternativas em Paradise. Nascida em Alagoas, veio com a fam\u00edlia com apenas um ano. Tem uma irm\u00e3 mais velha. Geisia \u00e9 uma das exce\u00e7\u00f5es entre a molecada com quem convivo: a \u00fanica que nunca perdeu um ano letivo. N\u00e3o estuda em Paradise, e sim no bairro vizinho do Itaim, por determina\u00e7\u00e3o do pai. L\u00e1 a escola \u00e9 bem melhor, os professores n\u00e3o faltam e ela \u00e9 uma aluna aplicada. Gosta de matem\u00e1tica e de f\u00edsica e pretende fazer Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica na faculdade. O acesso \u00e0 rua para brincar com amigos durante a inf\u00e2ncia foi e \u00e9 at\u00e9 hoje restrito. Algu\u00e9m sempre vigiava as crian\u00e7as e Geisia tem hora para chegar em casa. Ela entende os cuidados e at\u00e9 repress\u00e3o dos pais. Contou que assistiu uma execu\u00e7\u00e3o de dois rapazes. Num dia em que a rua estava cheia de gente, uma das v\u00edtimas estava na rodinha dela. Afastou-se um pouco e foi para outra rodinha. O assassino se aproximou, atirou nos dois e saiu caminhando no meio dos gritos e correria. Seu pai saiu de casa, ouvindo o barulho dos tiros, e gritou para que ela entrasse. Ela n\u00e3o sabe qual foi \u201ca treta\u201d mas desconfia de falta de pagamento pelo fornecimento de drogas. <\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Drogas e tr\u00e1fico s\u00e3o assuntos complicados. Para ela, \u00e9 um mundo cercado de placas de \u201cperigo\u201d. Acudiu uma amiga que usou o que ela imagina ter sido apenas maconha, mas que passou muito mal. Observa as meninas que se envolvem com traficantes vivendo num clima de terror, j\u00e1 que os namorados s\u00e3o presos e paira uma amea\u00e7a sobre a fidelidade delas \u201caqui fora\u201d. Vida de mulher de traficante \u00e9 dif\u00edcil e opressiva, na percep\u00e7\u00e3o dela. <\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Sobre sua condi\u00e7\u00e3o feminina, Geisia se mostra um pouco perplexa. Aos 14 anos, com cerca de 1,76m, pesando bem distribu\u00eddos 72 a 73kg, Geisia \u00e9 facilmente tomada por uma mulher de seus 20 anos. Em Paradise, as mulheres n\u00e3o t\u00eam muito tempo para hesita\u00e7\u00f5es e ambival\u00eancias. N\u00e3o vivem a suave e longa gangorra entre inf\u00e2ncia e idade adulta das meninas de classe-m\u00e9dia. As meninas se tornam mulheres da noite para o dia. E acordam num mundo muito mais dif\u00edcil e hostil. Aprendem umas com as outras as estrat\u00e9gias para evitar o ass\u00e9dio masculino, evitam o confronto, mas sabem bater. Geisia observa suas contempor\u00e2neas, muitas das quais j\u00e1 engravidaram. Com a gravidez, \u00e9 decretado o fim da inf\u00e2ncia e da imaturidade: acabam-se os estudos e come\u00e7a a vida dura de m\u00e3e pobre. Em geral, se o pai assume a paternidade, o casal vai morar na casa de um dos av\u00f3s. Conflitos inevit\u00e1veis se desenvolvem e muitas vezes a separa\u00e7\u00e3o. Av\u00f3s, tias e amigas se revezam nos cuidados ao beb\u00ea. Geisia j\u00e1 tomou conta de beb\u00eas de primas e amigas. Tem medo de um destino parecido comprometer seu projeto de estudar e tamb\u00e9m de satisfazer o sonho do pai de dar \u00e0 filha uma perspectiva diferente da sua, de arrimo de fam\u00edlia sem prim\u00e1rio conclu\u00eddo e motorista de lota\u00e7\u00e3o.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">A escola de Geisia criou um programa de educa\u00e7\u00e3o sexual com distribui\u00e7\u00e3o gratuita de camisinhas. No entanto, as meninas n\u00e3o pegaram sua quota, com medo de vistorias \u00e0s bolsas em casa. <\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\"><font size=\"4\">Como boa parte da popula\u00e7\u00e3o de Paradise, Geisia \u00e9 negra. Aprendeu com a m\u00e3e a valorizar os padr\u00f5es est\u00e9ticos da ra\u00e7a e a reagir \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o. Por enquanto, sem muitas palavras, mas com gestos decididos: encheu de hematomas um colega de escola que fez coment\u00e1rios racistas diante dela. <o_p><\/o_p><\/font><\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Paradise \u00e9 um mundo pobre e nordestino: 80% da popula\u00e7\u00e3o tem origem nos estados do Nordeste. Essa combina\u00e7\u00e3o pode explicar as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero, que combinam a opress\u00e3o da pobreza com muito de tradicional, tanto no machismo de homens e mulheres, como na cobran\u00e7a a um amadurecimento precoce das meninas. <\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Dona Teresinha, penta-campe\u00e3 brasileira (2000-2005), campe\u00e3 sul-americana em 2003, 2004 e 2006 e vice-campe\u00e3 mundial em 2002 (entre dezenas de outros t\u00edtulos), 53 anos, veio de Pernambuco h\u00e1 25 anos diretamente para Paradise, onde j\u00e1 vivia uma irm\u00e3. Casada, com 6 filhos, a fam\u00edlia de pequenos sitiantes foi expulsa pela seca. Os n\u00fameros 25 (anos) e 6 (filhos) podem variar, j\u00e1 que certeza mesmo s\u00f3 tenho que ela nasceu em 1953. O resto \u00e9 um pouco aproximado. Casou-se com 14 anos e s\u00f3 parou de ter filhos quando chegou ao oitavo. Diz ela que aos 14 anos era muito boba, n\u00e3o sabia de nada. Mas aos 18 ou 20 era uma mulher adulta, m\u00e3e de fam\u00edlia numerosa, administrando a migra\u00e7\u00e3o de todos para uma terra desconhecida em busca de um futuro qualquer, j\u00e1 que onde estava s\u00f3 lhe restava a fome. Em Paradise, alojaram-se com a irm\u00e3 por pouco tempo e logo se mudaram para um barraco, onde at\u00e9 hoje mora a fam\u00edlia de D. Teresinha, agora numa casa de bloco. Desse come\u00e7o dif\u00edcil num barraco de t\u00e1buas, ela lembra das noites sozinha encolhida em cima da cama chorando com medo das baratas paulistas. O marido trabalhava no per\u00edodo noturno, na Monark, e ela ficava em casa com os seis filhos e mais um na barriga, em estado de p\u00e2nico. Nunca tinha visto baratas t\u00e3o grandes e voadoras. <\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Foram 15 anos de trabalho duro na Monark para Seu Jos\u00e9 Waldir, que hoje ainda trabalha no Cemit\u00e9rio Getsemani. Todo o dinheiro do m\u00eas ficava no mercado para pagar as contas de suprimentos. At\u00e9 que, depois de nascido o \u00faltimo filho, D. Teresinha tamb\u00e9m foi trabalhar. Tendo estudado apenas at\u00e9 a 4\u00aa s\u00e9rie, restou o trabalho mais duro, da faxina. Trabalhou no Portal do Morumbi, onde limpava o sal\u00e3o de gin\u00e1stica, e depois no Col\u00e9gio Porto Seguro. Como tantos em Paradise, n\u00e3o conseguiu mais emprego, que, com a idade, foi ficando mais e mais dif\u00edcil. H\u00e1 alguns anos parou de trabalhar em empregos externos e mant\u00e9m um \u201cbotequinho\u201d,onde vende balas, tubaina e pinga. O que mais sai \u00e9 pinga, que, segundo ela, \u00e9 um grande problema no bairro. As tr\u00eas mulheres \u2013 Dani, Geisia e D. Teresinha &#8211; foram un\u00e2nimes em afirmar que o alcoolismo \u00e9 o principal problema familiar e origem das separa\u00e7\u00f5es em Paradise. D. Teresinha impressiona-se vendo os b\u00eabados pela rua, com seus p\u00e9s inchad\u00edssimos. <\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">H\u00e1 12 anos ela procurou Gilson por causa de dores nas costas e imediatamente come\u00e7ou a competir no powerlifting. O marido tentou afast\u00e1-la da academia, como tantos outros maridos machistas em Paradise. N\u00e3o conseguindo, passou a reclamar dos gastos de D. Teresinha com o esporte, em equipamentos e viagens. Ela n\u00e3o d\u00e1 bola. <\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Com marido, tr\u00eas filhos em casa, tr\u00eas netos sob seus cuidados e mais o botequinho, D. Teresinha segue em frente. Tudo requer foco e concentra\u00e7\u00e3o, e nisso ela \u00e9 muito competente. Treinar duro, competir sempre para vencer (ela nunca foi desclassificada num campeonato) e mostrar que mesmo s\u00f3 com o arroz-e-feij\u00e3o-nosso-de-cada-dia, as mulheres de Paradise v\u00e3o, chegam e levam os trof\u00e9us. \u201cTem aquelas fortona que toma um monte de coisa, n\u00f3s s\u00f3 tem a for\u00e7a do bra\u00e7o e ainda leva o primeiro lugar (sic.)\u201d.<\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Eu tomo suplementos, um monte. Nos treinos e competi\u00e7\u00f5es, tomo minhas bolinhas e meus p\u00f3s dilu\u00eddos com \u00e1gua. Minhas irm\u00e3s de Paradise me olham desconfiadas. Ofere\u00e7o, \u00e0s vezes at\u00e9 irritantemente, e n\u00e3o sei como ser\u00e1 quando chegar o suplemento que estamos lutando para conseguir de um patrocinador. Elas preferem tudo a seco, na ra\u00e7a, com a for\u00e7a do bra\u00e7o e das entranhas. <\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">Estranhas mulheres, mais feitas de terra e de ferro que de carne-e-osso. <\/font><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><o_p><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">&nbsp;<\/font><\/o_p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify\"><o_p><font face=\"Times New Roman\" size=\"4\">&nbsp;<\/font><\/o_p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto foi encomendado por uma revista voltada para o p\u00fablico \u201cculto\u201d, inicialmente aprovado e depois n\u00e3o publicado por falta de acordo meu com a editora que exigiu modifica\u00e7\u00f5es de natureza factual (inaceit\u00e1veis para esta autora). 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