{"id":5487,"date":"2011-07-03T21:05:00","date_gmt":"2011-07-03T21:05:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/do-jogo-ao-esporte-o-que-sao-federacoes\/"},"modified":"2011-07-03T21:05:00","modified_gmt":"2011-07-03T21:05:00","slug":"do-jogo-ao-esporte-o-que-sao-federacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/do-jogo-ao-esporte-o-que-sao-federacoes\/","title":{"rendered":"Do jogo ao esporte: o que s\u00e3o Federa\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: medium; \"><br \/><span style=\"font-size: large; \"><strong>Jogos, esporte e esporte moderno: colocando pontos nos i&rsquo;s<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Talvez pelo benef&iacute;cio da maturidade, eu n&atilde;o me caso. N&atilde;o me caso com modelos, n&atilde;o me caso com teorias, nem com ideologias ou religi&otilde;es &ndash; nada disso. Isso evita sectarismo e cegueira. No entanto, &eacute; preciso negociar par&acirc;metros m&iacute;nimos de entendimento de termos e conceitos para que se possa dialogar com um &ldquo;outro&rdquo;. Comunicar uma id&eacute;ia ou tese a muitos, ent&atilde;o, requer que antes de mais nada tenhamos a serenidade para admitir que raramente h&aacute; consenso quanto a eles. <br \/>O tema desta discuss&atilde;o &eacute; um convite a essa armadilha comunicativa e, se n&atilde;o tomarmos alguns cuidados b&aacute;sicos, logo estaremos todos berrando numa Babel esportiva. Por &ldquo;esporte&rdquo;, &ldquo;jogo&rdquo;, &ldquo;regra&rdquo; ou &ldquo;federa&ccedil;&atilde;o&rdquo;, cinco pessoas podem estar se referindo a coisas inteiramente diferentes e n&atilde;o-tradut&iacute;veis, usando exatamente as mesmas palavras.<br \/>Guttman (2007, p.1-3) define esporte dentro do contexto dos conceitos de brincadeira (play), jogo (game) e disputa (contest). A brincadeira seria uma express&atilde;o humana universal de atividade &ldquo;autot&eacute;lica&rdquo;, ou seja, governada por seus pr&oacute;prios prop&oacute;sitos. As brincadeiras podem ser espont&acirc;neas ou organizadas. Uma brincadeira espont&acirc;nea seria o ato de jogar pedrinhas num lago. Brincadeiras organizadas, determinadas por c&oacute;digos ou regras, seriam brincar de casinha, palavras-cruzadas, jogo da mem&oacute;ria, bolinha de gude ou basquete. Para Guttman, as brincadeiras organizadas s&atilde;o &ldquo;jogos&rdquo;. Os jogos, por sua vez, podem ser competitivos ou n&atilde;o competitivos. Brincar de casinha ou palavras-cruzadas n&atilde;o s&atilde;o competitivos, enquanto jogo da mem&oacute;ria, bolinha de gude ou basquete s&atilde;o. Os jogos competitivos seriam as disputas (contests), os quais, segundo o autor, podem ser divididos entre aqueles que dependem de habilidades f&iacute;sicas e os que n&atilde;o dependem. O esporte seria a disputa que depende de habilidades f&iacute;sicas. No modelo de Guttman, o jogo da mem&oacute;ria (assim como o xadrez) n&atilde;o seriam esportes, enquanto a bolinha de gude e o basquete seriam.<br \/>&Eacute; um modelo muito interessante, mas problem&aacute;tico: o primeiro problema que tenho certeza que o leitor identificou &eacute; o enquadramento do xadrez. &ldquo;Mas o xadrez n&atilde;o &eacute; inclusive um esporte ol&iacute;mpico??&rdquo;, pergunta, perplexo. Sim, &eacute;. Guttman n&atilde;o concorda, o Comit&ecirc; Ol&iacute;mpico sim. Guttman &eacute; um historiador, o Comit&ecirc; Ol&iacute;mpico &eacute; o &Oacute;rg&atilde;o de Governan&ccedil;a  M&aacute;ximo do esporte moderno &ndash; o Comit&ecirc; Ol&iacute;mpico ganha, na opini&atilde;o p&uacute;blica. <br \/>H&aacute; um segundo problema menos &oacute;bvio, mas mais interessante no que diz respeito ao tema de nossa discuss&atilde;o. E o jogo de bolinha de gude? Tem regras mais ou menos definidas (mas que precisam ser negociadas pela molecada a cada partida), depende de habilidades f&iacute;sicas e &eacute; competitivo. Quem ganhar &eacute; inclusive premiado, em geral, com as bolinhas de gude dos demais jogadores. Jogo de bolinha de gude &eacute; esporte? Guttman possivelmente diria que sim, mas o bom-senso e boa parte dos soci&oacute;logos e historiadores do esporte diriam que n&atilde;o . Ao contr&aacute;rio do basquete, o jogo de bolinha de gude n&atilde;o foi INSTITUCIONALIZADO. <br \/>Os mais radicais dizem peremptoriamente que se n&atilde;o est&aacute; institucionalizado, n&atilde;o &eacute; ESPORTE, ponto final. Isso excluiria todas as formas de jogo precursoras do que hoje conhecemos como lan&ccedil;amento de dardo, corrida e outras pr&aacute;ticas que t&ecirc;m registros antigos, at&eacute; mesmo nos jogos Pan-Hel&ecirc;nicos.<br \/>Para dar mais precis&atilde;o e rigor &agrave; discuss&atilde;o, e ao mesmo tempo silenciar o sectarismo, vou me referir ao &ldquo;esporte moderno&rdquo; como jogo institucionalizado. <br \/>As quest&otilde;es que justificaram este debate sobre a natureza, estado atual e contradi&ccedil;&otilde;es das federa&ccedil;&otilde;es esportivas pertencem ao contexto do esporte moderno, plenamente institucionalizado e inserido numa realidade econ&ocirc;mica complexa. Todos os problemas que emergem destas contradi&ccedil;&otilde;es &ndash; representatividade, democracia participativa, profissionaliza&ccedil;&atilde;o, amadorismo e apoio financeiro, papel social do esporte de alto rendimento, entre outros &ndash; pertencem a este cen&aacute;rio, e n&atilde;o &agrave;s formas precursoras. <br \/>No entanto, assim como n&atilde;o se podem compreender os conflitos e jogos de interesses envolvidos nas guerras federativas ou na comercializa&ccedil;&atilde;o de eventos e profissionaliza&ccedil;&atilde;o de atletas fora desta realidade moderna, n&atilde;o se podem entender parte das contradi&ccedil;&otilde;es individuais dos praticantes com tudo isso sem considerar a milenar hist&oacute;ria das pr&aacute;ticas precursoras do esporte moderno. O ethos de honra e disciplina, fraternidade e devo&ccedil;&atilde;o herdados de tradi&ccedil;&otilde;es marciais ou guerreiras ocidentais batem de frente com boa parte da l&oacute;gica pol&iacute;tica, econ&ocirc;mica e institucional do esporte moderno. <br \/>Esse conflito de forma alguma expressa um passado &ldquo;bom&rdquo; e um presente &ldquo;ruim&rdquo; e nem vice-versa. No entanto, os valores tradicionais fazem parte da identidade do praticante e da pr&aacute;tica &ndash; que modernamente se transformou em esporte. Peguemos, por exemplo, as artes marciais asi&aacute;ticas. O ber&ccedil;o original da maioria delas &eacute; uma China antiga imersa em mitos, da qual temos conhecimento atrav&eacute;s de registros arqueol&oacute;gicos e relatos escritos quase dois mil anos depois dos eventos e situa&ccedil;&otilde;es. Durante estes primeiros mil&ecirc;nios e at&eacute; boa parte da era crist&atilde;, as artes marciais eram pr&aacute;ticas transmitidas por linhagem familiar e mon&aacute;stica, regidas por c&oacute;digos de &eacute;tica muito influenciados pelas religi&otilde;es locais (budismo, zen-budismo, tao&iacute;smo e xinto&iacute;smo). No s&eacute;culo XX elas passaram por grandes transforma&ccedil;&otilde;es, no compasso da turbul&ecirc;ncia pol&iacute;tica atravessada pela China e outros pa&iacute;ses asi&aacute;ticos. Tornaram-se pr&aacute;ticas culturais de &ldquo;coes&atilde;o nacional&rdquo;, depois ferramentas de combate desarmado de organismos militares at&eacute; chegar &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de ESPORTES DE COMBATE. Sejamos sinceros: &eacute; imposs&iacute;vel (e indesej&aacute;vel) que estes modernos esportes de combate n&atilde;o tragam marcas profundas de seu passado tradicional. Mesmo que o jovem atleta de tae-kwon-do, hoje um esporte ol&iacute;mpico, n&atilde;o fa&ccedil;a a mais remota id&eacute;ia do que sejam as guerras end&ecirc;micas que varreram a &Aacute;sia quando seu esporte foi formado e muito menos tenha no&ccedil;&otilde;es de disciplina mon&aacute;stica, em sua forma&ccedil;&atilde;o existem elementos que remontam a esta origem. A retid&atilde;o moral, as virtudes variadas, a devo&ccedil;&atilde;o filial ao mestre acabam se chocando contra a l&oacute;gica dos jogos de interesses federativos, satisfa&ccedil;&atilde;o do patrocinador e profissionaliza&ccedil;&atilde;o (ou &ldquo;quasi&rdquo;-profissionaliza&ccedil;&atilde;o).<br \/>N&atilde;o h&aacute; nada de errado com a profissionaliza&ccedil;&atilde;o. In&uacute;meros estudiosos mostraram, atrav&eacute;s de cuidadosas pesquisas hist&oacute;ricas, como a profissionaliza&ccedil;&atilde;o levou &agrave; democratiza&ccedil;&atilde;o dos esportes. Antes privil&eacute;gio de aristocratas e burgueses &ndash; os &ldquo;amadores&rdquo;, que podiam praticar por &ldquo;amor&rdquo; e sem remunera&ccedil;&atilde;o os mesmo por vantajosa condi&ccedil;&atilde;o familiar -, estes esportes passaram a ser praticados por atletas vindos das classes trabalhadoras quando foram remunerados.<br \/>Assim como a institucionaliza&ccedil;&atilde;o, a profissionaliza&ccedil;&atilde;o do esporte &eacute; um fen&ocirc;meno do s&eacute;culo XIX e XX.<br \/>As federa&ccedil;&otilde;es esportivas, ou &ldquo;organismos de governan&ccedil;a do desporto&rdquo;, s&atilde;o os cen&aacute;rios organizativos e f&oacute;runs onde desembocam todos os interesses pol&iacute;ticos e econ&ocirc;micos que d&atilde;o forma ao esporte moderno. Nem boas, nem ruins, as federa&ccedil;&otilde;es s&atilde;o elementos constitutivos do esporte moderno. Assim como sua origem tem uma hist&oacute;ria documentada e narr&aacute;vel, sua din&acirc;mica pode ser analisada segundo as for&ccedil;as em opera&ccedil;&atilde;o. A exist&ecirc;ncia de federa&ccedil;&otilde;es &uacute;nicas por esporte naqueles que s&atilde;o ol&iacute;mpicos tem uma origem e um mecanismo de controle. A multiplicidade de federa&ccedil;&otilde;es em outros esportes obedece a din&acirc;micas igualmente analis&aacute;veis. <br \/>Como a neutralidade &eacute; t&atilde;o hip&oacute;crita quanto ignorar a complexidade estrutural da realidade, opto por explicitar minha tese e tamb&eacute;m meus princ&iacute;pios normativos. A tese &eacute; a de que, da mesma forma que um conjunto de determinantes hist&oacute;ricos levaram a forma&ccedil;&atilde;o de estruturas de governan&ccedil;a no esporte (federa&ccedil;&otilde;es) de car&aacute;ter monopol&iacute;stico e unificado at&eacute; os anos 1950-1980, outros tantos fatores de uma nova realidade econ&ocirc;mica e pol&iacute;tica, caracter&iacute;sticas da globaliza&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;nea, contribuem para a diversifica&ccedil;&atilde;o e diferencia&ccedil;&atilde;o das formas organizativas. Nenhuma das duas &eacute; intrinsecamente boa nem ruim: ambas cont&eacute;m elementos de perversidade e vantagens relativas a este ou aquele ator do cen&aacute;rio esportivo. Se existem &ldquo;lados&rdquo;, o meu &eacute; o do bem-estar e respeito ao atleta e praticante do esporte, bem como o da defesa do ben&eacute;fico papel social e cultural do esporte &ndash; seja ele de alto rendimento ou comunit&aacute;rio. Assim, ao mesmo tempo em que o exerc&iacute;cio autorit&aacute;rio do monop&oacute;lio pol&iacute;tico por parte de dirigentes federativos &eacute; indesej&aacute;vel e contra os interesses maiores da humanidade, o retorno a estruturas desregradas onde caciques locais imperam &eacute; ainda mais nefasta.<br \/>O dilema que todos enfrentamos s&oacute; pode ser resolvido com transpar&ecirc;ncia e corajoso enfrentamento das insatisfa&ccedil;&otilde;es e problemas identificados amplamente por atletas de todas as partes do mundo.<br \/>Que venha a roupa suja: n&oacute;s a lavaremos com o sab&atilde;o da intelig&ecirc;ncia, da &eacute;tica e do bom-senso. <\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: large; \">O esporte moderno e o nascimento das Organiza&ccedil;&otilde;es de Governan&ccedil;a do Esporte<br \/><\/span><\/strong><br \/>Este &ldquo;esporte moderno&rdquo; do qual estamos falando nasceu no s&eacute;culo XIX, na Inglaterra, com a institucionaliza&ccedil;&atilde;o do futebol e outros esportes. Este formato vem se difundindo para outras pr&aacute;ticas corporais e jogos at&eacute; hoje.<br \/>O exemplo ilustrativo do futebol e rugby &eacute; de um jogo originalmente sem regras escritas cujas origens remontam ao s&eacute;culo XIV. Praticado por multid&otilde;es e de natureza arruaceira, essa atividade permaneceu uma de tantas outras atividades pr&eacute;-industriais at&eacute; cerca de 1750, quando foi incorporado pelas escolas p&uacute;blicas inglesas. O jogo, ent&atilde;o, passou a sofrer um processo de normatiza&ccedil;&atilde;o e imposi&ccedil;&otilde;es disciplinares, analogamente a outras atividades dos estudantes sob o poder da burocracia da escola. A partir de 1840 estes jogos, agora j&aacute; disciplinados, viveram uma turbul&ecirc;ncia de conflitos sobre regras, ao mesmo tempo em que se formaram clubes independentes para sua pr&aacute;tica. <br \/>O resultado foi a bifurca&ccedil;&atilde;o entre o rugby e o futebol. Numa discuss&atilde;o acalorada que ganhou a grande imprensa, diversos atores envolvidos no que ficou conhecido como a &ldquo;rivalidade Eton-Rugby&rdquo; criaram a Football Association (FA) em 1863 e a Rugby Football Union (RFU) em 1871. Os conflitos, que se manifestavam principalmente em diverg&ecirc;ncias quanto a regras, amadureceram e geraram as primeiras express&otilde;es das Organiza&ccedil;&otilde;es de Governan&ccedil;a do Desporto. (Dunning et al 2004, p. 47).<\/p>\n<p><span style=\"font-size: large; \"><strong>Governan&ccedil;a e os jogos Ol&iacute;mpicos<\/strong><\/span><\/p>\n<p>O surgimento das ligas e federa&ccedil;&otilde;es por esporte foi seguido pelo fen&ocirc;meno das Olimp&iacute;adas da Era moderna.<br \/>As Olimp&iacute;adas da Era Moderna come&ccedil;aram como uma cria&ccedil;&atilde;o intelectual do Bar&atilde;o de Coubertin e seus associados, que projetaram uma atividade internacional recorrente a cada quatro anos onde o orgulho nacional se expressasse sob a forma de feitos esportivos. A for&ccedil;a motriz por tr&aacute;s desta iniciativa era a humilha&ccedil;&atilde;o francesa pela derrota de 1871 na guerra franco-prussiana. Desde sua primeira vers&atilde;o em 1896, em Atenas, at&eacute; hoje, os jogos foram marcados pela rivalidade nacional contida e regulamentada por uma burocracia organizativa que foi se tornando cada vez mais complexa. Desde 1908, Comit&ecirc;s Ol&iacute;mpicos Nacionais foram envolvidos na organiza&ccedil;&atilde;o dos eventos, os quais passaram rapidamente a se estruturar em cada pa&iacute;s. O Comit&ecirc; Ol&iacute;mpico Internacional funciona com duas redes de organiza&ccedil;&otilde;es de governan&ccedil;a esportiva: os Comit&ecirc;s Ol&iacute;mpicos Nacionais e as Federa&ccedil;&otilde;es Internacionais por Esporte. O que o COI faz &eacute; aprovar ou n&atilde;o uma modalidade como esporte ol&iacute;mpico, entronizando uma Federa&ccedil;&atilde;o Internacional como seu representante oficial. A partir da&iacute;, a organiza&ccedil;&atilde;o de fato dos eventos competitivos compete &agrave;s duas estruturas mencionadas (Senn 1999).<br \/>Os interesses pol&iacute;ticos e econ&ocirc;micos que foram sendo catalisados pelos jogos ol&iacute;mpicos se converteram em concentra&ccedil;&atilde;o de poder nas Federa&ccedil;&otilde;es Internacionais e nos Comit&ecirc;s Ol&iacute;mpicos Nacionais. Esta concentra&ccedil;&atilde;o s&oacute; aumentou ap&oacute;s a segunda guerra mundial, quando as Olimp&iacute;adas se transformaram num palco de disputa ideol&oacute;gica cujos bastidores eram a contra-partida esportiva e t&eacute;cnica da Guerra Fria. Valia tudo quando o pre&ccedil;o era o maior n&uacute;mero de medalhas ol&iacute;mpicas. <br \/>O outro fator decisivo para a concentra&ccedil;&atilde;o de poder e import&acirc;ncia nestes &oacute;rg&atilde;os de governan&ccedil;a foi o crescimento da ind&uacute;stria do esporte, comandada pela ind&uacute;stria de equipamentos e a ind&uacute;stria de entretenimento, particularmente a transmiss&atilde;o televisiva dos jogos.<br \/>Com a exig&ecirc;ncia de Federa&ccedil;&otilde;es internacionais unificadas por esporte, com organismos nacionais an&aacute;logos em &acirc;mbito local, os esportes adquiriam uma maior padroniza&ccedil;&atilde;o. Ao mesmo tempo, na pr&aacute;tica se instalou um monop&oacute;lio absoluto de direitos pol&iacute;ticos e econ&ocirc;micos sobre as atividades de cada esporte. Este monop&oacute;lio se expressa tanto no que diz respeito &agrave; legitimidade de negocia&ccedil;&atilde;o junto a &oacute;rg&atilde;os governamentais, como na manipula&ccedil;&atilde;o de direitos de transmiss&atilde;o de imagem e outras iniciativas de implica&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica (Andreff &amp; Szymanski 2006, p. 228-249).<\/p>\n<p><\/span><strong><span style=\"font-size: medium; \">As federa&ccedil;&otilde;es, o poder e o atleta<\/span><\/strong><span style=\"font-size: medium; \"><\/p>\n<p><\/span><\/p>\n<div><span style=\"font-size: medium; \">Essa sensa&ccedil;&atilde;o desconfort&aacute;vel que muitos atletas sentem ao serem inseridos nos sistemas federativos de que &ldquo;esse neg&oacute;cio n&atilde;o &eacute; bem meu&rdquo; foi estudada por soci&oacute;logos e antrop&oacute;logos. <br \/>Vimos que as Federa&ccedil;&otilde;es, ou &Oacute;rg&atilde;os de Governan&ccedil;a do Desporto, s&atilde;o as formas organizativas que o processo de institucionaliza&ccedil;&atilde;o do esporte assume. Quando falamos de &ldquo;institucionaliza&ccedil;&atilde;o&rdquo;, em geral nos referimos a padr&otilde;es caracter&iacute;sticos de rela&ccedil;&otilde;es sociais reconhecidas, estabelecidas  e codificadas, de rela&ccedil;&otilde;es sociais que definem a forma leg&iacute;tima de se engajar numa determinada atividade. Institucionaliza&ccedil;&atilde;o, portanto, refere-se fundamentalmente a regras de procedimento e regras de relacionamento entre os agentes sociais. No esporte, isso significou garantir que um determinado conjunto de regras se tornasse amplamente aceito como a &ldquo;forma certa&rdquo; de jogar o que antes era jogo, e agora &eacute; esporte (Gruneau 1999, p.34). Esta estrutura&ccedil;&atilde;o do esporte de forma cada vez mais sistematizada e formalizada aliena progressivamente os praticantes individuais da atividade em si. Assim com na sociedade, de maneira geral, o &ldquo;Estado&rdquo; (as organiza&ccedil;&otilde;es de governan&ccedil;a) adquire vida independente e passa a ser cen&aacute;rio de um jogo de poder com agentes investidos para tanto, com controle cada vez mais indireto (e menor) do &ldquo;cidad&atilde;o&rdquo; (o atleta). <\/p>\n<p><span style=\"font-size: large; \">O futuro da organiza&ccedil;&atilde;o no esporte<\/span><\/p>\n<p><\/span><\/div>\n<div><span style=\"font-size: medium; \">N&atilde;o h&aacute; como fazer uma previs&atilde;o segura quanto ao futuro da governan&ccedil;a no esporte moderno. Mesmo assim, algumas tend&ecirc;ncias podem ser identificadas.<br \/>Andreff e Szymanski relatam que o crescimento do esporte institucionalizado nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas foi significativo. No entanto, mais importantes em termos de tend&ecirc;ncias mundiais seriam a expans&atilde;o geral, a diversifica&ccedil;&atilde;o e a diferencia&ccedil;&atilde;o. Originalmente, para praticar um esporte era necess&aacute;rio fazer parte de um clube ou escola, e, portanto, de uma federa&ccedil;&atilde;o. Estimativas de estudos realizados na Fran&ccedil;a mostram os caminhos percorridos desde essa institucionaliza&ccedil;&atilde;o inicial. Em 1950, havia 2 milh&otilde;es de pessoas filiadas a federa&ccedil;&otilde;es; em 1960, 3 milh&otilde;es, em 1983, 10 milh&otilde;es; e em 2005, 14 milh&otilde;es. Um survey do ano 2000, no entanto, mostrou que  36 milh&otilde;es de pessoas entre 15 e 75 anos praticavam algum esporte. Outro estudo mostrou que 54% da popula&ccedil;&atilde;o francesa praticava alguma forma de atividade esportiva sem ter v&iacute;nculos com federa&ccedil;&otilde;es (Andreff &amp; Szymanski 2006).<br \/>As tend&ecirc;ncias apontadas por Andreff e Szymanski s&atilde;o facilmente observadas em in&uacute;meros esportes, onde surgem varia&ccedil;&otilde;es e modalidades especiais de cada um. Cada um conquista um p&uacute;blico pr&oacute;prio e adota suas pr&oacute;prias formas organizativas.<br \/>O kung-fu\/wushu possui tr&ecirc;s federa&ccedil;&otilde;es internacionais lutando por hegemonia. O powerlifting, do qual eu sou praticante, possui mais de 10 federa&ccedil;&otilde;es internacionais. Ao mesmo tempo em que as regras e procedimentos se diferenciam cada vez mais, a circula&ccedil;&atilde;o de praticantes entre elas aumenta. Com a flexibiliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica expressa nos esportes n&atilde;o-ol&iacute;mpicos, o atleta tem adotado cada vez mais a atitude de um consumidor moderno, que valoriza a diversidade de op&ccedil;&otilde;es sem oferecer sua fidelidade exclusiva a ningu&eacute;m. O lado perverso dessa realidade &eacute; que a maior parte das federa&ccedil;&otilde;es se comporta como a empresa fornecedora dessa &ldquo;mercadoria&rdquo; na qual se converteu a organiza&ccedil;&atilde;o de eventos competitivos. A quest&atilde;o da participa&ccedil;&atilde;o representativa e democracia foi simplesmente suprimida.<br \/>Se existe um desejo de participa&ccedil;&atilde;o nas decis&otilde;es coletivas e democracia participativa e se esse desejo resultar&aacute; em formas de governan&ccedil;a representativas no esporte, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel prever. O que o presente sugere &eacute; a manuten&ccedil;&atilde;o da tend&ecirc;ncia onde convivem organiza&ccedil;&otilde;es de governan&ccedil;a com caracter&iacute;sticas mais ou menos empresariais, num gradiente que vai desde as diretamente lucrativas e propriet&aacute;rias at&eacute; aquelas sem fins lucrativos e de finalidade social. <br \/>Estas s&atilde;o id&eacute;ias para se pensar problemas que todos enfrentamos. Como afirmei no primeiro par&aacute;grafo deste ensaio, eu n&atilde;o me caso com modelos e nem tenho fidelidade a id&eacute;ias, exceto se forem princ&iacute;pios. Estes eu j&aacute; afirmei e giram em torno da justi&ccedil;a e da verdade. O mais importante para orientar nossa a&ccedil;&atilde;o diante de um cen&aacute;rio complexo &eacute; compreend&ecirc;-lo. Assim, podemos construir uma imagem mais realista do mesmo. Depois disso, fica por conta da &eacute;tica de cada um ficar do &ldquo;lado certo da fotografia&rdquo;. Mas esta, a &eacute;tica, &eacute; uma outra hist&oacute;ria, que fica para uma outra vez.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: large; \">Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas<\/span><\/p>\n<p><\/span><\/div>\n<div><span style=\"font-size: medium; \">Guttmann, A. 2007. Sports: The First Five Millennia. University of Massachusetts Press.<br \/>Dunning, E. Et al. 2004. Sport Histories: Figurational Studies in the Development of Modern Sport. Routledge.<br \/>Gruneau, R.S. 1999. Class, Sports, and Social Development. Human Kinects.<br \/>Andreff, W. &amp; Szymanskim, S. 2006. Handbook on the Economics of Sport. Edward Elgar Publishing.<br \/>Senn, A. 1999. Power, Politics, and the Olympic Games: a history of the power brokers, events, and controversies that shaped the Games. Human Kinetics.<br \/>Allison, Lincoln, ed. 1986. The Politics of Sport. Manchester: University of Manchester Press, 1986. Pp. 264.<br \/>Sobre a autora: Mar&iacute;lia Coutinho &eacute; bi&oacute;loga, mestre em ecologia qu&iacute;mica e doutora em sociologia da ci&ecirc;ncia, com p&oacute;s-doutorado na Virginia Polytechnique Institute and State University. &Eacute; especialista em pol&iacute;tica cient&iacute;fica e informa&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica na &aacute;rea da sa&uacute;de, com &ecirc;nfase em esporte e atividade f&iacute;sica. Mar&iacute;lia Coutinho &eacute; atleta de alto rendimento em Powerlifting (levantamento de peso b&aacute;sico), det&eacute;m diversos t&iacute;tulos regionais, nacionais e sul-americano, bem como recordes correspondentes, &eacute; membro da diretoria da Federa&ccedil;&atilde;o Paulista de Levantamento de Pot&ecirc;ncia e representante brasileira da Syndicated Strength Alliance e do Global Powerlifting Committee. Site pessoal: www.bodystuff.org .<\/span><\/p>\n<div>\n<div><font class=\"Apple-style-span\" size=\"3\"><br \/><\/font><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jogos, esporte e esporte moderno: colocando pontos nos i&rsquo;s Talvez pelo benef&iacute;cio da maturidade, eu n&atilde;o me caso. N&atilde;o me caso com modelos, n&atilde;o me caso com teorias, nem com ideologias ou religi&otilde;es &ndash; nada disso. Isso evita sectarismo e cegueira. No entanto, &eacute; preciso negociar par&acirc;metros m&iacute;nimos de entendimento de termos e conceitos para [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_seopress_robots_primary_cat":"","_seopress_titles_title":"","_seopress_titles_desc":"","_seopress_robots_index":"","site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[19],"tags":[1207,183,15,2344,1281,1397],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5487"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5487"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5487\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5487"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5487"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5487"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}