{"id":5509,"date":"2011-10-15T11:29:00","date_gmt":"2011-10-15T11:29:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/chega-de-discursinho-moralista-e-mentiroso-hora-de-aposentar-o-no-pain-no-gain\/"},"modified":"2011-10-15T11:29:00","modified_gmt":"2011-10-15T11:29:00","slug":"chega-de-discursinho-moralista-e-mentiroso-hora-de-aposentar-o-no-pain-no-gain","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/chega-de-discursinho-moralista-e-mentiroso-hora-de-aposentar-o-no-pain-no-gain\/","title":{"rendered":"Chega de discursinho moralista e mentiroso \u2013 hora de aposentar o \u201cno pain, no gain\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Hoje eu tenho s&oacute; umas 402 coisas para fazer que est&atilde;o atrasadas, de modo que n&atilde;o posso fazer o que gostaria, que &eacute; destrinchar analiticamente este tema. E gostaria porque est&aacute; me incomodando como um t&ecirc;nis mais apertado que o outro, uma fivela no cabelo que puxa alguns fios ou uma formiga mordendo embaixo da blusa. &Eacute; esse discursinho moralista do &ldquo;no pain, no gain&rdquo;, que traz consigo uma fileira de significados negativos: primeiro, confunde e intimida o praticante recreacional ao estipular que o &uacute;nico treino v&aacute;lido &eacute; o que gera sofrimento e dor, o que &eacute; uma grande mentira. Segundo, representa essa moralzinha nojenta do culto ao sacrif&iacute;cio, a pior heran&ccedil;a da moral judaico crist&atilde;. O pior &eacute; que os adeptos sequer conhecem tal origem. Sacrif&iacute;cio N&Atilde;O &Eacute; bonito, bom, n&atilde;o representa medalha de m&eacute;rito ou de superioridade &eacute;tica. Pessoas honrosamente podem se sacrificar para salvar terceiros, para garantir algo benigno para a humanidade, mas definitivamente, treino n&atilde;o entra nessas categorias. Se for um treino n&atilde;o competitivo, defendo com todos os argumentos esmagadoramente bem embasados que ele TEM QUE SER satisfat&oacute;rio e prazeroso. Se n&atilde;o for, a pessoa que necessita deste treinamento abandonar&aacute; o programa e ter&aacute; danos &agrave; sua sa&uacute;de pela resultante inatividade. Treino tem que ser LEGAL, BACANA, gerar PRAZER. Em terceiro lugar, advogar o sacrif&iacute;cio em nome da forma &eacute; ideologicamente conservador e contr&aacute;rio a tudo por que lutei. Sofra, sofra, sofra para produzir uma transforma&ccedil;&atilde;o no seu corpo em dire&ccedil;&atilde;o ao uma forma estandardizada? O que &eacute; isso sen&atilde;o eco da assassina ind&uacute;stria da beleza? Em quarto lugar, esse discurso &eacute; pat&eacute;tico e realmente perigoso. Atletas que produzem dor em si mesmos atrav&eacute;s de treinamento limite o fazem n&atilde;o por enaltecer seu sofrimento, mas porque a profunda rela&ccedil;&atilde;o com o prazer da atividade faz com que negligenciem os sinais do corpo e a conseq&uuml;&ecirc;ncia disso &eacute; quase sempre catastr&oacute;fica: les&otilde;es que tiram o atleta dos tablados e pesos por bastante tempo. NUNCA se deve ignorar a dor. O praticante deve ser, sim, informado sobre a natureza das sensa&ccedil;&otilde;es de desconforto que podem acompanhar o treino para justamente saber que N&Atilde;O deve fazer &ldquo;mais uma repeti&ccedil;&atilde;o&rdquo; depois que est&aacute; sentindo dor. Eu ensino as pessoas a diferenciar a &ldquo;dor do bem&rdquo; da &ldquo;dor do mal&rdquo;: dor tardia nem dor &eacute; direito. Dor lesiva tem que ser respeitada.<\/p>\n<p>Quem faz esse discursinho em geral reproduz alguma foto em preto e branco, que se tornou sin&ocirc;nimo de &ldquo;hard core&rdquo;, de algum bodybuilder. Estas pessoas t&ecirc;m pouco ou nenhum conhecimento sobre as origens do fisiculturismo, l&aacute; no s&eacute;culo XIX, quando seus praticantes nem se diferenciavam dos &ldquo;Strongmen&rdquo; (os homens fortes que executavam feitos de for&ccedil;a em locais p&uacute;blicos e circos). A muscularidade era uma express&atilde;o exteriorizada da FOR&Ccedil;A. Era uma maneira de mostrar aquilo que n&atilde;o &eacute; vis&iacute;vel (as express&otilde;es da for&ccedil;a s&atilde;o capacidades, e n&atilde;o caracter&iacute;sticas morfol&oacute;gicas).<\/p>\n<p>O foco na forma dissociou a mesma de sua fun&ccedil;&atilde;o e gerou uma mir&iacute;ade de bobagens (sendo as piores em treinamento), entre elas esse discurso besta que enaltece um falso sacrif&iacute;cio. Falso, sim: nenhum de n&oacute;s, atletas de verdade, acha que &eacute; sacrif&iacute;cio deixar de ir a uma balada. Deus me livre, coisa mais horrorosa aquele monte de gente fedida se apertando ao som de lixo-music, t&atilde;o alta que n&atilde;o se escuta conversa nenhuma, o que, pensando bem, n&atilde;o importa, pois baladas n&atilde;o s&atilde;o o nicho para trocas inteligentes de id&eacute;ias. Nem sei para que servem, exceto para um anacr&ocirc;nico flerte altamente ritualizado e contido (para o meu entendimento). Uma esp&eacute;cie de vers&atilde;o chat&eacute;rrima das pracinhas do tempo da minha av&oacute;. Que raio de sacrif&iacute;cio &eacute; deixar de ir num inferno desses, onde s&oacute; fui um par de vezes por falta de personalidade para dizer &ldquo;n&atilde;o&rdquo; a amigos? Outro sacrif&iacute;cio falso: &ldquo;abrir m&atilde;o&rdquo; de encher a cara. Leitor inteligente: algu&eacute;m em s&atilde; consci&ecirc;ncia, fora do desespero de uma perda dolorosa, enche a cara deliberadamente? N&atilde;o, n&eacute;. Encher a cara &eacute; produto de um descontrole. No dia seguinte, invariavelmente a pessoa jura nunca mais beber. Como pode ser considerado sacrif&iacute;cio adotar um protocolo que evita um dos desconfortos mais desagrad&aacute;veis que o corpo pode suportar? Ah, sim, tem o sacrif&iacute;cio de deixar de comer Mac Donalds. Leitores, eu prefiro comer formiga do que entrar num Mac Merda. Quando eu morava em Gainesville e era professora da Universidade da Florida, um dia eu tive que comer um Burger King porque me atrasei com Office hours (atendimento aos estudantes). Do contr&aacute;rio eu almo&ccedil;ava no trailer dos Hare Krishna. O rango dos Hare Krishna era COMIDA, e n&atilde;o lixo. Nesse almo&ccedil;o atrasado, meu dia foi destru&iacute;do: escovei os dentes umas cinco vezes para tentar tirar aquele gosto nojento da boca, que n&atilde;o saiu. O porcaria n&atilde;o ia embora nem por baixo, nem por cima. Minha concentra&ccedil;&atilde;o acabou: quem consegue pensar com um gosto daqueles na boca?<\/p>\n<p>O ser humano &eacute; integrado e sofre com a aliena&ccedil;&atilde;o de seu pr&oacute;prio corpo. Integrar-se atrav&eacute;s da execu&ccedil;&atilde;o de movimentos s&oacute; n&atilde;o gera prazer &ndash; f&iacute;sico e mental &ndash; se o grau de aliena&ccedil;&atilde;o e sofrimento forem t&atilde;o altos que pouca coisa alivia a triste condi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>N&oacute;s, que levantamos peso, fazemos for&ccedil;a em tablados, argolas, barras, cordas, o fazemos com PRAZER. A dor &eacute; um pequeno pre&ccedil;o, que infelizmente quase todos j&aacute; fizemos a besteira de negligenciar, pelos imensos ganhos imediatos, e n&atilde;o imediatos que temos.<\/p>\n<p>Sim, &eacute; verdade o que diz Louis Simmons: n&atilde;o existe powerlifting sem dor. Powerlifting &eacute; um &ldquo;fringe Sport&rdquo; &ndash; um esporte de limite. J&aacute; levantamento ol&iacute;mpico raramente causa dor ou les&atilde;o. Mas nenhum powerlifter dir&aacute;: &ldquo;meu treino foi excelente PORQUE estou todo dolorido&rdquo;. Dir&aacute;, &ldquo;puxa, estou com dor, FAZER O QUE, N&Eacute;, mas o treino foi excelente&rdquo;. Ou: &ldquo;FIZ BESTEIRA, LESIONEI, mas&#8230; vamos em frente&rdquo;.<\/p>\n<p>Para quem acha que eu sou uma hero&iacute;na por me enfiar embaixo da barra mais vezes do que os demais o fazem, eu reproduzo a frase s&aacute;bia do meu amigo Thiago Ferragut Passos, profissional do treinamento capacitado em t&eacute;cnicas de re-equil&iacute;brio corporal que ningu&eacute;m no Brasil domina: &ldquo;Marilia, voc&ecirc; vai ter que trabalhar muito a sua vontade de treinar muito&rdquo;. A minha FALHA (e n&atilde;o virtude) &eacute; desrespeitar limites.<br \/>\nLeitores, moralismo nunca fez bem a ningu&eacute;m e muito menos o culto ao hero&iacute;smo e a personalidade. Atleta de verdade, atleta artista (e n&atilde;o mercen&aacute;rio) pratica sua arte por amor e com uma dose de prazer que s&oacute; quem faz sabe.<\/p>\n<p>&ldquo;No pain, no gain&rdquo; n&atilde;o t&aacute; com nada. Pense em &ldquo;no brains, no gain&rdquo;; &ldquo;no Love, no gain&rdquo;; &ldquo;no purpose, no gain&rdquo; e &ldquo;no deep meaning, no real gain&rdquo;.<\/p>\n<p>O resto &eacute; gente querendo justificar um investimento duvidoso na forma, dissociado da origem bem fundamentada do fisiculturismo, atrav&eacute;s de moralismo judaico-crist&atilde;o.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nP S &ndash; e comida boa &eacute; a comida da mam&atilde;e, que &eacute; sempre saud&aacute;vel pois a mam&atilde;e &eacute; bi&oacute;loga e sabe dosar direitinho os macro-nutrientes<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje eu tenho s&oacute; umas 402 coisas para fazer que est&atilde;o atrasadas, de modo que n&atilde;o posso fazer o que gostaria, que &eacute; destrinchar analiticamente este tema. 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