{"id":5515,"date":"2011-12-29T15:25:00","date_gmt":"2011-12-29T15:25:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/epitafio\/"},"modified":"2011-12-29T15:25:00","modified_gmt":"2011-12-29T15:25:00","slug":"epitafio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/epitafio\/","title":{"rendered":"Epit\u00e1fio"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\">Essa m&uacute;sica tem uma hist&oacute;ria para minha gera&ccedil;&atilde;o e para mim. Acho que n&atilde;o h&aacute; muita d&uacute;vida sobre a rela&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o importa o qu&atilde;o direta, entre a letra e a morte de <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Marcelo_Fromer\">Marcelo Fromer<\/a>. Marcelo era guitarrista da banda e membro da forma&ccedil;&atilde;o original dos <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Tit%C3%A3s_(banda)\">Tit&atilde;s<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A banda se formou no col&eacute;gio Equipe, aqui em Sampa. Eu estudava l&aacute;. Ali&aacute;s, no mesmo ano e sala de um deles, acho que do Nando, que namorava uma amiga minha. Eu era de outra turma, a dos comunistas chatos. Comunistas chatos n&atilde;o se davam com os artistas, basicamente porque n&oacute;s &eacute;ramos chatos e ach&aacute;vamos que eles eram babacas (sendo a rec&iacute;proca verdadeira).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Marcelo morreu aos 39 anos, em 2001, atropelado por um motoqueiro. Epit&aacute;fio foi lan&ccedil;ada em 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em 2001 eu tinha 37 anos &ndash; essa gera&ccedil;&atilde;o toda tinha por a&iacute;, entre 36 e 40. &Eacute; uma idade engra&ccedil;ada, onde sup&otilde;e-se que voc&ecirc; j&aacute; cumpriu uma parte substancial da vida e trilhou o caminho central dela. Era o caso deles: a banda era um consenso de sucesso e qualidade. Eles &ldquo;deram certo&rdquo;. Do meu jeito, eu tamb&eacute;m tinha &ldquo;dado certo&rdquo;: terminei meu doutorado aos 31 e aos 34 fui para os Estados Unidos fazer meu p&oacute;s-doc.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas em 2001, aos 37, meu mundo ru&iacute;a. Meu segundo casamento estava acabando em desastre. Ironicamente, meus grandes projetos acad&ecirc;micos tamb&eacute;m, incluindo a pr&oacute;pria carreira. Era o fim da inoc&ecirc;ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Acho que essa &eacute; a hora em que come&ccedil;a a cair a ficha de que morrer &eacute; para qualquer momento. Para mim, sempre foi, pela minha condi&ccedil;&atilde;o. Em pessoas relativamente racionais e relativamente saud&aacute;veis, no entanto, essa ficha tem um momento para cair. &Eacute; quando mais faz sentido a id&eacute;ia de que arrepender-se pelo que se deixou de fazer &eacute; terr&iacute;vel.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A letra &eacute; o discurso do morto que sacou isso tudo tarde demais. Ele devia ter amado mais e feito o que queria fazer. Mas n&atilde;o fez.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ontem me perguntaram o que ainda faltava para mim. &ldquo;Nada&rdquo;, respondi. Fiz tudo que eu queria fazer. O que eu n&atilde;o fiz, n&atilde;o foi por falta de tentar. N&atilde;o devo nada para mim mesma. Ter feito tudo que se queria n&atilde;o &eacute; uma coisa para se dizer num fim previsto. Muita gente pensa assim. Temos essa id&eacute;ia do velhinho sorrindo, olhando o sol se pondo num horizonte buc&oacute;lico e dizendo &ldquo;fiz tudo que eu queria fazer&rdquo;. Acho isso um perigo. &Eacute; essa a perspectiva que nos faz passar a vida perseguindo algo que alfinetamos no futuro do nosso quadro de avisos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">N&atilde;o estou cagando regra, eu era exatamente assim. At&eacute; o momento em que me deram um prazo de validade de dois meses (em 2005).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Meio que eu corri atr&aacute;s do preju&iacute;zo e prometi a mim mesma nunca mais passar um dia em que eu n&atilde;o pudesse dormir dizendo que sim, fiz tudo que eu queria. Que n&atilde;o deixei de amar, de realizar algum projeto, ou de aprender, em nome de nada. Que n&atilde;o abri m&atilde;o de nada, por ningu&eacute;m.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">As pessoas que abriram m&atilde;o de coisas alegando ser por minha causa s&oacute; receberam uma coisa de mim no final das contas: raiva e ressentimento. Principalmente homens.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No balan&ccedil;o, com todas as besteiras que eu fiz, esse ano foi o melhor n&atilde;o s&oacute; por eu ter feito tudo do meu jeito, mas por eu ter feito tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No meu epit&aacute;fio, n&atilde;o haver&aacute; um &ldquo;devia&rdquo;.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">N&atilde;o devo nada &agrave; pessoa mais importante da minha vida: eu mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p><lj-embed id=\"17\"\/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Essa m&uacute;sica tem uma hist&oacute;ria para minha gera&ccedil;&atilde;o e para mim. Acho que n&atilde;o h&aacute; muita d&uacute;vida sobre a rela&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o importa o qu&atilde;o direta, entre a letra e a morte de Marcelo Fromer. Marcelo era guitarrista da banda e membro da forma&ccedil;&atilde;o original dos Tit&atilde;s. 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