{"id":5527,"date":"2012-02-01T18:07:00","date_gmt":"2012-02-01T18:07:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/mamotomia\/"},"modified":"2012-02-01T18:07:00","modified_gmt":"2012-02-01T18:07:00","slug":"mamotomia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/mamotomia\/","title":{"rendered":"Mamotomia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\">Ontem eu me submeti a um procedimento de mamotomia. Mamotomia &eacute; um sistema de coleta de bi&oacute;psia mam&aacute;ria atrav&eacute;s de uma sonda a v&aacute;cuo que extrai todo o tecido suspeito de malignidade (c&acirc;ncer) e tecido que margeia o mesmo, numa &aacute;rea de seguran&ccedil;a.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&Eacute; um procedimento (cir&uacute;rgico, isso &eacute; inquestion&aacute;vel) relativamente simples, n&atilde;o requer interna&ccedil;&atilde;o e pode ser feito num laborat&oacute;rio de diagn&oacute;stico bem equipado. Embora algumas mulheres sofram um pouco e reclamem do desconforto, &eacute; perfeitamente suport&aacute;vel e a recupera&ccedil;&atilde;o parece r&aacute;pida.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O que n&atilde;o &eacute; nada simples &eacute; lidar com os diversos elementos institucionais, sociais, econ&ocirc;micos, emocionais e simb&oacute;licos que envolvem o procedimento.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A mamotomia me foi prescrita por um mastologista bem indicado, simp&aacute;tico, sorridente, e, como tantos outros profissionais, com grande dificuldade em lidar com o processo de tomada de decis&atilde;o m&eacute;dica. Por uma cultura mundial onde as rela&ccedil;&otilde;es de poder profissional e social de modo geral favorecem o m&eacute;dico, estes profissionais s&atilde;o despreparados para administrar (e muito menos conduzir) decis&otilde;es coletivas, feitas em coopera&ccedil;&atilde;o com o paciente. S&atilde;o quase incapazes de compreender que, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, s&atilde;o assistentes de uma tomada de decis&atilde;o do paciente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Acredito que foi no site da American Breast Cancer Society ou outra entidade de grande prest&iacute;gio que li uma frase na linha &ldquo;seu m&eacute;dico ir&aacute; decidir qual o melhor tratamento para voc&ecirc; baseado&#8230;&rdquo;. Ei! Seu m&eacute;dico n&atilde;o decidir&aacute; NADA!! Voc&ecirc; decidir&aacute; &ndash; seu m&eacute;dico &eacute; pago, seja por voc&ecirc; ou pela sociedade, para amparar sua decis&atilde;o!<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Meu conflito come&ccedil;ou a&iacute;, no final do ano de 2009, com os dois m&eacute;dicos que n&atilde;o s&atilde;o o Paulinho (Paulo Muzy). Eu j&aacute; tentei negociar uma media&ccedil;&atilde;o que me poupe a necessidade de me transformar num ouri&ccedil;o ret&oacute;rico, com todos os espinhos e armas para fora, cada vez que necessito interagir com um novo m&eacute;dico. Minha estrat&eacute;gia era que todos se comunicassem com meu m&eacute;dico, o Paulo, e se entendessem com ele. N&atilde;o d&aacute; certo: a vaidade deles impede.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O mastologista, que &eacute; um gordinho sedent&aacute;rio (embora simp&aacute;tico e sorridente), foi inteiramente incapaz de compreender quase tudo que se seguiu &agrave; prescri&ccedil;&atilde;o dele: primeiro, que a Medial basicamente obstruiu o processo de agendamento do procedimento. Um ano depois, impus isso &agrave; empresa atrav&eacute;s de uma a&ccedil;&atilde;o de viol&ecirc;ncia t&atilde;o grande que me promoveu a paciente VIP. Mas isso envolveu horas e horas de den&uacute;ncias, imprensa, advogados, minhas amea&ccedil;as (sou boa nisso) por telefone a indiv&iacute;duos variados e uns dois dias de cama pelos efeitos do stress. N&atilde;o: j&aacute; verifiquei e n&atilde;o se pode obter indeniza&ccedil;&atilde;o por danos morais por estes motivos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Segundo, que eu jamais comprometeria minha prepara&ccedil;&atilde;o para o campeonato Sul-americano ou Mundial para fazer um procedimento que, ele dizia (bobagem) que me impediria de treinar por pelo menos 15 dias, e por 30 dias n&atilde;o poderia treinar pesado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O diagn&oacute;stico do final de 2009 e in&iacute;cio de 2010 indicava um n&oacute;dulo de classifica&ccedil;&atilde;o bi-rad 3. Um n&oacute;dulo assim oferece pouco risco de malignidade (n&atilde;o superior a 2%) e sequer sugere a necessidade de uma mamotomia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mesmo assim, passado um ano, com uma guia sem data na m&atilde;o, resolvi seguir a sugest&atilde;o do mastologista e, ap&oacute;s vencer a guerra contra a Medial, comecei a fazer os exames pr&eacute;vios &agrave; mamotomia. N&atilde;o era um n&oacute;dulo bi-rad 3. Mais prov&aacute;vel bi-rad 4b ou at&eacute; mesmo c. Bem vis&iacute;vel no ultrassom, contornos bem definidos (bom), conte&uacute;do heterog&ecirc;neo (n&atilde;o muito bom), probabilidade de malignidade uma ordem de grandeza maior (23-60%).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Os primeiros exames haviam sido feitos no laborat&oacute;rio Delboni, que prima pelo bom atendimento ao cliente. Al&eacute;m disso, por eu ser atleta de alta performance, me foi dada a cortesia do Club Delboni, onde o paciente &eacute; tratado de maneira realmente diferenciada.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">J&aacute; o CBD, reconhecidamente bom do ponto de vista t&eacute;cnico, indicado por alguns m&eacute;dicos como o mais preciso, &eacute; um lixo em atendimento. Algu&eacute;m que paga uma fortuna num seguro m&eacute;dico que julga &oacute;timo naturalmente se sentir&aacute; ofendido. Instala&ccedil;&otilde;es desconfort&aacute;veis, filas, congestionamento, cadeirinhas de pl&aacute;stico e atendentes retardadas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tive que fazer uma mamografia, uma ultrassonografia e &ldquo;esqueceram&rdquo; de agendar as da mama esquerda. Quase foi necess&aacute;rio fazer mais exames. Fui bem clara: se eu tivesse que voltar ao inferno da Vila Mariana mais uma vez, eu n&atilde;o faria o procedimento, e, se o n&oacute;dulo fosse maligno, responsabilizaria o laborat&oacute;rio e a equipe. Foi um esc&acirc;ndalo por dia, com direito a gritos, amea&ccedil;as e porradas na mesa, atrav&eacute;s dos quais consegui garantir meu atendimento (sem isso&#8230; estaria l&aacute; at&eacute; agora).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Eu tinha bastante trabalho em andamento &ndash; tenho, ali&aacute;s. Al&eacute;m disso, um campeonato de Strongman para coordenar, dia 28 (s&aacute;bado passado). O procedimento era dia 31. A cada novo exame que me era solicitado, minha rotina sendo destru&iacute;da, horas e horas do dia sob stress absoluto, a ang&uacute;stia aumentava. Parceiros, colegas e clientes me solicitando coisas que eu n&atilde;o podia cumprir.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quando finalmente a ultrassonografia revelou que o n&oacute;dulo n&atilde;o era o que se achava que era um ano antes, embora n&atilde;o tenha evolu&iacute;do, eu passei a lidar com outras quest&otilde;es. A principal delas era o risco.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">J&aacute; lidei com isso antes. Em 2008, uma resson&acirc;ncia magn&eacute;tica revelou, por contraste, um padr&atilde;o de imagem suspeito. Indicava a possibilidade de uma necrose avascular, e, portanto, grandes chances de c&acirc;ncer. Foram alguns dias at&eacute; fazer a cintilografia (ap&oacute;s outra guerra contra a Medial) e ler um laudo c&ocirc;mico em que o m&eacute;dico se declarava incapaz de interpretar a imagem. Um congresso de ortopedia depois, 15 participantes foram igualmente incapazes, mas um 16&ordm; resolveu o mist&eacute;rio, mostrando que se tratava do &ldquo;estranh&iacute;ssimo&rdquo; padr&atilde;o &oacute;sseo t&iacute;pico de um levantador de peso.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por uns 10 dias eu lidei com a id&eacute;ia de que poderia ter um c&acirc;ncer avan&ccedil;ado. Para mim, a op&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o trat&aacute;-lo e seguir meu intenso projeto de vida sem interrup&ccedil;&otilde;es era clara. Para amigos e familiares, nem tanto.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Desta vez, vivi um repeteco do mesmo processo. N&atilde;o est&aacute; sendo divertido. Acho cansativo rever essa discuss&atilde;o carregada de valores que rejeito, de tabus sobre mortalidade, de quest&otilde;es sobre decis&otilde;es de vida e de caretice familiar (alheia, n&atilde;o minha).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No entanto, n&atilde;o posso negar que &eacute; uma experi&ecirc;ncia rica. Vou al&eacute;m: acho necess&aacute;ria. Acho que pelo menos uma vez na vida, todo mundo deveria ter um diagn&oacute;stico terminal. Eu tive tr&ecirc;s e nas tr&ecirc;s vezes minha op&ccedil;&atilde;o foi a mesma: rejeito o tratamento &ndash; vivo at&eacute; o talo. Todo o tratamento envolvido nos meus diagn&oacute;sticos seria desabilitante. Comprometeria o meu projeto de vida. Decidi n&atilde;o trocar, jamais, um projeto de vida por um de morte. Eu necessito deste corpo intacto para cumprir um determinado &ldquo;programa&rdquo; e acredito que as coisas aparentemente surpreendentes que fa&ccedil;o s&atilde;o a heran&ccedil;a que vou deixar. N&atilde;o fa&ccedil;o isso apenas por algum altru&iacute;smo religioso, mas porque &eacute; o que d&aacute; sentido &agrave; minha vida. Provo aquilo em que acredito, demonstro, obtenho prazer, vivo a transcend&ecirc;ncia. Nada disso pode ser adiado e muito menos trocado por anos de vida. Vida n&atilde;o se mede em anos e sim em densidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Essa escolha choca a todos. Me pergunto o motivo. Encontro v&aacute;rios. Acho que &eacute; o momento de se discutir esse tipo de coisa e colocar na mesa tudo isso: vida, morte, eutan&aacute;sia, suic&iacute;dio, sexualidade, envelhecimento e expulsar da sala os religiosos e intervencionistas estatais. Vamos devolver o processo decis&oacute;rio para onde ele nunca deveria ter sa&iacute;do: o indiv&iacute;duo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Agora devo deitar porque por enquanto isso d&oacute;i. O corte, a les&atilde;o local mas tamb&eacute;m algumas feridas na alma que a intera&ccedil;&atilde;o dos &uacute;ltimos dias causou.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">P S &ndash; o resultado da bi&oacute;psia vir&aacute; s&oacute; dia 9, 10 dias ap&oacute;s o procedimento. &Eacute; idiota demais, n&atilde;o?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ontem eu me submeti a um procedimento de mamotomia. Mamotomia &eacute; um sistema de coleta de bi&oacute;psia mam&aacute;ria atrav&eacute;s de uma sonda a v&aacute;cuo que extrai todo o tecido suspeito de malignidade (c&acirc;ncer) e tecido que margeia o mesmo, numa &aacute;rea de seguran&ccedil;a. &Eacute; um procedimento (cir&uacute;rgico, isso &eacute; inquestion&aacute;vel) relativamente simples, n&atilde;o requer interna&ccedil;&atilde;o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_seopress_robots_primary_cat":"","_seopress_titles_title":"","_seopress_titles_desc":"","_seopress_robots_index":"","site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[19],"tags":[1221,2565,2566,2567,2568,15,2569,2570,186,2571],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5527"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5527"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5527\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5527"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5527"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5527"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}