{"id":5547,"date":"2014-01-15T05:15:32","date_gmt":"2014-01-15T05:15:32","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/o-peso-da-pobreza-sobre-alimentacao-involuntaria-nos-segmentos-socio-economicamente-desprivilegiados\/"},"modified":"2014-01-15T05:15:32","modified_gmt":"2014-01-15T05:15:32","slug":"o-peso-da-pobreza-sobre-alimentacao-involuntaria-nos-segmentos-socio-economicamente-desprivilegiados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/o-peso-da-pobreza-sobre-alimentacao-involuntaria-nos-segmentos-socio-economicamente-desprivilegiados\/","title":{"rendered":"O peso da pobreza: sobre-alimenta\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria nos segmentos socio-economicamente desprivilegiados"},"content":{"rendered":"<p>Epidemia \u00e9 definido como um fen\u00f4meno em que a incid\u00eancia de um determinado problema de sa\u00fade excede o que \u00e9 esperado em termos do comportamento anterior da mesma. A incid\u00eancia de qualquer condi\u00e7\u00e3o pode ser medida e modelada quantitativamente. Quando a curva de incid\u00eancia no tempo muda seu comportamento e passa a aumentar mais, temos uma epidemia.<\/p>\n<p>Definitivamente, temos uma epidemia de sobrepeso e obesidade, cujas causas t\u00eam sido debatidas por diversos grupos e autores, em congressos, comiss\u00f5es especiais e \u00f3rg\u00e3os governamentais (<a href=\"http:\/\/epirev.oxfordjournals.org\/content\/29\/1\/6.short\">aqui <\/a>e <a href=\" http:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1038\/oby.2001.123\/full\">aqui<\/a>).<\/p>\n<p>O conhecimento cient\u00edfico sobre um fen\u00f4meno epid\u00eamico segue o mesmo com maior ou menor discrep\u00e2ncia temporal. O aumento da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica sobre sobrepeso, sobrealimenta\u00e7\u00e3o e obesidade obedece uma curva exponencial a partir dos anos 1990. <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0034-89102006000400013\">Isso reflete tanto a consci\u00eancia p\u00fablica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 relev\u00e2ncia do problema como a maior import\u00e2ncia da \u00e1rea da epidemiologia nutricional<\/a>.<\/p>\n<p>Esse novo conhecimento trouxe \u00e0 tona quest\u00f5es com as quais a sociedade tem tido dificuldade em lidar. Algumas t\u00eam sido especialmente bem exploradas e se referem \u00e0s perversas rela\u00e7\u00f5es entre a ind\u00fastria da alimenta\u00e7\u00e3o e farmac\u00eautica com a epidemia de obesidade.<\/p>\n<p>Uma outra quest\u00e3o, no entanto, \u00e9 uma ideia singela: sobrepeso e obesidade, por anos associados \u00e0 fartura econ\u00f4mica (pa\u00edses ricos) e \u00e0s classes abastadas, s\u00e3o, na verdade, um problema da pobreza.<\/p>\n<p>Ainda que existam v\u00e1rios pa\u00edses, como a \u00cdndia e a Nig\u00e9ria, onde a propor\u00e7\u00e3o de adultos magros \u00e9 suficientemente alta para que falemos de fome end\u00eamica, hoje, cada vez mais, a pobreza, em pa\u00edses industrializados, est\u00e1 associada ao sobrepeso.<\/p>\n<p>Os estudos mais detalhados sobre a quest\u00e3o foram feitos nos Estados Unidos e mostram a segmenta\u00e7\u00e3o da incid\u00eancia da obesidade <a href=\"http:\/\/frac.org\/initiatives\/hunger-and-obesity\/are-low-income-people-at-greater-risk-for-overweight-or-obesity\/ \">conforme etnia, sexo e n\u00edvel educacional<\/a> . Mulheres s\u00e3o mais vitimadas pela obesidade do que homens, negras mais do que brancas e recentemente o tema mais alarmante vem sendo o crescimento da obesidade infantil. Quanto menor o n\u00edvel educacional, maior a incid\u00eancia de obesidade.<\/p>\n<p>No Brasil n\u00e3o \u00e9 diferente: ao contr\u00e1rio do que se podia inferir da propaganda pol\u00edtica recente (\u201cFome Zero\u201d), o Brasil n\u00e3o tem fome end\u00eamica. Os \u00edndices de fome no Brasil s\u00e3o pr\u00f3ximos aos de pa\u00edses europeus.<\/p>\n<p>No entanto,<a href=\"http:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC1448269\/\"> o sobrepeso e a obesidade v\u00eam aumentando ano a ano<\/a>.<\/p>\n<p>Embora os pa\u00edses sejam muito diferentes em suas culturas alimentares, <a href=\"http:\/\/ajcn.nutrition.org\/content\/79\/1\/6.short\">alguns padr\u00f5es t\u00eam emergido<\/a>:<\/p>\n<ol>\n<li>As maiores taxas de obesidade ocorrem nos grupos com maior taxa de pobreza e menor \u00edndice educacional;<\/li>\n<li>Existe uma rela\u00e7\u00e3o inversa entre densidade energ\u00e9tica (kcal\/kg) e custo energ\u00e9tico ($\/kg).<\/li>\n<\/ol>\n<p>Estes dois padr\u00f5es explicam muita coisa. Os grupos mais pobres e menos educados t\u00eam menos dinheiro para investir em alimenta\u00e7\u00e3o e menos informa\u00e7\u00e3o quanto ao alimento. Assim, o alimento poss\u00edvel \u2013 pela car\u00eancia de recursos econ\u00f4micos e educacionais \u2013 \u00e9 o de pior qualidade: denso em calorias, com grande quantidade de gordura e a\u00e7\u00facares e pobre em prote\u00edna, fibras e vitaminas.<\/p>\n<p>O pobre obeso \u00e9 um desnutrido proteico e vitam\u00ednico e um sobre-alimentado cal\u00f3rico.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, o custo do alimento de menor valor nutricional e maior densidade cal\u00f3rica \u00e9 baixo e acess\u00edvel aos grupos mais pobres. \u00c9 f\u00e1cil pensar pelo pre\u00e7o de um lanche do tipo Mac Donalds ou Burger King, onde por menos de US$4,00 o consumidor pode comprar um sandu\u00edche de quase 1000 calorias, sem contar a coca-cola , com mais 200 calorias.<\/p>\n<p>A Cesta B\u00e1sica Nacional, ou Ra\u00e7\u00e3o Essencial M\u00ednima, no Brasil, \u00e9 um conceito proposto pelo Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos (DIEESE) para definir os produtos utilizados por uma fam\u00edlia durante um m\u00eas. O conceito de cesta b\u00e1sica n\u00e3o tem finalidade nutricional e sim econ\u00f4mica: trata-se de uma ferramente de aferimento para a evolu\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os de \u00edtens essenciais no consumo dom\u00e9stico.<\/p>\n<p>No entanto, a cesta b\u00e1sica acabou sendo incorporada no imagin\u00e1rio p\u00fablico como os \u00edtens de consumo necess\u00e1rios de fato. S\u00e3o 13 alimentos: carne, leite, feij\u00e3o, arroz, farinha, batata, tomate, p\u00e3o, caf\u00e9, banana, a\u00e7\u00facar, \u00f3leo e manteiga. A quantidade varia de acordo com a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>As propor\u00e7\u00f5es da \u201ccesta ideal\u201d j\u00e1 fogem de qualquer bom senso nutricional: temos 6kg de carne para um m\u00eas e 7,7l de leite. Essa \u00e9 toda a prote\u00edna que a fam\u00edlia ter\u00e1. Em contrapartida, temos 3kg de arroz, 4,5kg de feij\u00e3o, 1,5kg de farinha de trigo, 3kg de a\u00e7\u00facar e 6kg de p\u00e3o. Temos tamb\u00e9m 900ml de \u00f3leo e 750g de manteiga.<\/p>\n<p>S\u00f3 que n\u00e3o \u00e9 isso que \u00e9 oferecido \u00e0s fam\u00edlias nos kits de cesta b\u00e1sica que as empresas fornecem. Vejam um exemplo de cestas b\u00e1sica:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>5 kg. de arroz<\/p>\n<p>2 kg. de feij\u00e3o<\/p>\n<p>2 latas de \u00f3leo<\/p>\n<p>250 g. de caf\u00e9<\/p>\n<p>1 kg. de fub\u00e1<\/p>\n<p>1 lata de salsicha<\/p>\n<p>3 kg. de a\u00e7\u00facar<\/p>\n<p>1 kg. de sal<\/p>\n<p>1 lata de extrato (140 g)<\/p>\n<p>1 kg. macarr\u00e3o<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Comparada \u00e0 cesta b\u00e1sica \u201cideal\u201d, ela tem mais carboidrato, mais gordura e muito menos prote\u00edna.<\/p>\n<p>O que de fato as pessoas pobres no Brasil comem n\u00e3o diverge dos dois princ\u00edpios gerais que foram apontados na <a href=\"http:\/\/ajcn.nutrition.org\/content\/79\/1\/6.short\">pesquisa de Adam Drewnowski\u00a0e SE Specter<\/a>: quanto mais pobre e menos educado o grupo, mais alimentos densos em caloria e pobres em outros nutrientes (em especial prote\u00edna, fibras e vitaminas) ser\u00e3o consumidos.<\/p>\n<p>O caf\u00e9 da manh\u00e3 ser\u00e1 caf\u00e9 preto com a\u00e7\u00facar e p\u00e3o com manteiga. O almo\u00e7o ter\u00e1 arroz, se poss\u00edvel feij\u00e3o, frequentemente macarr\u00e3o, tudo cozido com bastante \u00f3leo, raramente verduras na forma cozida ou salada e pouca carne. O jantar n\u00e3o varia muito em rela\u00e7\u00e3o ao almo\u00e7o. Ao longo do dia o pobre ter\u00e1 acesso a muita coisa contendo a\u00e7\u00facar: caf\u00e9, refrigerante barato, algum doce.<\/p>\n<p>Ou seja: muito carboidrato de alto \u00edndice glic\u00eamico, muita gordura, pouca prote\u00edna, pouca fibra e pouqu\u00edssimas vitaminas.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a receita para um mundo cada vez mais doente, vitimado por doen\u00e7as n\u00e3o transmiss\u00edveis como a diabetes, hipertens\u00e3o e outras enfermidades cardio-vasculares e seus desdobramentos em desordens renais, hep\u00e1ticas e outras.<\/p>\n<p>Quando falamos sobre proatividade alimentar, obviamente isso implica em disponibiliza\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o nutricional de qualidade e com linguagem e conte\u00fado apropriado a cada segmento; implica em responsabilidade corporativa com o funcion\u00e1rio, substituindo o \u201cbenef\u00edcio\u201d rico em a\u00e7\u00facar de alto \u00edndice glic\u00eamico por outro com mais fibra e baixo IG; implica em sistemas de controle da merenda escolar. Isso tudo \u00e9 proatividade alimentar: indiv\u00edduo informado e consciente, sociedade alerta para o fundamento nutricional de seus males em sa\u00fade p\u00fablica, empresas compreendendo a rela\u00e7\u00e3o entre boa alimenta\u00e7\u00e3o e produtividade, e um Estado que gerencie isso tudo de maneira eficiente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Epidemia \u00e9 definido como um fen\u00f4meno em que a incid\u00eancia de um determinado problema de sa\u00fade excede o que \u00e9 esperado em termos do comportamento anterior da mesma. A incid\u00eancia de qualquer condi\u00e7\u00e3o pode ser medida e modelada quantitativamente. Quando a curva de incid\u00eancia no tempo muda seu comportamento e passa a aumentar mais, temos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5548,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_seopress_robots_primary_cat":"","_seopress_titles_title":"","_seopress_titles_desc":"","_seopress_robots_index":"","site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[288,2097,1980,1225],"tags":[2620,2621,15,2099,2255,2595,2470,2622],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5547"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5547"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5547\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5548"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5547"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5547"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5547"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}