{"id":5561,"date":"2014-01-26T17:40:08","date_gmt":"2014-01-26T17:40:08","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/a-bunda-serie-acougue\/"},"modified":"2014-01-26T17:40:08","modified_gmt":"2014-01-26T17:40:08","slug":"a-bunda-serie-acougue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/a-bunda-serie-acougue\/","title":{"rendered":"A bunda &#8211; s\u00e9rie A\u00e7ougue"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"line-height: 1.5em;\">Depois de anos sentindo esse desconcerto ao ouvir o lamento de mulheres sobre suas bundas, acho que cheguei a alguns pontos que me ajudam a administr\u00e1-lo. N\u00e3o sei at\u00e9 que ponto podem efetivamente ajudar as mulheres em desacordo com suas bundas. Sem pretens\u00e3o, vamos a eles.<\/span><\/p>\n<p>Comecemos pelo come\u00e7o: a natureza do lamento.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o suporto mais essa minha bunda, detesto essa bunda\u201d<\/p>\n<p>\u201cPor que? \u00c9 linda!\u201d<\/p>\n<p>\u201cPorque ela \u00e9 grande demais.\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9.\u201d<\/p>\n<p>\u201c\u00c9\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9\u201d<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 e eu sei que todo mundo olha.\u201d<\/p>\n<p>\u201cQuem \u00e9 todo mundo?\u201d<\/p>\n<p>\u201cOs homens em geral. Os homens na rua falam coisas nojentas, no \u00f4nibus, no metr\u00f4&#8230; ficam olhando&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cMas isso \u00e9 lixo humano.\u201d<\/p>\n<p>\u201cMas outros homens fazem isso. <i>Todo<\/i> homem faz isso. J\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil falar e expor minhas id\u00e9ias. Sabendo que eles olham apenas minha bunda, nem ligam para o que penso ou falo, \u00e9 insuport\u00e1vel.\u201d<\/p>\n<p>O di\u00e1logo acima \u00e9 fict\u00edcio. \u00c9 minha s\u00edntese de centenas de di\u00e1logos nessa linha. \u00c9 a partir desse di\u00e1logo que abordamos o problema. A primeira tarefa \u00e9 entend\u00ea-lo, dar um nome a ele, ainda que provis\u00f3rio, e separar o afeto do entendimento. Por exemplo: s\u00f3 agora percebo que minha resposta autom\u00e1tica \u00e9 mais que inadequada. \u00c9 errada! Confrontar algu\u00e9m com essa queixa \u00e9 invalidar sua experi\u00eancia subjetiva. Isso n\u00e3o pode.<\/p>\n<p>Tirar nosso pr\u00f3prio afeto e emo\u00e7\u00e3o da cena facilita a coisa. Fica claro que estamos diante de uma manifesta\u00e7\u00e3o de insatisfa\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3prio corpo. Essa insatisfa\u00e7\u00e3o em espec\u00edfico tem nuances paradoxais. Ela penaliza estas mulheres pelo avesso. Explico: se no item \u201cbunda\u201d o ideal <a href=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/formolatria-texto\/\">formol\u00e1trico<\/a>\u00a0\u00a0prescreve quadris largos e bundas grandes, caricaturadas pela ind\u00fastria pornogr\u00e1fica, para as mulheres reflexivas a bunda \u00e9 uma maldi\u00e7\u00e3o. Aquilo que \u00e9 entendido como uma conformidade exagerada a este estere\u00f3tipo \u00e9 sentido por elas como uma eros\u00e3o de sua identidade, e, pior, uma nega\u00e7\u00e3o de sua integralidade. A mulher que sofre com a bunda supostamente grande se v\u00ea mutilada e fragmentada. Ela se transforma numa bunda ambulante, sem fala, sem pensamento, sem subjetividade.<\/p>\n<p>Muitas mulheres insatisfeitas com bundas que consideram \u201cgrandes demais\u201d (em rela\u00e7\u00e3o a?&#8230;) sofreram viol\u00eancias sexistas variadas. Foram olhadas ou abordadas com hostilidade, foram v\u00edtimas de agress\u00e3o verbal e at\u00e9 f\u00edsica ou foram assediadas em ambientes coletivos. Parece f\u00e1cil situar nestes epis\u00f3dios traum\u00e1ticos a origem de sua insatisfa\u00e7\u00e3o corporal, um triste caso de auto-rejei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/7yxEA9IwTKA\" height=\"315\" width=\"420\" allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\"><\/iframe><\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 que \u00e9 mesmo? Ser\u00e1 que estas mesmas mulheres, se isoladas de olhares e falas hostis, estariam plenamente satisfeitas com suas bundas? Eu acho que n\u00e3o. Embora alguns estudos (metodologicamente suspeitos) questionem o papel decisivo das m\u00eddias publicit\u00e1rias na inculca\u00e7\u00e3o de valores est\u00e9ticos e na g\u00eanese de comportamentos e atitudes a partir deles, acredito que a insatisfa\u00e7\u00e3o das auto-representadas bundudas est\u00e1 a\u00ed. Elas constru\u00edram uma representa\u00e7\u00e3o de desacordo a partir de uma bunda ideal da qual desviam.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" alt=\"\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/-Ek8hiABm2cs\/TztUsC96N_I\/AAAAAAAAACs\/ZB36sy-lAwM\/s1600\/girls61.jpg\" width=\"378\" height=\"252\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone\" alt=\"\" src=\"http:\/\/p.twimg.com\/A2ionwzCYAAPgGZ.jpg:large\" width=\"300\" height=\"432\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estas mulheres que arduamente lutam para construir identidades mais integradas s\u00e3o v\u00edtimas paradoxais: ao rejeitar a vers\u00e3o caricata do ideal formol\u00e1trico e buscar uma \u201cbunda discreta\u201d de modo a se dar um imaginado espa\u00e7o para impor outras qualidades como dominantes em sua identidade p\u00fablica, elas embarcam na rota da auto-mutila\u00e7\u00e3o e, portanto, submiss\u00e3o (mesmo que \u00e0s avessas) \u00e0quele ideal.<\/p>\n<p>Por que mutilat\u00f3ria, se n\u00e3o h\u00e1 cirurgia ou remo\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica de uma parte do corpo? Mutila\u00e7\u00e3o \u00e9 o dano ou les\u00e3o a uma parte do corpo que degrada sua apar\u00eancia ou fun\u00e7\u00e3o. O ataque \u00e0 pr\u00f3pria bunda que a rejei\u00e7\u00e3o ocasiona \u00e9 mutilat\u00f3rio porque objetiva extirpar tecido saud\u00e1vel. \u00c9 emocionalmente mais mutilat\u00f3rio ainda, pois enquanto tal tecido n\u00e3o \u00e9 fisicamente extirpado (com cirurgia ou dieta), ele \u00e9 representado pela v\u00edtima como um \u201cn\u00e3o-eu\u201d.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 um comportamento de dietas irracionais que, se bem sucedidas, provocar\u00e3o modifica\u00e7\u00f5es gerais no corpo das supostas bundudas quase sempre produzindo perdas indesejadas. Como as dietas s\u00e3o irracionais, a tend\u00eancia \u00e9 um padr\u00e3o sanfona, onde dietas se sucedem umas \u00e0s outras gerando per\u00edodos mais magros e outros mais gordos, com potenciais danos substanciais ao humor das v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Dieta como um regime alimentar voltado para produzir benef\u00edcios \u00e0 sa\u00fade, gerar bem estar, prover o corpo da energia e blocos construtivos adequados, modular o funcionamento org\u00e2nico e o humor \u00e9 sempre um elemento importante da vida. Dietas, ou programas alimentares, criados para modificar UMA parte do corpo e assim satisfazer um ideal est\u00e9tico fragmentador \u00e9 um desastre pedindo para acontecer.<\/p>\n<p>Do outro lado da ponte est\u00e3o as mulheres em busca de mais bunda. Esta popula\u00e7\u00e3o \u00e9 mais heterog\u00eanea.<\/p>\n<p>Temos uma classe de mulheres relativamente jovens que se entregou de corpo e alma para o inimigo: submissas \u00e0 formolatria, percorrer\u00e3o para sempre o caminho sem fim da busca pela desumanizada forma ideal. A tal forma ideal \u00e9 publicit\u00e1ria e ideologicamente perfeita. Inalcan\u00e7\u00e1vel por ser desumanizada, a forma ideal escraviza homens e mulheres numa busca condenada \u00e0 insatisfa\u00e7\u00e3o. Mais e mais dinheiro \u00e9 investido em diferentes ramos da ind\u00fastria da beleza. Eles oferecem os itens desejados, numa esp\u00e9cie de a\u00e7ougue macabro, onde se encontra bundas, peitos, bra\u00e7os, m\u00e3os, pernas obscenamente expostos para seus consumidores.<\/p>\n<p>Essas mulheres em busca de mais bunda, que n\u00e3o necessariamente sofrem por se verem desbundadas, est\u00e3o convencidas de que a aproxima\u00e7\u00e3o do ideal formol\u00e1trico atrav\u00e9s do incremento de bunda trar\u00e1 mais aceita\u00e7\u00e3o p\u00fablica, melhores pares rom\u00e2nticos, eventualmente um compromisso rom\u00e2ntico, mais dinheiro e coisas que nem elas sabem nomear. Dependendo da disponibilidade de recursos financeiros e educacionais, elas podem buscar solu\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas, com pr\u00f3teses de silicone, ou, para as dotadas de um pouco de bom senso e cultura, podem tentar aumentar o volume da bunda com programas de treinamento voltados para a hipertrofia dos gl\u00fateos.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o cir\u00fargica pode parecer assustadora para n\u00f3s, mas os n\u00fameros s\u00e3o expressivos: nos Estados Unidos, <a href=\"http:\/\/www.plasticsurgery.org\/Documents\/news-resources\/statistics\/2011-statistics\/2011-cosmetic-procedures-trends-statistics.pdf \">o implante de pr\u00f3teses de n\u00e1degas aumentou de cerca de 800 no ano de 2010 para cerca de 1100 em 2011<\/a>. Ainda est\u00e1 longe dos mais de 300 mil implantes mam\u00e1rios por ano, mas \u00e9 uma tend\u00eancia em crescimento. \u00a0No Brasil, a procura \u00e9 bem maior: em 2009, <a href=\"http:\/\/jornalcidade.uol.com.br\/rioclaro\/dia-a-dia\/saude\/73711--PLaSTICA:-procura-por-cirurgia-de-implante-de-silicone-nas-nadegas-dobra-em-apenas-um-ano--\">foram realizados mais de 8000 implantes de n\u00e1degas<\/a>, o dobro do ano anterior.<\/p>\n<p>A busca de mais bunda atrav\u00e9s do exerc\u00edcio f\u00edsico parece a manifesta\u00e7\u00e3o suprema do comportamento saud\u00e1vel. S\u00f3 que n\u00e3o. O treinamento de for\u00e7a ou com pesos de uma forma integrada contribui para uma auto-representa\u00e7\u00e3o integrada de si mesma. As pessoas que agacham profundo, com cargas relativamente pesadas, est\u00e3o encontrando e aperfei\u00e7oando em si mesmas o padr\u00e3o mais fundamental do movimento humano: das tr\u00eas \u201cletras\u201d b\u00e1sicas deste alfabeto motor, agachar \u00e9 uma, sendo puxar e empurrar as outras duas. O tamanho resultante da bunda numa vida que inclua agachamento (e n\u00e3o passar o dia condenada a sentar-se em cadeiras) varia conforme a resposta hipertr\u00f3fica que aquela pessoa est\u00e1 geneticamente programada a ter. Ficar satisfeita ou n\u00e3o com este tamanho n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com a funcionalidade da bunda.<\/p>\n<p><iframe src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/J5v645oyxrM\" height=\"315\" width=\"420\" allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\"><\/iframe><br \/>\nAssim, as pessoas que buscam aumentar a bunda com exerc\u00edcios em geral executam freneticamente (e de maneira pouco planejada) exerc\u00edcios \u201cpara aumentar o bumbum\u201d. Como as academias de gin\u00e1stica convencionais oferecem apenas o que eu chamo de \u201ctreino de a\u00e7ougue\u201d, dividindo o corpo em partes e n\u00e3o em movimentos, elas satisfazem sua busca pelo servi\u00e7o.<\/p>\n<p><iframe src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/Cgvo4qt02Tw\" height=\"315\" width=\"560\" allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\"><\/iframe><br \/>\nA bunda continuar\u00e1 sendo um problema, pois, como j\u00e1 apontado, o ideal formol\u00e1trico \u00e9 inalcan\u00e7\u00e1vel. Este tipo de treino de a\u00e7ougue \u00e9 alienante, pois consolida a fragmenta\u00e7\u00e3o corporal da qual todos n\u00f3s somos v\u00edtimas. A mulher, fragmentada, frustrada e derrotada, continuar\u00e1 insatisfeita com sua bunda.<\/p>\n<p>A outra categoria de mulheres dramaticamente infelizes por falta de bunda \u00e9 o daquelas que, acima de seus trinta e cinco anos, na perimenopausa, observam o que se chama de \u201cbunda ca\u00edda\u201d. Sim, com as altera\u00e7\u00f5es hormonais cont\u00ednuas at\u00e9 a menopausa ocorrem altera\u00e7\u00f5es na composi\u00e7\u00e3o corporal. O que ningu\u00e9m conta \u00e9 que s\u00e3o menos os horm\u00f4nios e mais uma vida anti-ergon\u00f4mica, que tira todos n\u00f3s de nosso padr\u00e3o de amplitude completa na extens\u00e3o do quadril (segurem a pergunta, explico em seguida), obrigando-nos a trabalhar, dirigir e at\u00e9 descansar sentadas que realmente vai gradativamente levando a uma atrofia da musculatura gl\u00fatea (e da postura, da sa\u00fade articular e em ultima inst\u00e2ncia da sa\u00fade mental).<\/p>\n<p>As mulheres ditas \u201cmais velhas\u201d s\u00e3o uma categoria de v\u00edtima particularmente triste da formolatria. Sua flacidez (repito, produto principalmente de anos de viol\u00eancia ergon\u00f4mica contra nossos corpos), rugas na pele, novas manchas e colora\u00e7\u00e3o da mesma e bunda ca\u00edda s\u00e3o condenadas pela formolatria: n\u00e3o pode. Quem tem isso recebe a senten\u00e7a de invisibilidade est\u00e9tica e subtra\u00e7\u00e3o da sexualidade.<\/p>\n<p>Estas mulheres s\u00e3o submetidas a todo tipo de humilha\u00e7\u00e3o. Seus corpos s\u00e3o t\u00e3o condenados que at\u00e9 mesmo a vestimenta \u201capropriada\u201d para elas esconde os horrores apontados pelo discurso formol\u00e1trico. Passam a usar roupas largas, n\u00e3o podem mais vestir bikinis e muito menos andar peladas. Seus corpos s\u00e3o t\u00e3o proibidos quanto cenas de obscenidade (e o que seriam elas?).<\/p>\n<p>Vivendo esta persegui\u00e7\u00e3o e bombardeio por todos os lados, as mulheres mais velhas v\u00e3o em busca de solu\u00e7\u00f5es milagrosas para suas proibidas bundas fl\u00e1cidas. Cirurgia n\u00e3o \u00e9 uma alternativa. Exerc\u00edcio f\u00edsico se torna cada vez mais complicado: como entrar no imp\u00e9rio da futilidade, as academias tradicionais, e enfrentar o olhar reprovador de seus freq\u00fcentadores? Quem \u00e9 que consegue fazer for\u00e7a com prazer num ambiente assim?<\/p>\n<p>Sem alternativa, sobra a dor da expuls\u00e3o do para\u00edso da juventude, materializado na bunda de flacidez indesejada. Depois vem a raiva, o ressentimento e finalmente o comportamento auto-destrutivo.<\/p>\n<div>\n<h2>Vamos falar sobre bunda<\/h2>\n<\/div>\n<p>Agora vamos falar sobre bundas reais (como diferente das imagin\u00e1rias super-bundas ou infra-bundas de nossas v\u00edtimas). O que tem dentro da bunda? Coisas important\u00e9rrimas! Eu n\u00e3o acho que seja poss\u00edvel classificar hierarquicamente partes do corpo ou \u00f3rg\u00e3os quanto a sua import\u00e2ncia. Seria o c\u00e9rebro mais importante que o cora\u00e7\u00e3o? E este mais que os rins? O f\u00edgado mais que todos, segundo os chineses? Bobagem. No entanto, se fosse poss\u00edvel apontar uma articula\u00e7\u00e3o que realmente nos caracteriza e \u00e9 imprescind\u00edvel para nossa exist\u00eancia motora, a articula\u00e7\u00e3o do quadril seria forte candidata.<\/p>\n<p>A articula\u00e7\u00e3o do quadril em nossa esp\u00e9cie \u00e9 \u00fanica. O motivo \u00e9 essa novidade evolutiva da qual somos os representantes mais completos. N\u00e3o, boba, n\u00e3o \u00e9 a intelig\u00eancia: \u00e9 o bipedismo. Pois \u00e9, somos b\u00edpedes completos, n\u00e3o temos a canja de poder dar uma apoiada amiga no ch\u00e3o com os bra\u00e7os, nada disso. \u00c9 preciso se equilibrar sobre dois min\u00fasculos p\u00e9s. Algu\u00e9m a\u00ed lembra de ter tentado, quando crian\u00e7a, colocar um bonequinho (ou bonequinha, para as de n\u00f3s que receberam este brinquedo como pr\u00f3prio \u00e0 nossa natureza feminina) em p\u00e9? N\u00e3o ficava, certo? Ent\u00e3o como \u00e9 que voc\u00ea fica em p\u00e9? Porque dentro de n\u00f3s existe um complexo m\u00fasculo-esquel\u00e9tico-articular-ligamentar-tendinoso-nervoso que est\u00e1 em permanente prontid\u00e3o e recrutamento para nos manter assim. \u00c9 o sistema lumbo-p\u00e9lvico-abdominal, chamado por alguns de \u201ccore\u201d (centro, cora\u00e7\u00e3o). Eu gosto desse nome: \u201ccore\u201d. Essa regi\u00e3o do nosso corpo, que inclui a pelve, a regi\u00e3o lombar e abdominal foi considerada por tradi\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas e corporais asi\u00e1ticas como sendo a sede da nossa for\u00e7a vital. Se \u00e9 ou n\u00e3o, fica por sua conta escolher seu sistema de conhecimento. No entanto, que \u00e9 respons\u00e1vel por nossa postura b\u00edpede, isso \u00e9 certo.<\/p>\n<p><iframe src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/EzFO_TIE9Mc\" height=\"315\" width=\"560\" allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\"><\/iframe><br \/>\nEste sistema organiza os movimentos \u2013 de flex\u00e3o, extens\u00e3o e estabiliza\u00e7\u00e3o \u2013 da articula\u00e7\u00e3o do quadril. As cadeias cin\u00e9ticas (monte de m\u00fasculos que atua junto para criar um determinado movimento) respons\u00e1veis pela flex\u00e3o e extens\u00e3o do quadril s\u00e3o os elementos mais cr\u00edticos das fun\u00e7\u00f5es motoras, al\u00e9m de estabilizadoras.<\/p>\n<p>Os m\u00fasculos que produzem movimento no quadril foram organizados em grupos: grupo gl\u00fateo, grupo adutor, grupo do iliopsoas e grupo rotator lateral. N\u00e3o importa o nome deles. Importa saber que n\u00e3o apenas s\u00e3o eles as estruturas acionadas para que andemos, nos viremos, nos mantenhamos em p\u00e9, dancemos e pulemos como \u2013 e a\u00ed vem a parte divertida \u2013 consigamos levantar do ch\u00e3o. Quem tem crian\u00e7a deve ter observado uma brincando de lego no ch\u00e3o. Como ela fica? Agachada, certo? Levantar-se do ch\u00e3o a partir desta posi\u00e7\u00e3o e voltar a ela (tamb\u00e9m conhecido como AGACHAR) \u00e9 um dos primeiros e mais b\u00e1sicos movimentos humanos. Ele ocorre gra\u00e7as \u00e0 articula\u00e7\u00e3o do quadril e da capacidade de recrutar as estruturas motoras que a fazem estender e flexionar.<\/p>\n<p><iframe src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/zxP69oEq8C8\" height=\"315\" width=\"560\" allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\"><\/iframe><br \/>\n<iframe src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/mWNsC4D7waw\" height=\"315\" width=\"560\" allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\"><\/iframe><br \/>\nN\u00e3o existe crian\u00e7a pequena que n\u00e3o saiba agachar e n\u00e3o existe crian\u00e7a pequena sem bunda. O problema come\u00e7a com a primeira cadeira da vida dela.<\/p>\n<p>Cadeiras s\u00e3o objetos inventados pelo dem\u00f4nio, fabricados no inferno, que servem para nos incapacitar, gerar deforma\u00e7\u00f5es nos nossos padr\u00f5es de movimento, produzir les\u00f5es e dores nas costas, restringir nossa liberdade de ir e vir e nos alienar de nossos corpos. Quem primeiro sai do nosso controle \u00e9 a bunda. Ela, sede vital de nossa exist\u00eancia humana, \u00e9 amarrada numa angula\u00e7\u00e3o de 90 graus, angula\u00e7\u00e3o essa a partir da qual o recrutamento da musculatura envolvida na extens\u00e3o \u00e9 dramaticamente reduzido. Em outras palavras, a musculatura que forma isso que chamamos de bunda \u00e9 principalmente ativa para que saiamos do ch\u00e3o e a ele voltemos. Com a maldita cadeira, nossa bunda \u00e9 demitida de parte de suas fun\u00e7\u00f5es primordiais.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, irm\u00e3s, sentemos no ch\u00e3o! Agachemos! Fa\u00e7amos as pazes com nossas bundas! Elas nos d\u00e3o movimento e liberdade e nada mais justo do que n\u00f3s as libertemos do jugo da formolatria.<\/p>\n<div>\n<h2>Celulite, esse mito besta<\/h2>\n<\/div>\n<p>\u201cMinha bunda \u00e9 horr\u00edvel, cheia de celulite\u201d<\/p>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 teve micose? Gastrite? Laringite? Otite? Conhece algu\u00e9m com diabete? Artrite? Artrose? Os sufixos \u201cose\u201d e \u201c(vogal)te\u201d s\u00e3o utilizados no jarg\u00e3o t\u00e9cnico das ci\u00eancias m\u00e9dicas para designar patologias ou morbidades. Infec\u00e7\u00f5es e inflama\u00e7\u00f5es. Doen\u00e7as. Desordens.<\/p>\n<p>Em 1978, N\u00fcrnberger e M\u00fcller publicaram um artigo intitulado \u201cA assim chamada celulite: uma doen\u00e7a inventada\u201d (N\u00fcrnberger &amp; M\u00fcller 1978). Tentemos evitar o labirinto epistemol\u00f3gico segundo o qual toda a descoberta \u00e9 ou cont\u00e9m uma inven\u00e7\u00e3o. Neste caso, \u201cinven\u00e7\u00e3o\u201d se refere a fic\u00e7\u00e3o: uma doen\u00e7a que n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Pois \u00e9, celulite \u00e9 uma n\u00e3o-doen\u00e7a com nome de doen\u00e7a, que atrai bilh\u00f5es de d\u00f3lares para seu \u201ctratamento\u201d. O termo nem existia at\u00e9 1920 e come\u00e7ou de fato a ser usado no final dos anos 1960. A partir da\u00ed, a celulite ganhou a m\u00eddia, a aten\u00e7\u00e3o da medicina est\u00e9tica e o imagin\u00e1rio aterrorizado de bilh\u00f5es de mulheres adultas.<\/p>\n<p>Celulite \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o normal de quase toda mulher p\u00f3s-p\u00fabere. Ocorre em todas as etnias, em mulheres magras e gordas, altas e magras e de qualquer idade adulta. Trata-se de uma hernia\u00e7\u00e3o da gordura subcut\u00e2nea pelo tecido conectivo fibroso, formando ondula\u00e7\u00f5es vis\u00edveis. Suas \u201ccausas\u201d s\u00e3o t\u00e3o relevantes como as \u201ccausas\u201d do crescimento do cabelo. Em geral, consideramos racional buscar as causas para o n\u00e3o-crescimento do cabelo, isso sim inesperado em condi\u00e7\u00f5es saud\u00e1veis. Ou para a n\u00e3o-transpar\u00eancia da unha, ou para a n\u00e3o-ocorr\u00eancia de c\u00edlios nos olhos. A busca de \u201ccausas\u201d para a celulite n\u00e3o \u00e9 impulsionada por quest\u00f5es do reino das ci\u00eancias da sa\u00fade. \u00c9 exibida assim para o p\u00fablico num recurso ret\u00f3rico persuasivo para o que de fato \u00e9 pesquisa industrial do ramo da cosm\u00e9tica e medicina est\u00e9tica. \u201cR&amp;D\u201d (research and development, pesquisa e desenvolvimento) de um segmento que j\u00e1 lucra muito, mas lucra mais ainda se der uma aura de legitimidade cl\u00ednica \u00e0 sua pesquisa e produtos: \u201ca cura da celulite\u201d (Barclay 2008).<\/p>\n<p>Claro que ajuda muito se as supostas v\u00edtimas da n\u00e3o-doen\u00e7a forem levadas ao desespero e, mais ainda, se forem levadas a considerar sua condi\u00e7\u00e3o uma doen\u00e7a merecedora de cura. O coquetel est\u00e1 feito: a mulher n\u00e3o apenas \u00e9 feia por ter celulite, mas \u00e9 tamb\u00e9m doente.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o da celulite como fei\u00fara tem uma certa rela\u00e7\u00e3o com a bonequinha que eu propus que a leitora tentasse colocar de p\u00e9. Ela n\u00e3o tem celulite (e tamb\u00e9m n\u00e3o fica em p\u00e9). Superf\u00edcies pl\u00e1sticas s\u00e3o assim. Pele de mulher n\u00e3o: tem celulite. Praticamente toda mulher. S\u00f3 isso j\u00e1 deveria ser evid\u00eancia suficiente de que algo de podre no reino da formolatria est\u00e1 por baixo dessa fei\u00fara (Kite 2013, Merkin 2007).<\/p>\n<p>Assim, sua bunda com celulite n\u00e3o tem nada de feia. Ela \u00e9 uma bunda saud\u00e1vel como praticamente todas as demais bundas de todas as mulheres e de um certo n\u00famero de homens tamb\u00e9m. Feia \u00e9 a mentira criada pelo marketing formol\u00e1trico que abusa de mulheres indefesas contra este bombardeio ideol\u00f3gico munido de bundas fotografadas e fotoshopadas para que voc\u00ea acredite que o saud\u00e1vel \u00e9 o pl\u00e1stico.<\/p>\n<div>\n<h2>Policiamento e satifa\u00e7\u00e3o corporal<\/h2>\n<\/div>\n<p>O aspecto mais escuro e assustador da aliena\u00e7\u00e3o corporal e da a\u00e7\u00e3o mutilat\u00f3ria da ind\u00fastria da beleza \u00e9 o auto policiamento. O ataque publicit\u00e1rio da formolatria transforma cada um de n\u00f3s em nosso pr\u00f3prio algoz e monitor. Uma vez interiorizada a forma ideal, at\u00e9 mesmo a exposi\u00e7\u00e3o permanente \u00e0 m\u00eddia formol\u00e1trica \u00e9 menos necess\u00e1ria: o pr\u00f3prio indiv\u00edduo exercer\u00e1 a coer\u00e7\u00e3o esperada (Aubrey 2006).<\/p>\n<p>No nosso caso das bundas, a objetifica\u00e7\u00e3o corporal operada pela m\u00eddia cria uma \u201ceu-bunda\u201d em cada uma de n\u00f3s. Essa \u201ceu-bunda\u201d cuidar\u00e1 de monitorar diligentemente o tamanho e transforma\u00e7\u00f5es (ou falta delas) de nossas bundas. Levada a extremos obsessivos, o resto de n\u00f3s vira coadjuvante da eu-bunda.<\/p>\n<p>Brincadeira? E a mulher melancia? Mulher morango, ab\u00f3bora ou sei l\u00e1 mais que fruta? S\u00e3o piadas muito s\u00e9rias, pois da caricatura pornogr\u00e1fica emerge um dedo acusador para cada uma e todas n\u00f3s: sua bunda n\u00e3o presta, logo, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 mulher. A mulher \u00e9 sua bunda.<\/p>\n<p>Como meu pensamento \u00e9 probabil\u00edstico, n\u00e3o vou apostar que 100% das minhas leitoras n\u00e3o adere ao paradigma da mulher-fruta. Mas \u00e9 quase isso. No entanto eu diria que bem mais que 80% seria capaz de admitir insatisfa\u00e7\u00e3o com sua pr\u00f3pria bunda n\u00e3o-vegetal. A verdade \u00e9 que \u00e9 quase imposs\u00edvel n\u00e3o interiorizar nem que seja um pouquinho s\u00f3 essa fruta podre que o patriarcado nos enfia goela abaixo.<\/p>\n<div>\n<h2>De novo a quest\u00e3o da m\u00e1 ci\u00eancia: a famosa pseudo-cient\u00edfica psicologia evolutiva e as bundas<\/h2>\n<\/div>\n<p>Como n\u00e3o podia deixar de ser, temos que falar novamente da mal fadada psicologia evolutiva, essa excresc\u00eancia intelectual pseudo-cient\u00edfica que t\u00e3o bem serve qualquer ideologia conservadora. Em algum momento da sua vida, voc\u00ea j\u00e1 topou com ela. Sabe aquela id\u00e9ia de que \u00e9 \u201cnatural\u201d ou \u201cbiol\u00f3gico\u201d que o homem aprecie bundas e peitos grandes? Vem seguido de algum argumento sobre a evolu\u00e7\u00e3o do neoc\u00f3rtex humano para identificar estas estruturas uma vez que a correla\u00e7\u00e3o entre a sua ocorr\u00eancia e maior sa\u00fade reprodutiva feminina garantiria sele\u00e7\u00e3o natural. Esse lixo vai longe e h\u00e1 textos publicados \u201cprovando\u201d que beb\u00eas rec\u00e9m nascido j\u00e1 nascem capazes de identificar rostos \u201cbelos\u201d, os quais, obviamente, s\u00e3o rostos caucasianos, nariz afilado, simetria caucasiana, etc. N\u00e3o \u00e9 muito f\u00e1cil encontrar boa literatura cient\u00edfica de cr\u00edtica \u00e0 psicologia evolutiva, j\u00e1 que os pesquisadores das \u00e1reas mais s\u00e9rias (e por s\u00e9rias digo envolvidas em controv\u00e9rsias de fato e n\u00e3o de mentirinha) n\u00e3o perdem mais seu tempo com ela.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 t\u00e3o rid\u00edculo que n\u00e3o escrevemos mais a respeito\u201d, me disse ontem uma das maiores autoras da hist\u00f3ria e filosofia das ci\u00eancias da vida, professora de uma universidade americana.<\/p>\n<p>Mas deviam. A quest\u00e3o \u00e9 que, rid\u00edcula ou n\u00e3o, a psicologia evolutiva exerce ainda hoje uma grande influ\u00eancia sobre segmentos ou n\u00e3o suficientemente educados para compreender a n\u00e3o cientificidade de seus enunciados, ou suficientemente conservadores para passar por cima disso. Tal influ\u00eancia e o fato de que o discurso da psicologia evolutiva \u00e9 utilizado como instrumento de coer\u00e7\u00e3o e argumento persuasivo no marketing de produtos de beleza deve ser suficiente para que mere\u00e7a um esfor\u00e7o desconstrutivo por parte da comunidade cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Vamos a alguns de seus enunciados: a bunda, segundo v\u00e1rios psic\u00f3logos evolutivos revisados em Slade (2001) seria n\u00e3o apenas o s\u00edtio prim\u00e1rio de atratividade e apresenta\u00e7\u00e3o sexual feminina em humanos (e outros primatas) como poderosa a ponto de exercer press\u00e3o seletiva para uma \u201credund\u00e2ncia sexual\u201d: a atratividade por seios. Se voc\u00ea j\u00e1 parou de rir, podemos continuar. Outro enunciado importante \u00e9 a famosa raz\u00e3o quadril\/cintura. A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade correlacionou esta raz\u00e3o, com limitada abrang\u00eancia \u00e9tnica, \u00e0 preval\u00eancia epidemiol\u00f3gica de determinadas condi\u00e7\u00f5es patol\u00f3gicas. Como a psicologia evolutiva n\u00e3o poderia deixar de lado um prato cheio como este \u2013 afinal, temos muita lingerie para vender e financiar nossos pseudo-centros de pesquisa &#8211; , veio com a p\u00e9rola seguinte: \u00e9 poss\u00edvel mensurar a atratividade est\u00e9tica e sexual feminina atrav\u00e9s desta raz\u00e3o, sendo ela um elemento comprobat\u00f3rio da validade de si mesma. Se isso n\u00e3o \u00e9 tautologia, ent\u00e3o eu n\u00e3o sei o que \u00e9. O autor \u00e9 o infame Devendra Singh, da Universidade do Texas (veja <a href=\"http:\/\/www.psichi.org\/pubs\/articles\/article_548.aspx\">aqui <\/a>uma colet\u00e2nea de seu besteirol ).<\/p>\n<p>A psicologia evolutiva parte do pressuposto de que a mente humana \u00e9 composta de m\u00f3dulos cognitivos especializados a determinadas tarefas. Estes m\u00f3dulos teriam sido selecionados para garantir maior efici\u00eancia na rea\u00e7\u00e3o a est\u00edmulos ambientais e, portanto, proporcionar mais ajuste (genetic fitness) \u00e0 esp\u00e9cie. O problema \u00e9 precisamente o de que \u00e9 um pressuposto que comprova a si mesmo permanentemente (tamb\u00e9m chamado de tautologia). N\u00e3o existe um fundamento emp\u00edrico do ponto de vista neurol\u00f3gico ou palentol\u00f3gico para nenhum destes \u201cpressupostos\u201d; a maioria n\u00e3o \u00e9 test\u00e1vel (coisa \u00f3bvia para qualquer bi\u00f3logo, pois biologia evolutiva n\u00e3o \u00e9 uma brincadeira), verific\u00e1vel ou false\u00e1vel; ignora olimpicamente o imenso corpo de conhecimento da antropologia cultural e da sociologia, estas, sim, ci\u00eancias consolidadas e reconhecidas. Ou seja: \u00e9 a arte do \u201ccomo quer\u00edamos demonstrar\u201d (leia mais em Gannon 2002).<\/p>\n<p>Mais que isso, \u00e9 a arte do \u201ccomo a ind\u00fastria da beleza queria demonstrar\u201d, com requintes de rid\u00edculo ao \u201cprovar\u201d que caucasianas s\u00e3o biologicamente mais atraentes do que negras.<\/p>\n<p>O tiro de miseric\u00f3rdia \u00e9 a homofobia impl\u00edcita: beleza e atratividade sexual, para a psicologia evolutiva, \u00e9 somente heterossexual. Se isso n\u00e3o \u00e9 vi\u00e9s ideol\u00f3gico, de novo, eu n\u00e3o sei o que \u00e9.<\/p>\n<p>Leitora, s\u00e3o estes pseudo-cientistas que escrevem suas bobagens a soldo de ind\u00fastrias de lingerie, de cosm\u00e9ticos e f\u00e1rmacos e produzem as verdades pseudo-cient\u00edficas que lhe torturam na rela\u00e7\u00e3o com sua bunda. O tamanho de sua bunda, a largura de seu quadril ou a rela\u00e7\u00e3o de tudo isso dentro do corpo integrado n\u00e3o t\u00eam rela\u00e7\u00e3o nenhuma com sua atratividade sexual para homens ou mulheres. Muito menos tem legitimidade na constru\u00e7\u00e3o da sua beleza.<\/p>\n<div>\n<h2>Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come<\/h2>\n<\/div>\n<p>O problema da nossa rela\u00e7\u00e3o com a formolatria no que diz respeito a nossas bundas \u00e9 o beco sem sa\u00edda que ela pode gerar. Submeter-se a ela nos condena \u00e0 busca sem fim de uma forma ideal. Transgredi-la implica os riscos de grave puni\u00e7\u00e3o e reprova\u00e7\u00e3o social (Koggel 2006).<\/p>\n<p>N\u00e3o existe nenhuma solu\u00e7\u00e3o f\u00e1cil ou r\u00e1pida. Infelizmente, de fato s\u00f3 temos dois instrumentos na m\u00e3o: uma desconstru\u00e7\u00e3o terap\u00eautica das bases ideol\u00f3gicas desta sofrida rela\u00e7\u00e3o, bem como uma reflex\u00e3o construtiva sobre conceitos cinesiol\u00f3gicos, para empoderar as mulheres em sua re-apropria\u00e7\u00e3o de suas bundas; uma desconstru\u00e7\u00e3o de den\u00fancia sobre esta manifesta\u00e7\u00e3o da formolatria, de maneira a paulatinamente erodir a legitimidade do discurso dominante sobre nossa t\u00e3o fascinante, fundamental, e bela bunda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<h2>Bibliografia<\/h2>\n<\/div>\n<p>N\u00fcrnberger F, M\u00fcller G. So-called cellulite: an invented disease. J Dermatol Surg Oncol. 1978 Mar;4(3):221-9.<\/p>\n<p>Len Kravitz, Ph.D. and Nicole J. Achenbach Cellulite: A Review of its Anatom y, Physiology and Treatment &#8211; <a href=\"http:\/\/www.drlenkravitz.com\/Articles\/cellulite2.html\">http:\/\/www.drlenkravitz.com\/Articles\/cellulite2.html<\/a><\/p>\n<p>Lindsay Kite. Cellulite, Rimples, And Dimples \u2013 A Beautiful Reality Check &#8211; January 26, 2013 | by &#8211; Everyday Feminism &#8211;\u00a0 <a href=\"http:\/\/everydayfeminism.com\/2013\/01\/cellulite-rimples-and-dimples\/\">http:\/\/everydayfeminism.com\/2013\/01\/cellulite-rimples-and-dimples\/<\/a><\/p>\n<p>By DAPHNE MERKIN &#8211; The Politics of Appearance &#8211; The New York Times &#8211;\u00a0 Published: August 26, 2007 &#8211; <a href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/2007\/08\/26\/style\/tmagazine\/22politics.html?pagewanted=all&amp;_r=0\">http:\/\/www.nytimes.com\/2007\/08\/26\/style\/tmagazine\/22politics.html?pagewanted=all&amp;_r=0<\/a><\/p>\n<p>A Scientific Solution to UNSIGHTLY CELLULITE BY LAURIE BARCLAY, MD AUCUST2008 1 LIFEEXTENSION | 29 <a href=\"http:\/\/www.encognitive.com\/files\/A%20Scientific%20Solution%20to%20UNSIGHTLY%20CELLULITE.pdf\">http:\/\/www.encognitive.com\/files\/A%20Scientific%20Solution%20to%20UNSIGHTLY%20CELLULITE.pdf<\/a><\/p>\n<p>RESEARCH ARTICLE Effects of Sexually Objectifying Media on Self-Objecti\ufb01cation and Body Surveillance in Undergraduates: Results of a 2-Year Panel Study Jennifer Stevens Aubrey Journal of Communication ISSN 0021-9916\u00a0\u00a0 Journal of Communication 56 (2006) 366\u2013386 \u00aa 2006 <a href=\"http:\/\/www.yorku.ca\/rajagopa\/documents\/Aubrey-06-sexObjectif.pdf\">http:\/\/www.yorku.ca\/rajagopa\/documents\/Aubrey-06-sexObjectif.pdf<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de anos sentindo esse desconcerto ao ouvir o lamento de mulheres sobre suas bundas, acho que cheguei a alguns pontos que me ajudam a administr\u00e1-lo. 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