{"id":5564,"date":"2014-01-26T18:03:33","date_gmt":"2014-01-26T18:03:33","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/peito-serie-o-acougue\/"},"modified":"2014-01-26T18:03:33","modified_gmt":"2014-01-26T18:03:33","slug":"peito-serie-o-acougue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/peito-serie-o-acougue\/","title":{"rendered":"Peito &#8211; s\u00e9rie o A\u00e7ougue"},"content":{"rendered":"<p>Todos os di\u00e1logos abaixo s\u00e3o reais.<\/p>\n<p>Di\u00e1logo 1<br \/>\nCasal jovem, em torno de seus vinte anos, na cama, logo ap\u00f3s transar, in\u00edcio dos anos 1980s:<br \/>\n(ele) \u201cJ\u00e1 pensou em fazer uma cirurgia?\u201d<\/p>\n<p>(ela) \u201cComo assim?\u201d<\/p>\n<p>(ele) \u201cReduzir um pouco, uma pl\u00e1stica nos seios\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Di\u00e1logo 2:<\/h3>\n<p>Duas mulheres, a primeira com pr\u00f3teses mam\u00e1rias, a segunda n\u00e3o, ano de 2007:<\/p>\n<p>(mulher 1) \u201cVou marcar consulta para voc\u00ea a semana que vem no meu m\u00e9dico: sem condi\u00e7\u00f5es voc\u00ea continuar com essas muchibas ca\u00eddas\u201d<\/p>\n<p>(mulher 2) \u201cVamos esperar um pouco\u201d<\/p>\n<h3>Di\u00e1logo 3:<\/h3>\n<p>Tr\u00eas mulheres, duas com pr\u00f3teses mam\u00e1rias, a terceira sem, ano de 2007.<\/p>\n<p>(mulher 3) \u201cComo \u00e9 que se escolhe a pr\u00f3tese?\u201d<\/p>\n<p>(mulher 1) \u201cFoi meu marido que escolheu\u201d<\/p>\n<p>(mulher 3) \u201cS\u00e9rio?\u201d<\/p>\n<p>(mulher 1) \u201c\u00c9, ele gosta bem grande. Falo para ele que nem sei qual dos dois ele est\u00e1 chupando\u201d<\/p>\n<p>(mulher 3) \u201cComo assim?\u201d<\/p>\n<p>(mulher 1) \u201cN\u00e3o sinto mais muita coisa. Mas s\u00e3o lindos!\u201d<\/p>\n<h3>Di\u00e1logo 4:<\/h3>\n<p>Casal de namorados, domingo de manh\u00e3, na frente do espelho, ano de 2006.<\/p>\n<p>(ele) \u201cPor que voc\u00ea n\u00e3o coloca pr\u00f3teses?\u201d<\/p>\n<p>(ela) \u201cN\u00e3o quero\u201d<\/p>\n<p>(ele) \u201cPor que?\u201d<\/p>\n<p>(ela, depois de um sil\u00eancio constrangedor) \u201cV\u00e1rios motivos.\u00a0 O primeiro \u00e9 que vai me incomodar para correr. O segundo \u00e9 o tempo de recupera\u00e7\u00e3o. O terceiro \u00e9 que para o meu esporte acredito que possa ser perigoso com a press\u00e3o que a camisa de supino causa sobre as mamas.\u201d<\/p>\n<p>(ele) \u201cMas voc\u00ea poderia mudar de esporte\u201d<\/p>\n<p>(ela) \u201cMais f\u00e1cil eu mudar de namorado. Inclusive porque o quarto motivo \u00e9 que esse espelho n\u00e3o me mostra nada faltando em mim \u2013 se mostra para voc\u00ea, voc\u00ea precisa de outra mulher\u201d<\/p>\n<h3>Di\u00e1logo 5:<\/h3>\n<p>M\u00e3e e sua filha de uns cinco anos, ano de 1994.<\/p>\n<p>(filha, olhando a m\u00e3e deitada) \u201cM\u00e3e, seus peitos parecem pizzas\u201d<\/p>\n<p>(m\u00e3e) \u201c\u00c9 mesmo, filha?\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Exceto pelo di\u00e1logo 1, que se passou entre uma amiga e seu namorado, todos os outros me envolveram. Eu sou a mulher sem peito de todos eles. Minha amiga era a mulher peituda do primeiro.<\/p>\n<p>Nos anos 1980s, ainda persistia o <a href=\"http:\/\/bleubirdvintage.typepad.com\/.a\/6a00e554f1ae9388330120a641a19d970b-800wi \">padr\u00e3o \u201cTwiggy\u201d<\/a> \u00a0de beleza feminina: anor\u00e9xica e \u201cnadadora\u201d (nada de peito, nada de costas, nada de lado). Nos anos 1990s e 2000s, o modelo <a href=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/formolatria-texto\/\">formol\u00e1trico <\/a>feminino\u00a0foi cada vez mais sendo permeado pelo padr\u00e3o \u201cporn star\u201d. N\u00e3o h\u00e1 consenso quanto a esta altera\u00e7\u00e3o de padr\u00e3o. Uma coisa parece evidente: a fronteira desenhada pelas marcas de distin\u00e7\u00e3o na est\u00e9tica sexual que separava as \u201cmulheres de bem\u201d das putas vem sendo borrada. A mo\u00e7a de classe m\u00e9dia alta que, nos anos 1970s e 1980s reduzia as mamas cirurgicamente para melhor se enquadrar na est\u00e9tica elegante, hoje vai para a mesa cir\u00fargica em busca de mamas cada vez maiores.<\/p>\n<p>Mamas grandes ou pequenas foram prescritas por padr\u00f5es est\u00e9ticos e ideol\u00f3gicos de maneiras diferentes. O resultado foi, como no caso da bunda, a instala\u00e7\u00e3o de s\u00edndromes de insatisfa\u00e7\u00e3o corporal nas mulheres (praticamente todas) que desviassem deles.<\/p>\n<p>Mas eu n\u00e3o quero falar sobre isso agora \u2013 vamos dar uma pausa e voltar ao tema depois de uma viagem por outro reino tem\u00e1tico. Quero convidar minhas leitoras a me acompanhar numa reflex\u00e3o sobre amor: peito e amor.<\/p>\n<h1>Peito e amor<\/h1>\n<p>Em 1989 eu tive um beb\u00ea. Uma menina de 3,450kg\u00a0 tirada de mim por cesariana, coisa que desconfio ter sido desnecess\u00e1rio. Assim que ela nasceu, um tipo de fera terr\u00edvel emergiu de dentro de mim e eu tratei tudo e todos como amea\u00e7as potenciais. Nada muito tenso para mim. As feras n\u00e3o s\u00e3o tensas. Era uma atitude irracional e imperme\u00e1vel a negocia\u00e7\u00e3o de decidir sozinha tudo que dissesse respeito ao beb\u00ea. Come\u00e7ou na maternidade, onde, mesmo sob anestesia, de noite, eu obriguei o hospital a contrariar as ordens do obstetra (que contrariou o combinado comigo) e me trazer o beb\u00ea: era meu, eu que tinha feito, eu mandava, ponto final. Ganhei a simpatia das enfermeiras e o medo (justificado) do m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Me foi recomendado pelo m\u00e9dico \u2013 sujeito sem filhos, sem \u00fatero e sem mamas \u2013 que eu n\u00e3o ficasse \u201cpegando o beb\u00ea toda hora que ela resmungasse\u201d e que a amamentasse de tr\u00eas em tr\u00eas horas. Eu respondi que a m\u00e3e era eu, a bi\u00f3loga era eu e que o papel dele j\u00e1 tinha terminado \u2013 bye bye. Basicamente, minha filha mamou a cada 45 minutos. Claro que machucou os mamilos: \u00e9 esperado. Tamb\u00e9m claro que em uma semana j\u00e1 estavam cicatrizados.<\/p>\n<p>A primeira mamada \u201cpara valer\u201d de um beb\u00ea \u00e9 meio assustadora para a m\u00e3e. O pessoal n\u00e3o explica que o beb\u00ea n\u00e3o suga, e sim cria press\u00e3o negativa com a boca (como uma ventosa) e estimula a mama a despejar leite nela. Tudo \u00e9 um pouco desajeitado nesse come\u00e7o: um peito esguicha leite na boca do beb\u00ea enquanto o outro d\u00f3i pacas ou ent\u00e3o resolve espirrar leite pelo mundo.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/mamando3.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-3719\" alt=\"mamando3\" src=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/mamando3.jpg\" width=\"221\" height=\"356\" srcset=\"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/mamando3.jpg 525w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/mamando3-186x300.jpg 186w\" sizes=\"(max-width: 221px) 100vw, 221px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Figura 1 \u2013 Na maternidade<\/p>\n<p>Os malditos manuais de instru\u00e7\u00e3o que d\u00e3o para a gente falam em cinco minutos em cada peito, ou at\u00e9 dez, quando na realidade tudo depende de fatores como o esf\u00edncter do canal e n\u00e3o sei que outros. Minha filha dava conta de sua quota de leite em cinco minutos totais. Isso me obrigava a arranc\u00e1-la (fazia um barulho como \u201cpphhhh\u201d, como um desentupidor de pia) de um dos peitos em dois minutos, disparando nela urros de frustra\u00e7\u00e3o, acopl\u00e1-la rapidamente no outro (isso tudo demorava menos de tr\u00eas segundos) e \u2013 ufa! \u2013 esperar que ela se entupisse de leite. A\u00ed era s\u00f3 ergu\u00ea-la para escorrer o excesso (tamb\u00e9m chamado de colocar o beb\u00ea para regurgitar).<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/mamandogrande.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-3720\" alt=\"mamandogrande\" src=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/mamandogrande.jpg\" width=\"528\" height=\"382\" srcset=\"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/mamandogrande.jpg 1467w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/mamandogrande-300x217.jpg 300w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/mamandogrande-1024x741.jpg 1024w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/mamandogrande-768x556.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 528px) 100vw, 528px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Figura 2 \u2013 cinco meses<\/p>\n<p>A curva de aprendizado de m\u00e3e com essas coisas \u00e9 muito r\u00e1pida. Em pouco tempo, a parte desajeitada \u00e9 minimizada e desaparece. N\u00e3o existe mais dor nenhuma (uma semana no m\u00e1ximo). Tudo seguindo nos conformes, amamentar vai se tornando uma das coisas mais legais que existe. S\u00e3o os momentos \u201ca-h\u00e1\u201d mais significativos, quando a gente se d\u00e1 conta de que aquela coisinha \u00e9 absolutamente humana e est\u00e1 se comunicando com a gente, fazendo contato olho-com-olho. Tamb\u00e9m s\u00e3o os momentos mais animais e \u00edntimos que uma mulher jamais ter\u00e1 com seu filho depois da gravidez. O per\u00edodo de amamenta\u00e7\u00e3o \u00e9 uma esp\u00e9cie de fase de adapta\u00e7\u00e3o da m\u00e3e \u00e0 sua nova condi\u00e7\u00e3o externa. Acreditem: racionalizada ou n\u00e3o, \u00e9 esquisita. O beb\u00ea estar fora da gente gera um certo desconforto e ang\u00fastia, que s\u00e3o atenuados durante a amamenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os peitos ganham um significado que nunca tiveram para quem n\u00e3o tinha tido filhos antes. \u00a0Um beb\u00ea \u00e9 uma f\u00e1brica de tecido novo: come muito, faz muito coco, aprende muito. Enquanto ele mama, voc\u00ea tem a aten\u00e7\u00e3o dele s\u00f3 para voc\u00ea. Sim, m\u00e3es podem ser ego\u00edstas, possessivas, uma por\u00e7\u00e3o de coisas erradas. M\u00e3e \u00e9 uma mulher que teve filho \u2013 s\u00f3 isso. Toda a tralha neur\u00f3tica vem junto. Em geral fica pior. Sem Melanie Klein agora: estamos falando do peito para a m\u00e3e. Para a m\u00e3e o peito \u00e9 pura conex\u00e3o. A cada tr\u00eas horas ou por a\u00ed, seu filho e voc\u00ea voltam a ser um sistema s\u00f3 atrav\u00e9s do peito. Peito produz leite e at\u00e9 nosso apetite e gosto alimentar mudam em fun\u00e7\u00e3o disso. Somos fabricantes do melhor alimento da gal\u00e1xia e nossos peitos s\u00f3 podem ser lindos. Eu achava os meus sensacionais.<\/p>\n<p>Filho \u00e9 a experi\u00eancia mais intensa de amor incondicional que a gente tem. O leite produzido pelo peito cimenta o momento de intimidade com o sujeito desse amor. \u00c9 inevit\u00e1vel que seja uma parte privilegiada da nossa anatomia durante a amamenta\u00e7\u00e3o. Das in\u00fameras coisas ambivalentes e paradoxais que eu fiz, uma delas era orgulhosamente amamentar em qualquer lugar em que eu estivesse. Era uma esp\u00e9cie de declara\u00e7\u00e3o da superioridade da minha rela\u00e7\u00e3o com o beb\u00ea sobre todas as demais rela\u00e7\u00f5es sociais: estamos no parque? Na USP? No banco? N\u00e3o importava: eu tirava os peitos para fora e amamentava.<\/p>\n<p>Esse per\u00edodo id\u00edlico tem um prazo. Seu filho cresce, desenvolve dentes, se transforma no ser on\u00edvoro que define nossa esp\u00e9cie e o leite materno vai sendo menos e menos importante. Um dia a crian\u00e7a desmama. Algumas mulheres passam por isso bem, outras n\u00e3o. Eu lembro que passei uns dias muito triste e confusa. Me senti um pouco exclu\u00edda de algo que era central. \u00c9 a primeira grande exclus\u00e3o que vivemos \u2013 se nossa rela\u00e7\u00e3o for minimamente saud\u00e1vel com nossos filhos, seremos gradualmente exclu\u00eddos de mais e mais dom\u00ednios de suas vidas.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que essa exclus\u00e3o muda nosso corpo mais uma vez: os peitos murcham. Aqueles peitos enormes, lact\u00edferos, voltam a ser os seios que t\u00ednhamos antes ou at\u00e9 menores.<\/p>\n<p>E o que eram esses peitos pequenos ou grandes antes da amamenta\u00e7\u00e3o e depois dela? Que significado eles tinham e voltam a ter para n\u00f3s?<\/p>\n<p>Pensando bem, tamb\u00e9m tinham significados de amor e prazer \u2013 apenas formas diferentes de amor e prazer. Pensemos na forma e fun\u00e7\u00e3o desta nossa estranha gl\u00e2ndula externa: a maior parte do volume vis\u00edvel do seio \u00e9 tecido gorduroso. Durante a gravidez e amamenta\u00e7\u00e3o, as gl\u00e2ndulas mam\u00e1rias propriamente ditas aumentar\u00e3o, dando maior volume ao seio. Com o passar dos anos, a quantidade de gordura se reduz e o tecido ligamentar que d\u00e1 sustenta\u00e7\u00e3o ao seio se torna menos el\u00e1stico: os peitos ficam mais moles, \u201cca\u00eddos\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone\" alt=\"\" src=\"http:\/\/revistavivasaude.uol.com.br\/arquivosold\/saude-nutricao\/116\/imagens\/i364218.jpg\" width=\"280\" height=\"386\" \/><\/p>\n<p>Figura 3 \u2013 anatomia do seio<\/p>\n<p>Os mamilos cont\u00e9m corp\u00fasculos de tecido nervoso (tipos de mecanoreceptores) que os tornam zonas er\u00f3genas particularmente sens\u00edveis. Al\u00e9m disso, o seio inteiro \u00e9 coberto por uma rede nervosa capaz de responder a estimula\u00e7\u00e3o, independente do tamanho. Assim, segundo dados anat\u00f4micos, seios menores s\u00e3o mais sens\u00edveis pela maior concentra\u00e7\u00e3o deste tecido nervoso pela \u00e1rea total. Primeira evid\u00eancia sobre a n\u00e3o-correspond\u00eancia entre o papel do peito para a mulher e sua forma prescrita pela ind\u00fastria da beleza do patriarcado.<\/p>\n<p>A estimula\u00e7\u00e3o dos mamilos produz uma intensa produ\u00e7\u00e3o de <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ocitocina\">ocitocina \u00a0<\/a>(apelidada de \u201ca mol\u00e9cula moral\u201d ou \u201cdo amor\u201d por estar associada a comportamentos emp\u00e1ticos) e de prolactina. Naturalmente, produz excita\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>A esta altura do s\u00e9culo XXI me parece redundante insistir que existe alguma rela\u00e7\u00e3o entre empatia, amor e sexo. Lembrar que a estimula\u00e7\u00e3o do mamilo tanto pela amamenta\u00e7\u00e3o quanto por contatos sexuais leva \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de ocitocina \u00e9 no m\u00ednimo interessante.<\/p>\n<p>Assim, aqueles peitos que produzem leite para beb\u00eas produzem respostas de amor e aceita\u00e7\u00e3o sexual para parceiros, independente de suas formas e tamanhos.<\/p>\n<p>Destas quatro coisas diferentes que o peito representa para n\u00f3s &#8211; amor na troca com o filho, prazer nessa troca, amor no afeto com parceir@s e prazer sexual &#8211; , s\u00f3 uma tem significado para a ind\u00fastria da beleza: a \u00faltima.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio citar refer\u00eancia nenhuma para afirmar com bastante convic\u00e7\u00e3o que o que interessa ao parceiro sexual num peito \u00e9 o resultado excitat\u00f3rio de sua manipula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Agora sim podemos voltar aos di\u00e1logos que abriram este artigo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<h1>A implanta\u00e7\u00e3o de pr\u00f3tese mam\u00e1ria: entre a modifica\u00e7\u00e3o corporal e a auto-mutila\u00e7\u00e3o<\/h1>\n<\/div>\n<p>A hist\u00f3ria da cirurgia pl\u00e1stica para aumento de seios tem um registro controvertido, no m\u00ednimo. A maior parte das cronologias documentam as situa\u00e7\u00f5es litigiosas e aspectos regulat\u00f3rios do procedimento (<a href=\"http:\/\/www.fda.gov\/MedicalDevices\/ProductsandMedicalProcedures\/ImplantsandProsthetics\/BreastImplants\/ucm064461.htm \">aqui <\/a>e <a href=\"http:\/\/www.pbs.org\/wgbh\/pages\/frontline\/implants\/cron.html \">aqui<\/a>). Observando estas linhas do tempo, o que vemos \u00e9 que desde os anos 1960s os implantes de silicone eram dispon\u00edveis. S\u00f3 ganharam popularidade, no entanto, ap\u00f3s os anos 1980s e principalmente 1990s.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros, ent\u00e3o sobem exponencialmente. Mesmo a crise econ\u00f4mica apenas afetou marginalmente o setor est\u00e9tico, <a href=\"http:\/\/www.prlog.org\/10244825-global-markets-direct-the-future-of-the-aesthetic-devices-market-to-2015-on-reportsresearchcom.html\">em particular o de pr\u00f3teses mam\u00e1rias<\/a> . Em 2011, estima-se que s\u00f3\u00a0 nos Estados Unidos, h\u00e1 5-10 milh\u00f5es de mulheres com implantes mam\u00e1rios e que em 2009, as cirurgias de implante mam\u00e1rio representavam <a href=\"http:\/\/www.fda.gov\/ForConsumers\/ConsumerUpdates\/ucm240985.htm\">17% do total de cirurgias pl\u00e1sticas<\/a>.<\/p>\n<p>O que nos dizem estes n\u00fameros? Que aqueles di\u00e1logos l\u00e1 em cima refletem constru\u00e7\u00f5es sociais historicamente contextualizadas. O primeiro di\u00e1logo se passou entre um casal de namorados de classe m\u00e9dia alta, mais especificamente o que chamar\u00edamos de \u201caristocracia paulistana\u201d, no in\u00edcio dos anos 1980s. O namorado da mo\u00e7a, potencial marido da senhora elegante e aristocr\u00e1tica, sugeriu que seria mais adequado uma est\u00e9tica menos vulgar e, portanto, seios menores.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m poderia argumentar que esse era o interesse do rapaz considerando que a mo\u00e7a era uma potencial esposa, mas se fosse uma puta ou sexo casual com uma mulher de estrato s\u00f3cio-econ\u00f4mico desprivilegiado, ele n\u00e3o se oporia ao peit\u00e3o. Talvez at\u00e9 o aplaudisse. Bobagem: isso s\u00e3o suposi\u00e7\u00f5es e um experimento mental sem sentido. O fato \u00e9 que mulher interessante \u00e9 contextualmente interessante. A mulher interessante nos anos 1970s e 1980s tinha peito pequeno e as cirurgias est\u00e9ticas satisfaziam essa demanda.<\/p>\n<p>Pelas cronologias acima, prostitutas sempre procuraram aumentar as mamas desde que as cirurgias para implante de pr\u00f3teses estiveram dispon\u00edveis.<\/p>\n<p>Assim, o aumento da demanda, nos anos 1980s e 1990s, refletindo uma busca massiva de cirurgias de pr\u00f3tese mam\u00e1ria pela classe m\u00e9dia, mostra que o que j\u00e1 era uma tend\u00eancia entre as prostitutas se expandiu: o padr\u00e3o \u201cporn\u201d virou quase \u201cchic\u201d. Brincadeiras \u00e0 parte, o pudor com a vulgaridade foi aposentado e todo mundo passou a se submeter \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o formol\u00e1trica do ideal \u201cBarbie\u201d: peit\u00e3o.<\/p>\n<p>Os di\u00e1logos 2 a 5 se passaram comigo. Meus peitos s\u00e3o pequenos e, depois de me tornar atleta, com a redu\u00e7\u00e3o geral de gordura corporal, se tornaram menores ainda. Durante um tempo, eu aceitava como fatalidade que um dia teria que colocar pr\u00f3teses. Afinal, eu n\u00e3o era defensora do direito \u00e0 modifica\u00e7\u00e3o corporal? Todo mundo n\u00e3o tinha direito de construir e re-construir seu corpo segundo seu arb\u00edtrio? Piercings, tatoos e, por que n\u00e3o, pr\u00f3teses? As mulheres transg\u00eaneras n\u00e3o buscam cirurgias de pr\u00f3tese mam\u00e1ria para construir seus corpos segundo os g\u00eaneros que tamb\u00e9m constroem? Os homens transg\u00eaneros n\u00e3o t\u00eam agora a incr\u00edvel cirurgia de faloplastia? Onde fica a fronteira entre a (auto) mutila\u00e7\u00e3o e a modifica\u00e7\u00e3o-constru\u00e7\u00e3o corporal?<\/p>\n<p>A resposta ficou clara quando consegui entrar em contato com a minha emo\u00e7\u00e3o. N\u00e3o: eu n\u00e3o queria peitos maiores. Eu nem acho bonito em mim os imagin\u00e1rios peitos maiores. Os enormes peitos cheios de leite que eu um dia tive eram lindos. Os min\u00fasculos peitos que eu tenho agora s\u00e3o legais. A minha inten\u00e7\u00e3o de me submeter a uma cirurgia de pr\u00f3tese mam\u00e1ria era uma submiss\u00e3o ao desejo de todos os outros que me cercavam \u2013 mulheres e homens -, que rejeitavam os meus peitos pequenos.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi (e n\u00e3o \u00e9) nada f\u00e1cil admitir que eu n\u00e3o acho bonito peito grande em mim e que, portanto, n\u00e3o vou fazer cirurgia nenhuma. A resposta que dei no di\u00e1logo 4 veio depois de muito sofrimento. E depois dessa, tive outros namorados com igual falta de sensibilidade. Digo mais: igual falta de educa\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>Pois o que o di\u00e1logo 3 \u2013 da mulher cujo marido escolheu pr\u00f3teses gigantescas \u2013 reflete \u00e9 real: ocorre um certo grau de perda de sensibilidade. Essa perda \u00e9 proporcional ao tamanho da pr\u00f3tese, entre outros fatores. Que homens s\u00e3o estes para quem o tamanho obsceno da mama, imposto pela ind\u00fastria pornogr\u00e1fica \u2013 Ups ! \u2013 digo, da beleza, \u00e9 mais importante do que a resposta sexual que a\u00a0 parceira d\u00e1 \u00e0 sua estimula\u00e7\u00e3o? Homens educados por filme porn\u00f4, s\u00f3 pode.<\/p>\n<p>Segundo os dados dispon\u00edveis, a perda de sensibilidade varia muito. Amortecimento <a href=\"http:\/\/www.realself.com\/question\/breast-implants-sensation-loss\">n\u00e3o deveria passar de 5-8% dos casos<\/a>. N\u00e3o sabemos: simplesmente n\u00e3o encontrei estudos confi\u00e1veis. N\u00e3o acho que interessa a ningu\u00e9m que este dado seja disponibilizado.<\/p>\n<p>Outro dado que deve ser lido com muita cautela \u00e9 a <a href=\"http:\/\/usatoday30.usatoday.com\/news\/health\/2007-08-06-breast-implants_N.htm\">rela\u00e7\u00e3o entre pr\u00f3tese mam\u00e1ria e suic\u00eddio<\/a>. Um estudo longitudinal feito na Su\u00e9cia mostrou que as taxas de suic\u00eddio entre mulheres que se submeteram a implantes mam\u00e1rios s\u00e3o bem mais altas do que na popula\u00e7\u00e3o em geral. Nos primeiros 10 anos ap\u00f3s o implante, o risco \u00e9 \u201cnotavelmente mais alto\u201d. De 10 a 19 anos depois do implante, o risco sobe para 4,5 vezes o da popula\u00e7\u00e3o em geral. Depois de 20 anos, o risco sobe para 6 vezes o risco na popula\u00e7\u00e3o. O que estes n\u00fameros mostram \u00e9 apenas uma rela\u00e7\u00e3o entre um fen\u00f4meno e outro. N\u00e3o sugerem que um seja causa do outro. O mais prov\u00e1vel \u00e9 que ele indique outra rela\u00e7\u00e3o causal subjacente, ou seja, que existe uma rela\u00e7\u00e3o entre certas desordens psiqui\u00e1tricas e a busca por implantes mam\u00e1rios. Isso n\u00e3o quer dizer, de forma alguma, que a busca pelo implante mam\u00e1rio sugira uma desordem psiqui\u00e1trica. Diz apenas que deve haver uma maior propor\u00e7\u00e3o de portadoras de alguma desordem entre as mulheres que buscam os implantes do que nas que n\u00e3o buscam. Ponto final.<\/p>\n<p>Nesta perspectiva cautelosa, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel deixar de olhar estes n\u00fameros com certo alarme. O m\u00ednimo que eles dizem \u00e9 que existem motiva\u00e7\u00f5es, por parte de um segmento das mulheres que se submetem aos implantes, que n\u00e3o s\u00e3o benignas. Considerando a press\u00e3o social para que todas aumentem suas mamas, press\u00e3o essa que eu sofri e sofro at\u00e9 hoje, n\u00e3o acho muito dif\u00edcil especular onde est\u00e1 o elemento escuro e maligno de tais motiva\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div>\n<h1>Peito e amor de novo<\/h1>\n<\/div>\n<p>Uma das coisas que marca as mem\u00f3rias boas que tenho dos grandes amores foi a insist\u00eancia (e, muitas vezes, paci\u00eancia) que esses homens tiveram para me convencer a abrir a guarda em rela\u00e7\u00e3o aos meus min\u00fasculos peitos. Com um mundo l\u00e1 fora dizendo que eles s\u00e3o errados, que eu deveria ter grandes peitos de pl\u00e1stico, nem toda a racionaliza\u00e7\u00e3o feminista de que me orgulho me protegia nesse momento. Eu estava ali, exposta \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o muitas vezes irresist\u00edvel do parceiro sobre quem a ideologia dominante poderia ter sido mais forte. Estes homens especiais conseguiram me convencer de que o interesse deles nos meus peitos (min\u00fasculos) era leg\u00edtimo e muito bem fundamentado na resposta que eles buscavam. Pouco lhes importava o tamanho dos peitos: eles eram meus e a minha resposta era o que confirmava que eles eram por mim aceitos e amados.<\/p>\n<p>Como eu disse a alguns deles, a vagina \u00e9 aquele t\u00fanel escuro que leva ou n\u00e3o o passageiro para o fundo da alma de uma mulher. E os mamilos s\u00e3o as luzes de confirma\u00e7\u00e3o da viagem:<\/p>\n<p>\u201cHouston, we\u2019re ok to go\u201d (Houston, estamos prontos para partir)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos os di\u00e1logos abaixo s\u00e3o reais. Di\u00e1logo 1 Casal jovem, em torno de seus vinte anos, na cama, logo ap\u00f3s transar, in\u00edcio dos anos 1980s: (ele) \u201cJ\u00e1 pensou em fazer uma cirurgia?\u201d (ela) \u201cComo assim?\u201d (ele) \u201cReduzir um pouco, uma pl\u00e1stica nos seios\u201d &nbsp; Di\u00e1logo 2: Duas mulheres, a primeira com pr\u00f3teses mam\u00e1rias, a segunda [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_seopress_robots_primary_cat":"","_seopress_titles_title":"","_seopress_titles_desc":"","_seopress_robots_index":"","site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[1256,1979,288,1980,1225,140],"tags":[2640,1590,1670,2641,1258,1259,1841,15,2642,2643,2644],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5564"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5564"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5564\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5564"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5564"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5564"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}