{"id":5567,"date":"2014-01-27T01:37:18","date_gmt":"2014-01-27T01:37:18","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/maos-serie-o-acougue\/"},"modified":"2014-01-27T01:37:18","modified_gmt":"2014-01-27T01:37:18","slug":"maos-serie-o-acougue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/maos-serie-o-acougue\/","title":{"rendered":"M\u00e3os &#8211; s\u00e9rie O A\u00e7ougue"},"content":{"rendered":"<p>Na s\u00e9rie \u201cA\u00e7ougue\u201d, estamos examinando cada corte do corpo feminino para entender como sua \u201cfeminilidade\u201d foi socialmente constru\u00edda segundo agendas opressivas \u00e0s mulheres. Vimos como a <a href=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/bunda-serie-acougue-2\/\">bunda <\/a>, o <a href=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/peito-serie-acougue-2\/\">peito <\/a>\u00a0e a <a href=\"http:\/\/tinyurl.com\/p2lwbkt\">barriga <\/a>\u00a0feminina s\u00e3o constru\u00eddas segundo est\u00e9ticas desumanizadas e ditadas por interesses estranhos \u00e0s mulheres e como estas est\u00e9ticas ferem at\u00e9 mesmo as fun\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas e diversidade anat\u00f4mica.<\/p>\n<p>Neste cap\u00edtulo, em vez de come\u00e7armos pela (per)vers\u00e3o feminina do corte em quest\u00e3o, vamos discutir a m\u00e3o humana. Nesta discuss\u00e3o, vamos percorrer os temas do trabalho, da guerra e agress\u00e3o, da transforma\u00e7\u00e3o do mundo, do prazer e o \u00faltimo \u00edtem \u00e9 surpresa.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/figura-1.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-3765\" alt=\"figura 1\" src=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/figura-1.jpg\" width=\"576\" height=\"432\" srcset=\"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/figura-1.jpg 960w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/figura-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/figura-1-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 576px) 100vw, 576px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0A m\u00e3o, o trabalho e a guerra<\/strong><\/p>\n<p>Olhe para suas m\u00e3os. O que voc\u00ea est\u00e1 fazendo agora? Di?&#8230; gitando! Voc\u00ea pode ter aberto seu computador ou equipamento m\u00f3vel para recrea\u00e7\u00e3o, por motivo nenhum, por\u00e9m, o mais prov\u00e1vel, \u00e9 que ele seja uma ferramenta do seu trabalho. O que quer que voc\u00ea fa\u00e7a com ele depende dos seus dedos e, portanto, da sua m\u00e3o.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea fizer rapidamente uma lista de 10 ocupa\u00e7\u00f5es, a fun\u00e7\u00e3o da m\u00e3o do trabalhador nelas ser\u00e1 maior ou menor, mas sempre ser\u00e1 central. O papel da m\u00e3o no trabalho \u00e9 t\u00e3o fundamental que os primeiros discursos cient\u00edficos sobre ela, vindos tanto das ci\u00eancias sociais, da economia e da anatomia, atribu\u00edam a esta rela\u00e7\u00e3o o papel central na evolu\u00e7\u00e3o de nossa esp\u00e9cie. O homem teria se humanizado atrav\u00e9s de uma evolu\u00e7\u00e3o combinada da anatomia da m\u00e3o e do neoc\u00f3rtex cerebral mediada pelo trabalho (<a href=\"http:\/\/www.marxists.org\/archive\/marx\/works\/download\/EngelsDialectics_of_Nature_part.pdf\">Engels 1883<\/a> ). O homem era o <i>homo habilis<\/i>, o homem que trabalha. Os artefatos neol\u00edticos de pedra lascada recuperados em s\u00edtios arqueol\u00f3gicos foram interpretados \u00e0 luz destas teorias (seriam utens\u00edlios) e a pegada humana, \u00fanica entre os primatas, com o polegar em oposi\u00e7\u00e3o aos dedos, foi descrita vis a vis \u00e0s mesmas.<\/p>\n<p>Os primeiros estudos foram conduzidos por <a href=\"http:\/\/www.bjj.boneandjoint.org.uk\/content\/38-B\/4\/902.full.pdf \">Napier <\/a>. Este pesquisador procurava explicar um registro f\u00f3ssil encontrado em 1960, em Olduvai, Tanzania, datado de 1,7 milh\u00e3o de anos atr\u00e1s, depois classificado como sendo do g\u00eanero <i>Homo<\/i>. O f\u00f3ssil justificou a identifica\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie <i>Homo habilis<\/i> (\u201chomem h\u00e1bil\u201d) como a primeira de nosso g\u00eanero. Napier abriu caminho para o estudo da evolu\u00e7\u00e3o da m\u00e3o e pegada humanas. As duas pegadas fundamentais, detalhadas depois em estudos subseq\u00fcentes, foram as de precis\u00e3o e de pot\u00eancia.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/fig-2A.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-3766\" alt=\"fig 2A\" src=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/fig-2A.jpg\" width=\"608\" height=\"204\" srcset=\"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/fig-2A.jpg 1449w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/fig-2A-300x100.jpg 300w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/fig-2A-1024x343.jpg 1024w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/fig-2A-768x257.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 608px) 100vw, 608px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/fig-2B.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-3767\" alt=\"fig 2B\" src=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/fig-2B.jpg\" width=\"546\" height=\"175\" srcset=\"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/fig-2B.jpg 1549w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/fig-2B-300x96.jpg 300w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/fig-2B-1024x328.jpg 1024w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/fig-2B-768x246.jpg 768w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/fig-2B-1536x492.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 546px) 100vw, 546px\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"line-height: 1.5em;\">Figura 2 (2.1, pegada de precis\u00e3o; 2.2. pegada de pot\u00eancia) ilustra\u00e7\u00f5es Iara Coutinho<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 2003 , <a href=\"http:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC1571064\/pdf\/joa0202-0165.pdf \">Richard Young<\/a> \u00a0reviu os dados paleontol\u00f3gicos e observou uma discrep\u00e2ncia fundamental: a pegada humana, bem como o neocortex do homem moderno precedem a produ\u00e7\u00e3o dos artefatos de pedra lascada. O trabalho publicado com estes dados prop\u00f5e uma interpreta\u00e7\u00e3o inteiramente diferente sobre a m\u00e3o e a pegada humana, numa verdadeira substitui\u00e7\u00e3o paradigm\u00e1tica. A pegada humana teria sido resultado de uma outra linha de press\u00e3o evolutiva. Em vez do trabalho, a guerra. Bandos de human\u00f3ides desbravando ambientes hostis teriam sofrido press\u00e3o seletiva para a sobreviv\u00eancia dos mais h\u00e1beis em lutar, matar e guerrear, e n\u00e3o em produzir utens\u00edlios.<\/p>\n<p>As pegadas de precis\u00e3o e pot\u00eancia foram re-interpretadas como pegadas de arremesso e de golpe (\u201cthrowing\u201d e \u201cclubbing\u201d).<\/p>\n<p>Onde entra o trabalho, ent\u00e3o? Como fun\u00e7\u00e3o posterior de uma esp\u00e9cie j\u00e1 selecionada como h\u00e1bil para matar (ca\u00e7ar, se defender e dominar), alterar as rela\u00e7\u00f5es com seu ambiente e ocupar novos nichos ecol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o do mundo, portanto, deve ser vista como resultado n\u00e3o apenas do trabalho humano, mas tamb\u00e9m da viol\u00eancia que ele \u00e9 capaz de exercer. O novo requer a destrui\u00e7\u00e3o do velho para sua emerg\u00eancia e o papel da viol\u00eancia na cultura humana n\u00e3o me parece muito controvertido. Toda transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 violenta e toda ocupa\u00e7\u00e3o de novos espa\u00e7os \u00e9 destrutiva. Quando, hoje, nos organizamos para combater a injusti\u00e7a (o exerc\u00edcio de viol\u00eancia socialmente avalizada de grupos mais empoderados sobre os menos empoderados) ou a destrui\u00e7\u00e3o do ambiente (a modifica\u00e7\u00e3o irracional e injustificada das rela\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas em detrimento de todas as esp\u00e9cies, inclusive a nossa, e da degenera\u00e7\u00e3o de par\u00e2metros ambientais saud\u00e1veis), o que estamos fazendo \u00e9 negociar o exerc\u00edcio da viol\u00eancia e da destrui\u00e7\u00e3o segundo os v\u00e1rios interesses em jogo, incluindo a continuidade da Hist\u00f3ria humana no planeta.<\/p>\n<p>Pronto: j\u00e1 temos dois dos quatro elementos importantes para refletir sobre a m\u00e3o. Temos o <b><i>trabalho<\/i><\/b> e a <b><i>transforma\u00e7\u00e3o do mundo<\/i><\/b>.<\/p>\n<p>Neste momento convido minhas leitoras para um coffee break com um pouco de m\u00fasica. Se n\u00e3o quiserem, \u00e9 s\u00f3 pular para as conclus\u00f5es seguintes, mas prometo que as m\u00fasicas s\u00e3o legais. A primeira ser\u00e1 certamente desconhecida das mais jovens e talvez de boa parte das mais velhas tamb\u00e9m. Chama-se \u201cPlegaria de um labrador\u201d (ora\u00e7\u00e3o de um campon\u00eas) e eu escutei pela primeira vez num quartinho escuro qualquer, numa fita k-7 vinda escondida na mala de algu\u00e9m que tinha estado na Argentina, aquele lugar onde podia tudo. Vem do tempo da inoc\u00eancia (a minha, pelo menos). A segunda \u00e9 \u201cHands that built America\u201d, do U-2.<\/p>\n<p><iframe src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/egZuVXGB2b0\" height=\"315\" width=\"420\" allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\"><\/iframe><br \/>\n<iframe src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/UxCAvK2wIEo\" height=\"315\" width=\"420\" allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\"><\/iframe><br \/>\nEmbora este n\u00e3o seja um cap\u00edtulo sobre a revolu\u00e7\u00e3o latino-americana e nem sobre a constru\u00e7\u00e3o da America, as duas m\u00fasicas nos ajudam a refletir sobre seu tema, que \u00e9 a m\u00e3o da mulher. Leia os seguintes trechos das letras:<\/p>\n<p>\u201cLevantate y mirate las manos. Para crecer, estrechala a tu Hermano. Tu, que manejas, el curso de los r\u00edos. Tu, que sebraste, el vuelo de tu alma\u201d.(Levante-se e olhe suas m\u00e3os. Para crescer, estenda-a a seu irm\u00e3o. Tu, que modificas o curso dos r\u00edos. Tu, que semeaste, o v\u00f4o de sua alma)<\/p>\n<p>\u201cThese are the hands that built America\u00a0(Russian, Sioux, Dutch, Hindu)\u00a0Oh, oh oh, America (Polish, Irish, German, Italian)\u201d (Estas s\u00e3o as m\u00e3os que construiram a America (Russas, Sioux, holandesas, hind\u00fas). Oh, oh oh, America (Polonessas, irlandesas, alem\u00e3s, italianas) )<\/p>\n<p>Como \u00e9 uma m\u00e3o t\u00e3o poderosa assim? Uma m\u00e3o que muda o curso dos rios, que derruba poderosos, que constr\u00f3i edif\u00edcios imensos e, enfim, faz a Hist\u00f3ria e a Civiliza\u00e7\u00e3o? S\u00e3o m\u00e3os fortes e cascudas.<\/p>\n<p>\u00c9 em oposi\u00e7\u00e3o a estas m\u00e3os que trabalham e transformam o mundo, que comandam e dominam, que a m\u00e3o feminina \u00e9 constru\u00edda como prescri\u00e7\u00e3o <a href=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/formolatria-texto\/\">formol\u00e1trica <\/a>.<\/p>\n<div>\n<h1>A m\u00e3o feminina: 1. os movimentos<\/h1>\n<\/div>\n<p>Separemos tr\u00eas \u00edtens quanto \u00e0s prescri\u00e7\u00f5es para a m\u00e3o feminina: o movimento, a pele e as unhas.<\/p>\n<p>Os movimentos femininos com as m\u00e3os s\u00e3o caracterizados pela flex\u00e3o incompleta das articula\u00e7\u00f5es das falanges, ou seja: permitem a verifica\u00e7\u00e3o de que se trata de uma m\u00e3o fraca.<\/p>\n<p><iframe src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/vlwAoKpSI7s\" height=\"315\" width=\"560\" allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\"><\/iframe><\/p>\n<p>Video: Movimentos com flex\u00e3o completa das articula\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>Enquanto o t\u00edpico gesto masculino com as m\u00e3os \u00e9 o firme fechamento do punho, com flex\u00e3o completa e isom\u00e9trica das articula\u00e7\u00f5es das falanges (\u201cpunho cerrado\u201d), o gesto feminino \u00e9 o dos movimentos fluidos e cont\u00ednuos, sem agarre:<\/p>\n<p>\u201cPractice pretty and feminine gestures. Pick up a vase or a flower as if youenjoyed\u00a0handling it. Don&#8217;t GRAB. Learn to use your hands femininely and gracefully.\u201d (pratique gestos femininos bonitos. Levante um vaso ou uma flor como se os apreciasse. N\u00e3o AGARRE. Aprenda a usar suas m\u00e3os de maneira feminina e graciosa). F<a href=\"http:\/\/theseductivewoman.blogspot.com.br\/2011\/07\/how-to-get-beautiful-hands.html\">onte\u00a0<\/a><\/p>\n<p>A habilidade feminina \u00e9 em geral associada a atividades que utilizam as pegadas de dedos (\u201cpinching\u201d). T\u00edpicas atividades de habilidade feminina s\u00e3o os artesanatos com fios e contas, por exemplo.<\/p>\n<p>Embora hoje contemos com aparatos tecnol\u00f3gicos que em grande medida substituem o esfor\u00e7o humano, \u00e9 seguro dizer que a transforma\u00e7\u00e3o profunda da realidade requer for\u00e7a e agarre. A m\u00e3o que n\u00e3o agarra n\u00e3o \u00e9 capaz de utilizar com profici\u00eancia uma ferramenta de constru\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o, como uma enxada, um martelo, uma lan\u00e7a, uma espada, uma britadeira ou mesmo carregar objetos de um lugar at\u00e9 outro.<\/p>\n<p>Assim, as prescri\u00e7\u00f5es dominantes quanto aos movimentos da m\u00e3o feminina restringem sua participa\u00e7\u00e3o no universo do trabalho, especificamente do trabalho transformador e da transforma\u00e7\u00e3o do mundo em geral.<\/p>\n<p>Talvez por isso, desde que o vi pela primeira vez, simpatizei com o s\u00edmbolo internacional do movimento feminista: at\u00e9 ent\u00e3o, o punho cerrado era apenas um s\u00edmbolo de luta encarnado numa figura masculina. No meio do c\u00edrculo com cruz, no entanto, significa o punho cerrado da mulher, um punho que pode fechar, exercer for\u00e7a, trabalho, cria\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o transformadora (alternativamente, temos as figuras de mulheres com o cotovelo fletido, exibindo o b\u00edceps, e o punho cerrado, na mesma linha interpretativa).<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/figura-3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-3768\" alt=\"figura 3\" src=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/figura-3.jpg\" width=\"403\" height=\"302\" srcset=\"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/figura-3.jpg 960w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/figura-3-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/figura-3-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 403px) 100vw, 403px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Figura 3<\/p>\n<div>\n<h1>A m\u00e3o feminina: 2. A pele<\/h1>\n<\/div>\n<p>As prescri\u00e7\u00f5es quanto \u00e0 pele femina denunciam tanto as restri\u00e7\u00f5es quanto \u00e0 participa\u00e7\u00e3o feminina no universo do trabalho e da transforma\u00e7\u00e3o do mundo, quanto a rejei\u00e7\u00e3o sexual \u00e0 mulher idosa. A m\u00e3o feminina \u00e9 lisa, macia e sem manchas.<\/p>\n<p>A pele \u00e9 o maior \u00f3rg\u00e3o do homem. Sendo nossa esp\u00e9cie uma das \u00fanicas entre os vertebrados sem uma prote\u00e7\u00e3o externa por pelagem ou coura\u00e7a, nossa pele tem adapta\u00e7\u00f5es interessantes a esta nova condi\u00e7\u00e3o \u201cpelada\u201d. Uma delas \u00e9 a queratiniza\u00e7\u00e3o adaptativa, ou calejamento. Trata-se de uma acumula\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas chamadas queratin\u00f3citos totalmente diferenciadas. Estas c\u00e9lulas morrem e permanecem como uma prote\u00e7\u00e3o imperme\u00e1vel e mecanicamente resistente para a \u00e1rea sob a\u00e7\u00e3o abrasiva ou de impacto cr\u00f4nico.<\/p>\n<p>Assim, a calosidade na m\u00e3o \u00e9 uma marca adaptativa de seu uso continuo para alguma tarefa f\u00edsica. \u201cEstar calejado\u201d \u00e9 uma met\u00e1fora para ser experiente em algo. Ora, a m\u00e3o feminina prescrita pela formolatria \u00e9 a m\u00e3o de algu\u00e9m inteiramente inexperiente no que se refere a qualquer atividade de interven\u00e7\u00e3o f\u00edsica no mundo: \u00e9 uma m\u00e3o lisa, sem marcas, macia e, portanto, sem uso.<\/p>\n<p>A m\u00e3o feminina \u00e9 tamb\u00e9m uma m\u00e3o jovem. A prescri\u00e7\u00e3o de que a mulher deve dar especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e3o pelo fato de ser ela o verdadeiro indicador da idade revela que para a manuten\u00e7\u00e3o do \u201cstatus\u201d feminino, \u00e9 importante resistir a todo custo ao envelhecimento. A m\u00e3o idosa n\u00e3o \u00e9 uma m\u00e3o feminina: \u00e9 uma m\u00e3o asexuada.<\/p>\n<div>\n<h1>A m\u00e3o feminina: 3. As unhas e o sexo<\/h1>\n<\/div>\n<p>As unhas s\u00e3o um cap\u00edtulo especial na prescri\u00e7\u00e3o formol\u00e1trica da m\u00e3o feminina. A decora\u00e7\u00e3o das unhas atrav\u00e9s de tintas coloridas (esmaltes), pedrinhas ou outros ornamentos tem uma longa hist\u00f3ria e entra no multi-facetado reino da ornamenta\u00e7\u00e3o corporal: tem algo de l\u00fadico, algo de marca social, algo de art\u00edstico e algo que diz respeito \u00e0 misteriosa atra\u00e7\u00e3o aparentemente inata pelo belo e pelo ornamento, constru\u00eddos social e contextualmente como forem.<\/p>\n<p>Ornamenta-se unhas por todos estes motivos.<\/p>\n<p>E a unha longa? A unha longa e ornamentada \u00e9 uma outra hist\u00f3ria. A partir de um certo comprimento, a unha compromete os movimentos da m\u00e3o. Primeiro, impedem um fechamento firme e completo do punho. Segundo, s\u00e3o impecilho para a manipula\u00e7\u00e3o de diversas ferramentas. Esta por exemplo que utilizo agora para criar o texto que voc\u00ea est\u00e1 lendo (imposs\u00edvel digitar com unhas longas).<\/p>\n<p>No entanto, as unhas longas impedem o emprego da m\u00e3o da mulher em outra esfera de interven\u00e7\u00e3o: o sexo. Uma unha excessivamente longa \u00e9 um impecilho n\u00e3o somente para a masturba\u00e7\u00e3o como para o sexo entre mulheres.<\/p>\n<p>A maior fonte de prescri\u00e7\u00e3o de unhas longas, curiosamente \u00e9 a ind\u00fastria pornogr\u00e1fica mainstream. Tendo em mente que esta ind\u00fastria \u00e9 fortemente heteronormativa, tentem lembrar (as imagens n\u00e3o podem ser reproduzidas aqui) de imagens fotogr\u00e1ficas ou filmes pornogr\u00e1ficos com mulheres com unhas longas. Algu\u00e9m realmente se convence de que a manipula\u00e7\u00e3o sexual feminina com unhas longas \u00e9 eficiente? \u00c9 claro que n\u00e3o! Mas como tudo na ind\u00fastria pornogr\u00e1fica mainstream, \u00e9 um teatro para a estimula\u00e7\u00e3o er\u00f3tica masculina. N\u00e3o importa realmente se \u00e9 ou n\u00e3o realista que as duas mo\u00e7as estejam de fato conseguindo confortavelmente enfiar o dedo na vagina uma da outra com unhas imensas. Importa que o espectador compre esta (e outras) mentira e se estimule com ela.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/figura-4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-3769\" alt=\"figura 4\" src=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/figura-4.jpg\" width=\"461\" height=\"346\" srcset=\"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/figura-4.jpg 960w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/figura-4-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/figura-4-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 461px) 100vw, 461px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Figura 4<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que a prescri\u00e7\u00e3o de unhas longas n\u00e3o fica restrita \u00e0s atrizes de filme porn\u00f4. Como tudo desta ind\u00fastria, atrav\u00e9s do sistema formol\u00e1trico, ela \u201cvaza\u201d para a sociedade em forma de prescri\u00e7\u00e3o. Ainda que n\u00e3o consigam administrar unhas pornogr\u00e1ficas na pr\u00e1tica, as mulheres tentam, porque mais este \u00edtem foi acrescentado ao menu de prescri\u00e7\u00f5es do ideal de beleza feminina.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<h1>Eu e minhas m\u00e3os<\/h1>\n<\/div>\n<p>Eu tenho uma cole\u00e7\u00e3o de mais de 40 esmaltes de cores as mais diferentes. V\u00e1rios tons de azul, verde, laranja, roxo e tantas outras que vou achando interessantes. Se eu tivesse tempo, trocaria de cor duas vezes por semana. Olho para minhas m\u00e3os e parecem colarezinhos de contas coloridas. Basta um algod\u00e3o com acetona e apaga-se uma cor para substiu\u00ed-la por outra. Acho isso muito divertido.<\/p>\n<p>Desde o primeiro cap\u00edtulo da s\u00e9rie \u201ca\u00e7ougue\u201d, sempre insisti que existe um <i>belo<\/i>. No entanto, o belo ideologicamente prescrito pela ind\u00fastria da beleza n\u00e3o apenas impede a constru\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio belo, num di\u00e1logo com quem quer que a pessoa escolha como interlocutor, como introduz obst\u00e1culos a manifesta\u00e7\u00f5es corporais espont\u00e2neas, necess\u00e1rias e cinesiologicamente saud\u00e1veis.<\/p>\n<p>Foi assim com a bunda, com o peito, com a barriga e n\u00e3o \u00e9 diferente com a m\u00e3o: a prescri\u00e7\u00e3o formol\u00e1trica para a m\u00e3o feminina \u00e9 um obst\u00e1culo ao seu exerc\u00edcio para o trabalho, para a transforma\u00e7\u00e3o do mundo e para o sexo.<\/p>\n<p>E do que mais a m\u00e3o participa? Muitas coisas. A m\u00e3o faz arte, a m\u00e3o processa alimentos (\u201ccozinha\u201d), a mesma m\u00e3o que agride e mata, que limita o outro e protege a si, tamb\u00e9m manifesta amor e oferece apoio.<\/p>\n<p>Para finalizar, quero apresentar as minhas m\u00e3os. As minhas m\u00e3os s\u00e3o m\u00e3os que trabalham, que transformam o mundo e que me d\u00e3o prazer.<\/p>\n<p>S\u00e3o m\u00e3os que fazem uma quarta coisa: viabilizam transcend\u00eancia.<\/p>\n<p>Aqui est\u00e1 a transcend\u00eancia. Ela acontece neste espa\u00e7o entre eu e a barra. A barra carregada com ferro, ferro vindo das profundezas do \u00fatero da Terra para as minhas<\/p>\n<p>M\u00c3OS.<\/p>\n<p><object width=\"420\" height=\"315\" classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\" \/><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\" \/><param name=\"src\" value=\"\/\/www.youtube.com\/v\/Ie0V-n9iLnw?hl=en_US&amp;version=3&amp;rel=0\" \/><param name=\"allowfullscreen\" value=\"true\" \/><embed width=\"420\" height=\"315\" type=\"application\/x-shockwave-flash\" src=\"\/\/www.youtube.com\/v\/Ie0V-n9iLnw?hl=en_US&amp;version=3&amp;rel=0\" allowFullScreen=\"true\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\" \/><\/object><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na s\u00e9rie \u201cA\u00e7ougue\u201d, estamos examinando cada corte do corpo feminino para entender como sua \u201cfeminilidade\u201d foi socialmente constru\u00edda segundo agendas opressivas \u00e0s mulheres. Vimos como a bunda , o peito \u00a0e a barriga \u00a0feminina s\u00e3o constru\u00eddas segundo est\u00e9ticas desumanizadas e ditadas por interesses estranhos \u00e0s mulheres e como estas est\u00e9ticas ferem at\u00e9 mesmo as fun\u00e7\u00f5es [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_seopress_robots_primary_cat":"","_seopress_titles_title":"","_seopress_titles_desc":"","_seopress_robots_index":"","site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[1256,1979,288,1980,1225],"tags":[1625,1259,1260,2654,15,2137,2655,2656,1867],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5567"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5567"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5567\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5567"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5567"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5567"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}