{"id":5572,"date":"2014-01-28T02:03:32","date_gmt":"2014-01-28T02:03:32","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/e-tudo-bem-mais-simples-do-que-parece\/"},"modified":"2014-01-28T02:03:32","modified_gmt":"2014-01-28T02:03:32","slug":"e-tudo-bem-mais-simples-do-que-parece","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/e-tudo-bem-mais-simples-do-que-parece\/","title":{"rendered":"\u00c9 tudo bem mais simples do que parece"},"content":{"rendered":"<p>Nessa semana da visibilidade trans eu resolvi contribuir com blogagens singelas, longe das palavras de ordem, que deixo para @s protagonistas que quiserem.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o vou me aventurar na discuss\u00e3o conceitual da transgeneridade: limito-me a observar de longe, com o olhar ressabiado da soci\u00f3loga da ci\u00eancia que reconhece uma imensa controv\u00e9rsia sem consenso no horizonte.<\/p>\n<p>Meu ponto aqui \u00e9 o oposto do complicado e do fantasmag\u00f3rico, labir\u00edntico e misterioso. \u00c9 a coisa simples do conv\u00edvio com pessoas que fazem as mais variadas viagens com rela\u00e7\u00e3o a g\u00eanero e sexualidade.<\/p>\n<p>Meu irm\u00e3o \u00e9 uma mulher transg\u00eanera. Irm\u00e3o? Pois \u00e9, irm\u00e3o, do mesmo jeito que \u00e9 pai. Eu nasci e estavam l\u00e1: dois irm\u00e3os e uma irm\u00e3. Cada um fez in\u00fameras coisas da vida e eu continuei irm\u00e3 deles todos. Um se tornou transg\u00eanera.<\/p>\n<p>Fiquei bem doente recentemente e Laerte foi quem me levou ao hospital, me acompanhou a exames, me levou para tudo que \u00e9 canto. Eu n\u00e3o gosto muito de conversinha com estranhos, de modo que aceito o que for dito: \u201cpode se trocar \u2013 sua irm\u00e3 est\u00e1 esperando voc\u00ea l\u00e1 fora\u201d. Ok, est\u00e1 bem.<\/p>\n<p>\u201cMeu irm\u00e3o vem comigo\u201d: sil\u00eancio. \u201cMinha irm\u00e3\u201d: sil\u00eancio. \u201cEla\u201d.<\/p>\n<p>Confunde, mas n\u00e3o \u00e9 fatal, n\u00e3o impede nada, n\u00e3o atrapalha nada. N\u00e3o prolonga conversas (gra\u00e7as aos deuses).<\/p>\n<p>Eu me irrito com invas\u00f5es. Tietes s\u00e3o invasivos e sem no\u00e7\u00e3o. Mas quando eu tive uma dor de cegar, quando tive uma doen\u00e7a muito grave, com Laerte do lado, ningu\u00e9m invadiu e todos respeitaram. Era apenas um par de irm\u00e3os (ou irm\u00e3s, dane-se: a dor vale mais) num hospital em estado de sofrimento extremo. Se uma \u00e9 transg\u00eanera ou n\u00e3o foi rigorosamente irrelevante.<\/p>\n<p>Vamos a supermercados, laborat\u00f3rios, confer\u00eancias \u2013 \u00e9 tudo igual e t\u00e3o normal quanto anormal. Ningu\u00e9m honesto agride ou confunde nada.<\/p>\n<p>As restri\u00e7\u00f5es de amigos ou familiares s\u00e3o, depois de um tempo, sempre iguais. Viram pano de fundo. A pergunta mais comum \u00e9 \u201cmas por que ele faz isso?\u201d Em algum momento, eu n\u00e3o sei qual foi, eu parei de dar respostas longas. Passei a responder apenas \u201cn\u00e3o sei\u201d. Descobri que \u00e9 uma resposta muito mais honesta e satisfat\u00f3ria. A verdade \u00e9 que a imensa maioria das a\u00e7\u00f5es e decis\u00f5es pessoais n\u00e3o pode ser explicada. Elas simplesmente s\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu tenho um amigo transg\u00eanero. Eu o conheci em 2006 quando era uma mulher. Tinha cabelos pelos ombros e nos demos bem imediatamente. Era uma grande atleta. Tinha seios grandes que a incomodavam. Eu segui todo o percurso de op\u00e7\u00e3o dela, que se tornou ele, pela transi\u00e7\u00e3o. Acompanhei quando ele quase morreu na mesa cir\u00fargica, por alergia ao anest\u00e9sico, e ainda assim disse que se sentia o homem mais feliz do mundo.<\/p>\n<p>O caminho que ele optou por fazer \u00e9 complicado. Mas qual n\u00e3o \u00e9? Qual vida que mere\u00e7a o selo de qualidade e densidade n\u00e3o \u00e9 complicada? Quem sou eu para achar que \u00e9 mais complicado optar por vivenciar seu g\u00eanero de maneira inversa \u00e0 expectativa social do que as diversas op\u00e7\u00f5es complicadas e n\u00e3o-convencionais que eu fiz? Ou que voc\u00ea fez?<\/p>\n<p>No fundo, \u00e9 tudo mais simples, menos her\u00f3ico, menos super-humano, menos sub-humano, mais genuino e honesto apenas. No fundo, s\u00e3o s\u00f3 pessoas vivendo segundo o que lhes faz mais sentido, que \u00e9 o que todos, no fundo, desejam, alguns tentam e outros quase conseguem fazer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nessa semana da visibilidade trans eu resolvi contribuir com blogagens singelas, longe das palavras de ordem, que deixo para @s protagonistas que quiserem. Tamb\u00e9m n\u00e3o vou me aventurar na discuss\u00e3o conceitual da transgeneridade: limito-me a observar de longe, com o olhar ressabiado da soci\u00f3loga da ci\u00eancia que reconhece uma imensa controv\u00e9rsia sem consenso no horizonte. 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