{"id":5585,"date":"2014-02-05T03:29:30","date_gmt":"2014-02-05T03:29:30","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/forca-inata\/"},"modified":"2014-02-05T03:29:30","modified_gmt":"2014-02-05T03:29:30","slug":"forca-inata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/forca-inata\/","title":{"rendered":"For\u00e7a Inata"},"content":{"rendered":"<p>(este artigo foi publicado pela primeira vez na revista Muscula\u00e7\u00e3o e Fitness, no 94)<\/p>\n<p>Quando minha filha tinha cinco meses, escutei um ru\u00eddo abafado vindo do quarto dela e, em seguida, um chorinho de m\u00e1 vontade. Corri para l\u00e1, onde encontrei um beb\u00ea perplexo, sentado no ch\u00e3o. Como ela foi parar l\u00e1? Como saiu do ber\u00e7o, onde estava dormindo? Ora, era \u00f3bvio: ela tinha ca\u00eddo de ponta cabe\u00e7a no ch\u00e3o e o barulho foi o choque do cr\u00e2nio dela com o piso coberto por carpete. \u201cMeu deus! Matei o beb\u00ea!\u201d pensei, como toda m\u00e3e de primeira viagem.<\/p>\n<p>Bobagem: n\u00e3o matei, est\u00e1 a\u00ed, viva h\u00e1 24 anos. Mas aprendi uma coisa: a grade do ber\u00e7o estava baixa o suficiente para que ela conseguisse se erguer e se propulsionar para frente, caindo para fora do ber\u00e7o. Com cinco meses, ela n\u00e3o ficava de p\u00e9 sozinha, naturalmente. Mas foi capaz de erguer seu pr\u00f3prio peso corporal segurando nas grades do ber\u00e7o.<\/p>\n<p>Com o tempo, ela foi automatizando as tarefas motoras de escapar do ber\u00e7o at\u00e9 que desisti e deixei a grade s\u00f3 como anteparo para que ela n\u00e3o ca\u00edsse dormindo.<\/p>\n<p>Minha filha n\u00e3o \u00e9 nenhum ET: toda crian\u00e7a faz isso. As fotos abaixo s\u00e3o imagens captadas por pais de crian\u00e7as escapando de ber\u00e7os. Observem a for\u00e7a e resist\u00eancia da pegada destes beb\u00eas, a capacidade de erguer seu pr\u00f3prio peso corporal e a desenvoltura em realizar manobras que envolvem complexo processamento espacial (propriocep\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"line-height: 1.5em;\">Quantos adultos voc\u00ea conhece que erguem seu peso corporal com um bra\u00e7o s\u00f3? Quantos sobem e saltam obst\u00e1culos de sua altura? Seria justo, ent\u00e3o, dizer, que, em m\u00e9dia, os beb\u00eas s\u00e3o proporcionalmente mais fortes do que n\u00f3s?<\/span><\/p>\n<p>Observe tamb\u00e9m as figuras abaixo. S\u00e3o imagens dom\u00e9sticas de beb\u00eas agachando. Em geral, agachando para brincar \u2013 seja para brincar agachados, com algo que se passa no ch\u00e3o, ou para agarrar algo que deve ser transportado para outro local. A t\u00e9cnica utilizada pelos beb\u00eas para transportar objetos inst\u00e1veis, como a bolsa da tia, \u00e9 semelhante \u00e0 t\u00e9cnica, treinada \u00e0 exaust\u00e3o, dos atletas de Strongman para a prova de carregamento de sacos de areia.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/fig-1-a.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-3863\" alt=\"fig 1 a\" src=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/fig-1-a.jpg\" width=\"960\" height=\"720\" srcset=\"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/fig-1-a.jpg 960w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/fig-1-a-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/fig-1-a-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/fig-1-b.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-3864\" alt=\"fig 1 b\" src=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/fig-1-b.jpg\" width=\"960\" height=\"720\" srcset=\"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/fig-1-b.jpg 960w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/fig-1-b-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/fig-1-b-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Se observarmos os beb\u00eas apanhando algo do ch\u00e3o e levantando, vemos que eles agacham para melhor fazer a pegada no objeto e ent\u00e3o elevam o quadril o suficiente para a alavanca precisa na extens\u00e3o do quadril. Ou seja? Realizam um levantamento terra.<\/p>\n<p>Uma vez ensinei as duas filhinhas de um casal de amigos a fazer supino com um cabo de vassoura. Uma tinha 5 e outra tinha 8 anos. Ambas se colocaram no banco e, sem que eu dissesse nada, aduziram as esc\u00e1pulas e contra\u00edram os gl\u00fateos, em t\u00e9cnica perfeita.<\/p>\n<p>Pera\u00ed: por que \u00e9 que eu passo meses ensinando adultos a agachar, supinar e fazer levantamento terra se, naturalmente, todo beb\u00ea j\u00e1 sabe fazer isso?<\/p>\n<p>Sempre botei a culpa na cadeira. A cadeira \u00e9 um objeto terr\u00edvel, pois limita a flex\u00e3o do nosso quadril a 90\u00ba quando naturalmente agachar\u00edamos para fazer qualquer coisa. Com o tempo, ocorrem perdas tanto musculares \u2013 atrofia da musculatura extensora de quadril \u2013 como neurais, e sobre essas n\u00e3o sabemos nada. Com estas perdas, todo nosso controle da postura e locomo\u00e7\u00e3o b\u00edpede \u00e9 comprometido.<\/p>\n<p>Tim Anderson e Geoff Neupert, autores de \u201cOriginal Strength\u201d (2013) sugerem que nascemos programados para o movimento integrado. Em outras palavras, nascemos feitos para o recrutamento eficiente de todas as nossas alavancas para a harm\u00f4nica e coordenada execu\u00e7\u00e3o forte de movimentos.\u00a0 Segundo os mesmos autores, tamb\u00e9m nascemos com a capacidade de eficientemente explorar as tr\u00eas dimens\u00f5es do espa\u00e7o. \u00c9 o processo de \u201ccivilizar\u201d nossos filhos nascidos com corporalidade perfeita que a degenera.<\/p>\n<p>O desenvolvimento motor \u00e9 descrito pelos especialistas segundo est\u00e1gios. Abaixo temos uma tabela que re\u00fane contribui\u00e7\u00f5es de diferentes autores:<\/p>\n<table border=\"1\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"96\">\n<p align=\"center\"><b>Idade<\/b><\/p>\n<\/td>\n<td width=\"476\">\n<p align=\"center\"><b>Desenvolvimento motor<\/b><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"96\">1\u20131.5\u00a0meses<\/td>\n<td width=\"476\">Quando carregado verticalmente, mant\u00e9m a cabe\u00e7a ereta e firme<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"96\">1.5\u20132\u00a0meses<\/td>\n<td width=\"476\">Quando deitado ou inclinado, levanta-se com os bra\u00e7os. Rola de um lado para dec\u00fabito dorsal<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"96\">3\u00a0meses<\/td>\n<td width=\"476\">Mant\u00e9m a cabe\u00e7a ereta por per\u00edodos prolongados quando na posi\u00e7\u00e3o vertical. Cabe\u00e7a em \u00e2ngulo de 90\u00ba. Mant\u00e9m-se erguido pelos bra\u00e7os quando deitado. Fim do reflexo de agarrar.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"96\">5\u00a0meses<\/td>\n<td width=\"476\">Mant\u00e9m a cabe\u00e7a firme. Busca objetos e os agarra. Pegada intencional (\u201cpurposeful grasp\u201d, como diferente da pegada por reflexo dos rec\u00e9m-nascidos). Objetos s\u00e3o levados \u00e0 boca. Brinca com os p\u00e9s. Alonga-se. Toca a genit\u00e1lia. Balan\u00e7a-se na barriga por prazer.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"96\">6\u00a0meses<\/td>\n<td width=\"476\">Transfere objetos de uma m\u00e3o para outra. Puxa-se para sentar e senta-se ereto com suporte. Rola de dec\u00fabito ventral para dorsal. Pegada palmar de um cubo.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"96\">7 meses<\/td>\n<td width=\"476\">Senta-se com \u201ctrip\u00e9\u201d (apoio da m\u00e3o). Empurra cabe\u00e7a e tronco para fora do ch\u00e3o. Suporta o peso sobre as pernas. Remexe superf\u00edcie com as m\u00e3os.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"96\">9\u201310\u00a0meses<\/td>\n<td width=\"476\">Consegue se contorcer e engatinhar. Senta-se sem suporte e volta para outra posi\u00e7\u00e3o. Inclina-se e recupera a posi\u00e7\u00e3o ereta. Pega objetos com pegada de pin\u00e7amento (oposi\u00e7\u00e3o polegar-dedos).<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"96\">1\u00a0year<\/td>\n<td width=\"476\">Fica em p\u00e9 segurado alguma mob\u00edlia. Fica em p\u00e9 sozinho por um ou dois segundos e ent\u00e3o cai com um solavanco. (Em alguns modelos): anda sozinho<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"96\">18\u00a0meses<\/td>\n<td width=\"476\">Anda sozinho. Pega brinquedos sem cair. Sobe e desce escadas segurando corrim\u00e3o. Come\u00e7a a pular com os dois p\u00e9s. Consegue construir uma torre de 3 ou 4 cubos e joga uma bola.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"96\">2\u00a0years<\/td>\n<td width=\"476\">Consegue correr. Sobe e desce escadas dois p\u00e9s por degrau. Constr\u00f3i torres de 6 cubos.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"96\">3\u00a0years<\/td>\n<td width=\"476\">Sobe degraus um p\u00e9 por degrau e desce com dois p\u00e9s por degrau. Copia c\u00edrculos, imita cruzes e desenha pessoa se solicitado. Construi torres de 9 cubos.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"96\">4\u00a0years<\/td>\n<td width=\"476\">Desce escadas um p\u00e9 por degrau. Pula em um p\u00e9 s\u00f3. Imita port\u00f5es com cubos, copia cruzes.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"96\">5\u00a0years<\/td>\n<td width=\"476\">Salta e pula com dois p\u00e9s. Desenha pessoa e copia um tri\u00e2ngulo. Diz sua pr\u00f3pria idade.<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tabela de desenvolvimento motor segundo Berk (2012), Gowers (2005) e Developmental Milestones Chart (2007)<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 muita discrep\u00e2ncia entre os autores quanto a tais marcos. Segundo um trabalho recente, no entanto (Atun-Einy et al 2013), o desenvolvimento motor est\u00e1 fortemente associado \u00e0 motiva\u00e7\u00e3o. Observando 27 beb\u00eas de 7 a 12 meses, os autores catalogaram o grupo segundo quatro marcos de desenvolvimento motor e os correlacionaram a indicadores de motiva\u00e7\u00e3o. Crian\u00e7as fortemente motivadas foram mais precoces.<\/p>\n<p>O que isso quer dizer? Para os autores, estes dados permitem o desenvolvimento de terapias para ajudar crian\u00e7as com atraso no desenvolvimento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(este artigo foi publicado pela primeira vez na revista Muscula\u00e7\u00e3o e Fitness, no 94) Quando minha filha tinha cinco meses, escutei um ru\u00eddo abafado vindo do quarto dela e, em seguida, um chorinho de m\u00e1 vontade. Corri para l\u00e1, onde encontrei um beb\u00ea perplexo, sentado no ch\u00e3o. Como ela foi parar l\u00e1? 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