{"id":5589,"date":"2014-02-05T06:20:08","date_gmt":"2014-02-05T06:20:08","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/riscos\/"},"modified":"2014-02-05T06:20:08","modified_gmt":"2014-02-05T06:20:08","slug":"riscos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/riscos\/","title":{"rendered":"Riscos"},"content":{"rendered":"<p>Terminei o <a href=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/decisao-por-ela-e-sua-como-tomar-melhor\/\">artigo sobre decis\u00e3o<\/a> dizendo que tomar consci\u00eancia de que a decis\u00e3o, ainda que n\u00e3o seu processo, \u00e9 irredutivelmente sua \u00e9 um momento empoderador. Saber que a decis\u00e3o \u00e9 sua n\u00e3o implica que o exerc\u00edcio deste poder ser\u00e1 sempre feito de maneira a maximizar a sa\u00fade, o bem estar e a harmonia.<\/p>\n<p>A vida n\u00e3o \u00e9 assim. Qualquer vida que mere\u00e7a o selo de densidade e intensidade cont\u00e9m uma dose vari\u00e1vel de riscos. Entre o extremo de avers\u00e3o a risco e o extremo de bancar o risco h\u00e1 um gradiente. Cada um se coloca neste gradiente onde pode \u2013 n\u00e3o necessariamente onde quer. Esse lugar \u00e9 determinado por uma combina\u00e7\u00e3o entre elementos intr\u00edncecos (personalidade, hist\u00f3ria de vida, humor) e extr\u00edncecos (fases mais ou menos hospitaleiras a risco).<\/p>\n<p>H\u00e1 aqueles que tocam um foda-se e assumem riscos que fascinam e assustam a imensa maioria.<\/p>\n<p>Isso vale para qualquer aspecto do comportamento humano. N\u00e3o seria diferente no comportamento alimentar.<\/p>\n<p>Neste t\u00f3pico, por diversos motivos, incluo o comportamento adictivo.<\/p>\n<p>Todo mundo faz avalia\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise de risco. Ela \u00e9 um campo de investiga\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e de saber aplicado, com modelagem matem\u00e1tica sofisticada. No entanto todos somos dotados de uma das ferramentas mais eficientes para a avalia\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise de risco: o medo.<\/p>\n<p>O risco \u00e9 o produto da probabilidade da consequ\u00eancia negativa de algo ocorrer e da perda esperada no caso que ocorra.<\/p>\n<p>Por exemplo: a rea\u00e7\u00e3o de moradores de uma regi\u00e3o onde ser\u00e1 constru\u00edda uma usina nuclear reagem muito mais fortemente a esta decis\u00e3o da esfera p\u00fablica do que em entrar em seu ve\u00edculo para dirigir at\u00e9 a cidade vizinha, embora a perda esperada possa ser semelhante (morte) e a probabilidade do segundo ser muit\u00edssimo maior do que do primeiro caso. No entanto, a perda esperada no caso de um acidente nuclear \u00e9 muito mais dram\u00e1tica e definitiva. Ela \u00e9 um risco catastr\u00f3fico, ao qual as pessoas tendem a reagir com muita prontid\u00e3o.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias negativas de se fumar um cigarro, um ma\u00e7o de cigarro, \u201cx\u201d cigarros por dia durante \u201cx\u201d anos podem ser determinadas e sua probabilidade medida. O risco de uma consequ\u00eancia fatal \u00e9 muit\u00edssimo maior do que aquele associado \u00e0 usina nuclear, mas a maioria dos fumantes nem prestaria aten\u00e7\u00e3o a uma compara\u00e7\u00e3o como esta.<\/p>\n<p>A ingest\u00e3o sistem\u00e1tica de \u00e1lcool, a\u00e7\u00facar de alto \u00edndice glic\u00eamico, alimentos densos em caloria e pobres em v\u00e1rios nutrientes resultando em super\u00e1vit cal\u00f3rico persistente t\u00eam consequ\u00eancias negativas de probabilidade conhecida, de magnitude conhecida e podem ser estimadas.<\/p>\n<p>Uma parte das pessoas com este comportamento n\u00e3o tem consci\u00eancia de nada disso: s\u00e3o as v\u00edtimas da sobre-alimenta\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria, em geral pobres. Existe uma rela\u00e7\u00e3o inversa entre a densidade energ\u00e9tica do alimento e o custo energ\u00e9tico do mesmo. Em outras palavras, quanto mais a\u00e7\u00facar e gordura, mais barato ser\u00e1 o alimento.<\/p>\n<p>Outra parte das pessoas t\u00eam as ferramentas intelectuais para conhecer este risco, t\u00eam recursos financeiros para n\u00e3o correr o risco e mesmo assim corre o risco sem consci\u00eancia. S\u00e3o v\u00edtimas do comportamento de nega\u00e7\u00e3o e ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Finalmente, h\u00e1 o grupo que tem as ferramentas intelectuais para conhecer o risco, conhece, pode evit\u00e1-lo e conscientemenete n\u00e3o evita. Este \u00e9 o grupo que banca o risco.<\/p>\n<p>Entre eles voc\u00ea encontrar\u00e1 os que alegar\u00e3o que:<\/p>\n<p>&#8211; o prazer gastron\u00f4mico compensa as perdas associadas ao risco;<\/p>\n<p>&#8211; considerados os fatores gen\u00e9ticos que determinam alta propens\u00e3o \u00e0 obesidade e o sofrimento associado a dietas muito restritivas, optam por n\u00e3o se submeter a elas;<\/p>\n<p>&#8211; \u00e9 a \u00fanica forma eficaz de administrar seu sofrimento ps\u00edquico e n\u00e3o est\u00e3o dispostas a subsitu\u00ed-la por outra;<\/p>\n<p>&#8211; n\u00e3o se importam nem com a eros\u00e3o inevit\u00e1vel de sua qualidade de vida, com a incid\u00eancia de doen\u00e7as cr\u00f4nicas e nem tampouco com sua forma.<\/p>\n<p>Todas estas pessoas existem, embora n\u00e3o sejam a maioria dos obesos. Todas estas pessoas tamb\u00e9m incorrer\u00e3o em outro risco: o da rejei\u00e7\u00e3o social caso o risco de ganho de gordura ao limite da obesidade se concretize.<\/p>\n<p>\u00c9 inevit\u00e1vel. H\u00e1 um estigma sobre o indiv\u00edduo com sobrepeso acentuado que associa sua forma com in\u00fameros qualificativos negativos: fraqueza, pregui\u00e7a, hedonismo, glutonice, egoismo e at\u00e9 mesmo mau caratismo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, existe o risco permanente das intera\u00e7\u00f5es sociais negativas em locais p\u00fablicos, em fun\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o ocupado, e do desenvolvimento de rela\u00e7\u00f5es de depend\u00eancia com cuidadores.<\/p>\n<p>A avalia\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise do risco s\u00e3o uma ferramenta para tomada de decis\u00e3o, seja na esfera individual, seja na p\u00fablica. N\u00e3o existe outra maneira sensata de se lidar com o risco que n\u00e3o conhec\u00ea-lo.<\/p>\n<p>\u00c9 fun\u00e7\u00e3o do Estado, atrav\u00e9s de seus sistemas de medicina preventiva, dar a conhecer o risco real de cada comportamento aos indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o a comida n\u00e3o precisa ser diferente do que aquela adotada e j\u00e1 demonstrada eficiente com rela\u00e7\u00e3o a drogas, \u00e1lcool e outros comportamentos de risco. Todos sabemos que a guerra \u00e0s drogas j\u00e1 foi perdida: a repress\u00e3o n\u00e3o funciona. Apenas fortalece e estrutura o mercado negro e toda a economia paralela associada a ele.<\/p>\n<p>Enquanto a sociedade n\u00e3o conseguir abrir m\u00e3o do conforto proporcionado pelo moralismo, que economiza reflex\u00e3o cr\u00edtica, ser\u00e1 imposs\u00edvel entender os comportamentos de risco: sim, \u00e9 verdade que o comportamento de risco \u00e9 auto-destrutivo; sim, existe correla\u00e7\u00e3o entre ele e epis\u00f3dios traum\u00e1ticos na vida da pessoa; sim, a press\u00e3o do grupo induz comportamento de risco. O que ningu\u00e9m quer encarar \u00e9 que o comportamento de risco quase sempre est\u00e1 associado a prazer e recompensa imediata.<\/p>\n<p>As pessoas usam hero\u00edna porque \u00e9 extremamente prazeroso. Para os que reagem assim, voar de asa delta \u00e9 n\u00e3o somente uma arte como uma fonte de prazer. Sexo \u00e9 mais gostoso sem camisinha. Boas bebidas alco\u00f3licas s\u00e3o saborosas e a sensa\u00e7\u00e3o de euforia e relaxamento que provocam d\u00e1 prazer. Comer um quindim, fios de ovos, mousse de chocolate, pizza ou uma macarronada com frutos do mar \u00e9 muito bom.<\/p>\n<p>Existe uma equa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de resolver em que entram o prazer proporcionado pelo comportamento de risco, o risco e o peso da consequ\u00eancia negativa na vida da pessoa. A capacidade ou habilidade em enxergar um problema disposto em toda a sua extens\u00e3o temporal n\u00e3o \u00e9 muito comum. Requer treinamento e, segundo alguns estudiosos, tamb\u00e9m fatores gen\u00e9ticos.<\/p>\n<p>E a anor\u00e9xica? E o masoquista? E o submisso numa rela\u00e7\u00e3o de BDSM (bondage, discipline, sadism and masochism)? Sim, existe recompensa satisfat\u00f3ria. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil compreender, mas o fato \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 nenhum comportamento volunt\u00e1rio onde n\u00e3o haja recompensa, por mais intrincado que seja seu mecanismo.<\/p>\n<p>Assim, em rela\u00e7\u00e3o ao comportamento de risco, ao contr\u00e1rio do risco ambiental ou social, podemos dizer que ele \u00e9 o produto da probabilidade da consequ\u00eancia negativa e da perda esperada caso ocorra, ponderado pela satisfa\u00e7\u00e3o obtida a despeito da perda segundo uma magnitude desconhecida.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 simples. Voc\u00ea e eu fazemos isso o tempo todo, com tudo.<\/p>\n<p>O profissional da \u00e1rea da sa\u00fade que lida com comportamento alimentar deve ter isso em mente. Sem isso, ele corre o risco de n\u00e3o encontrar o canal de comunica\u00e7\u00e3o que possa fornecer ao portador do comportamento de risco uma ferramenta a mais para tomar uma decis\u00e3o mais favor\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Terminei o artigo sobre decis\u00e3o dizendo que tomar consci\u00eancia de que a decis\u00e3o, ainda que n\u00e3o seu processo, \u00e9 irredutivelmente sua \u00e9 um momento empoderador. Saber que a decis\u00e3o \u00e9 sua n\u00e3o implica que o exerc\u00edcio deste poder ser\u00e1 sempre feito de maneira a maximizar a sa\u00fade, o bem estar e a harmonia. 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