{"id":5593,"date":"2013-12-11T18:21:25","date_gmt":"2013-12-11T18:21:25","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/entre-na-minha-casa-mas-de-quatro\/"},"modified":"2013-12-11T18:21:25","modified_gmt":"2013-12-11T18:21:25","slug":"entre-na-minha-casa-mas-de-quatro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/entre-na-minha-casa-mas-de-quatro\/","title":{"rendered":"\u201cEntre na minha casa, mas de quatro\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Chega de pussyfication: hora de largar as fraldas pol\u00edticas e colocar emo\u00e7\u00e3o e raz\u00e3o onde \u00e9 seu lugar<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Comecei provocativamente com um termo considerado machista por muita gente. Por que fiz isso? Para que o leitor se sinta chamado a ler o discurso no contexto de onde vem. Esse termo, \u201cpussyfication\u201d, \u00e9 uma brincadeira sobre a express\u00e3o pejorativa \u201cpussy\u201d (g\u00edria para vagina), que significa um comportamento ou pessoa cheio de frescura, sensibilidade fake ou fora do lugar, e choraminga\u00e7\u00e3o. Claro que \u00e9 machista. T\u00e3o machista quanto as express\u00f5es que todos n\u00f3s usamos como \u201cdo caralho\u201d (que quer dizer \u201cexcelente\u201d, obviamente s\u00f3 compar\u00e1vel a um belo falo), tr\u00e2nsito \u201cembucetado\u201d (congestionado, ruim), \u201cputa que o pariu\u201d (express\u00e3o de frustra\u00e7\u00e3o e raiva), entre dezenas ou centenas de outras. E voc\u00ea n\u00e3o se comunica assim? Fala s\u00e9rio.<\/p>\n<p>O grau de pussyfication atingiu n\u00edveis ridiculamente altos em todo o discurso das minorias aqui no Brasil. O uso de pronomes \u201cerrados\u201d para trans, um elogio feito sem precis\u00e3o quanto \u00e0 forma normatizada pelas lideran\u00e7as mais vocais, j\u00e1 \u00e9 motivo de rea\u00e7\u00f5es cheias de indigna\u00e7\u00e3o e sensibilidade. Claro que isso \u00e9 do maior interesse dos grupelhos totalit\u00e1rios que acabam monopolizando as cenas destes movimentos porque gritam sem parar e vencem pelo cansa\u00e7o.<\/p>\n<p>Mas qual \u00e9 o resultado dessa incessante procura de pelo em ovo? Apenas fragmenta\u00e7\u00e3o, guerra fratricida, revanchismo e isolamento. Na cabe\u00e7a dos grupelhos, \u201cradicaliza\u00e7\u00e3o da luta\u201d. Perfeitamente compreens\u00edvel para um segmento cuja mediocridade intelectual os faz abrir a janela (a mesma que eu, da qual eu vejo ruas com pessoas e carros caminhando sem nenhuma inten\u00e7\u00e3o insurrecional) e ver uma etapa \u201cpr\u00e9-revolucion\u00e1ria\u201d (ou revolucion\u00e1ria mesmo, dependendo do del\u00edrio do grupelho).<\/p>\n<p>Chega, n\u00e9!<\/p>\n<p>Creio que \u00e9 hora mais que adiantada de admitir que nenhum de n\u00f3s \u00e9 isento de certo grau de preconceito e sexismo \u2013 e por \u201cn\u00f3s\u201d eu me refiro a todos, incluindo cada membro de minoria oprimida (afinal, eu continuo sendo mulher, n\u00e3o \u00e9 mesmo). Esse grau varia bastante. Mas para justificar um \u201copa, linha vermelha a n\u00e3o cruzar aqui, hein\u201d, \u00e9 preciso mais do que uma express\u00e3o mal usada.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 completamente contra-producente (e, estritamente falando, \u201creacion\u00e1rio\u201d, pois \u201creage\u201d contra o que seria o progresso) sugerir que qualquer grupo que n\u00e3o seja a bola da vez da opress\u00e3o deva se abster de celebrar ou at\u00e9 mesmo discutir sua identidade. Assim, homens s\u00f3 podem se reunir para discutir masculinidade se for de uma perspectiva das mulheres oprimidas. E se for para discutir pol\u00edticas sobre c\u00e2ncer de pr\u00f3stata? Ou bullying entre garotos? Ou paternidade? Ou adolesc\u00eancia e sexualidade? Ah, n\u00e3o pode.<\/p>\n<p>O Ano Novo Chin\u00eas, as festividades japonesas na Liberdade e a festa de Nossa Senhora de Achiropita, no Bixiga, as festividades judaicas, s\u00e3o coisa de \u201cgente branca\u201d. Se o pre\u00e7o para apoiar a luta contra a opress\u00e3o a negros e etnias \u201cmarrons\u201d (em outros pa\u00edses, \u201cBrown\u201d \u00e9 usado em refer\u00eancia tanto a latinos, como hindus ou \u00e1rabes) for abrir m\u00e3o de sequer reconhecer uma identidade \u00e9tnica que n\u00e3o o seja, ent\u00e3o estes movimentos est\u00e3o fadados ao isolamento, sectarismo, isolamento e, finalmente, ao triste papel de fomentador de \u00f3dio inter-\u00e9tnico. Triste, pois entre os brancos que n\u00e3o querem abrir m\u00e3o de ter uma identidade (e quem quer?), h\u00e1 uma maioria que gostaria muito de apoiar a luta de etnias oprimidas. Apoio genu\u00edno, jogado fora, por vezes, por lideran\u00e7as sect\u00e1rias. O que estas pessoas brancas n\u00e3o conseguem compreender, porque n\u00e3o tem l\u00f3gica, \u00e9 por que as duas coisas s\u00e3o incompat\u00edveis: manter sua identidade e apoiar a luta do \u201coutro\u201d.<\/p>\n<p>Ou todos n\u00f3s topamos o jogo democr\u00e1tico da hospitalidade ao \u201coutro\u201d, o \u201cvenha conhecer meu mundo para, quem sabe, apoiar minha luta\u201d, ou realmente o resultado ser\u00e1 mais e mais fragmenta\u00e7\u00e3o e \u00f3dio.<\/p>\n<p>Tenho certeza de que muita gente vai ler este texto como racista e machista. Eu n\u00e3o poderia me importar menos, porque n\u00e3o \u00e9. \u00c9 uma cr\u00edtica objetiva que busca mostrar o \u00f3bvio: s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel convencer o \u201coutro\u201d sobre a validade de nossa reivindica\u00e7\u00e3o quando abrimos uma porta para o di\u00e1logo, e n\u00e3o com amea\u00e7as, chantagem e revanchismo. Esse \u201centre na minha casa, mas de quatro\u201d.<\/p>\n<p>Eu vivo num mundo masculino. Sou atleta e lideran\u00e7a num dos mais pesados esportes de for\u00e7a. \u00c9 evidente que sou v\u00edtima de machismo: s\u00f3 mesmo num mundo cor-de-rosa \u00e9 que isso n\u00e3o aconteceria. Onde j\u00e1 se viu uma mulher, baixinha, min\u00fascula, falar mais alto (no sentido simb\u00f3lico, com mais poder e embasamento intelectual) do que homens? No entanto, s\u00f3 uma minoria com s\u00e9rios problemas com sua masculinidade \u00e9 que reage mal a isso. O resto dos homens continua vendo uma mulher baixinha e min\u00fascula, mas capaz de trocar experi\u00eancias e ensinar coisas legais a eles. Minha rela\u00e7\u00e3o com eles \u00e9 perfeitamente tranq\u00fcila e fraternal.<\/p>\n<p>Eu gosto desse mundo. \u00c9 onde tenho meus melhores amigos. Sei que parte da fala deles (e minha) \u00e9 permeada por um certo preconceito e sexismo pelo \u00f3bvio fato de que somos seres culturais e n\u00e3o gastamos nossa energia nos policiando 100% do tempo. Os problemas que tenho com esse mundo s\u00e3o os mesmos que outros colegas \u00e9ticos t\u00eam, que s\u00e3o os comportamentos delinq\u00fcentes.<\/p>\n<p>E isso, meu amigo, \u00e9 igual entre os mais politicamente corretos e cheios de bandeirinhas vermelhas e no meu mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chega de pussyfication: hora de largar as fraldas pol\u00edticas e colocar emo\u00e7\u00e3o e raz\u00e3o onde \u00e9 seu lugar &nbsp; Comecei provocativamente com um termo considerado machista por muita gente. Por que fiz isso? Para que o leitor se sinta chamado a ler o discurso no contexto de onde vem. Esse termo, \u201cpussyfication\u201d, \u00e9 uma brincadeira [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5594,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_seopress_robots_primary_cat":"","_seopress_titles_title":"","_seopress_titles_desc":"","_seopress_robots_index":"","site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[1979,1980],"tags":[2702,2157,2703,15,2704,2705,2706,2002],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5593"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5593"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5593\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5594"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5593"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5593"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5593"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}