{"id":5603,"date":"2014-02-18T13:48:20","date_gmt":"2014-02-18T13:48:20","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/semana-da-aceitacao-identitaria\/"},"modified":"2014-02-18T13:48:20","modified_gmt":"2014-02-18T13:48:20","slug":"semana-da-aceitacao-identitaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/semana-da-aceitacao-identitaria\/","title":{"rendered":"Semana da aceita\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p>Essa seria uma boa.<\/p>\n<p>Certamente \u00e9 importante para portadores de identidades minorit\u00e1rias ter espa\u00e7o social para assumirem-se como tais, lutar contra o preconceito e construir uma auto-representa\u00e7\u00e3o positiva. Os dias e semanas do orgulho gay, da consci\u00eancia negra, da pessoa ind\u00edgena, da mulher, entre outros, t\u00eam essa fun\u00e7\u00e3o. Festividades espec\u00edficas como as de Nossa Senhora da Achiropita, no Bixiga (bairro de S\u00e3o Paulo originalmente ocupado por imigrantes italianos pobres), o Ano Novo Chin\u00eas, no bairro da Liberdade, em S\u00e3o Paulo, desempenham fun\u00e7\u00f5es semelhantes, com menos conte\u00fado pol\u00edtico por motivos \u00f3bvios: n\u00e3o se trata de etnias ou ancestralidades \u00e9tnicas\/nacionais perseguidas HOJE (j\u00e1 foram).<\/p>\n<p>No entanto, enquanto todas as celebra\u00e7\u00f5es forem EM DETRIMENTO DE outra identidade, carregadas de revanchismo, infelizmente muitas vezes o saldo em intoler\u00e2ncia \u00e9 maior do que antes da celebra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todos temos um monte de identidades. Uma ou outra se torna mais relevante, dependendo das circunst\u00e2ncias e momento da vida. Uma das minhas identidades \u00e9 a de portadora de desordens neurol\u00f3gicas e psiqui\u00e1tricas, tamb\u00e9m conhecida como \u201clouca\u201d. Essa \u00e9 uma das identidades mais oprimidas, estigmatizadas e violentadas em qualquer sociedade. Perten\u00e7o a uma organiza\u00e7\u00e3o chamada \u201cMind Freedom International\u201d, que congrega pessoas dedicadas a lutar contra isso. Um dos movimentos ligados ao Mind Freedom \u00e9 o MAD PRIDE: orgulho louco.<\/p>\n<p>Disse isso tudo para me colocar no debate sobre identidades oprimidas e massacradas.<\/p>\n<p>Voc\u00ea, que n\u00e3o \u00e9 louco, acompanhe-me num experimento. Suponha dois discursos de pessoas loucas e pense que rea\u00e7\u00f5es emocionais e atitudinais que eles deflagram em voc\u00ea.<\/p>\n<p>DISCURSO A \u2013 Loucos s\u00e3o portadores de adapta\u00e7\u00f5es neurol\u00f3gicas preservadas na esp\u00e9cie humana por conferirem maior capacidade de reprodu\u00e7\u00e3o, bem como administra\u00e7\u00e3o de ambientes in\u00f3spitos. Entre os hoje chamados \u201cloucos\u201d est\u00e3o os indiv\u00edduos com maior criatividade, iniciativa (hoje caracterizada pejorativamente como \u201cimpulsividade\u201d), intelig\u00eancia, libido e inovatividade. O louco s\u00f3 foi patologizado numa circunst\u00e2ncia em que as rela\u00e7\u00f5es de poder tornaram estas aptid\u00f5es desnecess\u00e1rias para a sociedade. Mais que isso, tornaram-se perigosas para as rela\u00e7\u00f5es de poder. O aprisionamento, cassa\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 palavra e desqualifica\u00e7\u00e3o do louco \u00e9 um ato de rea\u00e7\u00e3o do segmento que deseja conservar os piores elementos das rela\u00e7\u00f5es de poder contra os que exp\u00f5em suas contradi\u00e7\u00f5es. N\u00f3s, loucos, reivindicamos o direito \u00e0 auto-determina\u00e7\u00e3o e a regulamenta\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es adequadas \u00e0s nossas caracter\u00edsticas no trabalho e na vida social em geral. Consideramos toda a apologia \u00e0 normalidade mental um insulto \u00e0 nossa condi\u00e7\u00e3o. Somente impondo aos assim chamados normais que admitam seus privil\u00e9gios numa sociedade opressora \u00e9 que atingiremos uma condi\u00e7\u00e3o de maior igualdade.<\/p>\n<p>DISCURSO B \u2013 Louco \u00e9 o termo utilizado para designar a pessoa que \u00e9 portadora, hoje, de um diagn\u00f3stico positivo para alguma desordem neurol\u00f3gica ou psiqui\u00e1trica. As desordens neurol\u00f3gicas ou psiqui\u00e1tricas n\u00e3o tornam a pessoa incapaz ou irracional. Poucos loucos sofrem de alucina\u00e7\u00f5es. Os que sofrem n\u00e3o est\u00e3o \u201cmentindo\u201d: est\u00e3o sofrendo uma altera\u00e7\u00e3o perceptiva. O louco n\u00e3o mente mais, nem menos, do que o resto da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o diagnosticada. O louco \u00e9 t\u00e3o capaz de amar, colaborar e trabalhar quanto qualquer outra pessoa. Acredita-se que loucos s\u00e3o portadores de adapta\u00e7\u00f5es neurol\u00f3gicas preservadas na esp\u00e9cie humana por conferirem maior capacidade de reprodu\u00e7\u00e3o e administra\u00e7\u00e3o de ambientes in\u00f3spitos no in\u00edcio da evolu\u00e7\u00e3o humana. Hoje, numa sociedade onde estas demandas ambientais n\u00e3o existem mais, aquelas adapta\u00e7\u00f5es criam condi\u00e7\u00f5es de conflito para o louco, que geram grande sofrimento. No entanto, geram tamb\u00e9m coisas boas, como uma sensibilidade art\u00edstica diferenciada. Existe uma maior propor\u00e7\u00e3o de loucos entre os grandes artistas e cientistas do que na popula\u00e7\u00e3o em geral, o que n\u00e3o quer dizer que loucos ser\u00e3o artistas ou que o bom artista ou cientista necessariamente tenha que ser louco. Algumas pessoas loucas n\u00e3o t\u00eam mais condi\u00e7\u00f5es de participar dos rituais da sociedade moderna e necessitam de cuidados especiais. O louco n\u00e3o \u00e9 melhor e nem pior do que qualquer outra pessoa: s\u00f3 diferente, e, freq\u00fcentemente, mais vulner\u00e1vel. N\u00f3s, loucos, acreditamos que podemos ser membros mais ativos e felizes da sociedade se estes fatos forem divulgados e amplamente comunicados \u00e0 sociedade. Gostar\u00edamos que todas as pessoas tivessem oportunidade de ver o mundo, ainda que muito rapidamente, atrav\u00e9s de nossos olhos loucos. H\u00e1 beleza nisso.<\/p>\n<p>E a\u00ed, qual foi a sua rea\u00e7\u00e3o a um e a outro discurso?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Essa seria uma boa. Certamente \u00e9 importante para portadores de identidades minorit\u00e1rias ter espa\u00e7o social para assumirem-se como tais, lutar contra o preconceito e construir uma auto-representa\u00e7\u00e3o positiva. Os dias e semanas do orgulho gay, da consci\u00eancia negra, da pessoa ind\u00edgena, da mulher, entre outros, t\u00eam essa fun\u00e7\u00e3o. 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