{"id":5613,"date":"2014-02-28T04:16:50","date_gmt":"2014-02-28T04:16:50","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/a-insustentavel-leveza-e-a-flutuante-solidez-da-identidade-de-atleta\/"},"modified":"2014-02-28T04:16:50","modified_gmt":"2014-02-28T04:16:50","slug":"a-insustentavel-leveza-e-a-flutuante-solidez-da-identidade-de-atleta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/a-insustentavel-leveza-e-a-flutuante-solidez-da-identidade-de-atleta\/","title":{"rendered":"A insustent\u00e1vel leveza e a flutuante solidez da identidade de atleta"},"content":{"rendered":"<p>Resposta ao texto \u201cEsporte e Psicologia: a rela\u00e7\u00e3o dos pais com a identidade profissional dos filhos\u201d de Jo\u00e3o Ricardo Lebert Cozac<\/p>\n<p>Bom. Esse \u00e9 um assunto para muita manga. Uma coisa \u00e9 discutir a pr\u00e1tica do esporte de alto rendimento, a exist\u00eancia ou possibilidade do n\u00edvel \u201celite\u201d nas diversas modalidades no pa\u00eds, e uma outra completamente diferente \u00e9 profissionaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Profissionaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 algo dispon\u00edvel para muitas modalidades. Ali\u00e1s, pouqu\u00edssimas.<\/p>\n<p>Essa realidade n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 brasileira. H\u00e1 algumas semanas aconteceu um dos acidentes mais dram\u00e1ticos da hist\u00f3ria do meu esporte, o powerlifting. A v\u00edtima \u2013 um atleta masculino da categoria at\u00e9 125kg \u2013 rompeu os dois tend\u00f5es do quadr\u00edceps, os dois patelares, todos os ligamentos mediais e, na perna esquerda, o cruzado anterior. Al\u00e9m disso, a patela esquerda rachou no meio. Isso aconteceu sob cerca de 350kg de peso num campeonato, realizando um agachamento.<\/p>\n<p>A primeira rea\u00e7\u00e3o da seguradora foi questionar o pagamento da cirurgia e cuidados emergenciais pois tratava-se de um \u201catleta profissional\u201d. A primeira coisa que eu pensei foi: \u201cisso \u00e9 ilegal: n\u00e3o existe powerlifter profissional\u201d.<\/p>\n<p>Este atleta vive de consultorias que d\u00e1 (sobre o esporte), semin\u00e1rios e workshops (sobre o esporte), coaching online (no esporte) e tem alguns patroc\u00ednios (como atleta). Mas n\u00e3o \u00e9 profissional \u201cstricto sensu\u201d.<\/p>\n<p>O seguro de sa\u00fade para o atleta profissional \u00e9 muito mais caro, embora sejamos (os atletas \u2013 imagine se eu sou profissional, eu, hein) mais baratos probabil\u00edsticamente para as companhias. \u00c9 dif\u00edcil calcular aposentadoria. Como a maioria dos esportes n\u00e3o \u00e9 profiss\u00e3o, n\u00e3o temos ligas e sindicatos, muito menos conselhos.<\/p>\n<p>Como vivem, ent\u00e3o, os atletas de elite destes esportes que n\u00e3o podem ser profissionais? Vivem de uma s\u00e9rie de atividades empresariais relacionadas ao esporte. S\u00e3o profissionais do esporte, mas n\u00e3o atletas profissionais no sentido de que n\u00e3o s\u00e3o pagos para treinar, comer e vencer competi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Essa alternativa de atividades profissionais no esporte n\u00e3o \u00e9 muito poss\u00edvel no Brasil. O espa\u00e7o para elas n\u00e3o foi devidamente \u201csocialmente cavado\u201d ou esculpido.<\/p>\n<p>Assim, ser atleta como pedra fundamental da defini\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria, no Brasil, \u00e9 coisa de pobre. Era nessa frase que eu queria chegar. A frase que gera o \u201cohhh!!\u201d de espanto, vergonha, indigna\u00e7\u00e3o e nega\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 a mais pura verdade. A elite n\u00e3o quer seus filhos \u201csem identidade de verdade\u201d. Queremos nossos filhos oftalmologistas, arquitetos, qu\u00edmicos industriais, professores universit\u00e1rios em microbiologia e, por que n\u00e3o?, psic\u00f3logos cl\u00ednicos. Eles, que jogavam \u201ct\u00e3o bem\u201d t\u00eanis quando eram jovens.<\/p>\n<p>Pobre n\u00e3o. Pobre n\u00e3o vai disputar vaga na FUVEST com nossos filhos. Nossos filhos, cujos treinos em polo aqu\u00e1tico n\u00f3s cortamos para que pairem acima da nota de corte da medicina e no ano seguinte possam ir todos os dias para a Dr. Arnaldo, e n\u00e3o para as piscinas do Clube Pinheiros.<\/p>\n<p>Nossos filhos que colocamos na nata\u00e7\u00e3o porque \u201c\u00e9 importante\u201d, mas se se encontrarem demais naquelas \u00e1guas, os tiramos delas antes que a coisa fique inaceitavelmente s\u00e9ria.<\/p>\n<p>Dois anos atr\u00e1s encontrei um colega de gin\u00e1sio na EFEE-USP. Professor l\u00e1. Eu fui dar uma aula como professora convidada. Ambos com os respectivos doutorados e p\u00f3s-docs. A diferen\u00e7a \u00e9 que ele ficou por l\u00e1 e eu sa\u00ed para ser \u2013 ups! N\u00e3o profissional, hein! \u2013 atleta. Ele me contou que o treinador prop\u00f4s que a filha dele ficasse na equipe competitiva do Clube Pinheiros. Ele \u201cobviamente\u201d n\u00e3o deixou. Meio perplexa, perguntei por que. \u201cOra, ela tem que estudar, tem a vida dela para levar\u201d.<\/p>\n<p>Me calei e fiquei sem resposta. Eu tamb\u00e9m tinha uma vida para levar. No entanto, eu fui e continuei atleta. Mas n\u00e3o profissional, hein!<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que meu colega tem fundamento para seu medo. N\u00e3o existe uma identidade de fato reservada para nossos filhos atletas. S\u00f3 quem n\u00e3o tem nada a perder, quem j\u00e1 nasceu sem identidade, \u00e9 que pode apostar na identidade de atleta como alternativa \u201cprofissional\u201d, j\u00e1 que alternativa por alternativa, a economia paralela \u00e9 totalmente alternativa.<\/p>\n<p>A verdade, colegas, \u00e9 que a \u00fanica m\u00e3e que sonha com um filho profissionalmente atleta \u00e9 a m\u00e3e favelada que n\u00e3o pode sonh\u00e1-lo m\u00e9dico, arquiteto, bioquimico ou psic\u00f3logo. A m\u00e3e cujos filhos n\u00e3o disputam vaga na FUVEST com os nossos.<\/p>\n<p>At\u00e9 que isso deixe de ser verdade, at\u00e9 que um atleta n\u00e3o tenha que pedir desculpas por s\u00ea-lo, escrever que \u00e9 professor, escritor, soci\u00f3logo ou bioqu\u00edmico (e n\u00e3o atleta, pelo amor de deus) nos formul\u00e1rios da emerg\u00eancia hospitalar, at\u00e9 que exista um espa\u00e7o social para o atleta e que as fun\u00e7\u00f5es paralelas que ele exerce sejam parte de seu fazer esportivo, at\u00e9 esse dia, ningu\u00e9m quer ver o filho profissionalmente atleta.<\/p>\n<p>A m\u00e3e favelada que identidade nenhuma pode sonhar para os filhos, essa espera por um outro dia. Um em que mais justi\u00e7a seja feita nos alicerces da vida social. E ent\u00e3o ela n\u00e3o precise sonh\u00e1-lo, sem o menor realismo, atleta, para \u201csair daquele inferno\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resposta ao texto \u201cEsporte e Psicologia: a rela\u00e7\u00e3o dos pais com a identidade profissional dos filhos\u201d de Jo\u00e3o Ricardo Lebert Cozac Bom. Esse \u00e9 um assunto para muita manga. 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