{"id":5614,"date":"2014-03-02T15:51:54","date_gmt":"2014-03-02T15:51:54","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/nos-primeiros-cinco-minutos\/"},"modified":"2014-03-02T15:51:54","modified_gmt":"2014-03-02T15:51:54","slug":"nos-primeiros-cinco-minutos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/nos-primeiros-cinco-minutos\/","title":{"rendered":"Nos primeiros cinco minutos&#8230;."},"content":{"rendered":"<p>&#8230; tive a certeza de que seriam as piores f\u00e9rias da minha vida: cansada, suja, menstruada, sozinha em Paris e minha reserva no albergue da universidade n\u00e3o existia mais. Fui ao servi\u00e7o de assist\u00eancia a estudantes desesperados (certamente tem outro nome) e me juntaram com duas inglesas. Em pequeno bando, fomos para um dos hoteis mais esquisitos e fedidos de Paris, onde minha cama tinha um buraco no meio para o qual minha bunda escorregava ao deitar. Foi ent\u00e3o que abri a janela e vi o Moulin Rouge e a noite ensolarada do ver\u00e3o parisiense no primeiro dia das melhores f\u00e9rias da minha vida nos 28 anos seguintes<\/p>\n<p>&#8230; olhei para ele, ali na minha frente, de \u00f3culos, esquisito e n\u00e3o achei absolutamente nada. Continuei n\u00e3o achando nada. Duas horas depois achei-o simp\u00e1tico e gentil. Continuei achando isso por tr\u00eas meses. Seis meses depois de contato di\u00e1rio, me apaixonei pelo homem que seria o maior amor da minha vida.<\/p>\n<p>&#8230; olhei para ela, toda linda e perfeita, e sabia que faria tudo o que os nove meses de gravidez me permitiram planejar detalhadamente como a maternidade ideal: nada de doces, apenas quality time, paci\u00eancia infinita para uma crian\u00e7a destinada a transformar o universo por crescer segundo princ\u00edpios impec\u00e1veis. Tr\u00eas anos depois pensei, alarmada, que aquela noite seria a dor de barriga do s\u00e9culo, enquanto observava minha filha devorando selvagemente meia bandeja de brigadeiro numa festa. Mais tr\u00eas anos de \u201csurpresas\u201d depois, berrando com ela para tomar banho pela mil\u00e9sima vez, me dei conta de que eu nem sabia mais o n\u00famero de cagadas feitas como m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8230; nossos olhares cruzaram sob o batente de uma porta. Fa\u00edscas sa\u00edram de nossas pupilas e nossos corpos. Ele disse \u201ceu tamb\u00e9m prefiro raw\u201d. Eu n\u00e3o disse nada, apenas sorri. Ele disse: \u201cn\u00e3o vai embora, eu te acho depois, vou cuidar do meu parceiro\u201d. Ele seguiu para um lado, eu para outro, segura de que tinha rolado uma \u201csuper\u201d qu\u00edmica. Ent\u00e3o a s\u00famula deu problema, sa\u00ed para buscar clipes, fiz uma apresenta\u00e7\u00e3o, cuidei da arbitragem e nunca mais vi o cara. Nem lembro da cara dele.<\/p>\n<p>&#8230; achei-o o cara mais antip\u00e1tico, besta e desagrad\u00e1vel que havia conhecido em muito tempo. Mantive a mesma opini\u00e3o enquanto t\u00ednhamos que revezar a mesma barra durante poucas tardes de treino do m\u00eas. Anos depois nos fal\u00e1vamos e nos v\u00edamos todos os dias e mais tarde ainda sentei no ch\u00e3o chorando desesperada, com medo de que morresse um dos melhores amigos que tive na vida.<\/p>\n<p>&#8230; quase nunca gosto das pessoas. Boa parte volta \u00e0 massa amorfa dos desconhecidos, pois me desinteresso. Uma parte passa a ser de conv\u00edvio toler\u00e1vel. Outra agrad\u00e1vel e uns pouqu\u00edssimos se tornam amigos. Mas nos primeiros cinco minutos me pareceram p\u00e9ssimos.<\/p>\n<p>&#8230; eu n\u00e3o sei nada. As chances da minha impress\u00e3o ter alguma ader\u00eancia ao real \u00e9 baixa. Impress\u00f5es s\u00e3o baseadas em evid\u00eancia insuficiente. Pessoas s\u00e3o n\u00e3o apenas complexas, como mudam com o tempo. J\u00e1 achei que tinha achado meu melhor amigo nos primeiros cinco minutos. Foi verdade. At\u00e9 que a grana, o poder e os interesses falaram mais alto e nossa amizade foi sacrificada por ele no altar dos deuses inimigos.<\/p>\n<p>Quem quer que tenha inventado esse neg\u00f3cio de que a impress\u00e3o que temos nos primeiros cinco minutos \u00e9 a certa, criou mais uma dessas lendas urbanas que, repetidas vezes o suficiente, ganha cara de verdade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8230; tive a certeza de que seriam as piores f\u00e9rias da minha vida: cansada, suja, menstruada, sozinha em Paris e minha reserva no albergue da universidade n\u00e3o existia mais. Fui ao servi\u00e7o de assist\u00eancia a estudantes desesperados (certamente tem outro nome) e me juntaram com duas inglesas. 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