{"id":5622,"date":"2014-03-13T02:31:54","date_gmt":"2014-03-13T02:31:54","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/velhos-e-mails-dezoito-anos-de-correspondencia-e-interacoes-deletadas-para-sempre\/"},"modified":"2014-03-13T02:31:54","modified_gmt":"2014-03-13T02:31:54","slug":"velhos-e-mails-dezoito-anos-de-correspondencia-e-interacoes-deletadas-para-sempre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/velhos-e-mails-dezoito-anos-de-correspondencia-e-interacoes-deletadas-para-sempre\/","title":{"rendered":"Velhos e-mails \u2013 dezoito anos de correspond\u00eancia e intera\u00e7\u00f5es deletadas para sempre"},"content":{"rendered":"<p>Hoje chegou meu novo desktop. Lindo, r\u00e1pido, cheio de mem\u00f3ria e espa\u00e7o de disco. Todas as centenas de gigabytes de documentos preservados, copiados, backupeados tr\u00eas vezes e em n\u00favem. Desde documentos anteriores \u00e0 minha tese de doutorado at\u00e9 hoje: mais de 20 anos de documentos.<\/p>\n<p>Os e-mails, no entanto, estavam na pasta \u201capplication data\u201d do microsoft outlook, que n\u00e3o uso h\u00e1 muito tempo. N\u00e3o pedi para serem guardados pelo profissional que fez a m\u00e1quina, customizada, para mim, e salvou os dados do HD da m\u00e1quina que faleceu.<\/p>\n<p>Aquele arquivo era resultado de \u201csalvamentos\u201d de e-mails desde o tempo em que eu usava Eudora no meu computador em Blacksburg, em 1996. Havia e-mail encriptado, trocado com quem um dia ocupou um espa\u00e7o importante no meu afeto. E-mails do per\u00edodo de corte entre eu e meu segundo ex-marido, de quem me separei h\u00e1 uns 12 anos. Provas de promessas de pagamento de calotes que tomei, dos quais jamais consegui reduzir o dano. Projetos sonhados, come\u00e7ados, abortados ou realizados, mas j<\/p>\n<p>As duas vezes em que meu grande amor escreveu a frase proibida \u2013 a ele, a mim e a todos n\u00f3s, emocionalmente mutilados: \u201ceu te amo\u201d. Minha resposta. Minhas dores. As dele. Nosso esmagamento pelo mundo e os anos e anos de contato por uma fresta da porta fechada.<\/p>\n<p>Tudo, absolutamente tudo, deletado para sempre.<\/p>\n<p>O que eu sinto? N\u00e3o sei. Um certo al\u00edvi<\/p>\n<p>Hoje chegou meu novo desktop. Lindo, r\u00e1pido, cheio de mem\u00f3ria e espa\u00e7o de disco. Todas as centenas de gigabytes de documentos preservados, copiados, backupeados tr\u00eas vezes e em n\u00favem. Desde documentos anteriores \u00e0 minha tese de doutorado at\u00e9 hoje: mais de 20 anos de documentos.<\/p>\n<p>Os e-mails, no entanto, estavam na pasta \u201capplication data\u201d do microsoft outlook, que n\u00e3o uso h\u00e1 muito tempo. N\u00e3o pedi para serem guardados pelo profissional que fez a m\u00e1quina, customizada, para mim, e salvou os dados do HD da m\u00e1quina que faleceu.<\/p>\n<p>Aquele arquivo era resultado de \u201csalvamentos\u201d de e-mails desde o tempo em que eu usava Eudora no meu computador em Blacksburg, em 1996. Havia e-mail encriptado, trocado com quem um dia ocupou um espa\u00e7o importante no meu afeto. E-mails do per\u00edodo de corte entre eu e meu segundo ex-marido, de quem me separei h\u00e1 uns 12 anos. Provas de promessas de pagamento de calotes que tomei, dos quais jamais consegui reduzir o dano. Projetos sonhados, come\u00e7ados, abortados ou realizados, mas j<\/p>\n<p>As duas vezes em que meu grande amor escreveu a frase proibida \u2013 a ele, a mim e a todos n\u00f3s, emocionalmente mutilados: \u201ceu te amo\u201d. Minha resposta. Minhas dores. As dele. Nosso esmagamento pelo mundo e os anos e anos de contato por uma fresta da porta fechada.<\/p>\n<p>Tudo, absolutamente tudo, deletado para sempre.<\/p>\n<p>O que eu sinto? N\u00e3o sei. Um certo al\u00edvio. N\u00e3o existe mais registro documental sobre todas as partes horr\u00edveis nem maravilhosas da minha hist\u00f3ria exceto a dos documentos asc\u00e9pticos que se transformaram em publica\u00e7\u00f5es. Isso \u00e9 bom? Ruim? Nem um, nem outro? N\u00e3o sei, mas me deu al\u00edvio.<\/p>\n<p>Objetivamente, nenhum destes dados de necr\u00f3psia teria uma utilidade real na minha vida hoje ou futura. Ficavam l\u00e1, ocupando uns 9GB do disco, mais ou menos me lembrando o tempo todo que aquele monte de experi\u00eancias foi um dia o meu presente \u2013 nada de reconstitui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O dado cr\u00fa, a carne viva e a navalha na carne.<\/p>\n<p>Literalmente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje chegou meu novo desktop. Lindo, r\u00e1pido, cheio de mem\u00f3ria e espa\u00e7o de disco. Todas as centenas de gigabytes de documentos preservados, copiados, backupeados tr\u00eas vezes e em n\u00favem. Desde documentos anteriores \u00e0 minha tese de doutorado at\u00e9 hoje: mais de 20 anos de documentos. 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