{"id":5666,"date":"2014-06-02T03:00:46","date_gmt":"2014-06-02T03:00:46","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/powerlifting-expansao-divulgacao-educacao-ascensao-do-alto-rendimento-inclusao-mas-nao-popularizacao-o-caso-dos-campeonatos-nao-sancionados\/"},"modified":"2014-06-02T03:00:46","modified_gmt":"2014-06-02T03:00:46","slug":"powerlifting-expansao-divulgacao-educacao-ascensao-do-alto-rendimento-inclusao-mas-nao-popularizacao-o-caso-dos-campeonatos-nao-sancionados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/powerlifting-expansao-divulgacao-educacao-ascensao-do-alto-rendimento-inclusao-mas-nao-popularizacao-o-caso-dos-campeonatos-nao-sancionados\/","title":{"rendered":"Powerlifting: expans\u00e3o, divulga\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o, ascens\u00e3o do alto rendimento, inclus\u00e3o mas n\u00e3o populariza\u00e7\u00e3o \u2013 o caso dos campeonatos n\u00e3o-sancionados"},"content":{"rendered":"<p>Cerca de um ano atr\u00e1s escrevi um artigo que foi bastante discutido e apoiado, \u201c<a href=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/making-powerlifting-popular-it\/\">Making powerlifting more popular: do we want or need it<\/a>?\u201d. A discuss\u00e3o que o artigo propunha era o processo de populariza\u00e7\u00e3o de um esporte e o que ele representa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pr\u00e1ticas tradicionais anteriores. A conclus\u00e3o n\u00e3o \u00e9 complicada: todo o esporte que se \u201cpopulariza\u201d, como alguns de quadra e lutas, perde quase tudo de sua \u201cmarcialidade\u201d ou ethos de sua cultura espec\u00edfica. \u00c9 o pre\u00e7o a pagar por ter um grande p\u00fablico interessado e atrair, consequentemente, investimento privado e governamental. A pergunta que se fazia era: queremos isso? N\u00f3s, atletas? O que temos a ganhar com isso? E a resposta foi: n\u00e3o queremos. A populariza\u00e7\u00e3o de um esporte necessariamente transforma sua elite em \u201centertainer\u201d e sua estrutura em ind\u00fastria de entretenimento. O dinheiro que tal processo atrai beneficia apenas os investidores e um segmento pequeno da elite que se profissionaliza na arte do entretenimento. O patroc\u00ednio individual, j\u00e1 escasso, se torna mais concentrado neste pequeno grupo. Os valores caros \u00e0 comunidade de praticantes, a cultura do esporte e as rela\u00e7\u00f5es sociais ben\u00e9ficas do mesmo s\u00e3o perdidas.<\/p>\n<p>Alguns esportes se prestam a isso quase que naturalmente: eles s\u00e3o \u201cinteressantes\u201d e atrativos ao p\u00fablico pelo que representam. Lutas como o MMA, o crossfit e esportes de for\u00e7a como o strongman s\u00e3o facilmente apreens\u00edveis pelo p\u00fablico espectador. Esportes como a esgrima, o montanhismo, a equita\u00e7\u00e3o e os levantamentos de peso jamais ser\u00e3o populares: sua estrutura meritocr\u00e1tica (de recompensa pela performance e desempenho) depende de uma \u201ceduca\u00e7\u00e3o\u201d do olhar inacess\u00edvel ao grande p\u00fablico. Em outras palavras, s\u00e3o esportes \u201cmuito chatos\u201d para quem n\u00e3o est\u00e1 muito familiarizado com eles.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o queremos a populariza\u00e7\u00e3o do powerlifting. N\u00e3o queremos torn\u00e1-lo f\u00e1cil de entender, agregar elementos perform\u00e1ticos para agradar o p\u00fablico ou simplificar suas regras e procedimentos, como tristemente foi feito com alguns belos esportes de quadra.<\/p>\n<p>No entanto, \u00e9 ineg\u00e1vel que o levantamento de peso ol\u00edmpico, que conseguia ser ainda menos popular do que o powerlifting, ascendeu a uma enorme visibilidade atrav\u00e9s do movimento Crossfit. Ele foi divulgado e expandido porque o treinamento nas crossfits incorpora seus levantamentos. Critique-se o quanto se quiser os altos volumes de arrancos feitos com pouca t\u00e9cnica, o fato \u00e9 que hoje o levantamento de peso ol\u00edmpico \u00e9 conhecido por um p\u00fablico duas ordens de grandeza maior do que antes dos anos 1990. Aparentemente, o fen\u00f4meno crossfit acabou por alavancar o LPO sem preju\u00edzo de suas regras e procedimentos tradicionais. O motivo \u00e9 simples: os campeonatos de LPO n\u00e3o foram tocados. Permanecem com a mesma estrutura que sempre tiveram.<\/p>\n<p>Ontem, dia 31 de maio, um grupo de n\u00f3s esteve presente num campeonato de supino numa academia de rede. Foi o \u201cprimeiro desafio de supino da Runner Sorocaba\u201d. Representando a ANF, n\u00f3s fomos at\u00e9 l\u00e1 aplicar o nosso programa de \u201ccampeonatos simplificados n\u00e3o-sancionados\u201d. Todos os atletas sabiam que os resultados do campeonato n\u00e3o t\u00eam reconhecimento internacional e que as regras foram simplificadas para tornar o evento poss\u00edvel naquele ambiente: o banco n\u00e3o precisa ser oficial, a exig\u00eancia de traje (macaquinho) \u00e9 suspensa e a premia\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas atrav\u00e9s da classifica\u00e7\u00e3o pelo coeficiente de for\u00e7a relativa (Wilks). O custo de um campeonato como este \u00e9 baix\u00edssimo ou nenhum. Os participantes se divertem, exercem o desejo competitivo, recebem premia\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas e entram em contato com o esporte, pois as regras de execu\u00e7\u00e3o s\u00e3o preservadas. A partir dali, quem tem talento ou se apaixona pelo powerlifting pode procurar os campeonatos sancionados e se tornar um atleta de fato.<\/p>\n<p>A realiza\u00e7\u00e3o de pequenos campeonatos sem custo, n\u00e3o-sancionados, expande e divulga o esporte. Ao faz\u00ea-lo, tamb\u00e9m educa a popula\u00e7\u00e3o quanto aos benef\u00edcios do powerlifting como ferramenta de resgate de padr\u00f5es de movimento perdidos. \u00c9 a t\u00e3o conhecida situa\u00e7\u00e3o \u201cganha-ganha\u201d: n\u00e3o h\u00e1 como perder.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 popularizar o esporte? N\u00e3o: a ANF deu a supervis\u00e3o, educou o p\u00fablico, ajudou na \u201cfesta\u201d, mas seus eventos sancionados continuam duros, regrados e \u201cchatos\u201d.<\/p>\n<p>Nestes campeonatos n\u00e3o sancionados \u00e9 poss\u00edvel identificar talentos para o powerlifting. S\u00e3o pessoas que n\u00e3o t\u00eam conhecimento sobre o esporte, mas mostram, ali, na brincadeira, que s\u00e3o naturalmente bem dotados (seja por caracter\u00edsticas gen\u00e9ticas, mentais ou ambas) para o mesmo. Isso se chama \u201cidentifica\u00e7\u00e3o de talentos\u201d (talent screening).<\/p>\n<p>Parte do grupo que coordena a ANF, que \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos, tamb\u00e9m pertence a uma equipe de ensino, uma organiza\u00e7\u00e3o privada, que oferece cursos sobre treinamento de for\u00e7a com foco no powerlifting: a<a href=\"http:\/\/www.madpowerlifting.com\"> MAD Powerlifting<\/a>. Os treinadores da MAD t\u00eam muito orgulho de terem sido respons\u00e1veis pelo est\u00edmulo inicial para que algumas crossfits implantassem programas de treinamento em powerlifting. Ao longo de um ano, ensinamos powerlifting para mais de uma centena de pessoas. V\u00e1rias delas se tornaram atletas e outros incorporaram o powerlifting como fundamento do treinamento de seus alunos e atletas.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 a EXPANS\u00c3O do powerlifting. \u00c9 populariza\u00e7\u00e3o? N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9. A estrutura das competi\u00e7\u00f5es continua exatamente como era: dura, rigorosa e \u201cchata\u201d para o olhar n\u00e3o educado para suas complexidades.<\/p>\n<p>Anos atr\u00e1s, eu escrevi um projeto baseado no powerlifting com foco na inclus\u00e3o social em comunidades muito carentes. O alvo era o que chamei de \u201cjuventude vulner\u00e1vel\u201d. Tratava-se de um programa de sele\u00e7\u00e3o de talentos e treinamento de equipes competitivas nestes ambientes. O programa jamais foi aplicado. Ele depende da vontade pol\u00edtica de administradores p\u00fablicos. \u00c9 caro e complexo. Isso \u00e9 populariza\u00e7\u00e3o do powerlifting? N\u00e3o, tamb\u00e9m n\u00e3o. \u00c9 um programa social que visa inclus\u00e3o social usando o powerlifting como ferramenta. Por\u00e9m, quaisquer talentos que porventura sejam selecionados atrav\u00e9s do mesmo cair\u00e3o no sistema duro, rigoroso e \u201cchato\u201d do powerlifting de alto rendimento, que de popular n\u00e3o tem e n\u00e3o ter\u00e1 nada.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos, venho insistindo (e cada vez menos sozinha, pois um grupo cada vez maior verificou a proced\u00eancia dos argumentos) que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o entre capacidades cognitivas, desenvolvidas e amplificadas pela educa\u00e7\u00e3o formal, e desempenho esportivo. \u00c9 o que tenho chamado de \u201cnovo esporte\u201d, diferente daquele que imperou nos anos de guerra fria e guerra ol\u00edmpica onde crian\u00e7as eram selecionadas sem o menor respeito por suas vontades individuais para participar do jogo de poder e destrui\u00e7\u00e3o das grandes pot\u00eancias. Os atletas eram pe\u00f5es desta guerra. Serem inteligentes, intelectualmente auto-suficientes e donos de suas vontades conflitava com o sistema. A guerra fria acabou e com ela abriu-se um espa\u00e7o para o \u201cnovo atleta\u201d. Este novo atleta \u00e9 um empres\u00e1rio de si mesmo. Ficou evidente que aqueles com maiores habilidades cognitivas levam vantagem. Nos pa\u00edses desenvolvidos, esta vantagem sempre foi evidente no powerlifting, um esporte completamente amador que depende de investimento pessoal.<\/p>\n<p>O atleta que busca o esporte como escada para ascens\u00e3o social ou como ferramenta de auto-afirma\u00e7\u00e3o em um ambiente onde \u00e9 essencialmente desvalorizado como pessoa ainda existe, mas infelizmente \u00e9 um risco para qualquer esporte: \u00e9 este atleta, vitimado por exclus\u00e3o e rejei\u00e7\u00e3o, que alimenta o pior cancro dos esportes, que s\u00e3o os dirigentes oportunistas. S\u00e3o atletas capazes de sacrificar qualquer coisa, come\u00e7ando pela \u00e9tica, para ter um lugar ao sol num sistema que vai se tornando mais e mais corrupto.<\/p>\n<p>Quando eu criei a ANF, tinha uma no\u00e7\u00e3o vaga de que o sucesso de seu projeto dependia de criar, do zero, um novo plantel de atletas que desviasse fortemente deste padr\u00e3o. Necessit\u00e1vamos de atletas de alto rendimento suficientemente auto-suficientes e capazes de suprir suas necessidades de constru\u00e7\u00e3o de identidade para que n\u00e3o escorregassem na \u00e9tica, alimentando as quadrilhas. Conseguimos isso. Hoje temos uma elite de atletas de alto n\u00edvel educacional e satisfa\u00e7\u00e3o profissional suficiente para que tenham uma rela\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel com o powerlifting. Temos uma franja substancial de atletas cuja performance cresce a cada ano e ascende rapidamente em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s faixas de \u00edndices de elite.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que, por defini\u00e7\u00e3o, o esporte de alto rendimento \u00e9 elitista. Assim como a ci\u00eancia e a arte. Os tr\u00eas \u2013 esporte, ci\u00eancia e arte \u2013 t\u00eam uma fun\u00e7\u00e3o social independente da performance de sua elite. A elite, nestes tr\u00eas elementos que constituem o trip\u00e9 cultural da civiliza\u00e7\u00e3o, continuar\u00e1 focada em sua empreitada meritocr\u00e1tica. Mas isso nunca impediu que seus melhores membros compartilhassem benef\u00edcios com o grande p\u00fablico. O principal deles \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o. A produ\u00e7\u00e3o de artigos e livros de \u201cpopulariza\u00e7\u00e3o\u201d cient\u00edfica, art\u00edstica e do esporte \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o tradicional dos grandes cientistas, artistas e atletas. Isso n\u00e3o vai mudar, pois depende da \u00e9tica e consci\u00eancia de cada um.<\/p>\n<p>Chegamos ent\u00e3o no \u00faltimo item: educa\u00e7\u00e3o. O powerlifting desempenhar\u00e1 um papel imensamente relevante para a sociedade se, devidamente divulgado, produzir educa\u00e7\u00e3o para o movimento, estrat\u00e9gias de resgate de padr\u00f5es motores perdidos pela deseduca\u00e7\u00e3o social dos mesmos, bem como alternativas para o lazer e condicionamento.<\/p>\n<p>\u00c9 isso que temos feito. Por um lado, educamos a popula\u00e7\u00e3o. Por outro, elevamos o n\u00edvel da alta performance no esporte que \u00e9 nossa paix\u00e3o e arte.<\/p>\n<p>E \u00e9 assim que tem que ser.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cerca de um ano atr\u00e1s escrevi um artigo que foi bastante discutido e apoiado, \u201cMaking powerlifting more popular: do we want or need it?\u201d. 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