{"id":5675,"date":"2014-06-07T15:54:57","date_gmt":"2014-06-07T15:54:57","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/feminismo-revanchista-feminismo-escatologico-e-feminismo-autoritario-onde-ficamos-nos-que-nao-queremos-isso\/"},"modified":"2014-06-07T15:54:57","modified_gmt":"2014-06-07T15:54:57","slug":"feminismo-revanchista-feminismo-escatologico-e-feminismo-autoritario-onde-ficamos-nos-que-nao-queremos-isso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/feminismo-revanchista-feminismo-escatologico-e-feminismo-autoritario-onde-ficamos-nos-que-nao-queremos-isso\/","title":{"rendered":"Feminismo revanchista, feminismo escatol\u00f3gico e feminismo autorit\u00e1rio: onde ficamos n\u00f3s, que n\u00e3o queremos isso?"},"content":{"rendered":"<p>N\u00f3s, herdeiros de feminismos reflexivos esquecidos, que observamos rela\u00e7\u00f5es desiguais e violentas entre sexos e g\u00eaneros e gostar\u00edamos de expressar nosso desejo por sua substitui\u00e7\u00e3o? Que achamos que estupro n\u00e3o tem justificativa, jamais? Que achamos que disparidade salarial para fun\u00e7\u00f5es iguais entre homens e mulheres \u00e9 inaceit\u00e1vel? Que enxergamos o vi\u00e9s machista em diversas situa\u00e7\u00f5es cotidianas e achamos que vale a pena apont\u00e1-las? Isso tudo, entre tantas outras coisas, mais ou menos vis\u00edveis conforme nosso lugar nas sociedades heterog\u00eaneas a que pertencemos.<\/p>\n<p>N\u00f3s fomos mais ou menos exclu\u00eddos de um universo cada vez mais ocupado por discursos hegem\u00f4nicos de \u00f3dio, sect\u00e1rios e at\u00e9 mesmo machistas.<\/p>\n<p>J\u00e1 tive oportunidade de apontar o perigo da invers\u00e3o revanchista proposta por militantes do \u201cfeminismo negro\u201d, que chega a propor que nenhuma outra etnia possa celebrar sua identidade. J\u00e1 me manifestei contra atos escatol\u00f3gicos e irrespons\u00e1veis, horrores que se intitulam feministas e surpreendentemente<a href=\"http:\/\/blogueirasfeministas.com\/2014\/06\/solidariedade-as-xerecas-satanicas\/\"> ganham apoio das porta-vozes majorit\u00e1rias do movimento<\/a>.<\/p>\n<p>Exponho aqui minha rejei\u00e7\u00e3o ao discurso machista do texto \u201c<a href=\"http:\/\/www.blogdoims.com.br\/ims\/um-pinto-contra-francisco-sa-%E2%80%93-por-juliana-cunha\/\">Um pinto contra Francisco S\u00e1<\/a>\u201d, de Juliana Cunha.<\/p>\n<p>Por favor, leiam o texto mas n\u00e3o deixem de assistir <a href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/blogs\/blog_gente_boa\/posts\/2014\/06\/03\/assedio-revolta-estudante-em-copacabana-538073.asp\">o v\u00eddeo<\/a>, que \u00e9 retratado de maneira distorcida pelo artigo de Juliana. Se poss\u00edvel, leiam tamb\u00e9m os coment\u00e1rios ao texto, grande parte bastante lucida, criticados pelas feministas hegem\u00f4nicas de plant\u00e3o.<\/p>\n<p>O resumo da \u00f3pera \u00e9 o seguinte: Yasmin Ferreira confrontou, pela primeira vez, um agressor que lhe importunava todos os dias numa rota obrigat\u00f3ria que a mo\u00e7a fazia entre sua casa e a faculdade onde estuda. Ponto final. Inferimos (e depois temos a comprova\u00e7\u00e3o) disso que:<\/p>\n<ol>\n<li>A agress\u00e3o era repetida e n\u00e3o um caso fortuito (que seria inaceit\u00e1vel, mas se repetido todos os dias configura tortura: observando o inc\u00f4modo e dor da v\u00edtima, o perpetrador repete a agress\u00e3o);<\/li>\n<li>A v\u00edtima obrigatoriamente encontrava seu agressor, pois ele \u00e9 porteiro de um edif\u00edcio na rota da mo\u00e7a (ou seja, sua ocupa\u00e7\u00e3o proporcionava a ele um acesso garantido \u00e0 v\u00edtima e foi neste contexto que a mo\u00e7a empregou o termo, que Juliana, maliciosamente, assume ser uma forma de desqualifica\u00e7\u00e3o do trabalhador);<\/li>\n<li>Uma jornalista captou acidentalmente a explos\u00e3o de revolta da mo\u00e7a, que ganhou coragem para confrontar o agressor apenas naquela ocasi\u00e3o;<\/li>\n<li>O agressor fugiu da c\u00e2mera (qualquer um que assista o v\u00eddeo v\u00ea isso claramente) e n\u00e3o, como maliciosamente diz a jornalista Juliana, \u201cn\u00e3o foi ouvido\u201d.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Juliana, a jornalista, constr\u00f3i um caso contra o que chama de \u201cfeminismo branco e de classe m\u00e9dia\u201d, que ignora as injusti\u00e7as sociais. A conclus\u00e3o de seu texto \u00e9 f\u00e1cil: a condi\u00e7\u00e3o de classe e ra\u00e7a do agressor \u00e9 um atenuante para a agress\u00e3o sexual que ele pratica.<\/p>\n<p>Este argumento foi defendido por diversas feministas (igualmente brancas e de classe m\u00e9dia, curioso).<\/p>\n<p>Vejamos um\u00a0trecho do texto de Juliana:<\/p>\n<p>\u201cO argumento de que a cantada de rua seria violenta por se dar em um ambiente inapropriado, com m\u00e9todos e palavras erradas, soa capenga se pensarmos que dentro da organiza\u00e7\u00e3o social brasileira n\u00e3o h\u00e1 ambiente, palavra ou m\u00e9todo de abordagem que torne o desejo de um homem pobre e negro por uma mulher branca e rica algo que possa ser exposto em p\u00fablico sem causar atrito.\u201d<\/p>\n<p>Agress\u00e3o sexual virou \u201cexpress\u00e3o de desejo\u201d? Puxa, pensei que o conceito da agress\u00e3o sexual (cantada, passada de m\u00e3o, ass\u00e9dio e estupro) como forma de viol\u00eancia de g\u00eanero j\u00e1 era um consenso h\u00e1 muit\u00edssimas d\u00e9cadas, inclusive tipificado como tal em diversas constitui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. Que retrocesso \u00e9 esse?<\/p>\n<p>O mesmo que ouvi na minha adolesc\u00eancia por parte de \u201ccompanheiros\u201d stalinistas: \u201ca mulher burguesa que se veste com mini-saia merece o estupro do homem trabalhador porque exp\u00f5e a ele o que, por barreira de classe, ele n\u00e3o pode ter\u201d. N\u00e3o \u00e9 chocante? \u201cO que ele n\u00e3o pode ter\u201d, ou seja: minha bunda \u00e9 um objeto caro, que chato, coitado do pobre que n\u00e3o pode comprar este objeto. Tudo bem ent\u00e3o se ele roubar ou tomar a for\u00e7a esse objeto. Afinal, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o injusta em que ele, pobre, \u00e9 exclu\u00eddo da possibilidade de comprar ou obter este objeto.<\/p>\n<p>S\u00f3 que n\u00e3o \u00e9 um objeto: \u00e9 o corpo de uma pessoa. Para os stalinistas, o fato desta pessoa ser burguesa (ou \u201cbranca de classe m\u00e9dia\u201d) a desqualifica como gente e a objetifica.<\/p>\n<p>Pera\u00ed: objetificar a mulher n\u00e3o era o que todo mundo condenava? Ent\u00e3o como pode ser parte de um argumento supostamente transformador, supostamente at\u00e9 feminista? Pois ao combater o \u201cfeminismo branco de classe m\u00e9dia\u201d a autora (e as feministas hegem\u00f4nicas) defende o \u201cfeminismo de verdade\u201d, o interseccional, aquele comprometido com o movimento negro, os movimentos anti-capitalistas e tamb\u00e9m anti-religiosos.<\/p>\n<p>O feminismo sect\u00e1rio que exclui todas as mulheres que forem brancas (ou que n\u00e3o tenham vergonha de ser brancas), n\u00e3o pobres, que forem religiosas, que n\u00e3o forem anti-capitalistas, que tiverem suas d\u00favidas quanto ao aborto, etc.<\/p>\n<p>Um feminismo burro que sacrifica a busca minimalista por consensos que permitiria uma a\u00e7\u00e3o ecum\u00eanica em busca de poucos e important\u00e9rrimos objetivos comuns.<\/p>\n<p>Desse feminismo, v\u00e1rios de n\u00f3s fomos exclu\u00eddos e nos exclu\u00edmos. Nosso desejo por rela\u00e7\u00f5es justas entre sexos e g\u00eaneros permanece, no entanto. Nossa capacidade de agir nessa dire\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. Mas fomos usurpados da ferramenta de organiza\u00e7\u00e3o para isso: esta est\u00e1, para sempre, pervertida pelo pensamento sect\u00e1rio.<\/p>\n<p>J\u00e1 era.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00f3s, herdeiros de feminismos reflexivos esquecidos, que observamos rela\u00e7\u00f5es desiguais e violentas entre sexos e g\u00eaneros e gostar\u00edamos de expressar nosso desejo por sua substitui\u00e7\u00e3o? Que achamos que estupro n\u00e3o tem justificativa, jamais? Que achamos que disparidade salarial para fun\u00e7\u00f5es iguais entre homens e mulheres \u00e9 inaceit\u00e1vel? 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