{"id":5707,"date":"2014-07-03T14:51:22","date_gmt":"2014-07-03T14:51:22","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/por-que-e-necessaria-uma-campanha-financeira-para-um-campeonato\/"},"modified":"2014-07-03T14:51:22","modified_gmt":"2014-07-03T14:51:22","slug":"por-que-e-necessaria-uma-campanha-financeira-para-um-campeonato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/por-que-e-necessaria-uma-campanha-financeira-para-um-campeonato\/","title":{"rendered":"Por que \u00e9 necess\u00e1ria uma campanha financeira para um campeonato"},"content":{"rendered":"<p>Nos artigos anteriores:<\/p>\n<ol>\n<li>Expliquei o papel do powerlifting no concerto de identidades fragmentadas e escava\u00e7\u00e3o de um lugar social para a pessoa atleta;<\/li>\n<li>Elaborei sobre o papel da exist\u00eancia da, e fomento \u00e0 alta performance, de modo geral (seja na ci\u00eancia, na arte ou no esporte), e o desenvolvimento de conhecimento t\u00e9cnico, cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico de ampla aplica\u00e7\u00e3o social<\/li>\n<li>Expliquei o lugar privilegiado do powerlifting como acervo de um repert\u00f3rio motor pronto para emprego em estrat\u00e9gias de recupera\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es motores inatos perdidos pelos efeitos lesivos do ambiente ergon\u00f4mico da vida social e tamb\u00e9m como resultado da aliena\u00e7\u00e3o corporal.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Tudo isso justifica a sua contribui\u00e7\u00e3o financeira para o powerlifting, de maneira geral. Se eu fosse voc\u00ea, teria duas perguntas:<\/p>\n<ol>\n<li>Se \u00e9 t\u00e3o relevante, por que \u00e9 que n\u00e3o existem fontes de financiamento p\u00fablicas e parcerias p\u00fablico-privadas que garantam investimento de inst\u00e2ncias sociais capazes de bancar tais atividades (governo e empresas)?<\/li>\n<li>Por que financiar um campeonato? Campeonatos amadores n\u00e3o deveriam ser auto-sustent\u00e1veis a partir da inscri\u00e7\u00e3o dos atletas participantes?<\/li>\n<\/ol>\n<p>S\u00e3o perguntas importantes. Vamos a elas.<\/p>\n<p>Primeiro, a exist\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas de fomento a qualquer coisa n\u00e3o \u00e9 produto de uma relev\u00e2ncia auto-evidente. Uma das coisas que mais surpreende jovens estudantes das \u00e1reas das ci\u00eancias b\u00e1sicas, que, com toda a sua linda pureza mertoniana[i] acham que \u00e9 \u201c\u00f3bvio\u201d que a ci\u00eancia tenha que ser apoiada, \u00e9 que nada \u00e9 \u00f3bvio. Quando apresentamos, aos que t\u00eam sorte de ter em seus curr\u00edculos uma disciplina de hist\u00f3ria e filosofia de sua ci\u00eancia, a evid\u00eancia de que o reconhecimento da relev\u00e2ncia social da ci\u00eancia foi constru\u00eddo a duras penas por atores do campo (outros cientistas) em complexas estrat\u00e9gias pol\u00edticas, alguns ficam chocados, outros tristes e a maioria fica perplexa.<\/p>\n<p>Voc\u00ea, leitor, n\u00e3o acha que, num pa\u00eds onde havia regi\u00f5es com mais de 30% de pessoas portadoras de Doen\u00e7a de Chagas, seria \u00f3bvio o forte fomento a pol\u00edticas de preven\u00e7\u00e3o \u00e0 transmiss\u00e3o? N\u00e3o era. A vit\u00f3ria sobre a doen\u00e7a de Chagas foi resultado de d\u00e9cadas de luta pol\u00edtica dos \u201cchag\u00f3logos\u201d \u2013 m\u00e9dicos e pesquisadores comprometidos com a erradica\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>A ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de preven\u00e7\u00e3o \u00e0 AIDS? Ao c\u00e2ncer de pr\u00f3stata? Tudo isso \u00e9 objeto de uma intensa negocia\u00e7\u00e3o social para estabelecer a \u201c\u00f3bvia\u201d relev\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ressentidos, os atletas de esportes amadores apontam o dedo para o futebol e queixam-se da \u201cinjusti\u00e7a\u201d revelada pela disparidade de investimento privado (e p\u00fablico!) neste esporte, em detrimento de todos os demais. N\u00e3o adianta ficar ressentido: a relev\u00e2ncia destes outros esportes n\u00e3o foi socialmente negociada e, portanto, no imagin\u00e1rio social, n\u00e3o existe. Se n\u00e3o existe, persuadir tomadores de decis\u00e3o em \u00f3rg\u00e3os governamentais, quase todos orientados por interesses oriundos da luta pelo poder, \u00e9 quase imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Em termos bem simples, n\u00e3o temos moeda de troca para persuadir o governo a investir no powerlifting; os projetos sociais que fizemos, vi\u00e1veis e potencialmente eficientes em inclus\u00e3o social, sequer s\u00e3o lidos pelos tomadores de decis\u00e3o e \u00e9 isso \u2013 ponto final.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s empresas, temos, no Brasil, um sistema emperrado na rede de comunica\u00e7\u00e3o e negocia\u00e7\u00e3o entre o investidor (shareholder), aquilo em que se busca investimento (o evento, o atleta, a equipe, o projeto, ou seja, a \u201cpropriedade\u201d), o detentor de direitos e o negociador de patroc\u00ednio\/parceria\/investimento. N\u00f3s, \u201ca propriedade\u201d, que somos tamb\u00e9m os detentores dos direitos, n\u00e3o aprendemos, como grupo, a falar com o investidor. O investidor n\u00e3o est\u00e1 interessado em nossos t\u00edtulos, em nosso talento, em nossa compet\u00eancia, na beleza de nossa arte, e at\u00e9 mesmo na relev\u00e2ncia social de nossos projetos. O investidor precisa escutar de n\u00f3s que n\u00f3s entendemos suas demandas, o que temos a oferecer a ele, como podemos resolver seus problemas, agregar valor \u00e0 sua marca e, de maneira geral, alavancar seu neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>A culpa n\u00e3o \u00e9 de ningu\u00e9m e \u00e9 de todo mundo. O formato e termos desse di\u00e1logo ainda n\u00e3o foi constru\u00eddo e estabelecido.<\/p>\n<p>O resultado disso \u00e9 que o investimento privado quase nunca \u00e9 resultado de prospec\u00e7\u00e3o ativa, avalia\u00e7\u00e3o de risco e potencial de retorno e valor agregado. Quase sempre \u00e9 produto de contatos pessoais e acaba aparecendo, para o mundo, como filantropia.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe nada pior para a evolu\u00e7\u00e3o do patroc\u00ednio esportivo do que a mentalidade da filantropia, do \u201catleta-v\u00edtima\u201d ou do \u201catleta prostituta\u201d.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o nosso quadro e \u00e9 essa a explica\u00e7\u00e3o para a pergunta que, se voc\u00ea n\u00e3o fez, eventualmente faria.<\/p>\n<p>A segunda pergunta \u00e9 por que precisamos de dinheiro para um campeonato amador. Sup\u00f5e-se que campeonatos amadores s\u00e3o auto-sustent\u00e1veis. Seriam, desde que toda a infra-estrutura j\u00e1 existisse, que as premia\u00e7\u00f5es n\u00e3o representassem o custo alto que representam e que existisse um esp\u00edrito de trabalho volunt\u00e1rio que garantisse as cerca de 20 pessoas necess\u00e1rias para o staff de um campeonato. Nada disso est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p>Nossa entidade paga um pre\u00e7o por ter adotado procedimentos que fazem sentido para o nosso segmento social. Sem fricote e hipocrisia, n\u00e3o \u00e9 segredo que muito do esporte na America do Sul e Europa Oriental s\u00e3o financiados por dinheiro sujo, da \u201ceconomia paralela\u201d. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 segredo que campeonatos nas cidades do interior do Brasil contam com bom apoio das prefeituras na base das trocas de favores. Finalmente, mesmo no esporte n\u00e3o-ol\u00edmpico, pelo menos uma federa\u00e7\u00e3o por modalidade recebe um belo repasse governamental. Nos esportes ol\u00edmpicos os valores s\u00e3o gigantescos.<\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o temos nada disso. Um campeonato sul-americano tem custos altos. A vinda de dois \u00e1rbitros norte-americanos para compor o elenco de tr\u00eas \u00e1rbitros internacionais foi financiada pela Progenex Brasil. A estadia e alimenta\u00e7\u00e3o deles \u00e9 problema nosso.<\/p>\n<p>O equipamento oficial, caro, utilizado em campeonatos, \u201csumiu\u201d por conta de interesses pol\u00edticos. Ficamos desfalcados de uma infra-estrutura j\u00e1 prometida e que se tomava como garantida: o parceiro se tornou ex-parceiro no momento crucial da organiza\u00e7\u00e3o do evento. Sim, fomos ing\u00eanuos, deixamos todo o pouco dinheiro que arrecadamos se esvair nestas parcerias improdutivas e levamos o preju\u00edzo.<\/p>\n<p>Assim, tivemos que adquirir pelo menos um suporte revers\u00edvel de agachamento e supino e diversos outros materiais.<\/p>\n<p>O n\u00famero de atletas do campeonato Sul-americano ser\u00e1 reduzido. Somos duros com regras e procedimentos e apenas aqueles que se qualificaram pelos campeonatos seletivos podem participar do campeonato sul-americano. Por essa \u201cdureza com regras\u201d, os atletas do \u201cvelho powerlifting\u201d brasileiro n\u00e3o cabem no nosso modelo e nem n\u00f3s nos interesses deles. Estamos construindo nossa comunidade de praticantes do zero. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil concluir que o belo modelo cooperativo, que adotamos, vai levar alguns anos para garantir sustentabilidade \u201cfolgada\u201d aos eventos.<\/p>\n<p>Finalmente, exceto por uma ou duas pessoas, o resto dos organizadores est\u00e1 aprendendo apanhando, fazendo. Tudo que \u00e9 feito pela primeira vez perde em efici\u00eancia.<\/p>\n<p>Deu para entender?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[i] Mertoniana se refere ao soci\u00f3logo Robert K. Merton que, entre outras obras, publicou um cl\u00e1ssico artigo sobre o \u201cethos\u201d da ci\u00eancia que descrevia a natural partilha do saber, o reconhecimento por m\u00e9rito e v\u00e1rios outros elementos que, hoje sabemos, melhor prescrevem do que descrevem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos artigos anteriores: Expliquei o papel do powerlifting no concerto de identidades fragmentadas e escava\u00e7\u00e3o de um lugar social para a pessoa atleta; Elaborei sobre o papel da exist\u00eancia da, e fomento \u00e0 alta performance, de modo geral (seja na ci\u00eancia, na arte ou no esporte), e o desenvolvimento de conhecimento t\u00e9cnico, cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5708,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_seopress_robots_primary_cat":"","_seopress_titles_title":"","_seopress_titles_desc":"","_seopress_robots_index":"","site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[1212,1546,1619,1980,1200],"tags":[2871,1972,2875,2380,1638,15,2876],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5707"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5707"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5707\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5708"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5707"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5707"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5707"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}