{"id":5877,"date":"2015-08-24T03:30:17","date_gmt":"2015-08-24T03:30:17","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/sangue-e-lagrimas-pelo-clube-do-choro\/"},"modified":"2015-08-24T03:30:17","modified_gmt":"2015-08-24T03:30:17","slug":"sangue-e-lagrimas-pelo-clube-do-choro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/sangue-e-lagrimas-pelo-clube-do-choro\/","title":{"rendered":"Sangue e l\u00e1grimas pelo Clube do Choro"},"content":{"rendered":"<p>O Clube do Choro, criado pelo Partid\u00e3o (Partido Comunista do Brasil, PCB) em 1977 com a cara p\u00fablica do jornalista Sergio Gomes, est\u00e1 sendo resuscitado (veja a not\u00edcia da Folha de S\u00e3o Paulo abaixo). Ler esta not\u00edcia, como outras que lembram a pol\u00edtica de a\u00e7\u00e3o e milit\u00e2ncia cultural stalinista, me causa rea\u00e7\u00f5es f\u00edsicas de horror. Eu, e talvez outras das \u201ccrian\u00e7as do comunismo\u201d brasileiro, fomos domesticadas, humilhadas, submetidas a um duro programa de reeduca\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e por fim subtra\u00eddas de qualquer vontade ou projeto pr\u00f3prio atrav\u00e9s de programas como esse.<\/p>\n<p>Nele, nos era enfiada goela abaixo uma concep\u00e7\u00e3o de cultura nacionalista e xen\u00f3foba, al\u00e9m dos elementos b\u00e1sicos para nossa obedi\u00eancia sob o centralismo democr\u00e1tico do partido que nos recrutaria: uma representa\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos como incompletos, como devedores para uma humanidade abstrata para a qual nascemos em pecado de classe, como inadequados, e incorrig\u00edveis. As tarefas que nos davam ali, onde \u00e9ramos m\u00e3o de obra escrava, era um programa educativo para o que viria mais tarde, bem mais pesado.<\/p>\n<p>O olhar condescendente, cheio de desprezo, dos \u201ccamaradas\u201d era um lembrete permanente de que n\u00e3o importa o que fiz\u00e9ssemos, n\u00e3o era o suficiente.<\/p>\n<p>E agora eu paro de usar o coletivo. N\u00e3o sei mais quem somos \u201cn\u00f3s\u201d. Havia umas duas ou tr\u00eas outras crian\u00e7as-m\u00e3o-de-obra no Clube do Choro, mas sabe-se l\u00e1 se n\u00e3o foram pasteurizadas a ponto de sumirem pelas frestas do sistema, absorvidas pelo prozac e pela apatia.<\/p>\n<p>Comigo o processo pode ser comparado a Laranja Mec\u00e2nica. Meu rock\u2019n roll era pecado: agora eu deveria ouvir apenas chorinho. Deveria tratar os m\u00fasicos como deuses e cumprir as tarefas de marketing todas. Meus gostos foram todos julgados como pequeno burgueses e foi no final desse ano demon\u00edaco de 1977 que eu abandonei o primeiro amor da minha vida, a esgrima, onde eu realmente era uma grande atleta. Mas era um esporte pequeno burgu\u00eas, elitista. Era minha obriga\u00e7\u00e3o abandona-lo para me dedicar \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o e \u00e0 cultura popular. Aquela que sempre me foi estranha, nunca falou \u00e0 minha alma e que hoje me causa \u00e2nsia de v\u00f4mito.<\/p>\n<p>Sergio Gomes comandava o programa de lavagem cerebral das crian\u00e7as do comunismo. Foi dele que recebi as primeiras li\u00e7\u00f5es de casa e tarefas no Clube do Choro. O visual dele permanece exatamente o mesmo de 1977: uma vers\u00e3o de cabelos meio longos de Stalin. At\u00e9 os olhos apertados no quase sorriso de superioridade \u00e9 a cara do mestre.<\/p>\n<p>Ele nunca deixou de ser o doutrinador arrogante com desprezo por todos. Uns quatro ou cinco anos atr\u00e1s eu, com muitos t\u00edtulos acad\u00eamicos e experi\u00eancia acima dele, me ofereci, generosamente, para contribuir material de texto quanto \u00e0 sa\u00fade ocupacional para algum dos projetos de imprensa sindical da Obor\u00e9. Eu entendo de movimento humano e gestos lesivos, coisa sobre o que eu sei quem nenhum sindicalista ou m\u00e9dico entende. Eu ainda n\u00e3o tinha claro que essa coisa toda precisa ser mantida \u00e0 dist\u00e2ncia. A resposta foi : \u201cvenha at\u00e9 aqui num hor\u00e1rio de almo\u00e7o para eu avaliar isso \u2013 assinado, Serj\u00e3o, sedent\u00e1rio e fumante\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o me dei ao trabalho de responder. Foi s\u00f3 uma comprova\u00e7\u00e3o de que essa gente \u00e9 mesmo monstruosa e nem d\u00e9cadas depois consegue ver at\u00e9 mesmo o \u00f3bvio: entre n\u00f3s dois, quem estava na posi\u00e7\u00e3o de oferecer era eu. Quem tinha que ser agradecida e tratada com defer\u00eancia era eu. Mas essa gente n\u00e3o consegue sair do paradigma de que, perante o Partido, a Revolu\u00e7\u00e3o e eles mesmos, grandes revolucion\u00e1rios, todos n\u00f3s somos ratos devedores.<\/p>\n<p>Eu ando com fone de ouvido na bolsa e um mp3-player vagabundo, para n\u00e3o correr riscos desnecess\u00e1rios com meu smartphone. O motivo \u00e9 que eu n\u00e3o quero ser exposta a qualquer est\u00edmulo que me lembre os anos de chumbo que come\u00e7aram ali, no Clube do Choro, e continuaram por uns anos no Partid\u00e3o, onde as m\u00e9dicas ressentidas do ABC me vigiavam e uma figura estranha, de \u00f3culos, rabo de cavalo e sorriso s\u00e1dico me aplicava puni\u00e7\u00f5es semanais. Toda semana tinha um pecado novo e uma ave-maria nova para que eu rezasse.<\/p>\n<p>Esse pesadelo terminou um dia, com muito sangue meu derramado. De vez em quando algum fantasma do passado vem me assombrar, como essa not\u00edcia. N\u00e3o existe supera\u00e7\u00e3o para o trauma causado por tortura psicol\u00f3gica sistem\u00e1tica. Depois do Partid\u00e3o, veio a Converg\u00eancia, onde a tortura psicol\u00f3gica ganhou um upgrade material em forma de estupro e abuso sexual sistem\u00e1tico.<\/p>\n<p>Mais de trinta anos depois, n\u00e3o h\u00e1 como esquecer. O Chorinho \u00e9 um som que n\u00e3o me causa mais choro, mas \u00f3dio, profundo \u00f3dio. N\u00e3o h\u00e1 o que pague essa d\u00edvida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong><a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/saopaulo\/2015\/08\/1668230-clube-do-choro-ganha-sede-em-teatro-municipal-reinaugurado-na-zona-leste.shtml\">Clube do Choro ganha sede em teatro municipal reinaugurado na zona leste<\/a><\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Clube do Choro, criado pelo Partid\u00e3o (Partido Comunista do Brasil, PCB) em 1977 com a cara p\u00fablica do jornalista Sergio Gomes, est\u00e1 sendo resuscitado (veja a not\u00edcia da Folha de S\u00e3o Paulo abaixo). Ler esta not\u00edcia, como outras que lembram a pol\u00edtica de a\u00e7\u00e3o e milit\u00e2ncia cultural stalinista, me causa rea\u00e7\u00f5es f\u00edsicas de horror. 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