{"id":5920,"date":"2015-09-28T05:09:18","date_gmt":"2015-09-28T05:09:18","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/como-garantir-a-execucao-de-projetos-sem-fins-lucrativos-o-caso-da-bpl\/"},"modified":"2015-09-28T05:09:18","modified_gmt":"2015-09-28T05:09:18","slug":"como-garantir-a-execucao-de-projetos-sem-fins-lucrativos-o-caso-da-bpl","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/como-garantir-a-execucao-de-projetos-sem-fins-lucrativos-o-caso-da-bpl\/","title":{"rendered":"Como garantir a execu\u00e7\u00e3o de projetos sem fins lucrativos: o caso da BPL"},"content":{"rendered":"<p>Outro dia eu comecei a escrever algo para este grupo e por quest\u00f5es do meu computador, perdi tudo. Ent\u00e3o vou editar isso aqui, quem sabe at\u00e9 mesmo publicar em aberto, j\u00e1 que minha preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 em como gerir rela\u00e7\u00f5es entre participantes de um projeto sem fins lucrativos.<\/p>\n<p>S\u00e3o quest\u00f5es fac\u00edlimas de resolver no powerlifting de fundo de quintal ou no burocr\u00e1tico, pois existe, sim, remunera\u00e7\u00e3o. E existem formas extremamente eficazes de coer\u00e7\u00e3o. Por causa da remunera\u00e7\u00e3o (indireta, ilegal, etc) e da coer\u00e7\u00e3o (e severa), al\u00e9m de rela\u00e7\u00f5es baseadas em trocas igualmente nebulosas com as inst\u00e2ncias governamentais, eles conseguem organizar qualquer coisa.<\/p>\n<p>Precisamos, ent\u00e3o, entender o que \u00e9 um projeto efetivamente sem fins lucrativos e como garantir que ele seja executado.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o vamos l\u00e1 para as premissas:<\/p>\n<ol>\n<li>O projeto \u00e9 sem fins lucrativos. Projetos sem fins lucrativos podem envolver pessoas por diversas vias:\n<ol>\n<li>A mission\u00e1ria ou religiosa. A necessidade de realizar o projeto \u00e9 uma demanda moral, interna. O quanto ela \u00e9 mobilizadora depende do quanto ela define a identidade de quem s sustenta<\/li>\n<li>A do benef\u00edcio de longo prazo. Vale a pena investir agora, em forma de tempo e trabalho, para no futuro ganhar em forma de dinheiro<\/li>\n<li>A da necessidade do produto. N\u00e3o tem ganho nem a curto, nem m\u00e9dio, nem longo prazo. Este \u00e9 o pior dos cen\u00e1rios: as pessoas se envolvem porque se o projeto n\u00e3o for desenvolvido, a perda \u00e9 imensa. Alguns percebem mais a perda que outros, alguns efetivamente perdem mais que outros. As pessoas que se envolvem s\u00e3o aquelas que percebem n\u00e3o apenas que a perda, para elas, \u00e9 imensa, como tamb\u00e9m percebem que se elas n\u00e3o se envolverem, outros, mesmo perdendo, n\u00e3o v\u00e3o se envolver. Esse \u00e9 o pior dos cen\u00e1rios n\u00e3o apenas por n\u00e3o existir ganho em fase alguma, mas porque o projeto j\u00e1 nasce com ressentimento: h\u00e1 uma parcela muito maior de qualquer popula\u00e7\u00e3o que \u201cpaga para ver\u201d e tem convic\u00e7\u00e3o de que se eles n\u00e3o fizerem, vai aparecer aquele pessoal que sempre faze e vai resolver o problema de todo mundo.<\/li>\n<\/ol>\n<\/li>\n<li>Porque o projeto come\u00e7a no d\u00e9ficit, ou seja, gerando despesa sem que haja receita, as pessoas t\u00eam que enfiar a m\u00e3o no bolso de alguma forma. Para algumas, isso \u00e9 um al\u00edvio, pois elas se encontram em melhores condi\u00e7\u00f5es financeiras e assumem que dando uma maior contribui\u00e7\u00e3o financeira sofrer\u00e3o menor press\u00e3o por assumir outras tarefas. Outra causa de ressentimento.<\/li>\n<li>Porque o Brasil n\u00e3o tem tradi\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00e3o coletiva (construir uma igreja com todo mundo carregando madeira e as mulheres fazendo a comida, como foi a hist\u00f3ria dos pioneiros norte-americanos), n\u00e3o h\u00e1 tradi\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicas de divis\u00e3o de trabalho. Divis\u00e3o de trabalho \u00e9 algo que existe desde que homin\u00eddeos ca\u00e7am juntos. Discutir como fazer algo coletivamente e n\u00e3o resolver r\u00e1pido \u00e9 um processo de reinven\u00e7\u00e3o da roda, que gera ressentimento.<\/li>\n<li>O Brasil tem uma cultura de sub-texto. Isso \u00e9 at\u00e9 enaltecido na cultura popular. \u00c9 a forma po\u00e9tica do brasileiro se expressar. N\u00e3o \u00e9, n\u00e3o: \u00e9 a incompet\u00eancia em administrar a comunica\u00e7\u00e3o direta de fatos desagrad\u00e1veis que gera uma rede de eufemismos. Basta dizer que no pa\u00eds da propina, essa palavra \u00e9 proibida. H\u00e1 todo um vocabul\u00e1rios para definir a transa\u00e7\u00e3o ilegal que envolve propina. Isso vai fundo na nossa cultura: tentamos ensinar nossas crian\u00e7as a dizer \u201ceu n\u00e3o gostei\u201d quando s\u00e3o mordidas por outras crian\u00e7as. Mas logo em seguida elas desaprendem isso e substituem o \u201ceu n\u00e3o gostei disso\u201d por um jogo complicado e perverso.<\/li>\n<li>O mesmo ocorre com o pedido de desculpas. A cultura brasileira \u00e9 uma das que mais tem dificuldade com assumir a responsabilidade sobre um dano, e, ou reafirmar que o dano era mesmo o resultado esperado, talvez at\u00e9 mesmo intencional, ou fazer uma profunda auto-an\u00e1lise, entender por que caminhos perversos da mente aquele dano foi cometido contra o outro, admitir isso e procurar fazer alguma repara\u00e7\u00e3o. Eu, sinceramente, nunca vi isso acontecer.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Tudo isso torna muito dif\u00edcil desenvolver um projeto coletivo sem fins lucrativos aqui. A simples sinceridade de declarar o motivo de se estar envolvendo com o tal projeto j\u00e1 \u00e9 um desfalque.<\/p>\n<p>Em pouco tempo, o grupo envolvido no projeto se perde em complicad\u00edssimos labirintos de subtextos. Discuss\u00f5es sem fim acontecem porque o jogo (\u201cgames people play\u201d) toma prioridade sobre o que quer que tenha que ser feito.<\/p>\n<p>Quando o jogo leva a um ressentimento t\u00e3o profundo que n\u00e3o h\u00e1 forma poss\u00edvel de reverter o dano em algum sub-conjunto de rela\u00e7\u00f5es, \u00e9 preciso decidir algo muito objetivo: quem sai. Mas sendo brasileiros, ningu\u00e9m quer olhar para o problema dessa forma. O grupo est\u00e1 vivendo aquele estado de profundo mal estar civilizat\u00f3rio, porque esta ocorr\u00eancia obriga todo mundo a olhar para a universalidade daquilo. Nessa hora, algu\u00e9m tem que tomar a iniciativa e expor este rei nu: \u00e9 preciso decidir quem \u00e9 mais priorit\u00e1rio ao projeto e o outro sai. N\u00e3o tem outro jeito. O grupo \u00e9 pequeno demais para os dois.<\/p>\n<p>H\u00e1 problemas de culturas de g\u00eanero e regionais. As mulheres, aqui, foram educadas para jogar longos, circunvolutos e redundantes jogos ret\u00f3ricos. A express\u00e3o de desespero de alguns homens diante disso n\u00e3o \u00e9 motivo de riso, \u00e9 uma trag\u00e9dia. Isso exibe o quanto a nossa cultura de g\u00eanero \u00e9 tal que as mulheres s\u00e3o condicionadas a jogar, a manipular e a se ressentir com a demanda da express\u00e3o objetiva e direta.<\/p>\n<p>S\u00f3 que num projeto, isso \u00e9 obrigat\u00f3rio. Quando o projeto \u00e9 remunerado, como foram os que eu coordenei at\u00e9 hoje, eu vi sim, meninas chorando antes de apresenta\u00e7\u00f5es, manifesta\u00e7\u00f5es de irracionalidade, isso tudo. S\u00f3 que dia 20 o relat\u00f3rio tinha que estar na minha mesa, ou ent\u00e3o a pessoa estava demitida. Era bolsa: eu tinha o poder de dar e tirar sem aviso pr\u00e9vio e sem nada. Tudo isso era sabido por todos e sempre funcionou.<\/p>\n<p>Mas num projeto n\u00e3o remunerado isso \u00e9 imposs\u00edvel. Ningu\u00e9m tem o poder de retirar a remunera\u00e7\u00e3o do outro porque ningu\u00e9m tem remunera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O valor da CONFIAN\u00c7A e do COMPROMISSO sobem infinitamente. No entanto, confian\u00e7a e compromisso s\u00e3o itens raros e escassos no mercado simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>O que fazer?<\/p>\n<p>Na minha opini\u00e3o, estabelecer regras nada simp\u00e1ticas:<\/p>\n<ol>\n<li>N\u00e3o havendo remunera\u00e7\u00e3o, substitui-se o poder de coer\u00e7\u00e3o que ela representa por acordos assinados e registrados, com penalidades em dinheiro.<\/li>\n<li>O estatuto em si representa um efeito coercivo. N\u00e3o \u00e9 a toa que eu quero que esse assunto se resolva o mais r\u00e1pido poss\u00edvel e que a responsabilidade legal saia o mais r\u00e1pido poss\u00edvel das minhas m\u00e3os.<\/li>\n<li>Que nada seja sub-entendido e tudo seja manifestado por escrito, de forma suficiente e necess\u00e1ria. \u201cReitero meu compromisso em organizar campeonatos em minha regi\u00e3o, em minha academia, e a compra de anilhas calibradas \u00e9 o primeiro passo para a efetiva\u00e7\u00e3o do mesmo.\u201d Simples, tr\u00eas linhas, economiza p\u00e1ginas de discuss\u00e3o e horas de inbox. \u201cMinha milit\u00e2ncia partid\u00e1ria \u00e9 priorit\u00e1ria sobre o apoio a esta organiza\u00e7\u00e3o. Em verdade, eu n\u00e3o deveria estar aqui, pois, calculando meu tempo dispon\u00edvel, ele \u00e9 nenhum para esta causa considerando uma prioriza\u00e7\u00e3o efetiva\u201d.<\/li>\n<li>Erros cometidos devem ser seguidos de um documento de an\u00e1lise e auto-cr\u00edtica submetido e aprovado pelo grupo. Sem isso, o indiv\u00edduo deve ser eliminado do grupo e se fizer parte da diretoria, marcada uma assembleia extraordin\u00e1ria para substitu\u00ed-lo<\/li>\n<li>As fun\u00e7\u00f5es de cada pessoa devem ser estipuladas com extremo detalhamento num regimento interno. Isso nunca foi feito, mas assim que a situa\u00e7\u00e3o cadastral da ANF\/BPL estiver regularizada, \u00e9 o primeiro passo. Quem faz o que, onde, quando e como.<\/li>\n<li>As atividades da entidade devem ser precisamente descritas: 1. Organizar campeonatos; 2. Administrar uma rede de contatos com crossifts; 3. Controlar administrativamente a contribui\u00e7\u00e3o dos s\u00f3cios; 4. Fazer o sol nascer; 5. Realizar os partos da periferia de Osasco. Enfim, essa \u00e9 uma lista hipot\u00e9tica,mas a verdadeira tem que ser feita, sob risco da entidade morrer.<\/li>\n<li>Quando algu\u00e9m n\u00e3o d\u00e1 conta ou percebe que n\u00e3o tem interesse nem mesmo no esporte se isso depender dela realizar a tal fun\u00e7\u00e3o, essa pessoa deve ser imediatamente substitu\u00edda.<\/li>\n<li>CRONOGRAMAS: tudo tem que ser executado segundo cronogramas. Todo gestor de projeto sabe disso. Sem um cronograma e um gerenciamento de projeto, \u00e9 o mesmo que declarar a entidade morta. Feito o cronograma, uma pessoa necessariamente \u00e9 respons\u00e1vel pelo monitoramento do cronograma, que \u00e9 fun\u00e7\u00e3o quase t\u00e3o importante quanto a de manter a tabela de recordes.<\/li>\n<li>Amizades n\u00e3o devem ser estimuladas. Se acontecerem espontaneamente, ok. Eu sugiro fortemente que ningu\u00e9m ofere\u00e7a a pr\u00f3pria casa para alojamento de membros do grupo de outros estados. As pessoas n\u00e3o partilham os mesmos valores morais. Quanto menos estes valores forem confrontados, melhor para a sa\u00fade da entidade. Esse tanto eu aprendi bem nos Estados Unidos: n\u00e3o se discute pol\u00edtica, religi\u00e3o ou loucura exceto se o grau de intimidade seja muit\u00edssimo elevado, coisa que quase ningu\u00e9m tem aqui. Essa pressa em for\u00e7ar intimidade, t\u00edpica da cultura brasileira, \u00e9 parcialmente respons\u00e1vel pela morte de projetos. N\u00e3o \u00e9 preciso e at\u00e9 \u00e9 melhore que n\u00e3o haja intimidade entre os membros do grupo que executa o projeto.<\/li>\n<li>As rela\u00e7\u00f5es com os atletas deve ser igualmente bem regulamentada. O ressentimento que todos os membros do grupo ter\u00e3o ao ver os atletas alegremente usufruindo do produto de seu sofrimento \u00e9 inevit\u00e1vel. Assim, deve ser regulamentado.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Nada disso \u00e9 digestivo ou agrad\u00e1vel. Mas se voc\u00eas querem a entidade ativa, \u00e9 preciso encarar a parte dura da realidade de n\u00e3o ser corrupto num pa\u00eds onde isso \u00e9 o default.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Outro dia eu comecei a escrever algo para este grupo e por quest\u00f5es do meu computador, perdi tudo. Ent\u00e3o vou editar isso aqui, quem sabe at\u00e9 mesmo publicar em aberto, j\u00e1 que minha preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 em como gerir rela\u00e7\u00f5es entre participantes de um projeto sem fins lucrativos. 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