Por Fernando Canteli e Marilia Coutinho

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Por que parcial e por que periferia?

Parcial, porque vocês não vão conseguir um relato abrangente de ninguém abaixo do Equador – não do Brasil, pelo menos.

Sua melhor alternativa é alguém que possa olhar as coisas que se passam na Austria de um ponto de vista multi-facetado, que saiba o suficiente sobre o cenário local bem como o contexto internacional e – importante – que fale línguas outras que não apenas sua língua nativa – e aqui estamos nós.

Nós participamos de campeonatos da IPF, um de nós traduziu o último livro de regras dessa organização, mas não somos oficiais da IPF no Brasil e não apoiamos a IPF – acreditamos em honestidade, então vocês devem entender onde nos situamos.

Periferia porque o Brasil é economicamente, politicamente e culturalmente periférico no sistema global, porque o Powerlifting é um esporte marginal, porque ele é ainda mais marginal no Barsil, onde é quase tipicamente um esporte de classe trabalhadora, o que torna nossa posição duplamente periférica.

Advertências devidamente feitas, vamos proceder a alguma informação contextual. O Brasil não é um país relevante no Powerlifting em geral, ou no Powerlifting da IPF em particular. Na maior parte dos Campenatos Mundiais, o Brasil se classifica baixo apesar de enviar uma pequena equipe de seus melhores levantadores ligados à IPF. Um rápido exame dos Comitês e corpos deliberativos na organização mostra que os brasileiros não são politicamente ativos na IPF.

Powerlifting no Brasil é concentrado num pequeno número de estados do Sul e Sudeste. A maior parte dos atletas vêm de segmentos desprivilegiados da sociedade. A maior parte não têm curso superior e não têm conhecimento de línguas estrangeiras. Apesar do Brasil ter indicadores surpreendentemente altos no que diz respeito ao acesso à Internet e computadores (qualquer favela possui dúzias de lan houses baratas), o nível de “Internet literacy” é de fato baixo e a habilidade para recuperar informação na rede, precária.

Atletas que se sentiram encorajados por ganhar títulos por alguns campeonatos consecutivos freqüentemente fazem o esforço para comprar equipamento Titan. A maior parte deles leva vários meses pagando por uma única camisa suporte. Aqueles que não conseguem, usam equipamento suporte Murphy, que fornece um carry-over e suporte menores, mas é mais barato e mais fácil de obter.

É difícil colocar números reais nas proporções, mas estimaríamos que, considerando todos os levantadores brasileiros que alguma vez tenham participado de um campeonato, que 30% são IPF-exclusivos, outros 30% participam tanto em eventos da WNPF com WABDL (em sua maioria levantadores do Sul), e o resto vai a qualquer coisa organizada próximo deles, independente de federação. O número de competições de supino não-sancionadas, raw-only, está crescendo no país e, neste ponto, estão espalhadas e isoladas demais para serem contadas.

Levantadores do sul que frequentam competições da WNPF e WABDL freqüentemente usam camisas suporte produzidas por fabricantes locais como HADES ou Canhão, que oferecem bom carry-over e suporte e não são aceitas nos eventos da IPF.

Até alguns anos atrás, o Powerlifting era praticado no Brasil sem nenhuma preocupação com o cenário internacional – de livro de regras a procedimentos organizativos, tudo era inventado aqui.

As ações que deram origem aos capítulos brasileiros da IPF, WABDL e WNPF ocorreram entre os estados de São Paulo e Rio Grande do Sul. Atualmente, a IPF tem um número maior de estados membro, mas ainda é concentrada em São Paulo, enquanto a WABDL e WNPF têm sua base no Sul. Uma quarta federação nacional apareceu, sem contrapartida internacional, chamada CONBRAFA, espalhando-se rápido principalmente na região Sudeste e concentrada no estado do Rio de Janeiro.

O nível de percepção quanto à existência, divergências e conflitos entre federações é quase nulo. A grande maioria dos levantadores que já competiu alguma vez não faz idéia de que existem outras federações. Na verdade, eles têm apenas uma idéia vaga de quem são os organizadores do evento do qual participaram.

O documento da agenda 2007 já está online há algum tempo e até onde sabemos, meia dúzia de levantadores no Brasil sequer tomou conhecimento de sua existência, quanto mais ler o documento, quanto mais discuti-lo.

Nós pesquisamos comunidades e forums da internet e não achamos nenhuma menção sobre o documento ou sobre o Congresso no qual dramáticas transformações nas atuais regras, procedimentos e até mesmo recordes podem ocorrer no âmbito da IPF, afetando não apenas levantadores desta federação como toda a comunidade do powerlifting.

Nenhum esforço da parte dos oficiais da IPF no Brasil jamais foi feito para discutir entre os atletas as mudanças de regra propostas antes que fossem votadas nos Congressos, fazendo com que as mudanças de regra pareçam um tipo de “revelação divina”: vêm do Céu e portanto devem ser seguidas sem crítica. A agenda 2007 não é nenhuma exceção. Quando perguntamos: “você sabia que a Austrália propôs banir as camisas suporte, re-definir todas as categorias de peso e começar um novo registro de recordes, colocando os antigos num museu virtual?” o que recebemos são olhares inexpressivos.

Isto ditto, é fácil entender que seria impossível identificar o que é a “perspectiva brasileira” sobre a agenda da IPF.

Nós acreditamos que a questão principal aqui é o perverso estado de isolamento que nunca foi encarado com seriedade. Não existem canais democráticos de discussão ou divulgação. O resultado é que os levantadores brasileiros seguem fingindo que não há nada acontecendo para além das fronteiras nacionais, o que não os ajuda nada uma vez que as novas regras caem sobre seus bancos e tablados, deixando-os inteiramente impotentes. Uma vez lá, tudo que podem fazer é ou se esforçar ao máximo para se ajustar às novas regras ou parar de freqüentar competições da IPF.

Ambas as alternatives têm acontecido no passado recente e, se as mudanças mais radicais propostas pela Autraia e Alemanha forem aprovadas, nós prevemos um êxodo mais denso das fileiras da IPF em direção a outras federações e para eventos não sancionados. Levantadores que, com muito sacrificio, compraram camisas Titan sentir-se-ão traídos e não vão simplesmente jogar fora seu equipamento mais caro para satisfazer dirigentes. Estes levantadores têm mais experiência e sabem o suficiente sobre a cena nacional do Powerlifting para buscar outras alternatives na WABDL, WNPF e CONBRAFA. Levantadores sem equipamento, neste ponto, tampouco são beneficiados pelas mudanças de regra. Estes são levantadores que lutam com muito mais dificuldade, que têm um contato menor ainda com regras e procedimentos e que encontraram alguma hospitalidade em eventos não-sancionados com regras mais flexíveis. Se forem forçados a competir de acordo com um livro de trinta e tantas páginas que legisla desde a área das nádegas que deve estar em contato com o banco, passando pelo posicionamento de pés e cabeça, se o estiramento de cotovelos deve ou não ser simultâneo e outros detalhes muito específicos, estes levantadores ou desistirão do esporte ou buscarão outras alternativas. Tais “outras alternatives” estão pipocando pelo país como cogumelos depois da chuva e deve absorver esta demanda.

Esta é basicamente nossa previsão para a aprovação do que nós dois vemos com um conjunto de decisões suicidas que a IPF tem pela frente – pelo menos no que diz respeito aos desdobramentos no Brasil.