Esse é um pequeno assunto em extensão, mas razoavelmente incômodo e complexo. Há umas duas semanas substitui minha foto do profile na comunidade virtual Orkut (www.orkut.com ). Coloquei uma em que aparecia com melhor iluminação e com o braço direito fletido. Tive um bom desenvolvimento durante esses últimos meses e todos os meus amigos que não me viam há algum tempo elogiaram muito a nova fotografia. No entanto, ela teve alguns efeitos colaterais. Em primeiro lugar, multiplicou o número de fakes de putaria me abordando com propostas que iam de bizarras até abertamente ofensivas; Aumentou muito o número de cantadas de conteúdo sexualmente chulo; aumentou muito o número de visitas ao meu perfil, atualmente medidas pelo software do orkut. Peguei scraps contendo propostas como: “você topa fazer um programa?” e e-mails com conteúdo muito próximo disso. Eu acredito que nenhum desses homens de fato me confundiu com uma prostituta. Prostitutas não exibem currículos científicos no profile, nome real, foto de filho e muito menos conquistas esportivas. Tenho convicção de que essas propostas foram apenas agressões machistas. Recebi muitas dezenas de elogios à minha beleza, desde os sinceros e, dentro dos meus parâmetros, “normais”, até os claramente embebidos em tara. Mas li um scrap que me incomodou: “tu é feia pra kct”. Só isso. Não tenho nenhum problema de insegurança com minha estética nem “questões” com minha auto-imagem. Sempre fui considerada uma mulher bonita e hoje eu sei que minha estética pode no mínimo ser classificada como “alternativa”. Assim, essa declaração não deveria me incomodar, mas incomodou. Uma vez escrevi que “feio” e “bonito”, na linguagem das crianças, expressa muito mais do que uma avaliação estética. Feio é “mau”, “perverso”, “errado”. Quando a criança se irrita com o outro, xinga-o de “feio”. Acho que nesse universo pouco culto e cheio de preconceito, a lógica não é muito diferente. Para esse sujeito escrever, publicamente, para todos verem, seu xingamento – sim, foi um xingamento – é porque considerou que algo em mim era muito ruim e transgredia suas normas internas. Todos os meus incômodos com intolerância e ódio vieram à tona e, junto com as cantadas bizarras e insistentes, me fizeram trocar a foto pela imagem sem cabeça de uma estátua de bronze. Postei o assunto em várias comunidades às quais pertenço, propondo alguma ação coletiva. Me dá raiva, impotência e angústia ser obrigada a me esconder em função de uma moral que não é minha. Parece fútil, mas propus a criação de listas negras para que mulheres como eu possam defender seu direito democrático de se expor como quiser, desde que dentro da lei. O direito individual precisa ser protegido a qualquer custo.

Marilia


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