Quinta-feira passada, precisamente, ouvi pela primeira vez o termo “francesinha” aplicado a algo que não seja uma pequena mulher nascida na França. Quem me introduziu ao termo foi bem diplomático. Disse que mulheres bonitas, como eu, às vezes pecavam por serem relapsas, não atentando para detalhes estéticos como unhas, cabelo e depilação. E exemplificou tais detalhes, em relação aos quais eu desconheço até mesmo a terminologia correta. O que é francesinha? Meu amigo ficou incrédulo. Como era possível uma mulher de 42 anos desconhecer uma coisa tão bem difundida? Ele tentou me explicar, dizendo que era uma meneira de pintar as unhas, com as pontas mais claras. Nunca viu? Não, eu nunca tinha visto… Nunca??!! Nunquinha. Ou melhor: devo ter visto centenas de vezes, mas nunca prestei atenção nem registrei o detalhe.
Como tenho motivos para levar fortemente em consideração a opinião desse amigo, resolvi investigar o assunto, pois para mim ainda podia ser apenas uma tara específica dele. No dia seguinte, perguntei a outro amigo: “me diga uma coisa, unha feminina tem alguma importância erótica para os homens?” O outro amigo respondeu com cautela, achando que podia ser alguma pegadinha ou sacanagem minha. Sim… Tem, sim… Assim como vários outros detalhes.
Nossa! Vários outros detalhes?! Já um pouco preocupada, resolvi checar com um terceiro homem heterossexual. Afinal: unha é importante no contexto erótico? A cor importa? O comprimento importa?
Importa, sim! E, ainda por cima, “francesinha pira os homens”!!
Eu precisava saber o que era uma “francesinha”. Digitei o termo no Google e comecei minha pesquisa. Francesinha é uma técnica de manicure onde as pontas de unhas relativamente longas são pintadas de cor diferente (em geral mais claras) do que o resto. Existem métodos para se conseguir isso – caso contrário, vira uma lambança infernal. Adesivos que se cola na unha para demarcar áreas de cor diferente. Tudo muito complexo.
Fui à Itikawa, a loja de cosméticos onde fiz amizade com os esteticistas que nos últimos dois anos vêm me instruindo no maravilhoso mundo dos creminhos e melequinhas e falei: “preciso de coisas para unhas”. Do que? Tudo. Sei lá. Todos esses trecos. Comprei uma pá de coisas: alicatinhos, uns pauzinhos estranhos para cutucar os dedos, coisas que limpam, coisas que secam e, naturalmente, os essenciais esmaltes. Como não consigo me ver com esse visual convencional rosinha ou branquinho, comprei azul e umas duas outras cores que me pareceram interessantes.
Saí dessa incursão à Itikawa e à parte mais exótica do Google com uma pergunta na cabeça: em que planeta eu vivi nos últimos 40 anos?
E me respondi: no escroto planeta do politicamente correto.
Há muitos e muitos anos atrás, quando eu emergi, de uma infância onde a beleza feminina tinha um valor negativo, para a adolescência, fui sequestrada para dentro do mundo politicamente correto da esquerda brasileira. É um mundo feio, autoritário, altamente machista e misógino. Nele, se aprende rapidamente a reprimir tudo que seja valorização estética, estigmatizado como desvio pequeno-burguês.
Só saí parcialmente desse mundo (pois ele contamina o seguinte) para dentro de outro universo igualmente politicamente correto, ainda que um pouco mais sofisticado: o mundo acadêmico. Estudei, fiz minhas teses, transei meus homens, construi minha família – tudo dentro desse mundo, segundo seus valores.
Fora dele, praticamente não tive interações pessoais.
Assim, eu nunca fui socializada em nenhuma outra prática de comunicação visual corporal. Até cerca de um ano atrás, depilar pelos pubianos era, para mim, um procedimento de preparação cirúrgica. Nem me passava pela cabeça que alguém fizesse isso com objetivos eróticos. Hoje eu não consigo imaginar pelos nessa parte do corpo, pois para mim sexo e pelo absolutamente não combinam.
Sinceramente, diante de tudo isso, eu me sinto um pouco roubada. Esse mundo do qual eu fui privada é muito mais divertido, muito mais erótico e muito mais bonito. Tudo que é legal e interessante é, no universo politicamente correto, errado: piercing, depilar, tigir cabelo e colocar prótese de silicone.
A esquerda e a intelectualidade oficial devem ter um problema muito sério com sua própria sexualidade. Algum psicanalista politicamente incorreto precisaria descobrir por que…

Marilia


BodyStuff

  • Anônimo

    Intelectualidade X Sensualidade

    Opinião psicanaliticamente sensitiva de mais um amigo heterossexual.
    Fui uma garoto criado no meio de adultos e por isso sempre fui admirador da figura da mulher madura.
    Meu mundo em torno dos 18 anos de idade estava entre atletas e cientistas. E posso dizer que em ambos os lados haviam mulheres lindíssimas e realmente muito interessantes, mas que “demoravam” por vezes a se identificar como elemento feminino/sensual. A imposição tanto da vida atribulada e corrida destas quanto a necessidade de superação da sempre injusta e covarde competição que este planeta homem x mulher as impoem, por vezes realmente fazem com que as mesmas não “tenham” tempo, chance ou mesmo oportunidade de se descobrirem.
    Hoje com 34 anos de idade, posso dizer que sou fisicamente atraído por mulheres atléticas, intelectualmente fico caidinho por mulheres cultas e inteligentes e sexualmente falando adoro quando a mesma une estes dois ítens aos detalhes absolutamente femininos. Unha francesa, luzes no cabelo, perfumes, batons leves, lingeries e tudo que envolve este universo misterioso e encantador.
    O que posso dizer para concluir é que já vi dezenas de vezes este momento de descoberta da mulher “alheia a este mundo” como um ser também sensual e sexual, e que no seu caso minha amiga, talvez a humanidade esteja prestes a ficar de frente da mais poderosa e letal arma de extermínio de corações masculinos. Que Deus nos proteja. Que a força esteja conosco. etc. etc. etc.
    Um abraço.
    Carlos Fernando Rosa Caramuru.

  • politicamente correto e estética feminina

    Já dizia Zé Kéti (acho que foi ele), na década de 60, quanto à glorificação da pobreza, e acho que se aplica ao caso: “feio não é bonito”…

  • Re: Psicanalista politicamente incorreta,mas na vida!

    já ouvi dizerem que revolucionário não tinha sexo.