Essa é a história de uma bipolar que não conheço pessoalmente e, ao contrário das crianças abusadas, não conta nem com amparo legal para se proteger. Foi transformada em beringela pelos psiquiatras, por determinação do marido.

Ela é casada com o sócio de um amigo meu. Há alguns meses meu amigo me relatou o caso. Disse que a mulher havia sido diagnosticada como portadora de DB. O sócio e amigo de décadas do meu amigo, estava perdido e ressentido. Meu amigo me contou que a moça sempre teve um comportamento considerado “estranho”. Até aí, trata-se de um grupo social conservador e convencional, classe média alta recém-ascendida em cidade do interior do Brasil. Nesse contexto, tudo é “estranho”. Contou também que ela sempre recorreu a anfetaminas para emagrecer. No entanto, recentemente, o comportamento dela saiu do controle. Perguntei de que forma. Ele me respondeu que a ponto do sócio pensar em tirar a guarda das crianças dela. Segundo meu amigo, agora o sócio não sabia mais o que era mau-caratismo e o que era doença. Farejei um casamento convencional há longo tempo podre, solto das amarras da hipocrisia. Perguntei detalhes. Ele exemplificou dizendo que ela resolveu ir até a chácara do casal dirigindo a velocidade tão alta que tomou seis multas no percurso. Ok, o que mais? Me adiantei e disse que promiscuidade em períodos de mania tinha que ser entendido no contexto da doença. Ele disse que não sabia disso, mas que há tempos ela não tinha sexo com o marido porque sentia um cheiro desagradável nele.

Meu amigo me pediu ajuda. Perguntou se podia dar meu e-mail para o sócio. Eu prontamente permiti e tomei a iniciatiava de escrever para ele. Nunca tive resposta. Insisti e perguntei como andava a mulher. Ele disse que cada vez pior. Perguntei por que o sócio não me procurava. Meu amigo me disse que ele tinha medo de me incomodar. Não acreditei, mas compilei uma lista de organizações que dão apoio a familiares de bipolares.

A última notícia que soube dela é que o marido optou por drogá-la ao ponto de neutralizá-la. Claro e simples. Chocada, perguntei por que. A mulher não tem família que a “assuma” – como se desordem bipolar fosse retardo mental ou tetraplegia. Assim, segundo meu amigo, por sua vez reproduzindo a versão do sócio, restaram as alternativas de internar a mulher ou drogá-la tão pesado que não representasse mais “problema”.

Fico pensando quem foram os psiquiatras que deram ao marido a opção de tratamento, e não à paciente. Isso só se justificaria durante o curtíssimo período de um surto dissociativo em mania. Não foi o caso. Esses delinquentes munidos de CRM foram coniventes com um crime de enormes proporções e tenho certeza que sabiam o que faziam: o marido tinha um problema, que era se livrar da mulher da maneira mais segura, eficaz e barata possível. Matar é arriscado e pode representar problemas morais para esse tipo de gente, capaz de crimes hediondos, desde que socialmente sancionados. Em autonomia, essa mulher estava na rota do divórcio, pois obviamente já havia perdido o desejo pelo marido. O marido é proprietário de uma empresa de médio porte, tem grana, obrigatoriamente pagaria uma pensão grande. Se internasse a mulher, teria que manter os médicos permanentemente na “folha de pagamento” para garantir diagnósticos que inviabilizassem a liberação da paciente. Bipolares não necessitam de institucionalização exceto por curtos períodos. Assim, o crime perfeito se configurou com uma prescrição a longo prazo de anti-psicóticos potentes, de forma a neutralizar toda a reatividade da mulher. É possível até que ele recupere a capacidade de penetrá-la, em um ato que só posso classificar como necrofilia.

Isso aconteceu agora, século XXI, numa grande cidade do interior próxima de São Paulo, e não no século XVIII. Doentes mentais têm menos direitos do que crianças e até do que animais. Uma criança abusada poderia ser resgatada pelo Estado. Animais mal-tratados têm organizações que vão em sua defesa. A quem posso denunciar o abuso de uma portadora grave de desordem bipolar sendo vítima de seu marido cheio de ódio e más intenções?

 

 

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