Lilian,

Eu sempre joguei claro com você, exceto nesta questão. Mas não dá mais: esse não é um jogo claro. Vejo você cada vez mais criando um modelo de você mesma que explica e perpetua essa ausência de espaço para qualquer tipo de relação amorosa por causa de uma expectativa que você nega que exista (isso é um jogo e não é claro). Eu, por minha vez, faço o sparring desse jogo onde você aplica golpes no bom senso, explicando os movimentos dele com mirabolantes teorias.

Está errado esse negócio. Eu não acredito nisso e nem você, ou pelo menos não deveria.

Vamos começar de trás para frente: ele não quer você, ponto final. Essa história de que na verdade ele quer, mas ele se nega o direito de se aproximar pela promessa feita à mulher manipulativa; de que ele é vítima de um esquema de controle mental e social operado por ela e pela família dela; de que a moral tacanha dele faz com que ele fique paralisado de pavor diante da possibilidade de sair do papel de herói da filha, criada sem ferramentas críticas – tudo bobagem.  Você criou tudo isso: vamos admitir, ele nunca falou nada disso.

É duro dizer na sua cara, mas seu pior inimigo não é a mulher conservadora dele que você demonizou com os fios de evidência que tinha. Seu pior inimigo é seu enorme talento, técnica e experiência em produzir modelos. Como dizia seu orientador há quase dezoito anos: “é um modelo elegantérrimo, pena que não é verdadeiro”. Simples assim.

É sua profissão, querida. E você é a melhor no que faz. Se lhe derem meia dúzia de evidências empíricas, você tem as ferramentas conceituais para produzir um edifício narrativo muito resistente. E bonito. Foi isso que você fez.

E agora para derrubar isso? É, Lilian, vai doer. Por três motivos: o primeiro é que está muito cômodo para você colocar esse amor trágico nos alicerces do seu modelo de impossibilidade amorosa. Você já percebeu que nem ele conseguiria tirar este alicerce? É tudo tão lindamente tautológico que há quase seis anos ele permanece inabalável. É a famosa profecia auto-realizada.

O segundo motivo é que você tem esse péssimo hábito de se apaixonar pelos próprios modelos. Engraçado é que profissionalmente você sempre teve o cuidado de se proteger de si mesma, cercando de testes empíricos a sua produção. Mas parece que esse rigor metodológico não se aplica à sua vida afetiva.

O terceiro motivo é a porcaria da memória do que poderia ter sido. Ok, ok: eu admito. Um dia ele provavelmente sentiu tudo isso que você tem tanta certeza de que foi um grande amor. E se não foi, pelo menos foi um sentimento sincero e forte de paixão. Também admito que não foi apenas um “crush”: a coisa foi trágica demais na época.

No entanto, o que se seguiu àquele momento pontual lá atrás em 2007 não cabe no seu modelo. Mas então por que ele faz coisas como se dizer triste por não estar mais nos seus textos pessoais, ou mandar uma (uma! Em cinco anos!) mensagem se dizendo saudoso, ou dizer que monitora você? Oras bolas, sei lá! Porque bateu uma insegurança e a sua reação confirmatória de que o curte, e muito, restaura a auto-estima dele, ou porque deu vontade nele de fazer um “vale a pena ver de novo esse filme”, ou porque é ele, e não a mulher dele, o manipulativo. Sei lá! E não importa!

O que importa é:

  1. Foi uma mensagem de “saudade” em cinco anos, ou seja: NADA!
  2. Em 70% dos casos, ele não retorna suas ligações.
  3. Em 90% dos casos, ele não responde seus e-mails.
  4. Meia dúzia de vezes num ano (ou menos), ele liga para bater um papo inconseqüente, na linha do “como você anda”
  5. Jamais, em nenhum dos contatos, ele nem sugeriu a possibilidade de que sentisse por você nada além de uma afinidade genérica e uma grande admiração. Quem não tem admiração por você? Até os caras que querem fazer tambor com a sua pele admiram você.
  6. Ele viu você uma única vez esse tempo todo, depois de meses de planejamentos frouxos da parte dele e uma ação decisiva da sua parte (e não dele).

Estes seis itens não deixam margem à dúvida: ele não sente nada romanticamente relevante por você. Nem relevante, nem, provavelmente, real. Tesão? Bem provável. Ele e a torcida do Flamengo. Homem é assim.

Então vamos lá. Considerando que é tão claro que o cara não curte mesmo você, por que é que você se apega tanto a esta teoria? Eu tenho algumas hipóteses:

  1. Proteção da sua auto-estima. Admitir que alguém deixou de amar a gente é um golpe na auto-estima de qualquer pessoa. É: você foi rejeitada. Você e todo mundo no planeta, Lilian: cresça. Não é você que pontifica com esse seu ar professoral que interpretar rejeição como evidência de inferioridade é produto da ideologia dominante? Tome seu próprio remédio, ou veneno.
  2. Preservação do seu modelo de mulher forte. Mulher forte não se pendura em macho nenhum. Portanto, você está se submetendo à imagem careta que o segmento mais bundamente medíocre do seu entorno criou: o da comedora. Aquela que não se envolve com ninguém, sai com quem quiser, come e joga fora. O pior é que nem se divertindo você está, porque não está comendo ninguém – ou quase ninguém. Ninguém sabe, mas eu sei.
  3. Medo: se você assumir que o cara não curte mais você, você sabe, tão bem quanto eu, que é uma questão de pouquíssimo tempo para que você fique afetivamente disponível. E vulnerável. Porque se envolver implica o risco de se machucar. E você se caga de medo disso.

 

Tudo isso é compreensível e inspira compaixão. Sério mesmo. Mas, como você mesma sempre diz, a vida é curta. E o pior arrependimento é das coisas não feitas. Se por um lado você é um ícone do oposto disso, da ousadia extrema de ir atrás dos sonhos mais arriscados e ter sucesso em vários (e fracasso em outros, certo?… coisa com a qual você lida bem), por outro, você está deixando o tempo passar com esse vazio na sua vida.

Lilian, mulher forte intimida, sim. Intelectual forte tem, sim, um universo reduzido de parceiros potenciais. Mas reduzido não é conjunto vazio. Ser forte também é assumir riscos emocionais.

Por quanto tempo você, e eu, do seu lado, vai fingir que está realmente feliz e completa desta maneira, blindada e vazia?

Repito o parágrafo com que comecei essa carta: eu cansei de jogar esse jogo de sombras e mentiras com você. Não faz nenhum bem a você e nem a mim.

Eu parei. E espero que sem eu para contracenar com você, o seu jogo emperre sozinho.

Um grande beijo,

 

  • Marco

    Wou