Fiquei muito emocionada vendo meu nome entre as pessoas a serem “celebradas”, na proposta linda do Cinese de ressignificar o conceito de “celebridade”. Celebridade vem do latim celeber (frequentar ou honrar), que se transformou em celebritas (multidão, celebrar ou reconhecimento). A palavra percorreu os caminhos tortuosos do emprego e da História e desembocou nesse significado tão associado a futilidade, que o Cinese propõe problematizar.

A proposta deles é que estas dez primeiras pessoas “celebradas” escolham mais dez. Eu aceitei o desafio, que gerou mais uma porção de emoções complicadas. Os nomes vieram sem hierarquia e eu não creio que conseguiria explicar porque apareceram assim na minha lista.

Meus nomes são: Eugênio Koprowski, Gordon Santee, Laerte Coutinho, Ed Coan, Simon Schwartzman, Glaucio Soares, Jon Pall Sigmarsson, Joshua Lederberg, Aaron Swartz e Maria de Freitas.

Eugênio Koprowski é um dos pioneiros dos esportes e treinamento de força no Brasil. Seu comprometimento apaixonado é um salto de fé amplo sobre a força humana, lato sensu: investindo recursos internos que ninguém teve coragem antes, Eugênio acreditou que todo ser humano tem uma força e merece a oportunidade de desenvolvê-la. Vive até hoje no bairro Jardim São Luiz.

Gordon Santee tem muito das mesmas características de Eugênio: um pioneiro, um abra-alas e antes de mais nada, uma pessoa transcendente. Define-se como um “embaixador do esporte (da força)” e suas marcas são o espírito aguçado e a generosidade. Gordon é engenheiro de informação, nutricionista e o que mais colocar seu intenso intelecto para desenvolver. E tudo isso com um sentido de doação. Minha última lembrança de Gordon no Brasil, onde veio, sem cobrar nada, apenas para nos ajudar, foi encontrá-lo ao lado do carro ensinando francês para dois garotos de rua completamente entretidos.

Laerte é meu irmão e sobre sua genialidade e singularidade já se falou tanto que não sei o que três ou quatro linhas acrescentariam. Sua obra é única, revolucionária e descontínua em relação a outras tradições, ao mesmo tempo que em diálogo com elas. No entanto, Laerte precisa ser celebrado por ter aberto um caminho de reflexão equidistante de todos os erros do passado na reivindicação de mudança. Todos erramos, mas optar por errar diferente é para os célebres.

Ed Coan é considerado o maior powerlifter de todos os tempos e eu concordo com isso. Recordes e conquistas em geral acontecem dentro de uma faixa onde uma pequena elite está em permanente substituição. As realizações de Coan ficaram por décadas. Mas homens fortes existem e existiram antes, agora e vão existir em seguida. Ed Coan deixou uma maneira de pensar nossa própria força que, de tão econômica, simples e concisa, beira a filosofia.

Simon Schwartzman é um dos mais inovadores cientistas políticos e intelectuais brasileiros contemporâneos. Não ficou muito tempo num tema só ou num lugar só: Simon chega a algum terreno meio estéril, fertiliza, inova e vai embora. Diz com ironia que sempre esteve do lado contrário do “certo” e não dá bola para os rótulos do que isso representa. Sigo seus passos.

Gláucio Soares é outros dos mais inovadores e prolíficos cientistas políticos brasileiros contemporâneos. Sua obra, que cobre assuntos tão diversos como sociologia rural, política de acidentes e análise comparativa institucional dos governos da America Latina, tem uma assinatura única. Fui casada com ele e desse relacionamento turbulento herdei um senso agudo de autocrítica, um texto blindado e uma capacidade argumentativa armada para a guerra.

Jón Páll Sigmarsson é considerado até hoje o maior atleta de força de todos os tempos. Ao contrário dos anteriores, não tive o privilégio de conhecê-lo: faleceu em  1993. Jón Páll foi atleta, campeão e recordista de todos os esportes em que participou. Seu maior destaque, no entanto, foi no Strongman, onde foi o maior campeão do World’s Strongest Man, vencendo quatro vezes o campeonato. Mas não é por nada disso que ele é minha celebridade. Jón Páll é o meu espelho. Diagnosticado com uma desordem cardíaca crônica, recebeu a sentença médica de levar uma vida moderada, caso contrário seu coração não suportaria. Sua resposta foi: “de que vale a vida se eu não puder fazer um levantamento terra?”. Jón Páll viveu com uma intensidade que nenhum outro atleta demonstrou e morreu, aos 32 anos, fazendo um levantamento terra. Jón Páll bancou a força e a morte como o viking que dizia ser, sorrindo.

Aaron Swartz foi um jovem gênio, programador, escritor, organizador de movimentos pela informação livre e “hacktivist”. Foi co-fundador de diversos grupos e movimentos que contribuem para uma sociedade mais livre, democrática e inclusiva, como o “demand change”, “creative commons” e outras. Desenvolveu diversos protocolos inovadores. Em 2011, foi preso por violar a privacidade de dados do MIT, que depois se retratou. No entanto, a promotoria resolveu fazer do Swartz um exemplo e levou o processo adiante num ataque devastador à vida do jovem ativista, até levá-lo ao suicídio em 2013. Swartz é considerado um mártir do movimento pela informação livre.

Joshua Lederberg foi um biologista molecular norte-americano envolvido com os mais diversos temas – da descoberta dos sistemas de troca gênica em bactérias, pela qual ganhou o Prêmio Nobel, até a exobiologia. Lederberg foi a pessoa que me levou a tentar entender o que leva aos super criativos e bem sucedidos a entrar numa fase de profunda entrega ao “entorno”, chamada de fase de “transcendência” nos estudos longitudinais. Conheci Lederberg em 1995 e foi por causa dele que fui fazer meu pós-doutorado na Virginia Tech em estudos sociais da ciência.

Maria de Freitas foi uma pianista e professora de piano. Gênio musical, portadora da rara condição de “ouvido absoluto”, Maria de Freitas formou-se aos 13 anos no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, onde lecionou até sua morte em 1985. A pianista teve sua carreira cortada assim que se casou, pois seu marido não permitiu que continuasse trabalhando. O casamento eventualmente terminou e Maria de Freitas voltou profissionalmente para a música, como professora. Foi mestre de grandes pianistas brasileiros como Eny da Rocha e outros. Maria de Freitas é minha avó. Herdei dela o sangue forte que me permite subir nos tablados e quebrar recordes sob muitas centenas de quilos de ferro.