Hoje eu tenho só umas 402 coisas para fazer que estão atrasadas, de modo que não posso fazer o que gostaria, que é destrinchar analiticamente este tema. E gostaria porque está me incomodando como um tênis mais apertado que o outro, uma fivela no cabelo que puxa alguns fios ou uma formiga mordendo embaixo da blusa. É esse discursinho moralista do “no pain, no gain”, que traz consigo uma fileira de significados negativos: primeiro, confunde e intimida o praticante recreacional ao estipular que o único treino válido é o que gera sofrimento e dor, o que é uma grande mentira. Segundo, representa essa moralzinha nojenta do culto ao sacrifício, a pior herança da moral judaico cristã. O pior é que os adeptos sequer conhecem tal origem. Sacrifício NÃO É bonito, bom, não representa medalha de mérito ou de superioridade ética. Pessoas honrosamente podem se sacrificar para salvar terceiros, para garantir algo benigno para a humanidade, mas definitivamente, treino não entra nessas categorias. Se for um treino não competitivo, defendo com todos os argumentos esmagadoramente bem embasados que ele TEM QUE SER satisfatório e prazeroso. Se não for, a pessoa que necessita deste treinamento abandonará o programa e terá danos à sua saúde pela resultante inatividade. Treino tem que ser LEGAL, BACANA, gerar PRAZER. Em terceiro lugar, advogar o sacrifício em nome da forma é ideologicamente conservador e contrário a tudo por que lutei. Sofra, sofra, sofra para produzir uma transformação no seu corpo em direção ao uma forma estandardizada? O que é isso senão eco da assassina indústria da beleza? Em quarto lugar, esse discurso é patético e realmente perigoso. Atletas que produzem dor em si mesmos através de treinamento limite o fazem não por enaltecer seu sofrimento, mas porque a profunda relação com o prazer da atividade faz com que negligenciem os sinais do corpo e a conseqüência disso é quase sempre catastrófica: lesões que tiram o atleta dos tablados e pesos por bastante tempo. NUNCA se deve ignorar a dor. O praticante deve ser, sim, informado sobre a natureza das sensações de desconforto que podem acompanhar o treino para justamente saber que NÃO deve fazer “mais uma repetição” depois que está sentindo dor. Eu ensino as pessoas a diferenciar a “dor do bem” da “dor do mal”: dor tardia nem dor é direito. Dor lesiva tem que ser respeitada.

Quem faz esse discursinho em geral reproduz alguma foto em preto e branco, que se tornou sinônimo de “hard core”, de algum bodybuilder. Estas pessoas têm pouco ou nenhum conhecimento sobre as origens do fisiculturismo, lá no século XIX, quando seus praticantes nem se diferenciavam dos “Strongmen” (os homens fortes que executavam feitos de força em locais públicos e circos). A muscularidade era uma expressão exteriorizada da FORÇA. Era uma maneira de mostrar aquilo que não é visível (as expressões da força são capacidades, e não características morfológicas).

O foco na forma dissociou a mesma de sua função e gerou uma miríade de bobagens (sendo as piores em treinamento), entre elas esse discurso besta que enaltece um falso sacrifício. Falso, sim: nenhum de nós, atletas de verdade, acha que é sacrifício deixar de ir a uma balada. Deus me livre, coisa mais horrorosa aquele monte de gente fedida se apertando ao som de lixo-music, tão alta que não se escuta conversa nenhuma, o que, pensando bem, não importa, pois baladas não são o nicho para trocas inteligentes de idéias. Nem sei para que servem, exceto para um anacrônico flerte altamente ritualizado e contido (para o meu entendimento). Uma espécie de versão chatérrima das pracinhas do tempo da minha avó. Que raio de sacrifício é deixar de ir num inferno desses, onde só fui um par de vezes por falta de personalidade para dizer “não” a amigos? Outro sacrifício falso: “abrir mão” de encher a cara. Leitor inteligente: alguém em sã consciência, fora do desespero de uma perda dolorosa, enche a cara deliberadamente? Não, né. Encher a cara é produto de um descontrole. No dia seguinte, invariavelmente a pessoa jura nunca mais beber. Como pode ser considerado sacrifício adotar um protocolo que evita um dos desconfortos mais desagradáveis que o corpo pode suportar? Ah, sim, tem o sacrifício de deixar de comer Mac Donalds. Leitores, eu prefiro comer formiga do que entrar num Mac Merda. Quando eu morava em Gainesville e era professora da Universidade da Florida, um dia eu tive que comer um Burger King porque me atrasei com Office hours (atendimento aos estudantes). Do contrário eu almoçava no trailer dos Hare Krishna. O rango dos Hare Krishna era COMIDA, e não lixo. Nesse almoço atrasado, meu dia foi destruído: escovei os dentes umas cinco vezes para tentar tirar aquele gosto nojento da boca, que não saiu. O porcaria não ia embora nem por baixo, nem por cima. Minha concentração acabou: quem consegue pensar com um gosto daqueles na boca?

O ser humano é integrado e sofre com a alienação de seu próprio corpo. Integrar-se através da execução de movimentos só não gera prazer – físico e mental – se o grau de alienação e sofrimento forem tão altos que pouca coisa alivia a triste condição.

Nós, que levantamos peso, fazemos força em tablados, argolas, barras, cordas, o fazemos com PRAZER. A dor é um pequeno preço, que infelizmente quase todos já fizemos a besteira de negligenciar, pelos imensos ganhos imediatos, e não imediatos que temos.

Sim, é verdade o que diz Louis Simmons: não existe powerlifting sem dor. Powerlifting é um “fringe Sport” – um esporte de limite. Já levantamento olímpico raramente causa dor ou lesão. Mas nenhum powerlifter dirá: “meu treino foi excelente PORQUE estou todo dolorido”. Dirá, “puxa, estou com dor, FAZER O QUE, NÉ, mas o treino foi excelente”. Ou: “FIZ BESTEIRA, LESIONEI, mas… vamos em frente”.

Para quem acha que eu sou uma heroína por me enfiar embaixo da barra mais vezes do que os demais o fazem, eu reproduzo a frase sábia do meu amigo Thiago Ferragut Passos, profissional do treinamento capacitado em técnicas de re-equilíbrio corporal que ninguém no Brasil domina: “Marilia, você vai ter que trabalhar muito a sua vontade de treinar muito”. A minha FALHA (e não virtude) é desrespeitar limites.
Leitores, moralismo nunca fez bem a ninguém e muito menos o culto ao heroísmo e a personalidade. Atleta de verdade, atleta artista (e não mercenário) pratica sua arte por amor e com uma dose de prazer que só quem faz sabe.

“No pain, no gain” não tá com nada. Pense em “no brains, no gain”; “no Love, no gain”; “no purpose, no gain” e “no deep meaning, no real gain”.

O resto é gente querendo justificar um investimento duvidoso na forma, dissociado da origem bem fundamentada do fisiculturismo, através de moralismo judaico-cristão.
 
P S – e comida boa é a comida da mamãe, que é sempre saudável pois a mamãe é bióloga e sabe dosar direitinho os macro-nutrientes