Dentro de dois dias eu completo cinqüenta anos. Não sei ainda dizer o que isso significa, se é que significa alguma coisa. Pessoas como eu podem escrever tratados sobre cada período de suas vidas e as grandes transformações ocorridas, sínteses sensacionais, descrições épicas sobre marcos de renascimento. Nem me lembro quando comecei a nomear renascimentos na minha vida, parece que desde sempre. Mesma coisa com mortes. Cansei de morrer.

A verdade é que pessoas como eu vivem monotonamente em transformação radical. É uma contradição em termos, eu sei, mas somos paradoxos ambulantes. Nem era para estarmos vivos. Aliás, poucos estão vivos. Pouquíssimos passaram dos quarenta anos realmente vivos. Depois dos anos 1950s, com a popularização de drogas psiquiátricas potentes, alguns passaram dos quarenta, só que em estado vegetativo, mente morta.

O que são “pessoas como eu”? Também não sei. A psiquiatria mainstream anda cada vez menos consistente e suas categorias nosológicas remendadas e re-remendadas não funcionam mais. A maioria dos diagnósticos feitos por essa galera deu em “desordem bipolar”, como nos guias de taxonomia vegetal que davam para nós, jovens maconheiros, no primeiro ano de faculdade. “Dava” Papaver somniferum – wow! Será que dá certo comer?

Gente como eu, seja lá o que formos, não compõe conjuntos homogêneos. Pouca coisa se pode falar de generalizável sobre gente como eu. Uma delas é que vivemos essas vidas de cores extremas, extremas transformações, extremas transições, como se fossem múltiplas encarnações em seqüência,  sem desencarnações completas.

De um ano para cá eu venho fazendo cinqüenta anos. Acho que é o nome desta última encarnação. Cinqüenta tem um certo sabor de transgressão mais cínico. Parece mais obsceno continuar viva, mais escandaloso ostentar ao mesmo tempo uma sexualidade escancarada e um silêncio sacana sobre amor, mais transgressivo mergulhar em alta performance – alta performance atlética, intelectual e tudo mais. Parece muito mais transgressivo e por isso irresistivelmente divertido.

Me causa um prazer indescritível negar ao mundo e a todo mundo quase tudo, desde a conformidade com os estereótipos mais fáceis de desconstruir até expectativas que os mais perspicazes desconstrucionistas não desconfiavam ser passíveis de desconstrução. Me dá um tesão ligeiramente sádico mostrar a caretice de crenças quase sagradas e sujá-las de coco.

É delicioso ser autenticamente indiferente a qualquer chantagem, negar ajuda e não sentir nada. É uma novidade interessantíssima viver para os meus projetos, com M maiúsculo e desfocar ligeiramente as outras pessoas: ele, ela, eles e mesmo nós. É um alívio não acreditar no que não faz sentido, não investir no que não quero e dizer um grande “não” genérico. “Não” como default.  Eu e a Tata: eu com cinqüenta, ela com dois. O mesmo sorriso triunfante depois do não, a mesma indiferença ao mundo com o Meu lego na mão.

Quarenta é eufemismo de “mais velha” e cinqüenta de “velha”. Será que eu tenho pena de quem acredita nisso? Vou ao resgate de um mundo vitimado por estereótipos opressivos e castradores, que subtraem ao indivíduo sua autonomia, corporalidade e principalmente sexualidade ao longo dos marcos do amadurecimento?

Não! É tão ilógico que não merece pena, apenas desprezo: todo mundo é “mais velho” que no instante anterior e, ou todo mundo é velho, ou ninguém é, do ponto de vista objetivo. Aceitar a construção social que a representação de “velho” impõe é uma escolha. Minha enorme contribuição à sua desconstrução é esse paragrafinho, aqui, e eu, Marília, que continuo a mesma recordista mundial de levantamento de peso, a mesma porra-louca cheia de piercings, a mesma mulher bonita, gostosa e escrachada (eu acho isso, sério mesmo, e acho Pattylene um bicho feio pra caralho) e a mesma filha-da-puta arrogante que não faz questão de se esforçar para enxergar os medíocres ou fazer joguinhos simpáticos.

Fazer cinqüenta é isso: uma risada escrachada, obscena e sacana para o mundo e um beijo para o espelho.