Eu gostaria de pedir desculpas

Eu gostaria de pedir desculpas pelo seu silêncio, pelo fim das suas histórias e pela desintegração do seu sonho. Eu gostaria de catar os caquinhos dos quadros, os estilhaços da explosão. Gostaria de pacientemente montar algo com eles, como os quebra-cabeças do meu pai. Eu gostaria de pedir desculpas por tudo isso, mas não posso porque eu não sinto essa culpa que precisa ser desfeita. Tampouco sei o que fazer com os cacos destes sonhos que também eram meus e nem como retirar da minha carne os estilhaços da bomba que explodiu o caminho que partilhamos.

Minhas histórias foram enterradas junto com as suas, na vala comum das esperanças que tiveram o azar de ser semeadas no solo podre ao sul de qualquer norte.

Eu gostaria de pedir desculpas pela raiva de mim que lhe come a paz. Gostaria de drenar o fel que amarga sua comida, embrulha seu estômago e alimenta seu desejo de vingança. Gostaria de sacrificar meu orgulho em nome de um bem maior, de restituir a paz que a raiva de mim lhe roubou, mas não posso. O orgulho é sacrificável. A verdade, que sua raiva impede de perscrutar, não.

Eu gostaria de pedir desculpas pela escória regional que hoje lhe acompanha, no lugar dos nobres guerreiros que você tinha em mente. Talvez não só em mente. Talvez estivessem lá antes. Gostaria de pedir desculpas, de assumir que ela aí se encontra por falhas minhas, porque eu falhei em lhe proteger dela. Gostaria de pedir desculpas e que minha culpa, desfeita, restituísse o exército que você merecia liderar. Gostaria de fazer tudo isso, mas não posso. Os atos da escória independem de mim. A sua arrogância e prepotência, só pares para a minha, só pares para a nossa ingenuidade, são a verdadeira causa da autonomia que a escória teve para destruir nossos sonhos.

A culpa deles é na verdade nossa mas essa culpa, desculpe, não pode ser desfeita.

Eu gostaria de pedir desculpas pela perfeita concatenação de suspeitas, desconfianças, ressentimentos, sorrisos de serpentes, beijos de hienas, excreção e carniça espalhada, medo, medo, dor. Gostaria de pedir desculpas por tudo isso mas não posso. O acaso satisfaz profecias auto-realizadas e confirma deduções apressadas. Depois de um tempo, torna o conhecimento da verdade difícil, mais difícil, impossível e, finalmente, desnecessário. Nada mais importa.

Eu gostaria de pedir desculpas pelas perdas que eu lhe causei, pelas perdas que você me causou, pelo estrago generalizado na minha vida e na sua, pelos tendões rompidos nos seus e nos meus membros, pelos músculos estirados, pelos batimentos fora de ritmo e pela dor de barriga. Eu gostaria de devorar todos os pecados, expiar todos eles com meu sangue, extirpar o mal com o aço na minha carne, mas não posso. Essa culpa não me pertence, esses pecados não são meus, por mais que a minha onipotência fizesse querer.

O pecado original, esse você conhece e eu não. A culpa é sua, e não minha, por me culpar.