Resumo

A competição esportiva é um episódio paradigmático de validação meritocrática em um dos tripés culturais civilizatórios. Durante o evento competitivo, diversos elementos da composição social daquele esporte são recrutados sob o ethos da equanimidade, isenção, neutralidade e precisão. A concorrência entre um ou mais participantes, característica da competição, é gerenciada por atores investidos de poder de alguma maneira consensual pela tradição esportiva em questão, os quais atuam conforme um conjunto explicitado, codificado e regulamentado de procedimentos (regras). Esta operação potencialmente produz validação significativa, que é a validação individual por um grupo de pares e outros agentes de uma determinada coletividade esportiva. As características institucionais do esporte contemporâneo, pautadas por relações de poder assimétricas (violência) entre diversos grupos de atores (atletas na base, árbitros, oficiais e dirigentes), e por um tráfico de interesses mais ou menos intenso conforme a modalidade, fazem com que a validação potencialmente produzida pela operação de procedimentos competitivos se converta em invalidação. As conseqüências subjetivas e coletivas de tal perversão tornam incerto o benefício da participação competitiva, muitas vezes excluindo da coletividade, definitivamente, participantes cuja identidade tem forte lastro na prática socialmente configurada pela mesma.