Hoje o mar estava tão calmo, sem ondas ou correnteza, que resolvi nadar nele. Há muitos e muitos anos não fazia isso. Mas confiei nos meus instintos – afinal, foi no mar que aprendi a nadar, aos 3 anos, com meu irmão Mauro e minha mãe. Mauro sempre teve um senso prático: importante saber nadar para não se afogar. Simples assim.

Tendo aprendido a nadar, durante muitos anos, acreditei num enunciado totalmente falso e delirante do meu pai: “quem sabe nadar não morre no mar”. Por um lado foi péssimo ter acreditado em tamanho disparate, já que me meti no fundo com correnteza forte, em dias de mar feio, já fiquei presa em áreas de correnteza e poderia facilmente ter morrido afogada. Por outro lado foi muito bom, porque já que acreditei piamente no enunciado de meu pai (afinal, era meu pai, e, portanto, provavelmente conhecedor de mais ou menos tudo, do Big Bang ao poder salvador da natação), nunca me desesperei e, nas piores correntezas, só o que fiz foi esperar uma onda mais forte e me deixar empurrar em direção à praia. Dei sorte e, pela calma e controle, nunca aconteceu acidente nenhum.

Mas nadar no mar de Juquehy é coisa para dias raros. Em geral o mar não é muito propício a isso, precisamente pela correnteza. Assim, o mais legal no mar era mesmo pegar jacaré.

Hoje não: o mar estava realmente uma grande lagoa. Segui a sugestão do salva-vidas para que não fosse muito para o fundo, evitando os barcos, e comecei a nadar para o lado esquerdo da praia. Só que de tempos em tempos levantava a cabeça e estava nadando para outro lado: ou nadava em direção ao fundo, ou em direção à praia. Corrigia meu rumo e ia em frente, só para constatar novo erro de orientação 50m para frente. Me dei conta que nos últimos muitos anos, em que me tornei uma nadadora competente, só nadei com baliza. Só em piscina. Uma vez me convidaram para um evento de águas abertas, mas por algum motivo acabei não indo. Percebi que, sem baliza, é difícil se concentrar no ato de nadar apenas. É preciso ficar atento à orientação e checar referencias espaciais.

Logo a alta salinidade começou a incomodar meus olhos e mucosas do nariz e boca e acabei desistindo do meu “longo percurso”, que ficou bem curtinho.

Sem baliza é complicado…. Só que a maior parte das coisas mais sérias na vida não tem baliza. Seguir caminhos pré-estabelecidos, como 99% dos meus colegas fez em suas carreiras, é fácil: é nadar com baliza. Você entra na universidade, faz seu mestrado, faz seu doutorado e chega uma hora em que sinalizam para você que “chegou o momento” de fazer o concurso. Você faz e – obviamente – passa. Tudo é muito bem sinalizado, tudo tem baliza.

Mas quando você escapa para o mar aberto, fica difícil… A maior parte das vezes, nem sabemos bem para onde estamos nadando, já que o mar, para os efeitos das nossas ridículas dimensões, é infinito…

 

Marilia

 

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