A semana passada, conversando com meu primo, Alberto Coutinho, tentamos analisar a versão brasileira da pseudo-controvérsia com a Crossfit. Sim, pseudo. Controvérsia é uma condição bastante bem estudada do ponto de vista da sociologia do conhecimento e é caracterizada por um alinhamento de interesses com antagonismos discerníveis pela hegemonia de um discurso “x” ou “y”.

A controvérsia científica, por exemplo, se caracteriza pela emergência de reivindicações antagônicas e “recrutamento” de citações: cada lado vai indo mais e mais para trás na busca pelo fortalecimento de seu argumento com citações corroborativas. Este é o vetor reverso.

O vetor na direção futura busca a adesão de aliados e “experimentos cruciais” ou seja, evidência referenciada (publicada em periódicos indexados) que se possa argumentar que refute a afirmação do adversário.

Não vejo nenhuma semelhança disso que estudei em vários episódios da história do conhecimento com esse nhe nhe nhe com a Crossfit. Primeiro: ela simplesmente não se representa no mundo acadêmico. Todo mundo que enche a boca para falar sobre as bases científicas de um ou outro lado, sequer inserido no sistema de produção científica está. Na maioria dos casos, perdão pela sinceridade, não sabe diferenciar um texto de evidência primária de um texto de “guru”.

A área do treinamento tem uma imensa riqueza de saber, além de práticas assimiladas como tal, que nunca passaram pelo crivo do método científico (e o que é o “método científico”? existe? Vocês sabiam que isso é objeto de muita discussão e publicação em epistemologia?). Isso faz delas menos válidas? Não! Apenas sugere alguns fatos:

  1. Que a dificuldade metodológica em relação às questões envolvidas é gigantesca, sendo apenas uma delas a experimentação com humanos e a imensa variabilidade individual, além das questões estatísticas em si;
  2. Que não houve necessidade ou interesse da indústria em obter estes dados dentro do sistema acadêmico

Qual dos dois, não sei. Talvez ambos.

Crossfit é uma marca de grande sucesso comercial. Do ponto de vista estritamente técnico, epistemológico, não constitui um sistema metodológico e jamais se propôs a tanto. Quem defende que é, não conhece os conceitos de método, modelo, hipótese, teoria, substituição teórica, verificação empírica, etc. Quem defende que não é ignora igualmente os mesmos conceitos.

Ninguém envolvido no nhe nhe nhe conhece nada de antropologia e simplesmente ignora o fenômeno de construção de redes sociais e discursos auto-referentes entre praticantes de Crossfit. Os crossfiteiros constituíram uma nova cultura urbana e ignorar isso é ignorar uma parte grande dos fatos.

De uns anos para cá, Crossfit se transformou numa modalidade esportiva e se institucionalizou como tal. Toda a modalidade esportiva envolve alta performance e alta performance envolve uma alta incidência de lesões. Assim, apontar a incidência de lesões em praticantes em vias de “atletização” é chover no molhado.

Quem critica a falta de periodização no treinamento “crossfitístico” não tem idéia no que está se metendo: pouca coisa é mais controvertida do que a temática da periodização. Digo do ponto de vista acadêmico, imagine então desse, pseudo-científico… É o caos em forma de bla bla bla.

Uma parte dos envolvidos na pseudo-controvérsia tem interesses comerciais concorrenciais. Aí a coisa fica mais inteligível para mim. Outra parte me desconcerta. Me parecem indivíduos imersos numa profunda crise de identidade profissional expressando a famosa “physics envy”, da qual uma parte dos biólogos já foi acusada quando ficava “nervosinha” com a estrutura argumentativa de alguma teoria interna ao campo.

Bottom line é: isso é uma perda de tempo sem tamanho e de uma superficialidade nauseante. Não educa os ingênuos e vítimas de um sistema universitário que não forma profissional nenhum (a Educação Física no Brasil sofre de indigência intelectual), principalmente os formados nas Unishits da vida, e não adestra os mais espertinhos a se tornar academicamente melhores na argumentação.

Cresçam!

Intelectualmente…

 

(aí embaixo está o que eu escrevi séculos atrás, não tenho nenhuma paciência ou interesse em revisar ou me envolver na pseudo-controvérsia)

O Galpão dos Sonhos

O Galpão dos Sonhos – parte II

 

  • Débora

    Marília, como sempre adoro seus posts. Pessoas perdem muito tempo com essas discussões que na verdade, não vai mostrar quem tem mais razão nisso ou aquilo, pois cada indivíduo tem o direito de escolher o que é melhor para si mesmo. O pior é o desrespeito que encontramos como espécie de “mutilar”a liberdade de escolha.
    Você é demais! Beijos

  • Cris

    Puxa, eu andava vendo muitas coisas sobre esse assunto e esperava mesmo este post! Parabéns, mais uma vez jogando na cara da sociedade!

    Tá certíssima! beijos

  • Gustavo Morcelli

    Oi Marília, tudo bem?
    Gostei bastante do texto (as usual) e mesmo antes de lê-lo já percebia que todo o discurso sobre Crossfit no mundo é sempre uma pseudo-controvérsia.
    Quando será que terão estudos concretos com bases científicas e testadas por amostragem sobre os benefícios ou malefícios da atividade?
    Pode até ter já, mas eu nunca vi e acho que pelo texto você também não, certo?
    Enquanto isso eu continuo praticando Crossfit. Viciado, e cada vez mais envolvido pelo excelente marketing dos caras.
    Por enquanto sinto os benefícios físicos e sociais de fazer parte da tribo. Mas e amanhã?
    Abração.

    • Oi Gustavo, thanks! Sim, tem alguns estudos e outros sendo feitos. Mas nenhum que responda às questões substantivas das críticas feitas. O ponto que eu desconstruí (e, em parte, ridicularizei) no meu texto é que as críticas não são críticas, pois são ataques a um falso objeto. Explicando melhor, são críticas ao que os críticos “construiram” como uma “crossfit ideal” que não existe.

      Fico feliz que você esteja feliz: você está praticando algo que lhe dá “resultado”, num sentido muito mais amplo do que o infeliz mercado do fitness chama de resultado. Resultado é o produto do que se procura. Eu acredito que uma pessoa como você procura, no treinamento, muito mais do que uma forma. Você procura integração, bem estar e, com isso, aproximar-se de estados de felicidade. Acho que é um jeito mais completo de entender saúde. Você não?

      Amanhã? Amanhã tem agachamento! hahahahaahahahahahahaha

      • Joel Fridman

        Agachamento? Ontem, hoje e sempre.
        Qual? Quantos? Com qual carga? De qualquer jeito, pela frente, por trás, de arranco ou com uma perna, o importante é agachar! E subir, claro.

  • Paulo Marcondes

    Marília.

    Indigência intelectual é a regra neste país.
    Infelizmente, não se extingue com mais títulos, mas apenas com o verdadeiro amor pelo estudo.

  • Tiago Tadeu

    Olá Marília!
    Parabéns pela excelente abordagem! Este “nhe nhe nhe” não é uma exclusividade que acontece com a crossfit, mas várias outros, métodos, atividades, esportes ou como queiram chamar…
    É realmente lamentável quando algo que tem sido praticado pelo mundo inteiro, fazendo pessoas que estavam desmotivadas com a atividade física ficarem extremamente felizes por estarem treinando e obtendo ótimos “resultados” (aqueles citados por você no comentário acima) e a comunidade científica fica encontrando impecílios para provar resultados de modo a padronizar algo que não tem padrão!!! Como é uma sessão padrão de crossfit? Como é uma sessão típica de treinamento funcional? Whatever!!!! A maior preocupação não é padronizar o método para provar alguma coisa, mas sim fazer algo motivante e prazerozo que traga as pessoas para perto da atividade… seja ela qual for!!!
    Estou escrevendo minha dissertação de mestrado sobre treinamento funcional e estou sofrendo com esse nhe nhe nhe constantemente!!!!!!!! Hehehhe!!!
    Parabéns pela matéria e por responder os posts (algo raro em blogs).
    Abração!

    • Puxa, Tiago, corajosa sua escolha de tese de mestrado, hein… Não sei se eu o incentivaria a isso se fosse sua orientadora. Já tomei minha dose de chega-pra-lás no mundo acadêmico e de porra-louca, basta eu. Em geral, aos estudantes eu recomendo que deixem os temas “picantes” para um momento menos vulnerável. De qualquer forma, já que embarcou nessa, conte com meu apoio!

  • BrunoVBC

    Muito boa a matéria Marilia.
    Sou estudante de Educação Física e praticante (viciado) exaustivo de exercícios físicos, sejam eles quais forem.

    Uma das recentes práticas corporais que estou fazendo é, justamente, o Crossfit. No começo eu procurei muito sobre o assunto e acabei não achando muita coisa (algo científico), mas achei muito conteúdo informal que estou confrontando e buscando algo que eu ache bacana de treinar. Creio que este seja o princípio do Crossfit (pelo menos é o que tenho observado e lido), algo que não tem um padrão, que não tem uma técnica exata, uma forma “correta” de fazer.
    Quanto a “esportização” dessa prática corporal, levando a mesma para o alto rendimento, não sou muito a favor mesmo tendo a consciência de que isso é fruto do processo. Acaba sendo uma espécie de busca por uma legitimação ou algo do tipo.

    Desde já, obrigado. E continuarei fazendo Crossfit, pois me encontro junto daqueles indivíduos que você mencionou num comentário resposta aí acima: me sentindo feliz com essa prática corporal! Os benefícios eu estou percebendo, já os malefícios… Só o tempo mostrará, ou não. ;D
    Um forte abraço.

    • Bom comentário, Bruno. Quanto à esportização, é algo inevitável. E terá conseqüências – para o mal e para o bem…

  • Bruno Bezerra

    Quando comecei a praticar essa prática corporal (isso pareceu bem redundante agora, rsrs) há um ano atrás, esse foi um dos primeiros textos que li sobre crossfit. Confesso que não entendi muito do que se tratava e que levei um pequeno choque diante do teor do discurso nas entrelinhas da matéria. Afinal, trata-se de uma prática corporal que vem sendo bastante difundida e que vem sendo largamente elogiada pelos “Educadores Físicos” aqui no Brasil.

    Hoje voltei a ler a matéria e fiquei feliz em lê-la. Feliz pelo fato de que achei um texto que comunga da minha ótica sobre o tema. Não tem quem me faça entender esse “fenômeno” crossfit, tal como ele está estabelecido no momento, a não ser pelo viés mercadológico egoísta. Egoísta pelo fato da limitação da atuação com os “cursos de capacitação de dois dias”. Com isso não venho defender que qualquer pessoa seja capaz de aplicar tal treino com segurança, mas venho defender que esses cursos não são, de fato, necessários ou suficientes para tal aplicação. Afinal de contas, é imprescindível uma experiência corporal rica no crossfit para passar esse conhecimento para alguém, assim como é imprescindível o trato pedagógico no processo de ensino/aprendizagem, em qualquer área do conhecimento.

    Aliás, com relação a formação em Educação Física já é bem nítido que essa separação só vem deixando a área mais vulnerável. Se por um lado o mercado das academias é muito instável e encontra-se saturado, levando os bacharéis a procurar a formação em licenciatura em busca de mais estabilidade, por outro lado os licenciados tem o domínio do trato pedagógico porém não tem a formação em conhecimentos técnicos para se sentir a vontade nos ambientes d treinamento, a não ser quando essa formação é realizada de forma independente, mas daí vem CONFEF/CREF limitando a atuação do professor.

    No mais, desculpe qualquer coisa e espero manter um contato.

    Um forte abraço.

  • george

    É um bando de loucos, jogando pesos, gritando feito seres irracionais, num lugar apertado, desapropriado para a pratica até de um esporte normal.