COMO O NEGÓCIO DEGRINGOLARIA (ou como as chances de consenso são jogadas no lixo)

  • Vamos fazer uma manifestação pacífica contra a violência contra a mulher. O objetivo será trazer o problema à tona e procurar mostrar a potenciais vítimas que elas podem contar com apoio
  • Beleza, contra a violência doméstica e estupro
  • … e violência obstétrica. Tem que constar
  • Eu não concordo: como obstetra eu me oponho a essa bandeira generalizante. Violência obstétrica é outra questão!
  • Vamos fazer assim: vocês, da violência obstétrica, levam a bandeira de vocês lá no canto ao lado. Deixem as obstetras aqui com a questão da educação reprodutiva
  • … e o foco tem que ser nas mulheres negras e lésbicas
  • Foco?
  • Assuma seus privilégios! Enquanto a dívida histórica não for paga, nós temos o protagonismo sobre quaisquer reivindicações porque o movimento tem que ser interseccional!
  • Ok, então nós vamos embora. O que? Você me convida para um negócio que me diz respeito e agora me quer de quatro? Eu, hein! Vai fazer sua manifestação aí com a sua galera porque nós, sabe como é, a gente “mancha” o seu movimento…
  • É, vai embora mesmo! Não passará o preconceito e o protagonismo da elite branca!
  • E gordofóbica! O protagonismo tem que ser da mulher gorda! A mulher magra é a agente da nossa opressão – o protagonismo é nosso!
  • Ô, peraí, eu sou negra, lésbica, mas sou nutricionista: não é nada disso! O sobrepeso é uma questão de saúde pública!
  • Opressora! Capitalista! Não passará!
  • Passo o quanto eu quiser e passo mais rápido do que você que é gorda e agente das empresas capitalistas de fast food! Quem é pro-capitalista aqui, hein?
  • Calma: as gordativistas ficam lá naquele lado e aqui ficam as profissionais da área da saúde. Está cada vez menor… várias brancas foram embora resmungando “racismo”
  • … e trans. Porque isso o feminismo até hoje foi protagonizado pela hetero-cis-normatividade. Ou invertemos isso e o protagonismo é trans, ou não nos representa e não representa A Mulher!
  • Claro que representa! Eu apoio seu movimento, mas de jeito nenhum você vai mandar nisso aqui! Eu sou negra e lésbica, mas não vou me submeter ao comando das companheiras trans!
  • Calma: ficam as trans daquele lado e vocês que estão brigando do outro, e por favor sem encrenca na manifestação
  • … anti-capitalista e anti-religiosa. Eu proponho uma intervenção contra a igreja quando a manifestação passar na frente da Matriz. Colocamos a imagem da virgem no cu da companheira aqui…
  • Como? Eu sou cristã, você me respeite!
  • Foi a Igreja que nos oprimiu esses séculos todos, essa manifestação é sim, contra ela!
  • Então simplesmente vamos embora e você enfia o seu movimento no cu, valeu?
  • … e o aborto? O aborto ilegal é violência contra a mulher, tem que ser pauta.
  • Eu sou contra: eu sou espírita e não aceito.

Isso aconteceRIA, caso as “companheiras” intereseccionais não tivessem, de fato, muito mais habilidade no exercício da violência política e dessem o tom de toda manifestação. No fim, é assim que rola: elas ganham.

 

Semântica, semântica…

 

Algumas palavras e expressões vão se descolando sozinhas de seu conteúdo original e se metaforizando aos poucos. Aconteceu com gilete, durex e Brastemp, agora substantivos que significam um tipo de lâmina descartável, uma fita gomada e, no terceiro caso, é um adjetivo para algo de qualidade.

Com a hiper-polarização política do Brasil, algumas palavras já praticamente não estão associadas a qualquer dos significados possíveis pela língua. Lembro-me de uma tese da qual fui banca onde a estudante aplicava sem muito critério os termos “positivista” e “mecanicista” para qualquer discurso que ela não gostasse. Eu contei para ela uma historinha da minha adolescência, em que o sujeito que afanasse sua lapiseira merecia o xingamento de “pequeno burguês”. O xingador não fazia a mais remota ideia sobre  o conceito marxista de pequena burguesia, que seria um tipo de resquício anacrônico pré-capitalista e 100% inaplicável à economia contemporânea. Não: “pequeno burguês” queria dizer “seu filho da puta” ou “seu sacana”. Terminada a historinha, que tinha moral, eu cobrei a definição e leitura técnica sobre o positivismo e mecanicismo. A moça não tinha. Como no Brasil tudo é festa, nós a aprovamos por unanimidade com nota 10.

As seguintes palavras e termos seguem na mesma linha:

“Conservador”. Conservar significa manter na forma como está. Seu oposto deveria ser destruir a forma como está. Seria algo como “subverter” ou mudar a versão. Conservador não é o oposto de progressista, revolucionário ou mesmo de transformador. Mas quando é empregado aqui, no Brasil, é um xingamento. Equivale ao que anos atrás era o “reacionário”, que era quem “reagia contra a transformação” (como se chegou nisso são outros 500). “Seu reacionário!” ou “Seu reaça!” era algo como “Seu filho da puta!”. Já “ele é um conservador” está mais para “ele é um escroto”.

“Liberal”. Essa eu curto muito, porque significa coisas opostas nos Estados Unidos e no Brasil. Liberal, para os norte-americanos, é o que está à esquerda no espectro político. É quem defende o intervencionismo estatal, o aumento das funções e cargos públicos e o aumento dos impostos, bem como políticas redistributivas. Do ponto de vista da Economia, como ciência, liberal é o oposto disso: é a defesa do laissez-fair, da menor intervenção estatal possível, redução de impostos, etc. Nenhum dos dois se refere à liberdade como conceito abstrato. Para isso criaram outro termo.

“Transformador” é aquilo que vai além da forma. Em tese, não há oposição com o conceito de “conservar”. Pois é impossível ir além da forma sem conservá-la em parte, já que se a mesma for destruída, trata-se de uma substituição de formas ou de realidades. Paradoxalmente, não podem existir transformadores que não sejam também conservadores. Talvez por isso não gostem muito deste termo.

“Progressista” é meio velhão, do meu tempo. Progressista era em geral aplicado em oposição a reacionário, ou seja, quem reagia ao progresso. Que progresso? Ah, só existia um progresso possível: aquele em direção a uma economia estatizada e socializada, com um Estado governado por uma ditadura do proletariado. Isso era o progresso. O resto seria? Retrocesso, talvez? Não existia conceito para nada que não fosse para frente ou para trás, assim como não existia, e não existe, nenhuma tipologia que não divida o espectro político num plano sagital.

Direita e esquerda já me cansaram. Falei demais já.

Acho que essas reflexões são interessantes para que o primeiro e imediato sub-texto de qualquer texto, que é seu lugar no universo do debate político contemporâneo, transpareça.

 

DIA INTERNACIONAL DA VALORIZAÇÃO DA CIÊNCIA (C-O-N-T-R-A o link abaixo)

Eu proponho que celebremos hoje a valorização da Ciência, como forma de resistência contra as forças do obscurantismo representadas pelas feminazi e gordativistas. Um “dia international sem dieta” é um insulto a todos os profissionais da saúde e à pesquisa médica e das áreas da saúde em geral.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Dia_Internacional_sem_Dieta

As ativistas promovem esta perniciosa perspectiva com falsos dados científicos e se alimentam das emoções mais perigosas das pessoas: desamparo, raiva, inveja, desespero e medo. Elas amalgamam e transformam tudo isso em poderoso fanatismo.

Aqui está a evidência científica de fato:

https://storify.com/m…/the-healthy-and-fat-fallacy-resources

É… e não cancelei minha assinatura daquela newslettter horrível. Ou eu sou masoquista ou uma “control freak” que precisa saber o que o inimigo pensa o tempo todo.

Eles ganharam. Só quero registrar publicamente o meu protesto.

 

Sobre a polarização

 

O Brasil acabou para mim na hora certa. Esse é o primeiro ano em que podemos considerar qualquer chance de diálogo perdida. Os que se auto-intitulam “de esquerda”, sem nem saber o quão díspares são entre si, criaram um pequeno teste de múltipla escolha que permite classificar todo mundo em “de direita” ou “de esquerda”. Eu ia dizer que voltamos para um mundo de idéias toscas. Não é verdade: há 40 anos, a não ser que se fosse muito imbecil, quase todos eram “progressistas”. Hoje não: hoje tudo é binário. Se você mencionar os dados que mostram que mais de 80% da população dos países islâmicos aprova a pena de morte a homossexuais, você é islamofóbico, portanto, de direita (a declaração universal de direitos humanos é de direita, fiquei sabendo). Se você mostra dados quanto aos 60% de morbidade e mortalidade associados ao sobrepeso e má alimentação, você é gordofóbico, portanto, de direita (a Organização Mundial de Saúde é de direita, fiquei sabendo). Se você comenta dados sobre as conseqüências econômicas negativas do intervencionismo estatal, da dependência do Estado, do excesso de impostos e taxas trabalhistas exageradas, você é de direita.

E o triste é que quase todos os meus ex-amigos e pessoas próximas que fazem isso o fazem não por convicção política, que eles não têm lá muito forte. O fazem por carência afetiva, porque é mais fácil ser amado sendo bonzinho, e é mais fácil ser bonzinho sendo emocional e irracional, curtindo vítimas e vilões em um mundo grande demais e frio demais para que entendam.