E então, o que é que existe entre um esforço máximo 100% seguro (aquele que você faz sob quaisquer circunstâncias) e o “esforço máximo absoluto” (vamos chamar assim a expressão de força de um indivíduo sob desinibição total, na linha do efeito “Hulk”)? Barreiras mentais, seqüenciais, em decrescente grau de exeqüibilidade. A primeiras barreiras, a gente vê corriqueiramente sendo superadas em campeonatos. Mas o mesmo indivíduo que uma hora supera a barreira, depois não “reproduz o efeito”.

Frustrado, Fernando perguntava: “então, qual é o mecanismo, o que está por trás da desinibição? Por que às vezes funciona, às vezes não?”.

Fernando (Canteli) é um atleta de powerlifting, dono de recordes importantes e duradouros e um investigador destes temas obscuros. Há cinco anos procura informação sobre o assunto, sem sucesso. Além disso, foi quem propiciou minha mais recente e importante quebra de barreira mental.

Eu sou especialista em informação técnica e científica. Se alguém deveria encontrar o que quer que houvesse publicado a respeito em pesquisa, seria eu: não achei. Procurei o termo que meu colega biomecânico me deu: “reserva autônoma protegida”. Nada. Fiz todas as traduções possíveis dessa expressão para o inglês. Nada. Lembrei de um livro de ficção científica chamado “Skull Session”, de Daniel Hecht, supostamente baseado em um fenômeno real muito inconclusivo às vezes chamado de hiper-dinamismo ou hiper-cinesia. Variei ainda mais meus termos de busca, incluindo: “Hysterical strength”, “Psychomotor agitation”, “Akathisia”, “Hyperkinesis” e “hyperdynamism”. Nada.

Nada? Nada de publicado. Tenho certeza que alguém sabe de tudo isso. Como muita coisa importante e potencialmente impactante, fica escondido um tempo no… exército! Então, brincando, falei para o Fernando: “ou a gente entra para o exército israelense, ou buscamos outra via, porque entender a desinibição pelo fenômeno absoluto é um beco sem saída científico”.

Como nenhum de nós dois tem intenção de ingressar no exército israelense, optamos pelo plano B. Qual seja: colecionar fatos, relatos e experiências e buscar relacioná-los com nossa prática. O argumento segue a seguinte linha:

1.       casos em que pessoas sem treinamento de força exercem um esforço máximo imprevisível são relatados (achei alguns fóruns onde pessoas falavam de um tio que levantou um trator com o filho embaixo, ou uma avó que jogou o freezer pela janela, coisas assim). Esses esforços vão de 10 a 100 vezes o que se prevê como o esforço máximo do indivíduo. Assim, o fenômeno fisiológico em si é real, embora raro. Eu não saberia dizer (e nem seria possível mensurar) qual a porcentagem de mães capazes de levantar um Palio com o filho potencialmente esmagado embaixo sob risco de explosão e incêndio. Seria o experimento mais cruel já inventado.

2.       Especula-se que esse fenômeno ocorre por uma “desinibição” – ou seja, a expressão de “força máxima absoluta” é permanentemente inibida em condições normais. Sob stress extremo, pode ou não ser desinibida.

3.       “Stress” é algo já um pouco mais bem compreendido endócrino-fisiologicamente e envolve uma cadeia de reações hormonais (veja excelente revisão bibliográfica por Charmandari et al, 2005). Do ponto de vista neural, no entanto, nem tanto. Eu diria que só parte da história está contada. Já “stress extremo” não é compreendido em humanos, e não sei como é em animais. É só uma questão de imaginar a dificuldade experimental ou de campo (coletar o sangue de pessoas chegando em pânico em emergências hospitalares sem uma perna, com o filho morto ou com um tiro no peito e ver o que rola com os hormônios? Fazer uma ressonância jogo rápido no cérebro delas? Não dá).

4.       Atletas de alto desempenho podem usar “psyching up”, técnica ou intuitivamente: se auto-estimulam (ou o técnico, ou os amigos) aumentando o nível de stress (http://www.mindtools.com/psychup.html ). Uma sensacional que li é que o nadador podia se “estimular” imaginando nadar sendo perseguido por um tubarão. Não é piada. No entanto, as evidências científicas mostram que esse tipo de “auto-motivação” é pouco eficiente no que diz respeito aos ganhos em performance (www.bodystuff.org/psychingupbibliografia.html). Mesmo assim, é o que a maioria dos atletas brasileiros e latino-americanos de powerlifting utiliza como forma de favorecer o sucesso nos levantamentos.

5.       Outros atletas de alto desempenho usam estratégias que deliberadamente afastam a emotividade (precisamente o oposto do psyching up mencionado). Muitos dos atletas de maiores marcas no mundo estão nesta categoria. Em trocas de correspondência e discussões em fóruns internacionais, o que me disseram é que o foco e a estratégia de manipular a própria percepção eram mais eficientes.

6.       Atletas de artes marciais, particularmente kung-fu, realizam tarefas que poderiam ser classificadas na categoria de alto desempenho de força. Nessas tradições, a estratégia também é oposta ao “psyching-up”. A explicação dos praticantes é de que se trata de aprender a controlar o Qi Gong (http://en.wikipedia.org/wiki/Qi ), uma forma dinâmica de uma energia sutil que faz sentido dentro do sistema cultural em questão.

 

Quão mais longe iremos com o emprego das técnicas tradicionais de psyching-up em nosso esporte (tapão, grito, rock muito alto, puxão de orelha)? Drogas: efedrina é igual a aspirina em competição de powerlifting. Serve para aumentar exatamente a resposta de stress. Quanto mais efedrina ou anfetamina funciona para aumentar marcas? E outras drogas? Um amigo fez um auto-experimento (de grande periculosidade): dissolveu hemogenin em dose muito alta em um veículo para aplicação intra-venosa, aplicou e foi treinar. O que descreveu foi uma experiência de estado alterado de consciência, semi-alucinatório. E uma força sobre-humana. Essa pessoa pode até ter feito algo muito perigoso, mas nunca repetiu porque sabe dos riscos (os médicos mais brilhantes do século XVIII e XIX muitas vezes fizeram coisas mais sem noção ainda, então não reclamem do meu amigo).

O caminho de mais e mais stress, de abrir os canais da desinibição pelo reflexo de luta, parece ser pouco interessante: se usado em dose fisiologicamente administrável, não leva a grandes resultados. Se usado pra valer, mata. Não é por acaso que é um canal protegido ao longo dos últimos milhões de anos de evolução.

Já a outra via é um enigma. Conhecemos pouco sobre estas tradições e, pelo abismo cultural, não compreendemos seus conceitos. Mas podem ter utilidade para nossos objetivos.

Então Fernando retomou a conversa do dia em que eu quebrei minha última barreira mental, a dos 80kg, com a ajuda dele. Ele me sentou numa cadeira branca (enfatizou o branco), me isolou das influências externas, não deixou que ninguém falasse comigo e repetiu comandos simples como “seu objetivo é realista”, “é um peso que você faz”. Ontem me perguntou o que se passou na minha cabeça. Eu sei: “tenho tesão por isso”. Só isso: prazer.

Então concluímos que não se trata de “pensar” na tarefa, uma concentração racional e consciente. E tampouco de fingir que não existe. Trata-se de FOCO, mas não um foco racional. Foco é não ter nada na mente exceto a experiência em si, o movimento. Talvez pelas minhas condições de imobilizada, a analogia mais próxima que me vem à mente é sexo: durante uma trepada, se você se concentrar racionalmente na intenção de ter um orgasmo (“agora quero gozar”), certamente não vai conseguir. Se, por outro lado, se distrair (digamos, uma pilha de livros mal equilibrada cai da estante e derruba o copo com água da mesinha de cabeceira), também não vai conseguir. O foco necessário ao orgasmo é estar total e completamente PRESENTE no momento – presente e no presente. Não existe mais nada, e não existe outro tempo. Um levantamento recorde é um orgasmo (acho linda a comparação, pois adoro sexo e adoro powerlifting – os dois combinam muito bem).

 

Deixando o sexo de lado, tudo isso não é muito diferente do lado escuro e o lado claro da Força: os cinco mandamentos do lado escuro da força são:

 

Peace is a lie; there is only passion.

Through passion, I gain strength.

Through strength, I gain power.

Through power, I gain victory.

Through victory, my chains are broken.

The Force shall free me.

 

A paz é uma mentira; só há paixão.

Através da paixão, ganho força.

Através da força, ganho poder.

Através do poder, ganho a vitória.

Através da vitória, minhas correntes são quebradas.

A Força me libertará.

 

Pois é, liberta sim. Mas na vida real, não dá para virar o Darth Sidius. E se desse, será que queremos?… Já o lado Jedi é kung-fu total: a força está lá para todo o universo. Libertando-se de paixões, ódios, medos, distrações, é possível empregar a força de maneira muito poderosa.

Acho que nessa eu continuo na minha linha Padawan. Vamos para nossos big benches, big squats e tudo mais, mas na paz e no foco. Tenho a impressão de que esse é o caminho mais realista (pois o outro é meio ficcional: adrenar mais do que se adrena atualmente, só com droga num nível que realmente pode ser letal), mais saudável e mais promissor. Só que vai dar um trabalhão para descobrir como chegar lá.

Não temos pressa.

 

Marilia

BodyStuff

 

 

Referências:

 

Evangelia Charmandari, Constantine Tsigos, and George Chrousos – ENDOCRINOLOGY OF THE STRESS RESPONSE, Annu. Rev. Physiol. 2005. 67:259–84.

 

Sobre “imagery” e performance:

http://www.bodystuff.org/forcamentebibliografia.html

http://coachsci.sdsu.edu/csa/vol26/table.htm

 

Sobre “psyching up”:

http://www.bodystuff.org/psychingupbibliografia.html

 

Alguns links:

 

http://www.mindtools.com/psychup.html

http://www.mindplusmuscle.com/?training_camp