Quando eu morava em Blacksburg eu tinha um circuito de corrida que saía da porta do meu bloco de apartamentos, seguia pela florestinha anexa, pegava uma estrada de terra, margeava o “duck pond” (lago dos patos), fazia uma volta numa outra mata com árvores mais altas e depois percorria todo o caminho de volta. Nunca medi a distância e eu não era uma grande corredora. Devia ter seus 9 quilômetros.

Blacksburg fica bem a oeste da Virginia, perto de Kentucky, nos Apalaches. O inverno é frio, o clima sub-ártico. Eu criei esse percurso ainda no inverno, em alguns dias não tão gelados e mais secos. Quando eu corria, meu nariz gelava e ficava anestesiado. Às vezes era pega pela neve durante a corrida. Tão leves os flocos, tão etéreos, que parecia um sonho. Mas o nariz gelava mais quando eles se derretiam na mucosa.

De repente veio a Primavera. “De repente” não é força de expressão: nas regiões temperadas, as estações mudam como se houvesse um dial cósmico que alguém muda de freqüência quando fica entediado com a anterior. Acordei para correr e o chão estava forrado de minhocas moribundas. Milhares, milhões de minhocas haviam saído da terra para morrer na superfície. Meu tênis escorregava em seus corpos esmagados. Dias depois, nem sinal delas e brotos em todas as árvores.

No duck pond, apareceram os patinhos recém-nascidos. A gente ia lá nos finais de semana jogar pão para eles. Foram aparecendo pássaros coloridos e todo tipo de vida selvagem. Preary dogs com suas cabeças engraçadas levantando por todo lado. Morcegos frugívoros, um dos quais eu cheguei a tocar.

Eu corria, observando essa paisagem bucólica, que incluía as vacas da PPL Therapeutics. A febre do ano era a ovelha Dolly, primeiro animal transgênico dessa mesma companhia. As vacas da minha paisagem tinham grandes esparadrapos vermelhos na bunda, mas pastavam como qualquer mortal.

No fim da primavera tive que viajar por um tempo e voltei no meio do verão para empacotar minhas coisas e me mudar. Minha trilha cheirava algo alcoólico e o chão era forrado de maçãs e ameixas maduras ou aprodrecidas. Os patinhos haviam partido. Os pássaros também.

A bela cachorra preta de um vizinho, minha companheira de vários meses, se aproximou, como se soubesse que era uma despedida. Abracei-a e continuei minha última corrida, sem virar as costas.

Sobrou o cheiro podre e quente de uma vida que eu deixava para trás. Correndo, ouvi a voz interna que hoje escuto tão bem: “não há mais nada para você aqui: apenas frutas podres e memórias – time to move on (hora de ir em frente)”.

 

Marilia