Esta é uma série. Será  publicada em capítulos e, em seguida, re-editada em e-book, com material adicional.

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Autora, antes que vocês perguntem: Dra. Marília Coutinho, campeã e recordista mundial de levantamento de peso básico (powerlifting), várias vezes lesionada por porra-louquice, portadora de piercings variados, conhecedora profunda de ambientes de treinamento de todos os tipos (em vários países), bióloga, bioquímica, doutora em sociologia da ciência, professora, mãe, irmã, tia, filha, amiga, ex-atleta de outras modalidades esportivas, ex-usuária de várias coisas que fazem mal e atual usuária de várias coisas que fazem bem, tais como comida e bons suplementos.

Eu ia escrever “molecada”, mas achei que vocês ficariam ofendidos. Não tem por que: quem escreve isso para vocês não é nenhum sujeito caretão sem experiência. Primeiro, por definição, eu já tive a idade de vocês. Segundo, este ambiente onde vocês estão entrando agora, eu conheço do avesso e do direito, na prática e na teoria.

O motivo de eu escrever esta série é porque vocês estão fazendo isso errado. Estão entrando no lugar errado, com a idéia errada do que ele seja, com a perspectiva errada e com expectativas erradas. Minha missão é mostrar para vocês que isso não é inócuo. Tudo tem conseqüências, ou, como dizem os americanos, “não existe almoço de graça”. O risco que vocês correm ao fazer as coisas erradas é imprevisível. Pode ser pequeno, mas pode ser grande.

O estopim foi o último e-mail do último garoto desinformado e apressado, frustrado por não ver resultados que ele nem mesmo sabe para quando e como deveria esperar. Siga a série, comente, peça mais informação e me ajude a ajudar você a não se meter em encrenca.

O que é uma “academia”?

“Academia” está entre aspas porque é um termo errado.

Segundo a Wikipédia, “Academia”  (do grego antigo Ακαδήμεια, transl. Akadémeia, derivação de Ακάδημος, transl. Akádēmos, “Academo”) é um termo que designa instituições para o ensino e promoção de atividades artísticas, literárias, científicas e físicas, sobretudo Universitárias. O nome “academia” provém da escola que o filósofo grego Platão fundou em 387 a.C. junto a um jardim a noroeste de Atenas, em terreno dedicado à deusa Atena, que segundo a tradição pertencera a uma personagem mitológica, Academo.

Temos a Academia Brasileira de Ciências, a Academia Brasileira de Letras e, em geral, dizemos que a pessoa que optou por uma vida universitária, dedicada ao ensino e à pesquisa, através da clássica seqüência do mestrado e doutorado, tem uma carreira ACADÊMICA.

Por que cargas d´água os centros de treinamento de práticas de treinamento físico, apenas no Brasil, receberam o nome de “academias”, ninguém sabe explicar.

O pior disso é a expressão que se fixou no léxico destes ambientes, “fazer academia”. Isso não significa mais ou menos nada. Apenas que o indivíduo freqüenta um destes ambientes e que alguma coisa faz lá dentro.

As academias “mainstream” (padrão, comuns, convencionais) oferecem várias atividades muito mais para entreter o praticante do que para treiná-lo: há uma variedade das “ginásticas da moda” e uma sala de “musculação”. “Musculação” é outro termo complicado, pois refere-se ao treinamento que desenvolve força (em suas diversas expressões) e hipertrofia muscular.

O que ninguém conta a vocês é que a hipertrofia muscular é um “efeito colateral” do processo fisiológico do estímulo de força. Força é a função primária a ser desenvolvida. Hipertrofia muscular, mudanças na composição corporal, perda de gordura sub-cutânea e visceral são resultados morfológicos do ganho de FORÇA.

Isso tudo faz parte do mercado de “fitness”. Você sabe o que é fitness? Fitness quer dizer APTIDÃO. É a capacidade de realizar bem alguma tarefa. É estar apto a fazer algo.

O que elas deveriam oferecer é CONDICIONAMENTO FÍSICO e TREINAMENTO DE FORÇA (e não isso não fui eu que inventei, a área tem o nome de “Strength and Conditioning” fora daqui).

Condicionamento é o processo pelo qual, através de exercícios sistematicamente planejados, adquire-se APTIDÃO para algo. Em geral para realizar bem as tarefas físicas do dia-a-dia.

Este processo de exercícios sistemáticos chama-se TREINAMENTO.

Assim, a ficha que você recebe numa “academia” é um PROGRAMA DE TREINAMENTO.

Infelizmente, poucas vezes o profissional que lhe atende sabe qualquer um destes conceitos.

 

Treino: afinal, o que é isso?

Treino, ou treinamento, é o programa de exercícios sistemáticos voltados à aquisição de APTIDÃO para algo. É você que define o que quer adquirir. Em geral, você sequer consciência tem do que quer adquirir, de modo que o profissional que lhe atende lhe dá uma mãozinha. Quase todos vocês chegam lá expressando de alguma forma o desejo por estética.

Estética, para nós, profissionais da atividade física, chama-se MODIFICAÇÃO DA COMPOSIÇÃO CORPORAL. Essas modificações podem ser obtidas até certo ponto. E só na composição. Não podemos mudar sua altura, a largura do seu quadril ou da sua distância bi-acromial (largura do seu ombro),  nada disso. Isso veio de fábrica. Aprenda a viver com isso.

Em geral, as mudanças em composição corporal podem modificar tão dramaticamente a aparência de um individuo que a mudança em si se torna uma mercadoria, uma coisa que a academia vende. E como ela vende isso? Com fotos de mulheres quase peladas, bundudas e com peitos de silicone, e homens com visual de propaganda de cueca.

Estes indivíduos não apenas são geneticamente favorecidos, como são profissionais (modelos) e altamente Photoshopados. E você, bobo, engole essa mentira.

Engolindo a mentira, você dá menos atenção à única coisa que importa no ambiente fútil e confuso onde você entrou: SEU TREINO, que está numa planilha à qual você não deu a atenção devida.

Um treino é feito dos seguintes elementos:

  1. Exercícios
  2. Ordem de execução dos mesmos
  3. Intervalos de execução
  4. Forma de execução correta
  5. Freqüência semanal
  6. Tempo para substituição do programa

Não dar atenção e executar o programa segundo estes componentes é o mesmo que não executá-lo.

Nos próximos capítulos, veremos os itens abaixo. Por que você não aproveita e comenta suas dúvidas em cada um deles?

Resultado: defina o seu

 

“Tomar coisas”: o que, quando e de que jeito

 

Aquilo que ninguém fala a si mesmo: o que você está fazendo ali?

 

Força, hipertrofia, definição e emagrecimento: está na hora de você entender o que é isso

 

Sua única arma: a INFORMAÇÃO

 

Armadilhas: fóruns com gente com Nicks esquisitos, receitas milagrosas e gente muito enturmada

 

O tempo, esse mistério

  • katia Cilene Alve de Macedo

    Gostei do seu artigo e fico na expectativa dos demais.

  • Mana Mendonça

    Adorei! Quero mais!

  • Kátia de almeida

    Adorei o artigo e me vi em tudo que vc disse. Tenho 49 anos e faço “academia” tem 2anos, com o objetivo de redução da flacidez, através da hipertrofia, pq reduzi meu peso em 42kg, e sou avessa a cirurgias, pelo menos as puramente estéticas. Vou acompanhar com muita atenção sua série e aprender tudo para usar no meu dia a dia. Beijos e parabéns!

    • É isso, Kátia, estamos aqui para ajudar!

    • Hehehe… mas Kátia, era mais para a molecada… Acho engraçado, a resposta aqui foi toda de um pessoal muito mais consciente. Não sei se fico triste ou contente com isso: eu queria atingir a gurizada que está, sim, fazendo bobagem. Mas fico feliz que você tenha curtido!

  • Armando

    Direta e reta Marília! É isso o que acontece nestes ambientes e, dos mesmos, são os alunos que geralmente me procuram já catequizados no formato deles, tendo eu que desmontar essas informações pré-estabelecidas e tomadas como verdades, o que, muitas vezes afasta-os daqui. É como eles não quisessem ouvir a verdade de verdade, entende? Porque a verdade não é tão bonita assim…poderia ser uma ideia para outro artigo…abraço!!!

  • Georgia Fernandes

    Boa tarde, Marília. A série começou muito bem. Também vou acompanhar o desenvolvimento dos demais tópicos. O próximo tópico sobre resultado, eu ainda estou definindo o meu…entenda, comecei uma mudança de vida ao mudar minha alimentação e me exercitar quase que diariamente na “academia”. Tenho conseguido resultados muitos expressivos, no entanto, minha meta atual é atingir 15% gordura. Alguns dizem ser uma meta “alta” já que o normal para as mulheres é 19%. Bem, uma coisa tenho certeza. Se ao chegar nos 19% e estiver me sentindo bem, aí será meu objetivo. Atualmente, estipulei minha meta como perder a gordura e ganhar força. Mas, ter essa noção do que se quer ao iniciar um treinamento é algo complexo e se a pessoa não tiver uma opinião bem formada, acaba embarcando em ideias erradas. Bem, é isso! Esperando pelos próximos capítulos! Abraços.

    • Não sei Georgia… eu seguiria no plano, em algum momento você vai observar se está ou não satisfeita. Não acredito em números quando se trata de composição corporal. Números são para atletas levantando peso…

  • Lilian

    Muito bacana o texto! Aguardarei o restante dos demais textos com ansiedade!
    Estou voltando novamente a fazer exercícios físicos depois de muito tempo e realmente é difícil encontrar “academias” onde os profissionais lhe dão o devido suporte no treino e panz.
    Estou fazendo pilates agora e estou gostando bastante. A professora presta bastante atenção nos alunos e em como eles estão fazendo os exercícios.

  • Carlos Sapucaia

    “…é porque vocês estão fazendo isso errado. Estão entrando no lugar errado, com a idéia errada do que ele seja, com a perspectiva errada e com expectativas erradas. […]”. Marília, PQP, quando é que você vai “parar de acertar na mosca???” risos (espero que nunca). Este texto me fez lembrar de um cliente que, certa vez, entrou na academia, de calça jeans, numa sexta-feira à noite, 15 minutos antes do estabelecimento fechar, para fazer algumas séries de exercícios para bíceps e tríceps. OBJETIVO: chegar “inchadinho” no “rolê”. AGUARDANDO ANSIOSAMENTE CENAS DO PRÓXIMO CAPÍTULO!!! Grande abraço, e, obrigado por mais um texto!

  • MARCELO NEVES

    LUZ NA MENTE DESSA MOLECADA.
    OTIMO TEXTO, AGUARDANDO OS PRÓXIMOS.
    ABS!

  • Verônica

    Adorei a intro, Marília. Vou jogar as dúvidas particularizando minha situação. Depois de muitas tentativas de fazer atividade física ao longo da vida, fui me achando nos esportes ao ar livre. Desde o volêi na adolescência até o ciclismo de longa distância e o montanhismo de hoje, essa é a minha praia. Outra característica de perfil fisio e psicológico é resistência: meu corpo-mente respondem melhor a atividades longas, em oposição às de explosão. Claro, tudo isso pensando numa perspectiva mais recreativa e não competitiva das atividades (e de bem estar psicológico, o beagle tem que fugir do apartamento para não enlouquecer, certo?)

    Onde entram as “academias”? É BEM recomendável que eu esteja bem treinada quando me meter nas empreitadas outdoor para evitar lesões articulares, sobretudo em partes mais exigidas, como joelhos. Só que nas últimas academias que eu tentei, os treinos são bem pouco focados, repetitivos. Não vi flexibilidade nenhuma de me preparar para minhas necessidades concretas. Por exemplo, uma prova de 300 km daqui a dois meses ou uma travessia de montanha daqui a 2 ou 3 semanas. Não mudava um nada na minha planilha. Mesma coisa diante de queixas como “minhas costas doem depois de pedalar 100 km, o que dá pra gente fazer?”.

    Pelo fato de eu não ser atleta, e sim uma gordinha safada com trabalho essencialmente sedentário e altamente estressante, tenho impressão que uma periodização padrão (pensada para quem foca em calendários) não é o ideal para mim. Aliás, sem ideia do que cabe na minha vida hoje para dar conta desse treino, eu sei que eu preciso para me proteger de mim mesma. =D

    Depois desse blablabla, vamos às dúvidas:

    – O quanto eu posso ser autônoma com meu treino? Como ficar livre da tirania do “profissional de Educação Física da academia” sem me enfiar em riscos desnecessários?

    – Como adaptar treinos de força para minhas necessidades específicas?

    – Dá para ser lonely rider usando equipamento da sala de ginástica do prédio com o acompanhamento de alguém competente à distância ou de forma ocasional e ser feliz?

  • Putz, Vevê, fico com medo de responder e parecer que estou fazendo propaganda da Crossfit. A questão é que para atletas como você (trato todos como atletas), que precisam de preparo em muitas capacidades funcionais distintas (e quem não precisa?), o tipo de treinamento é multi-dimensional. Você precisa de força, estabilidade, capacidade de manipular o inesperado e resistência.
    Tem como fazer um treino para isso? Claro! É o que se faz na Crossfit todos os dias.
    Dá para fazer sozinha? Dá, mas é bem mais difícil. Mas dá. Eu prometi à Jeanne e vou fazer um modelo para ela – não acredito em modelos gerais.
    O que todo mundo precisa é de força, explosão e resisistência. É o treino mais simples possível, porém mais completo….

    bjkas

  • Vitor Oliveira

    Passei e ainda passo por essa “molecada”, que acha que é suficiente para ter algum “resultado”, estar matriculado na academia e curtir blogs e paginas onde supostos autores com nicks estranhos deturpam nosso trabalho. Blogs estes que me dão coceira! Mas o principal, que é FOCO e DEDICAÇÃO aos treinos, não tem… nem mesmo frequência, não tem!
    Achei Sensacional, aguardando os outros capítulos!
    Parabéns pelo trabalho, ótimo texto!

    • Acabei de postar o terceiro, Vitor! Dê uma olhada – gostaria do seu feedback! abraços

  • Célia Alves

    Adorei o seu texto,eu como profissional tenho lutado muito contra essa futilidade que tomou conta das “academias”,procuro sempre ao avaliar um aluno,mostrar a importância de buscar a sua qualidade de vida,preparar seu corpo para seu dia-a-dia,por isso tenho feito um trabalho bem direcionado,mesmo quando não estou como personal,acho que o aluno merece mais atenção e respeito,afinal estamos lá para orienta-lo de forma correta,infelismente existem aqueles alunos que acham que já sabem malhar e não precisam da ajuda do professor,é triste mas é uma realidade. Parabéns! precisamos de pessoas como você pra nos lembrar do quanto somos importantes na vida das pessoas,afinal somos nós que cuidamos de seu bem estar e de sua saúde física e mental,pena que alguns alunos não nos vejam assim.