Durante os seis anos mais complicados da minha formação universitária, até pouco antes de defender minha tese de doutorado, freqüentei as aulas de yoga do Marcos. Eu praticava todos os dias em casa, mas mesmo assim ia nas aulas, pois sempre aprendia algo novo. E numa coisa ele sempre insistiu: seria muito difícil para nós aprender realmente a meditar. Ele era pessimista quanto às nossas chances de avançar muito nessa linha, nascidos, crescidos e habitantes que éramos de um mundo ocidental industrializado cujos estímulos não eram favoráveis às atitudes necessárias à meditação.

Eu não entendia muito o que ele queria dizer, mas ele me convencia. Me ensinou técnicas para focar a mente. Focar na própria respiração era uma delas. Outra era focar em todos os sons externos. Outra era focar numa contagem infinita. Depois de muita prática, acho que cheguei a algo como… dois minutos bem-sucedidos. Foco na respiração nunca deu certo: rapidamente o foco mudava, pois ao prestar atenção nela, minha respiração deixava de ser autônoma, então o foco era o controle da respiração E a respiração. E logo eu perdia qualquer foco e vinha o desconforto. Focar nos sons no começo funcionava. Logo começavam a aparecer categorias, pois nosso pensamento é categórico (dizia Kant e um milhão e meio de seguidores sem criatividade). “Ônibus”. “Cachorro latindo”. “Voz feminina”. “Sapato batendo no cimento”. “Voz masculina”. “Sandroval, quem tirou o banco daqui?” Será que foi o Sandroval? Por que será que o banco tinha que ficar no lugar estipulado? Quem é o Sandroval? Pronto, já era. Contagem: 1, 2, 3, 4,…. 12, putz, esqueci de pagar a conta de luz, por que não coloquei no débito automático ainda… Ok, outra vez 1, 2, 3,…. 16, nariz coçando… Já era.

Então aceitei.

Muitos anos depois disso, quando perdi totalmente todos os focos e depois adquiri novamente pelo único caminho que conheço, o do esporte, voltei a pensar no postulado do Marcos. E cheguei à conclusão de que discordo dele. E discordo porque tive, pessoalmente, experiências de imersão total em mim mesma, foco absoluto, concentração impecável, sem os recursos que ele me sugeria na época. Então me parece que temos sim, acesso a caminhos em direção à INTEGRAÇÃO – essa re-ligação de nós com nós mesmos – que algumas pessoas defendem ser restritos às práticas orientais. Não: temos recursos poderosos à mão, só não ensinaram a todos como usar.

O que eu desenvolvi e descobri um enorme grupo de pessoas que chegou no mesmo lugar, é o esporte. Eu sou basista (powerlifter) e já descrevi a experiência de concentração e foco que o momento de executar um único movimento de força máxima representa. É transcendente. Naquele exato momento, que deve demorar frações de segundo, o tempo para. E naquele momento parado tem-se uma experiência de integração com o “tudo”. Eu pelo menos freqüentemente tenho. Sem droga!

Mas existe uma experiência integrativa que está relacionada a uma outra expressão do movimento humano. São os movimentos com ritmo e deslocamento. E a mais intensa das experiências integrativas que já tive nessa linha foi nadando.

Eu aprendi a nadar no mar, no mar de Juquehy. Mas desenvolvi minhas habilidades em piscinas semi-olímpicas. Nunca fui uma grande nadadora. Não foi um esporte em que competi ou ganhei títulos. Apenas nadei como treinamento complementar e, mais recentemente, como forma de meditação.

Procurei referências bibliográficas que pudessem me dar alguma dica sobre as vantagens relativas da natação sobre outras formas de movimento no que diz respeito a este efeito. Seria o fato de promover isolamento? Ou, seu oposto, através da imersão na água esse componente universal da vida, um certo sentido de união com um todo maior? Como se o corpo, ou nós mesmos, e o mundo, não estivéssemos mais separados? Seria a ritmicidade do deslocamento, a cadência? Não sei – não encontrei outras reflexões. Encontrei, sim, outros depoimentos, que comparam a natação diária a uma experiência espiritual.

Sobre isso não sei. Nem sei que dimensão é essa – ainda estou em busca dela. Mas sei que nadando, “algo” diferente se manifesta.

Alguém poderia argumentar que isso valeria para sessões monótonas e homogêneas, em que o nadador escolhe um estilo, uma velocidade e a mantém por uma certa quantidade (grande) de tempo. Esse ritmo e monotonia proporcionariam as condições para a experiência meditativa.

Eu pessoalmente acho que vai bem mais longe. Tiros provocam um tipo de experiência de foco. Treinos complexos, com vários componentes de estilo e variações de respiração, outro.

Atletas em geral têm um apego a protocolos. Protocolos são rituais. Cada um tem sua ficha – pode ser em papel, pode ser digital (a minha fica no meu palm-top), pode ser na cabeça. Mas cada um tem um protocolo que segue, e talvez a execução deste ritual seja parte da resposta.

Ainda assim, há algo que só o movimento do corpo se deslocando na água provoca. É um mergulho numa outra dimensão, uma chance, que se renova a cada dia ao nadador, de emergir dela renovado, re-integrado e, talvez, portanto, num mundo melhor.

Não tenho respostas – ninguém tem ainda.

 

Marilia

 

BodyStuff

  • Anônimo

    taurina que sou, dona de quatro patas, não meu dou bem com água. já tentei aprender a nadar diversas vezes e no máximo consegui não passar vexame em piscina com água rasa. no mais morreria afogada com certeza.
    sobre a meditação, acho que podemos incluir no “ritual” a corrida, como uma forma de meditação, de conexão com o interior, com algo de espiritual ou transcendente. vc pode explicar isso bem melhor que eu, por seus anos tantos de treinos e baratos de corridas longas. adoraria um texto seu trazendo históricos e histórias da marilia corredora. como começou, os primeiros treinos, quanto aguentava, a evolução, os prazeres, as inevitáveis lesões, os melhores e os piores lugares em que correu e o quanto a corrida faz parte da sua vida.
    apesar de meu pai ser um corredor nato e fazer isso há mais de 40 anos ritualisticamente, foi vc quem detonou o meu gatilho da corrida e isso num foco paralelo porque a proposta estava centrada nos exercícios de força.
    correr, hoje, pra mim é um ritual ligado à magia do parque, do ar, do respirar, do desligar minha cabeça e ligar meus músculos, minha resistência. correr é como rezar. vou desfiando contas mágicas, de um rosário imaginário, pelas voltas que dou no parque. cada passo uma oração e uma conexão com o que pode haver de sagrado em mim mesma, no meu corpo, na minha força, no meu suor. a cada final de treino, um ganho, um presente, uma conquista de algo que pode ser melhor em mim e que só depende de mim. um deus solitário. algo da grande deusa baixando e dando asas aos meus pés.
    aguardo seu texto. bj, anacardilho

    • asas nos pés… hermes/mercúrio… essas jornalistas…

      😉

  • Ou a dança…

    Talvez (e só talvez, por não ter elementos a favor ou contra do que eu vou dizer)o movimento seja mais adequado para pôr ordem nas nossas mentes. Talvez, como ocidentais (?), tenhamos necessidade de ocupar nossos sentidos com símbolos convergentes para que nossa mente focada. Talvez sejamos mais ritualistas do que os orientais (tem coisa mais clean do que o budismo zen?).

    bjs