Há alguns dias, um colega me pediu que desse os URLs de meus blogs ou permitisse que ele contasse minha história de ter conseguido, “A DESPEITO” (com maiúsculas no texto dele) da minha desordem, ser “atleta premiada, boa mãe, cientista com publicações internacionais” e não me lembro mais o que. Não importa: um caso exemplar de sucesso. Me senti instantaneamente desconfortável. Primeiro porque não é verdade. Seria pinçar, numa história de vida complexa, meia-dúzia de itens construídos, na cabeça dele, como sucessos. Ainda assim, pinçados, seriam questionáveis. Não sou uma “atleta premiada” hoje. Depois de sê-lo, sim, aos 14 anos (e portanto fora do contexto da presente “luta” contra a desordem mental), participei de corridas de rua, obtendo colocações razoáveis, mas nunca de elite; e, agora, participei de um único campeonato brasileiro de supino, no qual de fato me saí bem. Isso não faz de mim uma atleta premiada – uma mulher forte, uma boa genética…. vá lá. Boa mãe? Será mesmo? Alguém sabe o que a Mel passou por conta dos meus altos e baixos? A única pessoa que tem alguma autoridade para dizer se sou ou não boa mãe é a Mel e sei que ela é suficientemente profunda e crítica para não dizer uma besteira dessas. Eu ia dizer que sou a melhor mãe que esta Marilia poderia ser, mas nem sei: muitas vezes acho que pisei na bola podendo não ter pisado. Fazer o que?

Publicações internacionais? Apenas cumpri rituais acadêmicos. Honestamente, acho 99% das “publicações internacionais” um porre para ler por conta dos formalismos e picuinhas editoriais que marcam este estilo de escrita. Poucos autores têm o talento e criatividade necessários para produzir textos interessantes, instigantes e ao mesmo tempo bons de ler. Eu tentei e acho que várias vezes tornei meu texto mais chato, óbvio e desarticulado para satisfazer pareceristas e suas vaidades.

Tenho muito mais orgulho dos leitores dos meus blogs, muitíssimo mais numerosos do que a meia dúzia que obrigatoriamente leu minhas publicações internacionais para poder citar.

Isso é só para dizer que o conteúdo, em si, deste caso exemplar em particular é falso e que poderia ter sido construído de forma oposta: um grande fracasso. Uma mulher que, aos 43 anos, acumula desastres amorosos, sozinha e avessa a envolvimentos, financeiramente um caos, sem emprego estável (inegavelmente um valor para muita gente), empresária incompetente.

Afinal: caso de sucesso ou de fracasso? Nenhum dos dois, obvio. Porque a vida não é em preto e branco. Sucessos e fracassos são apenas julgamentos de elementos fora de contexto. O meu único sucesso que importa para qualquer outro ser humano interessado em administrar sua desordem mental é o de ter permanecido viva e de, recentemente, depois de libertada da psiquiatria farmacologicamente mono-maníaca, feliz também.

Mas meu desconforto com o pedido do colega ia mais longe. Ainda que eu tivesse publicado 200 interessantíssimos trabalhos internacionais, 20 livros best-sellers, criado meia-dúzia de filhos perfeitos e enchido o cu de grana, dizê-lo desta forma não ajuda ninguém. Pelo contrário, atrapalha.

Quem sofre de desordem mental pra valer raramente vai muito longe nestes caminhos da educação formal ou das realizações profissionais. Muitas vezes não têm filhos e, quando os tem, nunca estiveram bem o suficiente para lhes dar a devida atenção ou curti-los. Culpa se empilha sobre dor. Por conta do inevitável tratamento medicamentoso, perdem a vida sexual, o vigor, a forma física e a beleza. Freqüentemente chegam aos 40 ou 50 como verdadeiros farrapos humanos. Que bem vai lhes fazer ser confrontados com um (falso) herói que só tem a exibir conquistas e sucessos? Conquistas atrás das quais não podem mais ir?

Heróis desse tipo só fazem mal – muito mal. E eu não quis me prestar a esse papel.

Finalmente, tem um último elemento dessa solicitação de heroísmo que me incomodou. Foi a de apontar, através do caso exemplar, um caminho para o sucesso na guerra contra a desordem mental. Muita, mas muita gente mesmo, me procura para montar programas de atividade física nessa expectativa de que seria “a saída”. E se espantam quando eu digo que não é. É uma das saídas. Foi a minha saída. Hoje acumulei evidências de que outras pessoas usam inconsciente ou instintivamente estratégias semelhantes para se integrar. Mas a questão não é a atividade física em si, e sim a integração. Como cada um conquista isso, é imprevisível. Não tenho dúvidas de que por baixo de monges sensacionais existem loucos como eu, que acharam este caminho. Acho que a única “moral da história” da minha história é a da esperança de que exista um caminho qualquer, ainda que misterioso, para além das fronteiras da necromancia farmacológica e do desespero silencioso da loucura socialmente aceita. Não existem heróis. Existem pessoas e suas histórias.

 

Marilia

 

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