“Efeito placebo” é o nome do fenômeno que ocorre quando indivíduos aos quais se administra uma substância inerte, mas que eles crêem ser um medicamento, exibem os efeitos terapêuticos de cura ou melhoria da condição patológica. Recentemente, esse fenômeno foi estudo do ponto de vista de seus determinantes cognitivos, emocionais e biológicos. Rajagopal, num artigo especial do Psychiatric Bulletin (Rajagopal 2006), fez uma revisão das várias hipóteses que resultaram destes estudos. Uma delas nega que haja um “efeito” placebo propriamente dito. Ainda que a taxa observada para o fenômeno em inúmeros estudos seja de cerca de 30% de respostas e que difira de forma estatisticamente relevante do grupo controle sem tratamento, alguns estudiosos sugerem que o efeito seja apenas o de remissão espontânea da doença. A segunda hipótese é a do condicionamento clássico, pavloviano: pessoas previamente tratadas com medicamentos para uma determinada condição se condicionaram a responder a “tratamento”, seja ele qual for. A terceira, mais abrangente, inclui outros fatores psicológicos derivados da relação médico-paciente, contexto institucional, cor e tamanho do placebo, etc. Um estudo de 1998 (Riet et al.) sugeriu que o efeito de analgesia observado com placebo pode ser atribuído a endorfinas, e estudos mais recente exploram o papel de outras substâncias mediadoras.

Exceto pela hipótese de que o fenômeno não exista (que, embora tenha sido proposta num estudo com análise quantitativa, pesa pouco diante do volume de outros estudos quantitativos que demonstram sua existência), as demais estão inter-relacionadas. Seja qual for o motivador – se um condicionamento, motivação ou outro fenômeno qualquer – ele tem um componente comum: a crença de que o que está sendo administrado tem o potencial de curar ou aliviar a condição. Essa crença (derivada de condicionamentos, ou seja, processos cognitivos do tipo “tratamentos funcionam”, “pílulas coloridas são eficientes”, “coisas feitas em hospitais melhoram os desconfortos”, etc.) gera o que quer que seja a resposta biológica que, em última instância, gera a cura.

Naturalmente, o fenômeno do placebo é pouco estudado. Numa sociedade onde um dos mais relevantes setores geradores de inovações, lucro e movimento na atividade financeira do mundo é a indústria farmacêutica, nada que desvie desta “rota tecnológica” da intervenção farmacológica será estimulado, na melhor das hipóteses, e, na pior, será abertamente inibido.

Mas o fenômeno não só existe, como expõe de forma incontestável o potencial das “ferramentas mentais” (mindtools), formas de intervenção sobre as ações e reações físicas e mentais das pessoas baseadas em estímulos gerados inteiramente no âmbito cognitivo. O efeito placebo é um “deceit” – um engodo, uma farsa: o paciente é convencido de uma mentira. Até hoje, o foco da questão do placebo esteve na mentira e portanto no chamado poder de “auto-sugestão”. E se mudássemos o foco e enfatizássemos o elemento “convencimento”?

A questão muda caleidoscopicamente. Independente de onde veio a “certeza”, o que importa é que ela seja imprimida no funcionamento mental da pessoa. Como sabemos que qualquer que seja sua origem, tem poder, então automaticamente identificamos a ferramenta real de intervenção: gerar uma crença.

Essa certeza nos leva a um outro conceito, derivado da filosofia, epistemologia, neuro-linguística e também de correntes esotéricas, chamado “meta-crença” (meta-belief). A meta-crença, também chamada por alguns de “pirataria de paradigma” ou “meta-programação” consiste em adotar e descartar livremente crenças e visões de mundo arbitraria e deliberadamente. Esse conceito tem uma aplicação prática imediata, explorada por alguns: se crenças podem ser adotadas, imprimidas na mente, forçadas a operar e podem ser logo em seguida descartadas, o emprego do potencial endógeno de cura, produção de idéias, substâncias químicas e de capacidades funcionais variadas está pronto para utilização.

Todas elas são relevantes, mas a que me diz respeito de forma mais imediata aqui é a possibilidade de desinibir as barreiras mentais para performance esportiva através destes mecanismos.

Não requer religião, fidelidade a nenhuma escola de pensamento e nem o uso de drogas. Requer apenas que se acredite que acreditar é um poder de maior magnitude do que todas estas coisas juntas.

 

Marilia

BodyStuff

 

 

Referências bibliográficas:

 

Jan Rajagopal, S. (2006). “The placebo effect”. Psychiatric Bulletin, 30, 185-188.

 

RIET, G.T., De CRAEN, A. J., De BOER, A., et al (1998) “Is placebo analgesia mediated by endogenousopioids? A systematic review.” Pain, 76,273-275

 

The Epistemic Basing Relation

 

Placebo

 

Paradigm Piracy